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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 29.04.20

Já não entendo este mundo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Já não entendo este mundo

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(MANEL CRUZ)

 

Não entendo este mundo moribundo
este mundo escuro
nascido sem sol e sem luar
já não entendo esta onda de sismos e cifrões
esta dor de milhões de cabeças rolando como esferas
para o fundo dos abismos.
Não entendo este mundo dilacerado e sem vida
já não aguento este frio de quatro paredes
este jogo no vazio cemitério da história
este profundo alarido
este diabólico mistério de morte concebido
esta vida sem sentido a que chama mercado
e “democracia”
a argentária escória.
Não entendo este mundo de olhos vendados
com barras de ferro
este silêncio absorto e abstracto
no assalto impune a soberanas nações
este mundo de vidas e almas sem direitos nem justiça
este mar de sangue escorrendo
pelas garras dos algozes
este rasgar de corações
este martírio dolorosamente tatuado na pele dos inocentes
por tanques e aviões
este mundo ameaçado por mísseis e canhões.
já não entendo tantas metástases
deste cancro da guerra
este perigo sistémico diariamente arquitectado
esta inelutável evolução para a desordem suprema.
Já não sou capaz de aguentar
o peso do crime chamado superlucro
brilhando como a luz do inferno na ponta dos punhais.
Não entendo este mundo
escorraçado para as bermas da fome
por esta infame corrida para um podium inglório
por entre as malhas da ganância enlouquecida
neste imparável caminho do caos e da fatalidade
na ensanguentada bandeira erguida para o nada
no constante apunhalar da liberdade.
Já não entendo este mundo apodrecido
na secura do grande rio da esperança.
Já não acredito no sonho do poeta
quando subiu a colina
para admirar o céu povoado de estrelas.

 

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por Augusta Clara às 22:16

Segunda-feira, 27.04.20

Adão Cruz, 2020

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Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 22:35

Sexta-feira, 24.04.20

Adão Cruz, 2020

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Este quadro é dedicado ao fim da quarentena

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por Augusta Clara às 19:18

Sexta-feira, 24.04.20

Vinte e cinco de Abril - Eva Cruz e Adão Cruz

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Eva Cruz e Adão Cruz  Vinte e cinco de Abril

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(Adão Cruz)

   O Vinte e Cinco de Abril é um poema universal, uma janela sagrada, um poema tantas vezes ignorado, uma janela tantas vezes fechada por quem nunca entendeu o que em Abril aconteceu. É muito difícil entender a alma dos valores, da profundidade dos versos deste poema, a abertura desta janela que dá para horizontes infinitos.

Aproxima-se esta data gloriosa num mês de sofrimento e isolamento. Por isso não a podemos celebrar com o brilho e a cor que esta ditosa Revolução dos Cravos merece, porque recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho que o Vinte e Cinco de Abril foi um fenómeno universal de iluminação das consciências, um glorioso hino de liberdade, gerador de profundas mudanças sociais e mentais em Portugal e em muitos países do mundo.

O Vinte e Cinco de Abril foi um dos fenómenos político- socais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos que formataram e aviltaram a vida. Os seus valores, nem sempre entendidos e bem interpretados por muita gente, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos tempos, percorreram o mundo de-lés-a-lés, renascendo e reproduzindo-se em elevados conceitos de direitos e deveres, de justiça e dignidade do cidadão no seio de um colectivo humano.

O Vinte e Cinco de Abril aconteceu há quase meio século. Não há muito tempo, do ponto de vista histórico. Penetrou, porém, com tal impacto em cada um de nós que nos fez repensar ideias e ideais. Que cada um recorde aqueles que tenazmente lutaram para que ele acontecesse. Neste tempo de confinamento, o nosso pensamento e a nossa palavra devem recordar a luta dos presos políticos que, muitas vezes, à custa da própria vida, levaram a que a Revolução explodisse. Quando pensamos nas nossas queixas e nas de tantos, cansados de estarem metidos dentro de quatro paredes durante escassas semanas, no conforto das suas casas, com dinheiro e comida, dotados de modernos meios de comunicação, vem-nos à cabeça a exiguidade de uma cela, a imposição do segredo, a tortura e a morte de tantos que consumiram a flor da sua vida pelo ideal da Liberdade. Verdadeiros mártires sem quaisquer aspirações a santos.

Os tempos de hoje são de pouca alegria, de medo, mas também de esperança. Por isso nos curvamos perante a grandeza deste dia, desejando que a História nunca o apague do coração da Humanidade, sobretudo do coração do Povo Português que o acolheu de braços abertos e o enfeitou orgulhosamente de Cravos Vermelhos.

 

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por Augusta Clara às 09:00

Quarta-feira, 22.04.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 15:41

Terça-feira, 21.04.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 19:52

Segunda-feira, 20.04.20

HOMENAGEM - Adão Cruz

 

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Abril abriu muitas portas, por uma delas passou o Serviço Nacional de Saúde que, justamente, se enaltece no dia da Liberdade. Nesta data histórica, a Direção do Sindicato dos Médicos do Norte realça a importância de um Serviço Público de Saúde universal e inclusivo, sem o qual não seria possível o combate sem tréguas à epidemia que nos assalta.

A Direcção do SMN

 

Adão Cruz  HOMENAGEM

   Sou médico há 56 anos. Lembro-me de sentir muitas vezes na minha vida profissional, vida que procurei levar o mais eticamente, o mais competentemente, o mais dedicadamente e conscientemente possível, desilusões e mesmo algum sentimento de desonra em pertencer à classe médica. Tudo isto, por comportamentos desviantes dentro da própria classe, dentro da sua especial missão de vida, que feriam o nosso principal tesouro, a dignidade e o profundo sentimento humanista.

Sempre tive e ainda tenho muitos amigos das mais diversas profissões, desde trabalhadores mais humildes até cientistas, empresários, políticos e banqueiros. A todos, de formas obviamente diferentes, nunca os deixei de homenagear com a minha leal e sincera amizade, e com o reconhecimento e admiração por muitos exemplos das suas vidas. Porém, esta pandemia que hoje está a roer a nossa existência individual, familiar e social criou em mim, no meio de todos os males, sentimentos que eu nunca havia experimentado de forma tão emocionada e profunda. Por isso a minha homenagem, nesta altura, a todos os profissionais de todas as áreas, amigos e desconhecidos, não pode caber dentro de limites, pois em situação tão complexa, tão intrincada e tão interactiva, é muito difícil separar os mais importantes dos menos importantes.

Nesta infelicidade que nos bateu à porta, há, no entanto, uma multidão de seres humanos que me levaram, indiscutivelmente, à reconquista de uma honra especial em pertencer à sua classe, a classe médica e o Serviço Nacional de Saúde. Um Serviço Nacional de Saúde, fruto do glorioso Vinte e Cinco de Abril, prestes a ser celebrado, um Serviço Nacional de Saúde que abrange políticos, autoridades sanitárias, administrativos, médicos, enfermeiros, auxiliares e pessoal mais anónimo, todos imprescindíveis ao seu funcionamento e ao seu mais sólido e nobre futuro. A todos a minha homenagem.

Fiz cuidados intensivos há largos anos, quando as unidades de cuidados intensivos começavam a aparecer, de forma muito primária, comparadas com as de hoje. Mesmo assim, senti bem fundo a responsabilidade e a abnegação que elas exigiam. Por isso, não me levem a mal que eu deixe aqui uma homenagem muito especial, acima de todas as homenagens, ao trabalho de todo o pessoal que de uma forma heróica dedica as suas vidas, nestes dias tão negros, à prática intensivista, em Portugal e fora de Portugal. São para mim, sem margem de dúvidas, os Heróis da actualidade, aos quais cada país, depois da vitória, deveria erguer o mais majestoso e merecido monumento.

20.04.2020

 

 

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por Augusta Clara às 19:15

Segunda-feira, 20.04.20

AntiDeuteronômio II - Adão Cruz

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Adão Cruz  AntiDeuteronômio II

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(Adão Cruz)

No tempo em que as sardinheiras das varandas dos pobres
faziam parte dos nossos sonhos
florindo em poemas de sol e de cor
no tempo em que as andorinhas
teciam grinaldas de vida nos beirais
no tempo em que os rios bordavam a terra de areia branca
no tempo em que a brisa sussurrava
por entre as flores
e as fontes murmuravam seus amores
a aurora da nossa inquietação tinha o cheiro a maçãs
e o pulsar das coisa vivas
e o levíssimo sorriso dos jardins do paraíso.
Tudo amávamos em nobre sentimento de exaltação
o mundo era transparente e fácil de amar
e cheirava a feno
a razão ondulava a frágil seara
em suave alento na quietude universal da liberdade
como harmoniosa mulher suspirando ao vento.
Tão inocente amor
tanta alegria
quem pensaria que os rios de pranto
haveriam de chegar um dia
em negra nuvem de calado voo.
Não podemos deixar que a nuvem negra
se abata sobre nós e o pensamento…
e o pensamento nos agarre no desértico silêncio
sentados ao vento
no falso sol da varanda da ilusão
e da erosão da consciência adormecida.
Não podemos deixar que a todos nos transforme
em filhos da morte
filhos de nenhum lugar e de toda a parte
figuras do vale das sombras
esgueirando-se nas sombras de outras sombras
sonâmbulos fantasmas
sem gestos de vida que nos façam acordar.
E quando for dia de sol bem alto
porque haverá sempre um dia
a rasgar a deuteronómica nuvem negra
que ameaça os campos do futuro
e o sereno assombro das pedras
e os peixes verdes dos poemas
e os rubros sorrisos que cheiram a mar
e os passos dos que aprendem a andar
e os rios que correm nos olhos de uma criança
e a memória sem tempo
jamais a exaltação da santidade
estará na morte e nas cinzas da cidade.
E não haverá espinhos nos olhos
e aguilhões nos flancos da vida…
e não haverá armas de destruição maciça
no coração das mães dos filhos exterminados.
Na diáfana manhã de um novo dia
apenas a plangente harmonia de um Stabat Mater.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 18.04.20

AntiDeuteronómio I - Adão Cruz

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Adão Cruz  AntiDeuteronómio I

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(Adão Cruz)

A cidade está deserta por dentro e por fora de nós.
Começa a não haver vivalma neste lusco-fusco brumoso
neste irracional azul de um céu de chumbo
nesta descrença de manhãs de sonho
tem bicéfalas e bárbaras bandeiras de um
mundo informe e medonho.
Seguir em frente no deserto do fim do dia
dilatar a esperança até que raie a claridade
no ventre da manhã de fogo e sangue
entrar na vereda enlameada e fria
dos homens de aço sem perfil e sem destino
virar na esquina sem luz da esperança perdida
no contra-senso divino…
ou voltar para lugar algum.
Como seria bom continuar eternamente
o caminho que nascendo dentro de nós
em fio de regato cristalino
se perde ingloriamente à flor da pele.
Assim que for dia
se dia chegar a ser nesta aparência de paisagem
não podemos deixar que a nuvem negra sombria
e a negra miragem
venham toldar a aurora da razão
e semear ruínas no coração apodrecido das nações
e no cérebro corrompido por obscenas falas
armas e cifrões
de imperiais e acéfalos patrões.
Se libertarmos da nuvem negra
a aurora da nossa interrogação
se impedirmos a negra nuvem
de apagar a luz da inquietação
na incontornável unidade do pensamento e da razão
o poema incendiará as asas do vento
e queimará as garras dos abutres
devolvendo à humanidade algum alento.
A terra engolirá os exércitos genocidas
que à sombra da nuvem negra
de deuteronómicos evangelhos
a ferro e fogo se empanturram de vidas
e se embebedam de sangue
para glória do Senhor dos Exércitos…
e jamais haverá Deuteronómio que resista
por mais petróleo que na terra exista.

 

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por Augusta Clara às 16:02

Sexta-feira, 17.04.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 19:25

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