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Jardim das Delícias



Terça-feira, 28.04.15

Baselitz, o tosco? - Rogério Edgardo Xavier

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Rogério Edgardo Xavier  Baselitz, o tosco?

 

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(Georg Baselitz)

 

   Era tosco. A mãe teve-o num lugar inóspito em precariedade total. Por falta de água limpou-o como pode e vestiu-o de ternura. Quando se achou só para tomar a sua parte do mundo não sabia os códigos de boa conduta social e tudo lhe pareceu com racionalidade discutível. O desacerto fez com que a comunicação do seu pendor artístico se traduzisse com uma terna raiva, à revelia do que a maioria pensava, sabia, acreditava ou fazia. Só pelo coração se lia a sua obra arrancada da matéria com desacerto desesperado. Dizia tudo ao contrário e o amor crescia por dentro das atitudes, avesso do que parecia, tão grande, tão terno, tão puro que até mesmo a porção pobre do que lhe coube se tornou ouro. A obra que sangrava contra a suavidade falsa era, afinal, limpa, doce, terna. Sem verdade factual eu gostaria de, assim, explicar Georg Baselitz, Pintor e Escultor alemão, nascido em 1938. Isto porque ninguém costuma aceitar resultados sem conhecer os dados da fonte, sem conferir as parcelas, sem pedir a confirmação a peritos dos EUA onde ele é conhecido como neorrealista. Por cá dizem que é pós-moderno. Eu prefiro dizer que, à margem das etiquetas, ele tem uma genuína forma de amar.
Edgardo Xavier
Publicado RDL, 2015.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 28.04.15

Uma fotografia de que gosto muito

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por Augusta Clara às 12:00

Terça-feira, 28.04.15

A febre da devassa - José Goulão

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José Goulão  A febre da devassa

 

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Mundo Cão, 27 de Abril de 2015 

 

   O escândalo já não é novo. O que se vai renovando quase todos os dias são os dados da amplitude da devassa a que os europeus estão sujeitos por parte da espionagem norte-americana, com a prestimosa colaboração de espiões da União – que não poupam nem políticos, nem empresários, nem segredos tecnológicos e industriais, obviamente sujeitos a patentes.

O que Edward Snowden revelou ao mundo foi apenas a ponta de um icebergue cujos volume e profundidade crescem sem parar. Sabia-se que a National Security Agency (Agência Nacional de Segurança) dos Estados Unidos da América é unha com carne com a sua gémea britânica GCHQ. A imprensa e o Parlamento alemão vêm agora demonstrar que a intimidade é extensiva aos serviços de espionagem da Alemanha, o BND, Gabinete de Defesa da Constituição (curioso nome este), que a seu belo prazer acode às encomendas de devassa feitas pela NSA, ao que parece sem o conhecimento sequer dos órgãos de soberania do país. A torrente de confidências escorre pelo menos desde 2002, tudo à sombra de um manhoso “Memorando de Entendimento” antiterrorista, e só em Março passado a Chancelaria da senhora Merkel teve conhecimento da trapaça.

A coisa passa-se da seguinte maneira: a NSA envia listas de nomes, telefones, endereços electrónicos e IP (protocolos de internet) de pessoas e empresas a espiar e o BND coloca as suas capacidades ao serviço dos espiões norte-americanos, partindo do princípio de que pode fazer o mesmo em sentido inverso. Diz a imprensa alemã que o afã da NSA é imparável, chega a enviar várias listas por dia, de tal modo que o número de entidades devassadas é da ordem das 800 mil, incluindo políticos e cidadãos europeus de numerosas nacionalidades e também empresas de todas as dimensões, entre as quais avulta o gigante EADS (indústria aeroespacial, de defesa e segurança), fabricante do Airbus.

Apanhado em flagrante, o BND alega que o número de atingidos não passa de dois mil; a comissão especializada do Parlamento Alemão (Bundestag) já chegou aos 40 mil e a tarefa está longe de concluída. Em sua defesa – em boa verdade nada disto tem defesa – o BND alega que corresponde aos desejos da NSA no âmbito da boa cooperação, receando que se levantar dificuldades deixa de ter acesso às bases de dados da NSA. Tudo muito instrutivo, muito democrático.

Ora, como se sabe, continua em curso a elaboração do Acordo de Comércio e Investimento Transatlântico (o famigerado TTIP), através do qual os políticos da União Europeia se preparam para entregar a economia e a saúde dos europeus à mais absoluta anarquia produtiva e comercial reinante nos Estados Unidos da América, fazendo orelhas moucas aos protestos de milhões e milhões de cidadãos e instituições da Europa. Mete-se pelos olhos dentro que o frenesi de espionagem norte-americano é ditado, em grande parte, pelos dividendos que o lado de lá do Atlântico pretende retirar deste processo desequilibrado de nascença, que apenas políticos mentirosos e sem escrúpulos podem apresentar como justo e bilateral.

No fundo, no fundo, seja no caso do comércio e do investimento, seja no da intrusão abusiva na vida dos cidadãos e das empresas da Europa, a lógica é a mesma da relação entre a NSA e o BND (ou o GCHQ, ou quaisquer outros congéneres destes 28 de cócoras): o lado americano encomenda ou ordena, o lado de cá obedece, invocando que se levantar problemas pode deixar de ter acesso, no lado de lá, àquilo que na verdade não tem. Chama-se a isto subserviência de simples suseranos.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 27.04.15

Ó Gente Da Minha Terra - Mariza

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Mariza  Ó Gente Da Minha Terra

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 27.04.15

António Fernando E O SENTIDO DA RESISTÊNCIA - Valdemar Cruz

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Valdemar Cruz  António Fernando E O SENTIDO DA RESISTÊNCIA

 

(Apresentação de Adão Cruz)

 

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(António Fernando)

 

 

(O meu amigo pessoal Valdemar Cruz, prestigiado jornalista do Expresso, escreveu o texto a seguir, para servir de abertura ao catálogo da exposição de pintura de António Fernando, na Casa do Infante, no Porto. Trata-se de um texto magnífico e luminoso que muito nos ajuda no entendimento da pintura e da arte de António Fernando. Mas por ser tão importante e útil, não pode confinar-se às páginas de um catálogo. Daí eu ter telefonado ao amigo Valdemar, pedindo autorização para o divulgar e publicar. Para além de nos ensinar a ver e sentir a profundidade e a verdade da arte deste grande pintor, Valdemar Cruz vai mais longe, muito mais longe e dá-nos uma abrangente lição sobre o carácter e a identidade da verdadeira arte, não como a estática do momento mas como estética do movimento humano, social e político, espaço de dúvida e questionamento, voz dos silêncios de tantos gritos escondidos nos rostos, nos gestos, nos recantos e no complexo labirinto do sentimento artístico. Embora seja longo, não deixem de ler, pois nunca o tempo será perdido. Pelo contrário, muito terão a ganhar).

(Adão Cruz)

 

 

 António Fernando

E O SENTIDO DA RESISTÊNCIA

 

   Conta-se que o Barão de Gros (1771-1835), um historiador e pintor neoclássico francês, ao ser um dia confrontado com um dos maiores óleos de Delacroix, “Le Massacre de Scio” (4 metros de altura), terá traduzido o despeito, a revolta, o desconforto que o consumiam com um comentário registado na história dos pequenos incidentes com grande significado. Delacroix, de quem Gros era contemporâneo e com quem, de resto, partilhara um interesse comum por retratar Napoleão, ousara conceber um quadro exterior aos academismos estabelecidos e em confronto com todos os convencionalismos da época. Rompia com um certo historicismo pictórico tão em voga e muito centrado na exaltação de cenas de batalha recheadas de heróis imaculados, das quais estava quase sempre ausente o lado mais sujo, mais negro, mais doentio, mais cruel inerente à própria ideia de guerra.

Com o “Massacre de Scio”, um óleo datado de 1824, Delacroix optava por desnudar os horrores destrutivos provocados pela guerra. Há um esmagador ambiente de desolação a ensombrar aquela cena preenchida com homens e mulheres em sofrimento. Há uma completa ausência de esperança num espaço de desespero e medo, com as vítimas fisicamente destruídas e humilhadas no mais íntimo de si mesmas.

Ao ver-se perante uma tela onde a opção era por construir um discurso tão incómodo como verdadeiro, em detrimento da encenação estilizada ou até embelezada de um acontecimento de consequências brutais sobre os homens, o Barão de Gros terá acusado Delacroix de ter pintado, não o “Massacre de Scio”, mas “Le Massacre de la Peinture” (O massacre da pintura).

Ocorreu-me esta história no mais improvável dos momentos, mas porventura, no mais adequado dos locais. Era fevereiro. Viviam-se os últimos dias do mais pequeno dos meses do ano, e uma movimentada elite ligada ao circuito internacional da arte contemporânea confluía, como é hábito naquela altura, para Madrid, onde se realiza a ARCO-Feira de Arte Contemporânea. Mesmo se raramente ali acontece algo de verdadeiramente interessante ou radicalmente novo, no sentido de enunciar as ruturas definidoras de percursos capazes de rasgar fronteiras, a Feira, com toda a ideia de negócio subjacente ao conceito organizativo que a dinamiza, acaba, ainda assim, por funcionar como pretexto para uma regular visita à capital espanhola e, por extensão, para o cumprimento de um ritual que, acaso não fosse a perigosa conotação do termo utilizado, se diria ser guiado por uma obrigação de inspiração religiosa.

Ir a Madrid significa entrar no Museu Reina Sofia para, na imensidão da sua oferta, procurar apenas uma sala: aquela onde é em permanência exibida a “Guernica”, de Pablo Picasso. Se todos os anos há fatores de espanto, suscitados por um novo detalhe descoberto numa tela infinitas vezes vista, contemplada, observada ao detalhe, este ano, e para lá do arrepio a que é difícil escapar no momento da chegada, impôs-se uma imagem que, sendo exterior ao imponente quadro de Picasso, era-o apenas na aparência. Frente à tela, um grupo de crianças entre os 8 e 10 anos contemplava o arrasador trabalho inspirado pela Guerra Civil de Espanha, enquanto uma delas, rapariga de olhos muito vivos, posta de joelhos, com uma voz débil mas suficientemente colocada para ser ouvida por todas as outras, discorria sobre o quadro. Chamava a atenção para os rostos deformados, para a expressão do cavalo em agonia na parte central, para o emaranhado de braços disformes, para a ira e dor ali espraiadas e para a imponente presença do touro no lado esquerdo.

Era difícil perceber na totalidade a sequência do discurso, nem isso é importante, apesar da emoção suscitada pelo modo como um grupo de crianças tentava aventurar-se pelos significados de um quadro tão denso e tão complexo. Ali, e tal como em Delacroix, os despojos de guerra aparecem em toda a sua bárbara crueza. A guerra, ao contrário do que dizia o futurista e fascista italiano Filippo Marinetti no seu manifesto sobre a guerra colonial da Etiópia, não é bela. Por opção ou omissão, muitos pintores e intelectuais abstraem-se com frequência deste julgamento moral e ético sobre esta espécie de máquina trituradora de humanidade que tanto massacrou o século XX e avança imparável, sob outras formas e pretextos, pelo século XXI.

Não é, nunca foi esse o posicionamento de António Fernando, como o revela, para quem o desconhecesse, o tríptico agora pela primeira vez exposto na Casa do Infante nesta exposição cujo título é construído a partir de um outro dado pelo jornalista Serafim Ferreira, em 2007, a um trabalho ainda inédito dedicado à obra do pintor: “Os trabalhos e os dias – os limites do tempo na pintura de António Fernando”. Aqui numa versão mais reduzida daquele título e agrupados no conceito de “Os trabalhos e os dias – 10 anos (2004-2014)”, estes quadros – um deles em processo de acabamento durante o período da exposição – constituem um poderoso testemunho da inquietude de um homem para quem a pintura, ao longo do seu já extenso percurso, sempre assumiu, sem equívocos, um papel de combate e de resistência, na linha de uma imensa galeria de artistas das mais diversas áreas cujas propostas, ancoradas na firmeza de princípios, conseguiram ir para lá do comum adquirido e provocaram a ira dos instalados.

De uma forma ou outra, todos eles estão citados, servem de fonte de inspiração, proporcionam modelos, temas, pormenores, soluções, infinitas reflexões contidas em cada um dos elementos deste tríptico.

Fazem parte desta espécie de carrossel imparável, multifacetado e cimentado em tempos diversos, nomes como Picasso, desde logo e sempre, como diria António Fernando, mas também, entre outros, Pina Baush ou Pasolini, o neoimpressionista italiano Giusepp Valpedo, autor de “Il Quarto Stato”, quadro imenso que se tornou um símbolo das lutas progressistas na Europa e aparece a abrir o filme “1900”, de Bernardo Bertolluci, Goya e os desastres de guerra, Balthus, Lucian Freud, o escultor e pintor Marino Marini, Bacon na sua fase mais antiga, alguns dos nomes maiores do fotojornalismo, num outro plano, os gregos clássicos e, claro, Renato Guttuso.

Não por acaso, Guttuso (1911-1987), impõe-se como uma das grandes referências de António Fernando. É o pintor italiano a quem a igreja romana apelidou de “pictor diabolicus” (“pintor diabólico”) após ter concebido “Crocifissione”  (Crucificação) em 1941, um dos quadros maiores de toda a sua obra e do qual há óbvias citações numa das telas do tríptico exposto. Empenhado no que apelidou de “arte social”, Guttuso propunha um compromisso político e moral visível em pinturas como “Fuzilazione in Campagna” (1938), dedicado a Federico Garcia Lorca, ou “Fuga dall’Etna”. Membro efetivo do Partido Comunista Italiano, muito ativo durante a Guerra Civil de Espanha, Guttuso era profundamente odiado pelos fascistas italianos, desde logo porque denunciava os horrores de guerra cometidos sob o manto ou com uma caução religiosa.

A pretexto de “Crossifissione” dizia Guttuso ser aquele “um tempo de guerra. Quis pintar o tormento de Cristo como uma cena contemporânea, como símbolo de todos aqueles que, devido às suas ideais suportam o desprezo, a prisão e a tortura”. Em 1945, com Birolli, Marchiori, Emilio Vedova e outros, fundou a “Fronte Nuovo dele Arti”, como forma de promover o trabalho dos artistas banidos pelo fascismo italiano. Nesse período inicia uma longa amizade com Pablo Picasso e assim se cruzam duas das alusões maiores da obra de António Fernando plasmadas em cada um dos quadros do tríptico.

A propósito de Pablo Picasso, ficou célebre, no final da II Guerra Mundial, uma declaração proferida pelo pintor à jornalista Simone Téry, e publicada nas “Lettres Françaises” de 24 de março de 1945: “A pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo”.

Dito de outra forma, poderia assumir-se que a obra de arte não pode comprazer-se ou resumir-se ao puro deleite estético, sob pena de perder caráter e identidade. Tem de impor-se como espaço de dúvida, de questionamento, por vezes incómodo, embora resida nessa aparente inconveniência o sentido de verdade a que a criação artística terá de aspirar.  Nesse sentido, é legítimo objetar que o conteúdo de uma obra de arte empenhada, “engagé”, como diriam os franceses, não tem que resumir-se à tentativa de construção de um discurso tolhido pelo imediatismo nele contido.

 

Antes de olharmos melhor para o tríptico proposto por António Fernando, será pertinente recuperar a imagem de Guernica – até porque muitos ou importantes elementos deste quadro estão citados nas telas expostas – para atentar no enigma visual projetado por uma obra feita, ela própria, de uma miríade de citações e colagens, que tanto podem passar por Raffaello como por Prud’hon e outros nem sempre evidentes.

Ora, a partir desse jogo de enigmas visuais constrói António Fernando a trama onde nos amarra o olhar, arrastado por um turbilhão de interrogações, perguntas à espera de respostas nunca dadas, porventura nunca encontradas, contidas nesta busca incessante, não de uma narrativa específica, mas de um caminho para as muitas histórias contidas em cada rosto, em cada gesto, em cada recanto, em cada espaço, em cada movimento, em cada um dos silêncios de que se fazem os muitos gritos ali escondidos.

Não apenas no tríptico, mas no conjunto da obra de António Fernando, como o torna evidente esta exposição, há uma iconografia que se repete. Passa de umas telas para as outras. Convoca memórias diferenciadas conforme o espaço em que desponta. O pintor cita-se a si próprio com o mesmo à vontade com que inunda os quadros de citações de outros. No final, ao apoderar-se e beber de tudo quanto lhe possa ser útil, e após todas essas conturbadas viagens ao âmago de diferentes universos, as telas impõem-se como retrato fiel do muito pessoal universo criativo de um pintor em permanência inquieto, inconformado, indisponível para dar a obra como acabada.

Há muitos exemplos dessa vontade de regresso. Dessa imperiosa necessidade de voltar a um caminho que, depois de trilhado, o pintor percebe ter ainda muitas veredas por onde penetrar. Para ir mais longe. Para ir mais fundo. Para encontrar a verdade que procura. Recorde-se, apenas como exemplo, um trabalho feito a propósito dos acontecimentos vividos durante o que deveriam ter sido as comemorações do 1º de Maio de 1982. Na véspera, a 30 de abril, a baixa do Porto viveu um dos momentos mais negros da história da democracia portuguesa. Foram horas dramáticas e inesquecíveis, com a polícia a reagir de forma brutal contra a massa de trabalhadores afeta à CGTP-Intersindical concentrada na avenida dos Aliados e Praça da Liberdade. Batiam indiscriminadamente em velhos e novos, homens ou mulheres. Perseguiam até espaços bem longínquos daquela zona. Chegaram a entrar pelas urgências do hospital de Stº António. No final, o balanço era trágico. Dois mortos e mais de meia centena de feridos.

António Fernando estava lá. Viu tudo. Presenciou o inimaginável e um ano depois expunha na cooperativa Árvore a tela intitulada “1º de maio de 1982”. É um quadro pungente, feito com o sentido de urgência e a sensação de impotência de quem sabe da impossibilidade de absorver a dimensão toda do sofrimento ali vivido. Nesse sentido, aquele não é um quadro passível de ser dado como terminado. Há sentimentos que fluem com a mesma voragem da água que arrasa as margens. Há memórias que se agigantam e movimentam no interior de nós mesmos de uma forma convulsa, violenta. Vão e regressam. Geram um estado de ansiedade. De não finitude. Até por isso se explica que em 2012 o pintor tenha experimentado o impulso de voltar a envolver-se com aquela tela. António Fernando quis percorrer de novo aqueles momentos, aquelas cenas de dor, porque se lhe impunha a necessidade e a vontade de retrabalhar uma obra que fixa um instante, mas tem, em simultâneo, o poder de equacionar a história e situar a pintura no espaço onde se confrontam as ideias e se despoletam as reflexões essenciais.

 

Não é incomum opções como a de António Fernando – ao reagir, como naquele caso, a um acontecimento de impacto político e social, inserido já na história do sindicalismo português – sofrerem tentativas várias de menorização a partir de um conceito que merece ser discutido e rebatido. Parte-se da ideia de que estes trabalhos se impõem como instrumento político antes de serem pintura. O objetivo é claro. Trata-se de negar a ideia de arte associada a qualquer obra ancorada numa estrutura em que à forma corresponda um conteúdo igualmente forte, intenso, porventura polémico, mas nunca vazio de ideias.

É um combate ideológico que nunca deixou de estar presente na produção artística contemporânea. António Fernando não se exime de nele participar com a única arma que tem disponível: a pintura. É essencial realçar este aspeto neste momento, desde logo por a essência do seu trabalho residir no contínuo e absorvente labor à volta do rigor do desenho, da construção de um edifício estético sólido e consistente, antes de mais marcado pela ideia, pelo prazer, pelo gosto da pintura, mas sem que nada do que à natureza humana diga respeito lhe possa ser indiferente: o amor, a sensualidade, o desejo, o sentido de poesia, tudo espraiado em muitos dos quadros e aguarelas que tem vindo a conceber ao longo dos anos. Mas de igual modo as causas sociais, as causas humanitárias, as causas políticas.

António Fernando é um homem e um pintor incapaz de passar ao lado do tempo que lhe coube viver. Olhe-se o tríptico e estão lá ressonâncias de Pasolini, nem que seja apenas pela atitude estética enquanto artista; da “Crucificação” de Guttuso na imagem de Che Guevara deitado sobre a cruz ainda no chão; tal como a luta da Palestina, ou, de novo e sempre, as citações de Picasso, seja através da menina que atravessa uma das telas com um cravo na mão e remete diretamente para um dos estudos da “Guernica”, seja pela presença, constante e às vezes obsessiva, do touro, que vai aparecer em várias aguarelas e convoca de novo Picasso, mesmo se pode ser visto também como o touro de Creta, que na mitologia grega foi capturado por Héracles.

Através do tríptico pela primeira vez revelado com esta exposição, António Fernando constrói uma pintura onde a história se dá a ver. Interpela-nos, convoca-nos, confronta-nos com as banais indiferenças de que se faz o nosso quotidiano.

Mesmo se uma leitura apressada o pode sugerir, não é uma pintura destinada a responder na hora aos incómodos, às angústias que possam perturbar o pintor. Pelo contrário, com exceção da tela em construção durante o período expositivo, os outros dois trabalhos, à semelhança da generalidade das obras de António Fernando, constituem o resultado de uma luta diária, esgotante, desassossegada, feita de demoradas horas de reflexão. Podem passar anos – e isso aconteceu neste caso – entre o momento inicial e primeiro de contacto do pintor com a tela, e o tempo de começar a história a encontrar um fio narrativo coerente e preciso. As personagens crescem e amadurecem a um ritmo feito, não de urgências, mas de profundo respeito pela importância do tempo e pelo modo como esse tempo pode e deve contribuir para fortalecer a marmórea argamassa em que se apoia o edifício narrativo construído em cada uma destas propostas.

Percebe-se, então, como o apelo e o apego a uma verdade inteira, impelem António Fernando a obrigar-se a extensas jornadas em demanda daquela mesma perfeição almejada pela antiga tradição grega. Isso acontece, desde logo porque as reminiscências dessa busca tão antiga nunca deixaram de estar presentes no subconsciente do pintor enquanto deambula à volta dos intrigantes caminhos sugeridos por cada tela.

Tem de haver uma razão para cada detalhe. Cada gesto precisa de uma justificação. Cada expressão de cada um dos rostos, cada olhar, decorre de um significado preciso. Nada é gratuito ou resultado de uma qualquer cedência decorativista. Nada acontece por acaso, em particular, ou sobretudo quando se percebe como algumas das telas são estranhamente envoltas numa inusitada cenografia e iconografia de inspiração religiosa.

Com um fascínio nunca escondido pelo “Juízo Final”, de Miguel Ângelo, pintado na parede do altar da Capela Sistina, no Vaticano, António Fernando, podendo muito embora estar distante de qualquer envolvimento religioso, não enjeita recuperar para as suas criações artísticas algumas das narrativas que a Bíblia ou os Evangelhos propõem. Faz essa opção, não como ponto de chegada, mas antes como momento de partida. Como pretexto para, a partir de uma evocação reconhecível por todos, propor uma leitura nova, surpreendente, passível de ser entendida como provocatória. Para o demonstrar, aí estão Che Guevara deitado na cruz, ou uma muito particular reconstituição da Última Ceia, a ser trabalhada na tela ainda em finalização.

A utilização da palavra “provocatória” corre o risco de ser equívoca, no sentido em que com facilidade pode suscitar a ideia da provocação pela provocação. Não cabe no trabalho de António Fernando a opção pelo gesto gratuito que se esgota em si mesmo, apenas preocupado com a busca de um efeito. Seja ele qual for.

 

O desafio maior contido em cada uma destas telas passa pelo modo como questionam uma hipotética passividade de quem olha. Aqui, não basta olhar, não basta deixar-se levar por passos descomprometidos, ou deixar-se conduzir como quem passeia por uma bucólica paisagem campestre.

Ao assumirem-se como espelho de espaços de reflexão e luta na sociedade contemporânea, ao reconstruírem as metáforas capazes de nos remeterem para episódios que o fluxo e a avalancha das notícias quotidianas vulgarizou, as telas propostas por António Fernando corporizam uma celebração do questionamento.

Numa sociedade à qual um discurso hegemónico impõe cada vez mais certezas ou sentidos únicos de interpretação dos fenómenos do dia-a-dia – sejam eles políticos, sociais ou culturais – cada vez mais está em jogo o papel que cada um reserva para si próprio. A interpelação projetada por este conjunto de obras tão poderosas pelo rigor, pela concepção e força nelas contidas, pela veemência postas na captação de alguns dos gritos sobre os quais se continua a abater um pesado silêncio, revelam uma singular capacidade de desencadear inquietudes, de desassossegar mentes acomodadas.

Ao rejeitar o silêncio, António Fernando interroga-nos de um modo muito frontal. Pergunta-nos se é o silêncio o que desejamos para as nossas vidas. Não impõe discursos, mas desafia quem olha, a ver, como diria José Saramago. É uma distinção que faz toda a diferença por duas ordens de razão.

A primeira radica na absoluta necessidade de cada um dos que olham e vêm decidir se deve aceitar o papel que cada vez mais lhe é reservado de funcionar apenas como mais uma peça da engrenagem, sem poder, nem capacidade de influência, porque silenciado ou remetido voluntariamente ao silêncio. Ou, se pelo contrário, rejeita a máquina, materializa a rotura e, ao constituir-se como fator de perturbação da linearidade imposta, interroga, questiona, duvida, e não aceita as supostas inevitabilidades da história.

A segunda razão leva-nos a uma constatação de outro tipo. Temos pressa. Deixamos escapar o tempo em que nos dávamos tempo para olhar e usufruir das obras de arte. Não precisaríamos de ir tão longe como sucedia em alguns museus russos, onde muitos visitantes rezavam aos ícones bizantinos expostos. Não seria necessária essa atitude reverencial e submissa. Não se trataria, portanto, de rezar, mas de conceder espaço, tempo de introspeção como única das formas possíveis para apreender a totalidade do universo criativo sugerido por obras como estas de António Fernando.

 

A história da arte está carregada de protocolos e convenções. Mesmo no suposto diletantismo de muitos artistas contemporâneos, percebe-se um certo culto de atitudes na aparência subversivas que, todavia, não resistem a uma análise mais fina da qual resulta a percepção de como tantas vezes a irreverência é feita de uma fragilidade assustadora e depressa deixa a nu a mais estrita obediência a todo o tipo de convenções. Esta é uma verdade que chega a ser dolorosa, em particular quando o artista cultiva uma heterodoxia que o afasta de todas as correntes de pensamento ditas comuns para afirmar o primado de ideias muito próprias. Não é raro depararmos com artistas com uma produção artística que, pretendendo ser o corpus de uma ideia, consubstancia no essencial a ausência de qualquer ideia, o alheamento da reflexão sobre o quotidiano que o envolve e rodeia.

O artista não tem necessariamente de ser ator da história, nem se fazem revoluções com pinturas. Mas há pinturas que, nem que seja do ponto de vista estético, são revolucionárias. Ou há pintores que, sem corporizarem a revolução, são incapazes de se deixarem aprisionar pela indiferença, pelo alheamento em relação às interpelações a cada instante colocadas pela sociedade e pelo tempo em que vivem. Nesses casos, o pintor não é, de facto, ator da história, mas a história não deixa de lhe interessar como espaço de ponderação do presente e do passado, na tentativa de encontrar respostas para um outro futuro.

Desse ponto de vista, e como constituem prova evidente as telas escolhidas para esta exposição, não há protocolo na atitude e na pintura de António Fenando, nem sujeição aos rituais condicionadores de escolhas, ou definidores de padrões.

Quando olhamos para as personagens ainda em construção da “Última Ceia” e nos apercebemos da posição central daquela mulher de costas que observa, não se sabe se a partir do exterior ou se finalmente inserida na cena; quando se fixa o olhar na figura grotesca frente à mesa e com olhar alucinado; quando parece esvoaçar o lenço palestiniano na cabeça de um jovem e isso nos remete para um conflito eternizado; quando duas silhuetas ao lado da menina que corre com o cravo na mão assumem a atitude de revolta e protesto; quando a figura do Che prestes a ser crucificado lança o mais perturbador dos olhares, e nunca se percebe se o que ali reside é impotência, frustração ou um instante mais de resistência na tentativa de agarrar a vida que foge;  quando nos intrigam aquelas figuras disformes, nuas, por vezes indiferentes umas às outras, por vezes com o drama estampado em rostos aflitos; quando nos espanta a força com que irrompe a cabeça do touro por entre o emaranhado de gente, sabemos, temos de saber, que esta não é uma pintura disponível para aceitar como imutável o vento dormente do nosso quotidiano.

 

Os quadros apresentados em “Os trabalhos e os dias” constituem uma seleção, um fragmento apenas da obra de António Fernando. Se refletem uma das abordagens possíveis ao seu universo criativo, estão longe, porém, de o esgotar.

Quando pela primeira vez, em 2014, pensou nesta exposição, António Fernando imaginava-a como uma espécie de viagem balizada no tempo. Em 2004 realizara a sua última grande exposição, na Biblioteca Almeida Garrett. Dez anos depois regressar ao mesmo local, embora com novos trabalhos, para assinalar e deixar como memória o quanto fora produzido nesta última década, revelou-se ser uma impossibilidade prática.

A ideia de aproveitar o espaço da Casa do Infante nasceu de uma conversa com o vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto, Dr. Paulo Cunha e Silva. Ele próprio sugeriu, num primeiro momento, que nesta espécie de regresso às origens, visto António Fernando ter nascido bem próximo desta Casa, ficasse exposto apenas o tríptico concebido ao longo dos últimos anos. Ficou depois evidente que o espaço disponível comportava uma ambição maior e logo ficou consolidada a ideia de juntar outros trabalhos, nascidos de outras vontades narrativas, outras reflexões pictóricas.

De fora fica, ainda assim, uma infinidade de óleos, aguarelas, desenhos, reveladores de uma invulgar maturação criativa e de uma singular capacidade do pintor para recriar diferentes mundos, novas vivências, outros tempos narrativos, diversas sensibilidades estéticas.

No emaranhado de obras acumuladas no ateliê de António Fernando há uma em particular – presente nesta exposição -  que me chamou a atenção numa visita recente. Três mulheres. Uma sentada à esquerda, uma de pé, ao centro, ambas nuas. Uma sentada à direita, apenas aconchegada por um delicado manto branco que lhe cobre parte do corpo. Estão próximas de uma portada branca semiaberta e na parede do fundo há uma tela com uma figura estilizada. No chão, sobre um pano branco, uma chávena – que vai aparecer noutros quadros de António Fernando como mais um elemento das suas muitas auto-citações – com um cravo vermelho ao lado.

Deixa-nos o olhar cativo a ternura, a sensibilidade, a suavidade dos tons cromáticos utlizados, o tempo de reflexão silenciosa captado, a sensualidade desta espécie de adágio, assim entendido por a suspensão contida na cena nos remeter para a noção de que algo mais está para vir ou acontecer. Há como que uma atitude de espera, tal como sucede num concerto, em que o adágio surge como segundo movimento, a anteceder o expectável, mas desconhecido final.

Por contraste com o que nos mostra o Tríptico, poderia dizer-se que, naquela, como noutras telas, António Fernando opta por recriar uma visão mais onírica de uma outra dimensão do seu imaginário. É um quadro atravessado por um subtil enlevo poético que se embrenha numa cena suspensa de uma visão sedutoramente íntima.

É esta emocionante capacidade de António Fernando para escancarar as portas todas dos sentimentos todos que lhe permite construir momentos na aparência tão díspares. Uns marcados por uma estranha melancolia. Outros dominados pela vontade do silêncio. Outros ainda agarrados a um profundo sentido de resistência, onde se confundem paixão e rebelião, em nome de um amor profundo: o prazer do desenho, o infinito desejo de colocar a pintura no pedestal. Como se fora algo de divino. Numa espécie de sacralização de uma certa ideia de arte empenhada em demonstrar que nenhuma estética resiste à ausência de ética.

Valdemar Cruz

 

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por Augusta Clara às 17:30

Segunda-feira, 27.04.15

O lobo a guardar a capoeira - José Goulão

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José Goulão  O lobo a guardar a capoeira

 

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   Mundo Cão, 26 de Abril de 2015

 

   No meio das entrevistas de rua realizadas durante a manifestação do 25 de Abril em Lisboa, e nas quais o auricular da jornalista a incitava a concentrar as perguntas na assinatura de uma coligação contra o 25 de Abril há muito anunciada, surgiu um cavalheiro cuja imagem não me é muito familiar, por culpa minha, confesso. Convidado, como todos os outros, a comentar a tão excitante coligação, decidida a renascer dos escombros para servir os restos do país ao insaciável mercado, o cavalheiro escusou-se polidamente: aos partidos o que é dos partidos, aos sindicatos o que é dos sindicatos, sábia e prudente opinião dentro do consagrado estilo a minha política é o trabalho e não tenho nada a ver com o resto, não me comprometam.

Ainda assim, e porque alguma coisa me escapara antes, deduzi que o cavalheiro era sindicalista. Pelo andar da conversa não tardei a perceber que era mais do que isso, muito mais, aliás, porque é o chefe de uma central sindical conhecida por UGT.

Como estávamos no 25 de Abril, dia propenso a memórias e evocações, revi em flashes curtos um pouco da história dessa entidade, desde os tempos da “Carta Aberta” pela “liberdade sindical”, ainda na pré-história deste grupo cujo nascimento teve o glorioso patrocínio do senhor embaixador Carlucci e da central sindical norte-americana, a AFL-CIO, que em boa verdade deveria escrever-se AFL-CIA-Mafia, mas isso são contos que não vêm ao caso. Lembro-me também de fotografias publicadas nesses tempos testemunhando o nascimento da criatura, selado depois de negociações segredadas nos Passos Perdidos, em plena Assembleia da República, entre destacados dirigentes do PS e do PSD. Enfim, outros tempos, velharias da História que as sensibilidades do 25 de Abril trazem à superfície; mas os tempos são outros, os da modernidade, há que nos adaptarmos à realidade. Tanto mais que o cavalheiro entrevistado, e logo em plena manifestação do 25 de Abril, sentenciara aos partidos o que é dos partidos, aos sindicatos o que é dos sindicatos.

Como o auricular da jornalista pé de microfone insistisse na previsão do futuro dos trabalhadores à luz da assinatura da nefanda coligação, o cavalheiro acabou por avançar um pouco sobre o tema. Repetiu várias vezes a palavra da moda, “compromisso”, e nesse contexto manifestou a esperança no que de bom pode trazer aos trabalhadores um compromisso – e juro que a expressão foi esta – “dentro do arco da governabilidade”.

Como sabem, a expressão “arco da governabilidade”, por sinal usada de preferência pelo dr. Portas, é um sinónimo de arco da governação, arco da austeridade, arco da exploração, arco censório, da trapaça, centrão… Enfim designações que definem a democracia tal como hoje se pratica, o um-dó-li-tá entre PS, PSD e CDS, quando não todos juntos e ao molho, seja o que Deus quiser…

Pois bem, o cavalheiro, aquele chefe de uma central sindical aposta todas as suas esperanças, e as dos trabalhadores, pois é a isso que se dedica, no compromisso dentro do tal arco, no que em nada difere da arqueológica figura que ainda se arrasta dentro do palácio de Belém. Ora sabendo nós o que significa a coligação de trastes agora renovada e, por outro lado – neste caso o lado é o mesmo – o conteúdo do programa eleitoral produzido para o PS por encartados tecnocratas neoliberais, prometendo mais “flexibilização do mercado de trabalho”, alguma coisa que nos diz que, apesar de vivermos em modernidade, a tal UGT continua com os tiques de nascença, resultantes de um lamentável exercício de manipulação genética suprimindo o alelo associado aos trabalhadores.

Ao-fim-e-ao-cabo o que o ilustre cavalheiro nos revelou no invernoso 25 de Abril que tivemos foi um sintoma da prolongada agonia dessa criatura contra natura, cujo comportamento é tão aberrante como deixar um lobo a guardar a capoeira.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 26.04.15

CONCERTO - Istanbul - Cantemir Dimitrie,1673-1723, por Jordi Saval e Hesperion XXI

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Jordi Saval e Hesperion XXI  Istanbul

(Sephardic and Armenian Musical Traditions)

 

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 25.04.15

Zeca Afonso ao vivo no Coliseu (1983) - completo

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Zeca Afonso ao vivo no Coliseu (1983)

(Nunca esquecerei este espectáculo, o último do Zeca)

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sábado, 25.04.15

SÃO AS PESSOAS, ESTÚPIDOS! - José Goulão

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José Goulão  SÃO AS PESSOAS, ESTÚPIDOS!

 

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(Foto de Alfredo Cunha)

 

 

 

   Mundo Cão, 25 de Abril de 2015

 

   “É a economia, estúpido!”, garantiram um dia a Bill Clinton como recomendação infalível para se tornar um perfeito chefe do império, qual ovo de Colombo empinado com maestria sobre a secretária da sala oval. Ele tirou-se dos seus pecadilhos democráticos e percebeu a recomendação, pouco depois estava a bombardear escolas no Afeganistão, laboratórios de produtos farmacêuticos no Sudão e a verdade é que, com ele, o neoliberalismo campeão ganhou novo alento universal, quase fazendo esquecer as sagas pioneiras de Reagan, Thatcher e do patriarca da família Bush.

“É a economia, estúpidos!”, cacarejam ainda hoje as aves de arribação afinadas pelos maestros do arco da governação, vulgo arco da exploração, largando os seus ovos de Colombo saltitando de poleiro em poleiro, de coluna impressa para microfone de rádio, daí para uma televisão, e outra, e outra, numa vertigem maluca. Graças a elas hoje sabemos quanto a economia vai crescer enquanto se apaga, se o mercado está ou não suficientemente flexibilizado, se o emprego desceu zero vírgula qualquer coisa por cento ao contrário do que diz a malandragem da oposição ao assegurar que continua a crescer, que a nossa dívida vai baixar porque tudo o que sobe descerá um dia, não se sabe é quando. Graças a elas discute-se em economês nos cafés nos intervalos dos gozos e arrelias da bola, arenga-se em economês nos jantares de família, no meio dos lamentos sobre os achaques, as peripécias da novela e as indiscrições sobre os próximos divórcios, sentencia-se em economês nos supermercados, nos transportes públicos, os taxistas metem conversa com os passageiros no seu mais vernáculo economês. Em suma, abreviando, aprendemos economês, deixámos de ser estúpidos, graças a Deus… Graças a Deus não, graças ao omnipresente arco da governação, vulgo arco da austeridade, e suas aves de arribação poedeiras.

Foi nisto que se transformou o 25 de Abril, nascido há 41 anos para cuidar das pessoas depois de quase cinco décadas em que o país tratou de meia dúzia de famílias. Hoje o país trata da economia, as pessoas podem continuar a esperar. Os senadores do arco da governação, vulgo arco da trapaça, e respectivos herdeiros começaram por engavetar o socialismo, depois engavetaram o espírito de Abril, a seguir, de passinho insidioso em passinho insidioso, foram engavetando a democracia reduzindo-a a um reles cavaco, a um coelho tinhoso; e não tarda, se os ventos da Ucrânia e vizinhanças continuarem a soprar como sopram, estarão a engavetar pessoas por atacado. Não ouvimos nós uma senhora eurodeputada tão da esquerda que só visto, que até sabia dos aviões da CIA e coisas assim, dizer que esteve em Kiev nestes dias negros para a Europa e garantir que aquilo na Praça Maidan é democrático a valer? Não foi o seu novo chefe quem entregou a algumas eminências domésticas do ultraliberalismo, Centenos & companhia, a produção do programa eleitoral do seu partido, provavelmente porque os militantes e quadros ainda não falam o economês com a necessária fluência?

A verdade é que o arco da governação, vulgo arco da censura, não encontrou melhor maneira de celebrar o aniversário do 25 de Abril do que apresentar um projecto de “regulamentação prévia” da próxima campanha eleitoral que tresanda a lei da rolha, pelos vistos achando que a censura em curso, praticada em economês, ainda não é suficiente.

O 25 de Abril está assim, 41 anos depois. Mas por ter havido 25 de Abril aprendemos que uma coisa, mesmo parecendo invencível, felizmente é derrotável.

Um bom princípio será demonstrar que o tal ovo de Colombo apresentado a Clinton ainda na pré-história da ditadura do mercado, e tão do agrado das domésticas aves de arribação poedeiras, era podre de nascença.

É altura de restaurar o que o 25 de Abril prometeu ao país: “são as pessoas, estúpidos!”

 

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por Augusta Clara às 20:00

Sábado, 25.04.15

QUALQUER DIA - Zeca Afonso

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Zeca Afonso  QUALQUER DIA

 

 

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por Augusta Clara às 19:00




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