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Jardim das Delícias



Quinta-feira, 05.02.15

Um testemunho de vida - Alexandre Quintanilha (cientista) e Richard Zimler (escritor)

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Alexandre Quintanilha (cientista) e Richard Zimler (escritor)  Um testemunho de vida

 

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Porto Olhos nos Olhos, 3 de Fevereiro de 2015

 

AQ: Os primeiros 16 anos da minha vida foram em Maputo. Moçambique era muito longe e o Salazar não estava tão preocupado em limpar a cabeça das pessoas lá como estava noutros sítios. Talvez por isso, tive professores extraordinários. Depois estive nove anos na África do Sul, a fazer a licenciatura em Física Teórica. Quando acabei o doutoramento, fui directamente para os Estados Unidos. Estávamos em 72. As minhas irmãs, ambas mais velhas uns vinte anos, estavam em Portugal. Eu comecei a vir cá também. A primeira reunião a que vim, deve ter sido em 75, foi organizada por Carvalho Guerra, que era director da Católica. Nessa altura conheci o Corino de Andrade, o homem que descobriu a doença dos pezinhos. Ele andava à procura de uma pessoa para fazer uma equipa. A partir dessa altura comecei a vir cá dar uma semana de aulas, às vezes um mês. Já mais tarde, depois de conhecer o Zimler, vínhamos os dois quase todos os anos. Passar uma semana, duas, quatro. Portanto, aos poucos, começámos a penetrar no meio do Porto e a sentir-nos muito confortáveis aqui. As pessoas ainda iam a casa umas das outra à noite passar o serão. Para nós foi uma espécie de segunda família. Claro que o Porto era o terceiro mundo nessa época. Nós tínhamos medo de ir às casas de banho nos restaurantes, as manivelas estavam um nojo, o chão cheio de beatas. Havia uma meia dúzia de sítios super chiques onde não se via isso, mas a maioria não. Era um sítio muito medieval. Mas na área da baía de São Francisco, onde morávamos, as coisas estavam más. A partir do início dos anos 80, essa zona começa a ser muito afectada pela Sida. E portanto, em 85, por exemplo, era impossível estar num almoço onde não houvesse sempre alguém que tivesse uma outra pessoa na família ou no grupo de amigos com o HIV. Nos anos 80 era uma pena de morte, não havia qualquer tratamento. São Francisco, a cidade da libertação e de descoberta, começou a tornar-se deprimente. Era permanente. Todas as semanas sabíamos que havia mais uma pessoa que estava infectada. E não eram só gays. Em 89, o irmão do Zimler morre com a doença. Foi muito traumático. Eu não tive essa experiência, mas tive uma análoga. Em dois dias diferentes da mesma semana, vêm dois jovens do centro que estava a dirigir falar comigo para me dizer que têm Sida. Ela uma jovem australiana, ele um jovem de Boston. Ambos extraordinários, a nata da nata. Chegam ali para me dizer que iam ter mais seis meses de vida. Começámos ambos a sentir-nos afogados na área da baía. Não eram só os outros. Estava a aproximar-se muito. A morte pairava sobre nós. Eu costumo dizer que tivemos muita sorte em nos termos conhecido em 78. Se não tivesse acontecido podíamos perfeitamente não estar cá hoje. Esta sensação tornou-se de tal forma forte que precisámos de sair. E como havia este convite repetido todos os anos do Corino de Andrade...Foi uma decisão de um mês para o outro. Vínhamos por dois anos. Íamos perceber se era possível adaptar-nos. Foi muito duro. Sobretudo para ele. Eu ainda falava português, ele não.
RZ: Eu ia arranhando… Como vínhamos todos os anos, sabia como pedir um chá e coisas desse género. Mas não falava português. Vim dar aulas para a Escola Superior de Jornalismo e o Salvato Trigo, que era o director, tinha-me dito que podia dar as aulas em inglês. Eu estava nervoso porque nunca tinha dado aulas e ia fazê-lo num país estrangeiro... Mas preparei-me bem durante o Verão e acalmei. Quando cheguei ao primeiro dia de aulas, percebi que o nível de inglês dos alunos era miserável. Estávamos no início dos anos 90. Percebi logo que ia ter de mudar para uma mixórdia de inglês e português. Então aprendi dez verbos — só no presente, claro — e cinquenta substantivos muito rápido. E assim me desenrasquei. Aprendi sozinho, mas com ajuda do Alex.
AQ: Não foi muita a ajuda. A dificuldade maior foi mesmo passar de uma área como a baía de São Francisco ¬— super evoluída, uma comunidade com muito pouca discriminação — para o Porto. Foi como sair do século XXII e chegar ao XVI.

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 05.02.15

A Alemanha apanhada na sua armadilha - Jacques Sapir

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Jacques Sapir  A Alemanha apanhada na sua armadilha

 

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Inteligência Económica, 2 de Fevereiro de 2015

Jacques Sapir analisa a vitória do Syrisa e mostra como com esta decisão política os gregos enfiaram a Alemanha na sua própria armadilha. Como aqui se tinha escrito na noite histórica da limpa vitória eleitoral de Tsipras, a Alemanha perdeu a sua segunda guerra na Grécia, a outra tinha sido em 1944… Escreve Jacques Sapir:

 

“On commence seulement aujourd’hui à bien mesurer ce que la victoire de SYRIZA peut signifier pour le zone Euro. En réalité, cette victoire met l’Allemagne au pied du mur et fait éclater son double langage quant à la zone Euro. Privée de marges de manœuvres néanmoins, l’Allemagne peut réagir violemment et provoquer, indirectement, la dissolution de la zone, même si elle en est la principale bénéficiaire aujourd’hui…”

Pour comprendre cela, il faut rappeler ici quelques points.

La victoire de Syriza

La victoire, véritablement historique, de SYRIZA en Grèce a propulsé son chef, le charismatique Alexis Tsipras sous le feu des projecteurs. Il convient de rappeler que ce parti est en réalité une alliance regroupant des anciens gauchistes, des anciens communistes, des écologistes, et des anciens socialistes. Ce qui a fait le ciment de cette improbable alliance, et qui explique son succès, avec plus de 36% des suffrages exprimés, est en réalité bien plus profond, mais aussi plus complexe, que la “question sociale”. Non que cette dernière ne soit importante, voire tragique. On comprend le refus d’une austérité meurtrière qui ravage la population grecque depuis 2010. Mais il y a aussi la question de la souveraineté nationale. Le refus de la soumission aux injonctions de Bruxelles et de la commission européenne, qui s’est exprimé dès le lendemain de l’élection, est une dimension très importante de la victoire de SYRIZA. La question sociale, sur laquelle se focalisent les commentateurs français, pour importante qu’elle soit, n’explique pas tout. En réalité, SYRIZA s’est engagé dans un combat pour le souveraineté du peuple grec contre les bureaucrates de Bruxelles et de Francfort, siège de la Banque Centrale Européenne. La victoire de SYRIZA annonce peut-être celle de PODEMOS en Espagne au début de cet automne. Et, tout comme dans SYRIZA, la composante souverainiste est loin d’être négligeable dans PODEMOS, ou encore dans le parti irlandais qui briguera lui-aussi la victoire au début de 2016, le SIN FEINN.

Au-delà du symbole, il y a des actes. Et les premiers actes de Tsipras ont été des signaux très forts envoyés aux autorités de Bruxelles. Tout d’abord, il a constitué son gouvernement en passant une alliance avec le parti des “Grecs Indépendants”  ou AN.EL. Beaucoup considèrent que c’est une alliance hors nature de l’extrême-gauche avec la droite. Mais ce jugement reflète justement leur incompréhension du combat de SYRIZA et sa réduction à la seule question sociale. Ce qui justifie l’alliance entre SYRIZA et les « Grecs Indépendants », c’est justement le combat pour la souveraineté de la Grèce. Tsipras, dès son premier discours, a parlé de l’indépendance retrouvée de son pays face à une Union Européenne décrite ouvertement comme un oppresseur. Le deuxième acte fort du nouveau gouvernement, qui n’a eu aucun écho dans la presse française mais qui est fondamental, a été de se désolidariser justement de la déclaration de l’UE sur l’Ukraine. Une nouvelle fois, comme on pouvait s’y attendre, l’UE condamnait la Russie. Tsipras a dit, haut et fort, que la Grèce n’approuvait pas cette déclaration, ni sur le fond ni dans sa forme. Or, ce point va devenir de plus en plus important.

La politique de l’Union Européenne concernant les affaires internationales est une politique intergouvernementale. Cela implique que les décisions soient prises à l’unanimité1. Le nouveau gouvernement grec reproche donc à l’UE cette décision car elle a été prise sans respecter les procédures internes à l’UE2. Il est désormais clair que l’UE ne pourra plus se comporter comme avant en ce qui concerne tant la Russie que l’Ukraine. Le troisième acte a été la décision du gouvernement, annoncée par le nouveau ministre des Finances M. Varoufakis, de suspendre immédiatement la privatisation du port du Pirée. Cette décision signifie la fin de la mise à l’encan de la Grèce au profit de l’étranger. Ici encore, on retrouve la nécessité d’affirmer la souveraineté de la Grèce. Mais, cette décision est aussi un coup très dur porté aux diverses compagnies qui s’étaient attablées devant ce marché.

Le dilemme allemande

Il faut alors chercher à comprendre la position de l’Allemagne. La déclaration du Ministre de l’Économie, M. Sygmar Gabriel est à cet égard éclairante. Il a ainsi déclaré qu’”il faut que soit respecté un principe de justice à l’égard de notre population3. Il a souligné que ce fameux « principe de justice » devait s’appliquer à l’égard “des gens en Allemagne et en Europe (…) qui se sont montrés solidaires” [des Grecs]. En réalité, ces aides sont allées majoritairement aux banques européennes qui avaient acheté une grande part de la dette grecque. Il n’y a pas eu de « solidarité » avec le peuple grec, mais un principe bien compris de socialisation des pertes. Néanmoins, il faut s’interroger sur le pourquoi de cette déclaration.

L’Allemagne ne veut pas que la zone Euro se transforme en une “union de transferts”. C’est une constante depuis le début des négociations sur la zone Euro. On peut le comprendre, d’ailleurs, car si les principes d’un réel “fédéralisme” étaient appliqués (comme ils le sont à l’intérieur d’un État comme la France) l’Allemagne, “région” riche de la zone Euro, devrait contribuer à hauteur de 8-9% de son PIB par an sur une période d’au moins dix ans. On peut considérer que ceci aboutirait à casser les reins à l’économie allemande. Mais l’Allemagne veut – par contre – les avantages de la monnaie unique, et d’un taux de change inchangé avec ses pays “clients”. C’est ici que le bat blesse. En effet, soit l’Allemagne accepte une nouvelle – et très importante – restructuration de la dette grecque (ou un moratoire) et elle sera immédiatement saisie de demandes analogues par des pays comme le Portugal, l’Irlande, l’Espagne et l’Italie. Soit l’Allemagne adopte une position “dure”, en l’enrobant de pleurnicheries obscènes comme celles de Sygmar Gabriel (et en oubliant toutes les restructurations de la dette allemande qui ont eu lieu au XXème siècle) et provoque un affrontement avec la Grèce. Mais alors, le risque est important de voir la Grèce quitter l’Euro, et un processus de contagion se mettre en place.

De fait, et quoi que fasse l’Allemagne, elle sera confrontée à ce processus de contagion, soit à l’intérieur de l’Euro (et avec une pression de plus en forte pour voir augmenter sa contribution) ou à l’extérieur, avec une dislocation probable de la zone Euro. L’Allemagne a encore le choix, mais c’est un choix entre deux maux. Et l’on peut penser que, dans ce cas, elle choisira ce qui pour elle, ou plus précisément pour ses dirigeants, apparaîtra comme le moindre : la rupture de la zone Euro. Mais l’Allemagne ne peut pas, pour des raisons historiques, porter la responsabilité d’une destruction de cette zone. Elle devra, à tout prix, la faire porter aux Grecs, quitte a déployer des trésors de mauvaise foi.

Quoi qu’il en soit, l’avenir s’annonce sombre pour l’Allemagne qui se rend compte aujourd’hui qu’elle est dans un piège, ce piège même où elle avait cru enfermer les autres pays. Quelle que soit l’issue qu’elle choisira, l’Europe, qui est aujourd’hui une forme de propriété allemande, sortira affaiblie. Mais cet affaiblissement tire en réalité son origine du fait que l’Allemagne a sciemment pratiqué une politique de “cavalier solitaire” tout en prétendant adhérer à des mécanismes fédéraux. Le double langage se paye toujours, et dans ce cas il se payera à un prix particulièrement élevé.

Une anticipation par le BCE ?

Il faut alors revenir sur la conférence de Mario Draghi du jeudi 22 janvier. On a déjà signalé l’importance de la limitation à 20% de la garantie de la BCE sur les nouveaux achats de titres. Mais on peut se demander si, en réalité, Mario Draghi n’a pas anticipé la situation à venir, et une probable décomposition de la zone Euro. On peut lire sa politique, et ses déclarations comme le choix suivant : pas de mutualisation des dettes s’il n’y a pas de mutualisation économique (et en particulier budgétaire). Cette position est très sensée. La mutualisation des dettes n’aurait effectivement de sens que si l’on aboutissait rapidement à un système de mutualisation économique, et budgétaire. Or, Mario Draghi n’est pas sans savoir que l’Allemagne est fortement opposée à une telle mutualisation. Aussi est-il en train d’organiser le fractionnement monétaire du marché des dettes, et donc la renationalisation de ces dernières. Ceci pourrait bien être la dernière étape avant la dissolution de la zone Euro.

Mais, pour qu’il y ait une dissolution “organisée”, il faudrait que l’Allemagne reconnaisse le dilemme dans lequel sa propre politique l’a plongée. Il est très peu probable que les dirigeants allemands, qui ont tous – que ce soit la CDU-CSU ou la SPD – été connivents à cette politique, l’acceptent. Disons le tout de suite, c’est très peu probable. Le cheminement auquel nous devons nous attendre est donc celui d’une montée de l’affrontement avec la Grèce conduisant cette dernière à faire défaut sur sa dette et à se faire “expulser” de la zone Euro, non pas dans les formes (car rien ne permet de le faire) mais dans les faits. La BCE coupera l’alimentation de la Banque Centrale grecque et décidera que les “euros” émis en Grèce ne peuvent plus circuler dans le reste de la zone Euro. Notons que des mécanismes de ce type ont été en leur temps employés, pour une durée certes très courte, sur Chypre.

Il est aussi clair que le gouvernement grec se prépare à ce type de scénario. Il va réaliser un budget en équilibre strict, moyennant bien entendu l’affectation des dépenses prévues sur les intérêt de la dette à d’autres dépenses. Mais, si cette politique fait sens pour la Grèce, elle ne le fait nullement pour la zone Euro, qui devra alors affronter une crise de défiance massive, et une contagion rapide sur d’autres pays. Ce sera le scénario de “dislocation” de la zone Euro.

Il serait important que notre personnel politique commence à s’y préparer. Mais l’on peut craindre que, vivant dans une bulle et pratiquant une forme particulière d’autisme politique, il ne voit rien venir et soit confronté à la réalité de manière très brutale.

Jacques Sapir

Notes

1.Gaspers Jan, « The Quest for European Foreign Policy Consistency and the Treaty of Lisbon », in Humanitas, Journal of European Studies, Vol. 2, No. 1, 2008.

2.Voir le blog du Ministre des Finances M. Yanis Varoufakis :

http://yanisvaroufakis.eu/2015/01/29/a-question-of-respect-or-lack-thereof/

3.http://www.boursorama.com/actualites/berlin-la-grece-doit-etre-juste-envers-ceux-qui-l-ont-aidee-0ff393fe5dc32ad1f58ad5d344e137e6

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 04.02.15

Falta de respeito pelos profissionais de saúde e falsa segurança e custos acrescidos para os cidadãos

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Despacho n.º 1057/2015

Falta de respeito pelos profissionais de saúde e falsa segurança e custos acrescidos para os cidadãos

 

O Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos (CRNOM) foi mais uma vez surpreendido com a publicação em Diário da República de uma nova legislação (Despacho n.º 1057/2015) que estabelece disposições no âmbito do Sistema de Triagem de Manchester (MTS).

Apesar de tudo ser esperado de um Ministério da Saúde que apenas se preocupa com números e não com os doentes, não deixamos de ficar surpreendidos com a publicação deste despacho. Sobretudo quando o mesmo mereceu um parecer negativo e devidamente fundamentado da Ordem dos Médicos (http://goo.gl/CRPZXY), em devido tempo comunicado ao secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde.

Este despacho estabelece que "na sequência da aplicação dos fluxogramas previstos no sistema de triagem, pode ser considerada a solicitação, pelo enfermeiro da triagem, de meios complementares de diagnóstico, mediante algoritmo autorizado pela direção clínica da unidade de saúde e sustentado em Norma de Orientação Clínica (NOC) elaborada pela Direcção Geral de Saúde, a exemplo do que acontece nas vias verdes já existentes".

O MST utilizado nos serviços de urgência (SU) não é mais do que o cumprimento de um protocolo de prioridades, com base num protocolo pré-definido, em que um enfermeiro, e não um médico, afere quais são os doentes que devem ter maior prioridade no atendimento no serviço de urgência. Toda esta definição de prioridades é feita sem avaliação do estado clínico do doente através de história clínica e exame físico, mas apenas em função das respostas a um guião de questões pré-definidas.

A implementação das novas medidas no Sistema de Triagem de Manchester (MST) constitui um disparate, uma anormalidade e uma violação clara dos direitos dos doentes. Senão vejamos:

  1. Todos os doentes que recorrem ao SU de um hospital têm direito a ser observados por um médico e o mais rapidamente possível de acordo com o grau de prioridade determinado;
  2. Perante os caso conhecidos de doentes que infelizmente faleceram enquanto esperavam a sua vez para serem observados, a sociedade civil, como um todo, esperava que rapidamente o Ministro da Saúde determinasse de imediato uma auditoria externa ao MST para avaliar a necessidade urgente de o alterar (o que até ao momento ainda não aconteceu);
  3. Introduzir uma complexidade adicional no MST através de normas de orientação clínica adoptadas por enfermeiros, não só atrasa todo o processo de triagem dos doentes como contraria a essência da medicina baseada nas boas práticas, normalizando aquilo que não deve ser normalizado;
  4. A competência da decisão de prescrever meios complementares de diagnóstico insere-se no conceito de acto médico que implica responsabilidade disciplinar, civil e penal;
  5. Obrigar os enfermeiros a assumir uma responsabilidade acrescida não remunerada, ainda que baseada em protocolos, é explorar o seu valioso e importante trabalho e violar as suas competências próprias;
  6. Obrigar os doentes a aceitar uma “medicina normalizada” em que protocolos, sem nome e sem cédula profissional, decidem que meios complementares de diagnóstico irão ter que realizar é um atentado aos seus direitos e à sua própria dignidade Constitucionalmente consagrada;
  7. Obrigar os médicos a aceitar uma “medicina normalizada”, desumanizada e “industrial” é ferir a sua dignidade enquanto seres humanos que desenvolveram conhecimentos e competências próprias que lhes permitem tomar decisões clínicas e assumir as respectivas responsabilidades;
  8. A ausência de legislação específica sobre o Acto Médico é uma inconstitucionalidade que o poder político persiste em manter, colocando seriamente em risco a saúde dos doentes;
  9. A norma que o Ministério da Saúde agora introduz, mesmo que a título de participação voluntária das unidades de Saúde, contribui para criar a ilusão de um mais rápido atendimento e uma falsa sensação de segurança, que em nada vai acelerar a observação por um médico. No limite, esta medida irá contribuir para um desnecessário aumento da despesa do Serviço Nacional de Saúde, com a realização de exames de diagnóstico desnecessários.
  10. O Sistema de Triagem de Manchester (MTS) não é um sistema similar às "vias verdes", como a Via Verde do Acidente Vascular Cerebral. MTS e “vias verdes” são protocolos completamente distintos, quer na sua essência quer na sua aplicação prática. Nas “vias verdes” a prioridade já está definida à partida e os doentes são rapidamente observados e tratados por médicos. O MTS é apenas uma triagem de prioridades. Não está preparado nem validado para mais nada!
  11. Como sistema geral de atribuição de prioridades no atendimento de doentes, o MTS revelou já as suas insuficiências, quer no que toca à deficiência do sistema em resolver o verdadeiro problema das urgências, o da insuficiência de meios e em especial de profissionais de saúde, quer no que respeita à classificação errada de alguns doentes, com sérios prejuízos para os mesmos.
  12. O Ministério da Saúde, em vez de procurar soluções eficazes para os problemas das urgências hospitalares, prefere entreter os portugueses com soluções artificiais e aparentemente sem custos adicionais, como de resto tem sido seu apanágio;

Aquilo que a tutela, e os doentes do SNS, devem ter em conta é que a única forma de acelerar a observação dos doentes num serviço de urgência é dotando-o dos recursos técnicos e humanos que necessitam, nomeadamente médicos, e simultaneamente disponibilizar no âmbito dos Cuidados de Saúde Primários atendimento a doentes com situações clínicas agudas não urgentes .

Um doente urgente precisa de ser rapidamente observado por um médico, o acto médico por excelência que vai efectivamente ditar a rapidez com que o doente é diagnosticado e devidamente tratado, e não de realizar meia dúzia de exames complementares ditados por um protocolo.

O CRNOM invoca publicamente a revogação imediata do despacho nº 1057/2015.

A sua não revogação poderá ter consequências gravosas para os doentes e os profissionais de saúde, pelo que, desde já, responsabilizamos os directores clínicos das Unidades de Saúde onde tais alterações se venham a aplicar sem o consentimento informado dos doentes.

A responsabilidade moral e política será sempre do Ministro da Saúde.

 

O Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos

Porto, 04 de Fevereiro de 2015

 

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 03.02.15

Saudades do Brasil em Portugal - Carminho

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Carminho  Saudades do Brasil em Portugal

(poema de Vinicius de Moraes para Amália)

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 02.02.15

Trova do vento que passa - Adriano Correia de Oliveira

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Adriano Correia de Oliveira  Trova do vento que passa

(poema de "Praça da Canção" de Manuel Alegre agora reeditado)

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 02.02.15

CONVICÇÕES LXXIV - Adão Cruz

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   O grande passo da nossa vida adulta, feita de razão e pensamento, começa na criação dos nossos próprios conceitos, que não sendo só nossos são nossos também e nos asseguram a paz e tranquilidade da nossa consciência. Conceitos que não foram estruturados de ânimo leve, nem sedimentaram de forma irresponsável. No declive da existência eles constituem uma espécie de calmo estuário onde se espraia o rio das reflectidas conclusões que fomos tirando pela vida fora.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 02.02.15

A Grécia, o Syrisa e a União Europeia - Carlos Esperança

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Carlos Esperança  A Grécia, o Syrisa e a União Europeia

 

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   A coragem e o desespero deram-se as mãos num grito de esperança, na manifestação de raiva e no corajoso desafio à União Europeia.

A Grécia, tal como Portugal, empobreceu com os empréstimos que colocaram a dívida a níveis intoleráveis, e conduziram o País ao desespero, fome, miséria e humilhação. Cada dia foi maior a dívida e o desemprego, mais penosa a vida e mais intangível o equilíbrio financeiro. Entre a espada e a parede, o eleitorado escolheu a espada.

A Grécia tudo suportou, incluindo a repressão policial, mas a humilhação ultrapassou o limite que a dignidade permite. Não é apenas o país, berço da nossa civilização, que não sabe como reagirá a União Europeia, de que não pode ser expulsa, é esta que terá de decidir o que fazer com a Grécia.

Seria lamentável que à vontade expressa nas urnas se seguisse uma vingança, à guisa de vacina que advirta os povos para os limites da própria liberdade.

Eu teria votado Syrisa e, pelo menos, respeito a decisão do povo grego. Estou solidário, mas não eufórico, com a vitória da democracia, a manifestação de coragem e o exemplo de um povo que os burocratas da troika humilharam continuamente.

Eu sei do que estes líderes europeus são capazes, da crueldade com que o capital pune, dos riscos que corre quem desafia a europa alemã, capaz de homenagear serventuários e incapaz de ser solidária, como, depois da guerra, foram para com ela.

Fico, em pungente ansiedade, solidário com a Grécia, a pensar em Portugal, à espera de que os deuses do Olimpo não sejam derrotados por uma única e execrável divindade – os mercados –, e pela raiva dos países mais poderosos da União Europeia.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 01.02.15

FILME - Morir en Madrid, de Frédéric Rossif

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Frédéric Rossif  Morir en Madrid

(a Espanha dos anos 30)

 

 

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por Augusta Clara às 14:00

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