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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Djarah Akan (Castel Volturno CE, Italia) A minha amiga italiana
(tradução de José Colaço Barreiros)
(Alice Vegrova)
Nota de edição: José Colaço Barreiros é hoje agraciado na Embaixada de Itália com um prémio que lhe foi atribuído pela sua actividade de grande qualidade como tradutor.
“Lê bem” diz-me ela, enquanto agita com orgulho o seu novo cartão de identidade. Na foto parece a versão negra de Ana Bolena, tem o ar orgulhoso de sempre, aquela expressão a fingir de altiva que eu reconheceria onde quer que fosse. Desta vez também não há sorrisos pepsodent para ninguém, ela nunca sorri senão por pedido muito especial, e no fundo faz bem porque não tem nada que dê vontade de rir, que raio. Como não lhe dar razão, quando teve de esperar dois anos para receber aquela trampa da cidadania?
Agora já a tem na mão, já não se rala com a papelada toda que teve de preencher para chegar àquela meta, que afinal não me parece que a tenha mudado assim tanto. Pergunto-lhe com ironia: “Hazy, como te sentes, eh? Como é ser cidadã italiana? Agora já te sentes poderosa, hem?”
Olha para mim de esguelha, sorri (como é lindo, às vezes) e diz-me: “Sinceramente não lhe ligo nenhuma, mas ao menos agora posso ter a liberdade de fazer o que quero”.
Para mim e Hazel, a liberdade de fazer o que se quer significa ter a possibilidade de denunciar injustiças, liberdade de se poder deslocar de um país para outro, livremente, liberdade de tomar a palavra. Significa subir à tribuna sem sofrer a chantagem do documento, significa sentir-se legitimado a dizer não.
Dir-me-ão que estas coisas se podem fazer tranquilamente mesmo sem ter a cidadania, mas vão lá dizê-lo aos milhares de migrantes que atravessam o mar morrendo afogados no mediterrâneo, só porque tiveram o azar de nascer na parte errada do mundo: a que é depredada e explorada. Vão lá dizê-lo à prostituta ucraina que é violentada pelo cliente e que nunca poderá denunciar nada disso porque é clandestina e não tem documentos. Vão lá dizê-lo à dama de companhia polaca que, como filha de pais alheios, trata dos afectos familiares dos outros, sem poder cuidar dos seus, obviamente tudo a negro e sem contrato. Ter um status jurídico subalterno, passível de chantagens e de exploração, significa sobretudo isto, significa silêncio, invisibilidade, significa não existir, ou melhor, só existir em certos momentos da nossa vida. Nós, filhos de imigrantes aqui nascidos, sabemos bem o que significa sermos tratado como homens e mulheres de segunda.
Contamos pouco ou mesmo nada, as pessoas acham-nos uns híbridos, numas suscitamos curiosidade, para outras somos o símbolo da decadência da pátria e da cultura italiana (vd. a liga de Salvini, Casapound, Irmãos de Itália e todo o universo de escrotos ambulantes que pairam em volta destas realidades políticas). Nunca há quem nos pergunte o que pensamos deste assunto da justiça exclusiva à italiana, ou da xenofobia irrompante que está a sufocar a Itália inteira nestes tempos de crise.
Continuam a dizer que a Justiça em exclusivo não é relevante neste momento, que a Itália te mais em que pensar, mas eu vivo na Itália, foi aqui que eu nasci e vocês não têm a mais vaga ideia do que significa viver debaixo da chantagem da renovação da licença de estadia. Mesmo tendo aqui nascido, de dois em dois anos tenho de ir à polícia onde me dão uma espécie de cartão telefónico em que posso carregar os dias válidos para residir legalmente em Itália. Exactamente como quando se paga para ter a internet e os minutos grátis até ao fim da validade. Só que no meu caso carregam os dias da nossa vida, naturalmente em edição limitada. Eles é que decidem se podes ficar ou tens de voltar para África. Eu sou ghanesa, e o Ghana afinal é um belo país. Uma vez vi-o no Google Earth, é pequeno comparado com a Nigéria. A minha mãe mostrou-me fotografias da sua aldeia. Vi muitos documentários na tv, no discovery channel e falta pouco para ter de fazer um exame na universidade em que um parágrafo fala precisamente da história do povo dos Akan, de que faz parte a minha mãe. Coisa séria, em suma! Amo profundamente a África e fora de ironias, não sei se se percebeu que nunca lá estive fisicamente. É lá que está o meu coração, mas o meu corpo nunca saiu daqui. Durante seis meses da minha vida fui clandestina. Não foi opção minha, mas era um período difícil e houve ciladas burocráticas que levaram a isso.
Andava pelas ruas com medo de ser detida pela polícia para qualquer controlo dos documentos, caminhava de olhos no chão para não levantar suspeitas e sentia-me mal, era presa de um pânico total até voltar a casa. Tinha de ir à Universidade e, a certa altura até pensei abandoná-la, pelo menos enquanto não se arrumasse esta situação. Era clandestina, não me sentia criminosa só por a minha licença de estadia ter caducado, mas sabem aonde vão parar os que forem apanhados sem documentos? Vão parar aos CIE. Centros de identificação e expulsão. Eu nasci em Santa Maria Capua Vetere, na província de Caserta mas poderiam prender-me e transferir para um CIE, um campo de concentração para migrantes sem documentos. É uma prisão, mas não é uma prisão, e embora tenha sido abolido o crime de clandestinidade, és tratado como criminoso, submetido a violências e torturas psicológicas. Digam lá se não é uma tortura ser separado da sua família, de amigos e de afectos que conhecias toda a vida… a ideia de nunca mais poder ver os meus amigos enchia-me de terror. Hoje em dia as coisas estão diferentes, em troca de um lauto pagamento concederam-me mais dois anos de estadia. Custa-me a acreditar ter sido a minha mãe obrigada a desembolsar tanto dinheiro para nos permitir a mim e às minhas irmãs viver no país em que nascemos. Dinheiro quer provavelmente eu nunca verei todo junto nas minhas mãos. Recordo quando era pequena e a mamã me dizia “amanhã vamos à polícia”. Entava explicar-me com uma cderta doçura e delicada leveza que sem a licença nos meteriam à força num avião e expediriam para África, o que, pensando bem agora, não teria sido tão mau como isso. Ela, que era fugira à pobreza e àquela família de colonos ingleses em cuja casa era criqada de servir, não tinha nenhuma intenção de regressar. Nunca na vida! Pelo menos enquianto não recuperasse tudo o que o ocidente lhe tinha espoliado. Há tempos, de dois em dois anos era o despertador às quatro da manhã. Enlatadas que nem sardinhas numa fétida e apertada camioneta de carreira em direcção a Caserta, eu e a minha família levávamos três horas a chegar ao nosso destino… Ao chegarmos diante da polícia, viam-se por todo o lado pessoas que aguardavam desesperadamente que o agente de serviço berrasse o número seguinte, desprezando as últimas inovações no sector dos serviços públicos. Ao cabo de mais umas horas passadas de pé chegava a nossa vez. Os agentes fardados são todos iguais quando estão do outro lado do vidro e olham para ti como se quisessem arrancar-te a cabeça à dentada. Tu só queres sair dali e levar a tua licença mas até isso te fazem pagar, e se não fores gentil, se demonstrares nem que seja o ínfimo vestígio de ressentimento… cuidado, são como os elefantes, têm boa memória e não se esquecem da tua cara. Isto era assim há muitos anos. Agora as coisas na polícia de Caserta mudaram um pouco, mas a verdade é que uma rapariga como eu que não tenha feito o requerimento aos dezoito, chegando aos vinte e um, bem pode esquecê-lo. Além disso sem um rendimento suficientemente elevado nem sequer podes entregar o requerimento. Que destino adverso… Agora a minha amiga é Italiana e estou felicíssima por ela que ao menos já se safou. Para mim é um alívio saber que tirou esse peso de cima. O mesmo não poderei dizer de mim. Jus soli, sanguinis, culturae. Disseram tanta coisa a volta deste tema, as pessoas libertam ancestrais pulsões racistas quando se fala de “raízes” e de “italianidade”. Claro. Raízes. Quais raízes exactamente? E qual italianidade? As culturas não são mónadas separadas de que não pode entrar nem sair nada, as identidades são mutáveis, fortemente subjectivas e sujeitas ao dinamismo de um tempo que se altera continuamente. As culturas consolidam-se, não se constroem e esta consolidação nasce da migração, sem a qual esta humanidade nunca teria visto a luz do dia. A pátria e esta presumida e ridícula italianidade só existem quando há guerra, campeonatos internacionais de futebol o concursos culinários. Desaparece no resto do tempo. Os disparates sobre a pureza da raça italiana e das invasões bárbaras, deixemo-los para os fascistas. No resto do nosso tempo sejamos mulheres e homens e tudo o que na minha opinião nos possa unir é a vontade de não sermos oprimidos. Vivemos a cultura das opressões de género, de raça e sinceramente não sei o que fazer de todo este lixo.
Eu entretanto continuo a lutar para obter a cidadania. Tenho esse direito, Nasci aqui como qualquer outra pessoa e não vejo razão para o Estado teimar em criar diferenças e discriminações raciais assentes em base jurídica. No caso de correr mal já sei o que fazer. Vou salvar de morrer afogado o chihuahua de uma riquíssima múmia que more num desses bairros da gente de dinheiro, do tipo Vomero ou Posillipo. Já imagino as parangonas dos jornais com a minha foto de perfil melhorado graças ao bicho. “Rapariga de cor salva cão de abastada senhora da zona. O país indigna-se. Jus só para italianos injusta. Cidadania honorária já”. Porque como todos sabemos, puxa mais um pêlo de cão do que um carro de bois…
Alexandra Lucas Coelho (em Erbil) Cristãos desde sempre no Iraque agora em fuga ao “Estado Islâmico”
Refugiados cristãos em Erbil SAFIN HAMED/AFP
Público, 30 de Maio de 2015
Entre os cristãos que fugiram de Mossul, há quem não pense voltar mesmo que o “Estado Islâmico” saia. Porque os vizinhos, árabes sunitas, ajudaram a expansão jihadista. Segundo retrato de uma região desfeita por todos os erros.
Na porta do contentor, um autocolante em inglês diz: “Salvem os cristãos do Iraque”. Lá dentro há uma família, e à volta outros contentores, outras famílias, uma pequena parte das dezenas de milhares de cristãos iraquianos que fugiram do “Estado Islâmico”, a parte que se acha a salvo e com sorte, porque um contentor é melhor do que uma tenda.
No pátio desta igreja, em Erbil, capital do Curdistão Iraquiano, contentores funcionam até como sala de música, de computadores, de brincar, o que alegra o tempo mas não reverte a história. Vizinhas por baixo de um calendário com a Virgem, adolescentes numa mesa de pinguepongue ou meninos com Legos: refugiados como milhões de iraquianos no seu próprio país, a maior parte dos quais em acampamentos onde a chuva entra, o sol queima.
É assim desde o Verão de 2014, quando o “Estado Islâmico” mudou o mapa oriental ao desfazer a fronteira entre a Síria e o Iraque. Os domínios do auto-proclamado Califado são hoje maiores do que, por exemplo, a Grã-Bretanha, e Erbil já esteve cercada, vai-não-vai para cair. Ainda há um mês a cidade tremeu quando um carro-bomba explodiu a algumas ruas daqui, junto ao Consulado Americano. Militantes do “Estado Islâmico” conseguiram atravessar o Curdistão, território que lhes é hostil, estacionar o carro em Ankawa, o bairro mais cosmopolita de Erbil, e fazê-lo explodir, matando três pessoas e ferindo 14. Atingiram assim, em simultâneo, um alvo americano e o bairro cristão, cheio de refugiados.
“As pessoas foram chegando desde 7 de Agosto de 2014, quando o ‘Estado Islâmico’ começou a atacar os cristãos em Qaraqosh”, conta Daniel Al Khoury, o jovem padre de 25 anos que recebe o PÚBLICO. Estamos apenas a 80 quilómetros de Mossul, a maior cidade do Iraque controlada pelo “Estado Islâmico”, e Qaraqosh fica a meio caminho. Os jihadistas dominaram Mossul a 10 de Junho, foram avançando na direcção de Erbil, até que a 7 de Agosto se deu a debandada de Qaraqosh, 60 mil cristãos, segundo o padre Daniel, mais outros 60 mil em diferentes regiões. “Os peshmerga [combatentes curdos] tinham prometido proteger aquelas povoações mas no último momento avisaram que já não seria possível. Então as igrejas começaram a tocar os sinos.” Era de noite, os cristãos juntaram-se para fugir em carros, autocarros, umas poucas dezenas ficaram para trás, por não terem acordado ou sido localizadas. “Ainda falámos com eles durante dois meses mas agora não sabemos o que lhes aconteceu, se estão vivos ou mortos.” O fluxo de refugiados dividiu-se pelas cidades do Curdistão, Duhok, a norte, Suleymaniah, a sul, Erbil a leste.
Só nesta igreja, Mar Elia, são 118 famílias, ao todo 546 pessoas. “No começo eram 1600. Chegaram sem nada, dormiram no jardim, a igreja começou a distribuí-los por outros espaços.” Ficou cerca de um terço. “A ONU trouxe tendas, mas era demasiado quente, e havia recém-nascidos.” Há fotografias desses dias, aulas a serem dadas dentro de tendas. “Depois outras organizações trouxeram tendas à prova de água, e há dois meses chegaram os contentores.”
Vinícius de Moraes Amizade: procura-se
(George Hendrik Breitner)
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Miguel Sousa Tavares A História não perdoa
Expresso, 30 de Maio de 2015
Segunda-feira passada, uma notícia de “Le Monde” rezava assim: “O Estado Islâmico avança e os Estados Unidos não se mexem”. Podia ter escrito antes “A Europa não se mexe”, ou “A França não se mexe”, ou “A Inglaterra não se mexe”. Mas, ao atribuir a responsabilidade de uma resposta exclusivamente aos Estados Unidos, o jornal francês mostrou que certas coisas nunca mudam: quando há um trabalho sujo e difícil para fazer, quando é preciso arriscar vidas, a Europa confia que os Estados Unidos façam esse trabalho — mesmo que a ameaça ocorra dentro ou junto das fronteiras da Europa.
Verdade se diga que, neste caso, a responsabilidade dos EUA vem de trás: a emergência, na Síria e no Iraque, do Estado Islâmico, é uma consequência directa da irresponsável e criminosa Segunda Guerra do Iraque, lançada por esse infeliz ex-Presidente americano George W. Bush. Os que — aqui, como em diversas partes do mundo — usaram as suas tribunas, o seu poder e a sua influência sobre as opiniões públicas para as fazer engolir as mentiras fabricadas pela Administração Bush a fim de justificar uma guerra injustificável e sem sentido, bem podem dormir o sono dos irresponsáveis, mas não o dos justos: os 400 mortos que o EI assassinou nos três primeiros três dias após a conquista da cidade síria de Palmira, são apenas as últimas vítimas à data de uma ideologia de violência demencial que o mundo jamais tinha testemunhado, nem sequer sob o terror nazi. E tornada possível como sequela dessa guerra, entre todas, exemplo da leviandade dos decisores políticos.
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