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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 17.04.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 16:30

Quinta-feira, 16.04.20

A morte do poeta - Adão Cruz

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Adão Cruz  A morte do poeta

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(desenho de Manel Cruz)

O dilema entre o silêncio e a palavra

invade a lógica discursiva

que há no ridículo do poema.

Quem tudo vê e nada sabe

ou é poeta

ou patético peregrino

da teatral mentira que emoldura a poesia

mascarada nos buracos negros das palavras.

Morre a razão e a mente

no espaço vazio do poeta

engolido nas areias movediças

da estupidez do verso. 

Nasce a poesia

na semântica farsa das palavras

escondida nos simbolísticos restos do dilema

entre o silêncio do mundo

caído em pedaços

ou erguido nos absurdos de um poema.

Ninguém conhece a metáfora

da verdade e da mentira

só o poeta

na sua indomável vertigem da ilusão

descobrindo a poesia

nos avessos da razão.

Morre o poeta em suas manhãs de pedra e gelo

entre a verdade da mentira e a mentira da verdade

e todos lhe cobrem o corpo

com lençóis de sedução

no primeiro e último poema

do silêncio e da razão.

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por Augusta Clara às 15:25

Quarta-feira, 15.04.20

Adão Cruz, 2019

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por Augusta Clara às 15:51

Terça-feira, 14.04.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 16:46

Quinta-feira, 09.04.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 15:40

Segunda-feira, 06.04.20

Adão Cruz, 2020

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Apesar de tudo estamos em Abril

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por Augusta Clara às 16:10

Domingo, 05.04.20

O espantalho do coronavírus - Eva Cruz

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Eva Cruz  O espantalho do coronavírus

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(Adão Cruz)

   Há três semanas em clausura, completamente só e confinada às paredes de um apartamento, assaltava-me vezes sem conta a miragem do meu jardim, dos campos verdes e da minha casa da aldeia, com os seus recantos tão meus e tão agarrados à minha existência.

Foi decretado de novo o estado de emergência. Como cumpridora que sou, capacitei-me de que tinha de continuar a obedecer. Para além da saudade, havia também alguma emergência nesta minha saída, não pela falta de zelo de quem por lá trabalha mas por obrigações que cabem aos donos. Eu sabia que no período da Páscoa, as medidas seriam mais rigorosas, não se poderia sair do Concelho de residência. Decidi então munir-me de todas as precauções e, sem violar as regras, equipei-me dos pés à cabeça, peguei no carro e fui até ao meu pequeno mundo maravilhoso das Figueiras. Lá não correria perigo algum, pois estava isolada de tudo e de todos. Só aquela natureza no seu estado mais natural me inspirava a máxima confiança.

O problema era descer o elevador da minha residência até à garagem, caminhar no piso calcado e recalcado por tantos que por ali se movem. Envolvi-me num fino avental de plástico até aos pés, daqueles que se usam para dar banho aos doentes, enfiei as respectivas luvas e colei na cara a máscara branca.

Durante a viagem de cerca de dez quilómetros, retirei a máscara, pois nenhum vírus havia entrado à socapa no meu carro, ele também, bem fechado e em quarentena.

Quando cheguei ao velho portão da minha casa na aldeia, daqueles que ainda se abrem com ferrolhos, trinco e alavanca, resolvi deixar o carro cá fora. Pus de novo a máscara e as luvas e sorrateiramente abri apenas uma nesga do portão, não se desse o caso de andar por ali alguém.

De repente, uma revoada de pássaros, não sei se andorinhas, pardais ou estorninhos debandou em alvoroço e as pegas começaram a praguejar e a gritar naquele seu pio tão agreste. Um gato amarelo, que nem é meu, e por lá vive como se fosse o dono, mal me viu desapareceu que nem uma flecha. Ri-me sozinha e pensei que seria o contágio do coronavírus a assustá-los, ao gato e aos pássaros, ou aquela espécie de espantalho vivo que ali apareceu inesperadamente.

Despi a minha estranha indumentária, abri portas e portadas para deixar entrar o sol e o ar puro do campo, corri a casa de lés- a-lés, senti o cheiro de tudo a velho mas limpo, espreitei todos os cantos e recantos que me enchem de vida e voltei para o pátio. Palmilhei os campos, senti a refrescante mistura de tantas flores e aromas que por ali se abrem em pleno silêncio e liberdade e parei os olhos na cercadura lilás à volta do quintal. Nesta altura, um mar de glicínias que por lá se entrelaçam e enroscam nas vedações deixam tombar os seus cachos tão perfumados que o cheiro se sente e adivinha ao longe.

Enfeitei as jarras de Páscoa como fazia a minha mãe e coloquei na porta uma coroa de flores brancas e amarelas, o símbolo da Primavera e da cor do ovo, o cerne da vida. Polvilhei tudo com um profundo suspiro de esperança.

Pelo meio da tarde vim embora. Senti que os pássaros voltaram, talvez confiantes e contentes porque a dona apareceu e lhes enfeitou a casa de Páscoa.

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por Augusta Clara às 16:07

Sábado, 04.04.20

Adão Cruz. 2020

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por Augusta Clara às 15:18

Sexta-feira, 03.04.20

Delicadamente - Adão Cruz

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Adão Cruz  Delicadamente

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(Adão Cruz)

 

Delicadamente ela abriu a blusa
e levantou os olhos decidida.
Era uma mulher de guerra combatida
daquelas cuja face conta a história.
Mansamente
baixou a medo as alças do soutien
inclinou a cabeça e fechou os olhos
à espera da minha mão.
Depois comemos pão de centeio
molhado num golpe de azeite
bebemos um capitoso vinho
e fomos à procura de uma paisagem com cegonhas.

 

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por Augusta Clara às 17:02

Quinta-feira, 02.04.20

O ensino em quarentena - Eva Cruz

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Eva Cruz  O ensino em quarentena

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(Adão Cruz)

   Hoje telefonou-me um aluno meu de há mais de quarenta anos a saber de mim e do meu isolamento. Transmitiu-me, para além da sua preocupação e de um beijinho, a preocupação dos outros alunos do seu tempo que ainda se juntam com frequência e fazem questão de ter a minha companhia. Comovi-me.

Isto fez-me reflectir um pouco e pensar no que se está a passar no momento. Ainda bem que a tecnologia permite o ensino à distância, mobilizando professores e alunos numa dinâmica diferente. Eu, que fui pedagoga, e julgo, sem presunção, continuar a ser, apesar de há muito aposentada, procuro imaginar-me numa situação destas. Não seria fácil a tarefa, presumo eu. Não sendo uma “infoexcluída”, estou muito longe de poder estar preparada para tal trabalho. Contudo, o que mais me impressiona e confunde neste ensino, bem melhor do que não haver nenhum, é a falta do contacto humano, ver e ler no rosto dos meus alunos as reacções, as certezas e as dúvidas, o prazer, o cansaço ou o enfado, a cor e o tacto da minha palavra, dos meus gestos ou uma simples mímica para poder dar resposta às exigências de uma sala de aula na cumplicidade do ensinar e aprender.

Confesso que gostei muito de ser professora e que hoje é ainda o dia em que recordo essas vivências tão distantes no tempo, mas ainda tão presentes e tão saudosas. Desempenhei outras tarefas na Escola, mas de tudo o que mais gostei foi de dar aulas. Sei que os professores hoje se deparam com problemas tremendos de desgaste, de frustração que não merecem. Eles são a grande força que pode guiar a Humanidade pelos melhores caminhos. Sem eles o mundo não avança. É preciso urgentemente reconhecer-lhes esse valor.

Sem me querer deter na análise das causas, acho que o ensino se tornou muito formatado e pouco criativo. Falta o sonho, o sonho que alimentou a geração de Abril. Talvez por começar hoje, ele me vem á memória. Não foram momentos fáceis. Sempre achei e acho que vale a pena lutar por Abril. Abril sempre.

O acto de ensinar e aprender tem de ser vivido com alegria. Com custo sim, mas sem enfado. Isto implica muito trabalho, mas acima de tudo criatividade. Quanto mais estereotipado e formatado for o ensino menos atraente e profícuo se torna para alunos e professores. Para além de bons técnicos, precisamos acima de tudo de bons professores.

Recordo-me de uma estratégia muito usada por mim na sala de aula. Uma simples composição colectiva. A composição é das tarefas mais difíceis e mais desafiadoras em pedagogia. Desafio aqueles, que em tal não acreditam, a pegarem numa folha de papel em branco e um lápis e a escreverem sobre um tema, uma frase ou uma simples palavra. Trata-se do acto de criar que pode levar à obra de arte. Esta tarefa nem sequer implicava grandes meios ou recursos técnicos. Todos os alunos participavam com uma frase, podia ser a mais simples ou pobre mas todas eram aproveitadas, saindo normalmente um produto que os gratificava e até era motivo de orgulho. Tarefa de alto risco, sem dúvida, sobretudo numa língua estrangeira e particularmente no Alemão. A humildade de o professor poder duvidar ou errar, se tal acontecesse, e procurar o esclarecimento ou corrigir o erro era também fonte de ensinamento. Não me deixam mentir alunos e estagiários a quem procurei transmitir o que sabia, realçando que o acto colectivo bem orientado combate o individualismo tão instigado pela competitividade dos dias de hoje.

Talvez este telefonema do meu querido aluno, preocupado com a minha quarentena, tenha raiz no ensinamento que bebeu nas minhas aulas há cerca de meio século. Se assim foi, sinto que cumpri a minha missão de educadora.

Um beijinho para ti, António e para todos vós.

 

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por Augusta Clara às 14:12




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