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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 27.11.19

O nosso segredo - Adão Cruz

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Adão Cruz  O nosso segredo

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(Adão Cruz)

O mais belo segredo da minha vida
onde o horizonte foge contra o tempo
é só nosso e de mais ninguém.
Onde as sombras negras desaparecem
ele procura ver-me na janela dos teus olhos
e tenta falar-me no silêncio do desdém.

Mais além veste-se de negro
de alma enorme e de pão quente
do eco de tudo à volta do teu ninho
de purpúreos reflexos de sol poente
de vermelho sangue em coração de gente.

Não consigo ver-te assim ausente
sem calor no deserto que aqui mora
sem o dilúvio do desejo permanente
que enche os verdes rios do meu segredo
e adormece sempre nos alvores da aurora.

Tudo me encaminha para os teus braços
quando te sentas à porta da minha idade
nesta entrada de enganos e algemas.
Mas o segredo que encarna a vida
presa nas mãos livres e serenas
veste de beleza a mentira da verdade.

Quase me obriga a pedir ao vento
uma lufada de Primavera e sentimento
mas as palavras fazem ninho
no mais doce recanto do sofrimento
e adormecem de mansinho.

Vou embora…
são horas de saber se a vida vale a pena
no dobrar dos avessos e fantasias.
Junto ao rio que os sentidos fazem e desfazem
vou correr para o lado da nascente
sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde
na implacável força da corrente.

Ainda bem que esta margem é clara e amena
e do outro lado é tudo escuro quase negro
mas quando o fogo queima o pensamento
até o segredo azul de um pálido coração
escondido no ventre dos pinheiros
parece verde como o verde da ilusão.

 

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por Augusta Clara às 19:20

Quarta-feira, 27.11.19

Lição Sobre a Água - António Gedeão

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António Gedeão  Lição Sobre a Água 

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(Leonor Fini)

Este líquido é água.
Quando pura
É inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a cem graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

(in Poesias Completas, 1956-1967, Portugália)

 

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por Augusta Clara às 17:01

Sábado, 23.11.19

Monte das oliveiras - Adão Cruz

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Adão Cruz  Monte das oliveiras

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(Adão Cruz)

 

Não sei o que entra em mim
no cálido fim desta tarde alentejana.
Não sei ao certo o que me diz
o silêncio aberto destes campos sem fim
nem sei se procuro o lugar seguro
para abrir o pensamento.
Há qualquer coisa para lá do horizonte
entre a angústia e a Esperança
estranha esperança de futuro
no silêncio aberto destes campos sem fim.
Qualquer coisa que arde no cair da tarde
entre a magia da vida
e a dor contida no monte das oliveiras.
Para lá do horizonteno fim de La Codozera
não havia ninguém à minha espera
no cálido fim desta tarde alentejana.
Nesta tarde alentejana
feita de silêncio aberto
e de campos sem fim
parei o carro na berma da estrada
que vinha do nada de onde parti
à procura da cidade
com as ruas que há dentro de mim.
Há anos que não me adormecia um sono tão profundo
nem o sol trigueiro me dourava a figura
quase azul
pintando um sonho perdido no fim do mundo.

 

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por Augusta Clara às 19:12

Segunda-feira, 18.11.19

Se eu fosse um avião - Adão Cruz

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Adão Cruz  Se eu fosse um avião

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(Adão Cruz)

Se eu fosse um avião
tinha um motor em cada mão
e voava…
Não sei para onde
mas voava para fora deste mundo…
Não há nada como um cabritinho assado
à beira da pista
com dois copos de tinto ali à mão
a força que levanta do solo
a alma de qualquer artista.
Ah! Ah! Ah!
Aquele avião amarelo
do lado de lá
mesmo á vista de quem está
do lado de cá…
Ai se eu fosse um avião
com um copo em cada mão
não esperava por malinhas de rodas
e voava…
não sei para onde
mas voava…
para fora da ilusão.

 

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por Augusta Clara às 17:05

Domingo, 17.11.19

Ensaio de Amália Rodigues e Alain Oulman sobre o poema "Soledad" de Cecília Meireles

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Ensaio de Amália Rodigues e Alain Oulman sobre o poema "Soledad" de Cecília Meireles

 

 

 

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por Augusta Clara às 21:51

Sábado, 16.11.19

NORAH JONES - Somewhere over the rainbow

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NORAH JONES - Somewhere over the rainbow

 

 

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por Augusta Clara às 19:50

Sexta-feira, 15.11.19

Minha Mãe Terra - Adão Cruz

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Adão Cruz  Minha Mãe Terra

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(Adão Cruz)

 

Agora sei que minha mãe terra
é esta terra de barro e planície
este chão de sol vermelho
e pedras de silêncio sem história.
Sei agora que minha mãe terra
dorme nas tímidas cores do horizonte
no interminável mundo de paletas impossíveis.
Agora sei que minha mãe terra
é o irrevogável rosto do passado
entre braços vazios e vozes que não se ouvem.
Sei agora que minha mãe terra
vive no eco das palavras ditas
ao longo de ruas sem qualquer sentido.
Agora sei que minha mãe terra
é o fim desta terra interminável
das palavras que ninguém ouve
e das cores que ninguém vê.
Sei agora que minha mãe terra
não é o calor do caminho da manhã
mas o frio das horas magoadas
nos dias que nascem sem nome.
Agora sei que minha mãe terra
é o lugar entre o sonho e a miragem
recriado no tormento deste barro
moldado sem memória.
Sei agora que minha mãe terra
é segunda infância sem futuro
esta inocência singular
de uma pintura sempre inacabada.
Agora sei que minha mãe terra
é o amor perdido no granito
incendiado pelo fulgor do sol poente.
Sei agora que minha mãe terra
é o chão desta planície muda
adormecida nos frágeis sonhos da madrugada.
Agora sei que minha mãe terra
é a saudade de tudo o que era… e não é nada.

 

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por Augusta Clara às 18:21

Segunda-feira, 11.11.19

Pranto pelo dia de hoje - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Pranto pelo dia de hoje

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(Almada Negreiros)

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

(in Livro Sexto, Obra Poética II, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 19:36

Domingo, 10.11.19

A Maria - Adão Cruz

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Adão Cruz  A Maria

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(Adão Cruz)

Os olhos vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência,
casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não
conseguia.
O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos
errantes fugiam da testa cada pedaço para seu lado.
A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem
baça do avesso da vida.
Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente
trémulos, como se estivessem prestes a chorar.
Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo,
apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade.
A Maria olhava-me sempre fixamente, olhos cravados nos
meus, como que a dizer: tu entendes-me tu és capaz de me
compreender.
Ela percebia o sim do meu silêncio por baixo dos olhos
vencidos.
Conheci duas mulheres iguais à Maria, fotocópias da Maria,
ambas se chamavam Maria, uma brasileira e outra francesa,
uma pisava o teatro outra o anfiteatro.
Inquilina de soleiras e vãos, a Maria pisava a grande cidade
da noite.
As mulheres da fama e da ciência derivavam a vida por
entre a lanugem dos cardos e a tangência do sentimento, a
mulher da vida era vertical e secante como folha de piteira.
A Maria mijona não tinha idade nem tempo, nem antes nem
depois, era apenas instante.
Nunca se sentara na mesa do canto fugindo de si mesma,
escolhia sempre a mesa central, desafiando os olhares e
vidrando o espaço em seu redor.
Comia a sopa, o prato de sempre, como quem tocava violino.
Apesar da mão trémula, nem um pingo deixava cair no
desbotado regaço, sumido de cores pelo uso e abuso.
Se moedas cresciam da sopa, não dispensava o brande, sua
única bebida.
Por detrás do corpo sujo de Maria mordiscava uma beleza
intrigante, tivesse ela banheira e emergiria da espuma como
sereia das águas.
Penso que nunca vi a Maria fora deste retrato, para cá da
sombra.
Por outro lado, tenho a certeza de que já dormi com ela...ou
terá sido um sonho?
A Maria nunca mais apareceu.
A última vez que a vi não tinha olhos nem boca nem cigarro,
não tinha sopa nem brande, apenas falta de ar. Engolira
o violino, e a música era uma dispneia sibilante, cântico
fúnebre gemido pelas entranhas.
Toquei-lhe no ombro e ela percebeu que eu queria levá-la.
Levantou a ponta de um sorriso e esboçou um gesto negativo
com a mão.
Afastei-me, com a sensação de que tinha profanado um
sacrário.
A Maria nunca mais apareceu.

 

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por Augusta Clara às 19:54

Quinta-feira, 07.11.19

Venus II - Camilo Pessanha

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Camilo Pessanha  Venus II

 

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Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
Impeccavel figura peregrina,
A distancia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr de rosa.
Na fria transparencia luminosa
Repousam, fundos, sob a agua plana.

E a vista sonda, reconstrue, compara.
Tantos naufragios, perdições, destroços!
Ó fulgida visão, linda mentira!

Roseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivem desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

(in CLEPSYDRA, Relógio D'Água)

 

 

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por Augusta Clara às 17:31

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