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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 01.04.15

A Esperança - Rogério Edgardo Xavier

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Rogério Edgardo Xavier  A Esperança

 

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(Eduardo Arguelles)

 

   A seu lado o homem, cansado, roncava. Encolhida no seu canto da cama, Odília, de olhos abertos, preenchia a insónia revendo o que, nos últimos anos, lhe acontecera. Casou cedo, no tempo em que era Lili para os pais permissivos que lhe faziam todas as vontades. Nem os estudos secundários terminou. Na verdade nenhum tempo sobrou para isso. A vida era frenética, as descobertas exigiam-lhe que saísse de um para outro namoro, de uma experiência para um desafio e deste para o meio da teia em que, afinal, foi apanhada. Casou grávida de gémeos e, ainda que desencantada e infeliz, teve mais uma criança doente. Aquele que lhe pareceu ser o príncipe encantado era só um sapo que, por não estar encantado, ficaria sapo muito tempo. Sabia trabalhar e ganhar dinheiro, não sabia nem queria aprender a amar porque, dizia, não tinha temperamento. O conto de fadas acabou na função de mãe, esposa, dona de casa. Não tinha tempo, também ela, para sequer perceber quão fundo era o buraco em que, voluntariamente, se metera. Aprendeu tudo o que não lhe ensinaram e intuiu o resto. A maternidade oferece às mães o jeito completo e, às esposas submissas, uma conformada raiva interior. Poderia abandonar tudo e levar os filhos com ela mas, perdidos os pais, sem curso nem emprego, a liberdade seria um insuportável pesadelo. As prisões nem sempre têm grades. Ela, incautamente, escolheu o seu destino para os dez anos seguintes. A esperança era o crescimento das crianças. A esperança era continuar os estudos ou aprender uma profissão. A esperança era conseguir que ele a amasse. A esperança…
Edgardo Xavier
Publicado RDL, 2015.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Quarta-feira, 01.04.15

Elogio da música - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Elogio da música 

 

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   A relação entre a filosofia e as artes, a música acima de todas, foi sempre uma relação de combate, agónica, como diziam os antigos gregos. Começou logo mal: Platão decretou a expulsão da Cidade de todos os poeta-actores e da música apenas deixou a militar. Séculos mais tarde Nietzsche rompeu estrondosamente com Wagner e Heidegger considerou esse momento "o corte necessário da nossa história". A filosofia, a sua pretensão de pensar o mundo sempre esbarrou com a música cuja especificidade lhe escapava por entre os conceitos. Depois há uma coda: o curto episódio Adorno. Chamo-lhe episódio porque acabou mal: primeiro com mais decretos platónicos e depois um fim infeliz, um choque brutal e auto-destrutivo entre uma teoria radical e chamar a polícia. Depois contradições em quantidade astronómica como dizer que a música, uma música só era autêntica na primeira audição, sendo todas as outras inautênticas, ou que nem precisava de ser tocada bastando ler uma partitura como se não houvesse mais mundo além do europeu.

Esta querela profunda explica parcialmente o facto de hoje, não apenas filósofos, mas escritores, poetas, pintores, arquitectos etc., não serem capazes de redigir mais que umas poucas linhas e, mesmo assim, pouquíssimas no conjunto dos escritos, na maior parte dos casos não sobre a música, mas sobre a experiência de a ouvir, traduzível em palavras. Não há apenas a querela original entre a filosofia e a poesia e, em parte, ainda a representação mimética que Aristoteles tentou e conseguiu salvar da exclusão platónica; há uma outra, tão secreta e sem saída que ninguém dá propriamente por ela. Mesmo o famoso caso Wagner teve lugar e poderoso impacto porque nele havia drama, palco, representação, pintura e poesia. Houvesse apenas música - não obstante, central nele - e mais de metade do caso nem teria ocorrido.

A música intimida, assusta. Ou se lança para a função original mítico-religiosa, ou hoje para a função ancestral ligada à dança própria do novo "entertainment" ou dos fundos obscuros do medo social do silêncio. Não sabemos, mesmo nós, exatamente o que dizer. Por isso é tão frequente produzirmos discursos pomposos, por vezes ridículos na sua pretensão, aparentemente discursos complexos, apenas destinados a especialistas, técnicos, de um vocabulário cerrado e incompreensível, que procuram disfarçar o seu próprio vazio, um vazio óbvio para quem o pode descodificar, tentando ocultar a dificuldade maior: Qual é o seu sentido?

Por isso todos falamos pouco de música e alguns de nós, os mais sensíveis a ela, rompemos em lágrimas. O indizível, o misterioso, é, há séculos, aquilo que a filosofia se esforça por compreender - o mundo, o ser, a morte, ou, em tempos, um além suspeitado - nos seus eternos recomeços. Cada filósofo começa sempre do início. A música não se esforça por compreender nada. Produz sentido, uma realidade sensível e, sem quaisquer palavras, caem lágrimas.

APV

 

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por Augusta Clara às 15:00

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