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Jardim das Delícias



Sábado, 31.10.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 20:23

Quinta-feira, 29.10.20

O ganso do Cais do Ouro - Adão Cruz, 2020.

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Adão Cruz  O ganso do Cais do Ouro

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por Augusta Clara às 15:11

Quarta-feira, 28.10.20

O reino das aves - Eva Cruz

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Eva Cruz  O reino das aves

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(Adão Cruz)

   Um dia frio e baço de Outono. A tarde estava pardacenta, e a Ria, na sua praia-mar ou maré alta, reflectia a cor de chumbo do céu que de vez em quando deixava cair sobre ela grossas cordas de chuva. A ondulação da água batia suavemente nas margens a um ritmo musical sincopado, quase silencioso, que se esbatia pelos campos depenados. Em frente, ao longe, na outra margem, o casario pintalgava de branco a paisagem, quebrando a linha do horizonte. Do lado de cá, pela pouca profundidade, pequenos baixios lodosos deixavam a descoberto lamas e cascalho. O reino das aves. Aves sem conta.

Pousavam e esvoaçavam ao longo da ria à procura de pequenos animais marinhos, ou sobre os campos recentemente lavrados, à procura de vermes e insectos que saíam da terra revolvida. Gaivotas grandes e pequenas, pombos, maçaricos, estorninhos, uma garça- real aqui e além, isolada e contemplativa, corvos marinhos mergulhando nas águas turvas, todas as aves me eram familiares, embora não as esperasse em tal abundância. Outros pássaros, que me eram estranhos, de asas coloridas ou muito brancas, planavam à superfície das águas, dando a impressão de que eram os senhores daquele reino.

Não muito longe da margem, avistei uma mancha branca, poisada em pernas altas e escuras que lembravam estacas. Supus ser um bando de cegonhas, que as há por ali também, mas logo me apercebi, com grande espanto, de que era uma colónia de flamingos brancos. Por uma pequena estrada bordando a margem, aproximámo-nos o mais possível e vimos outros bandos, uns maiores outros mais pequenos, uns brancos e outros rosados. Ainda pensei que a cor se deveria a um raio de sol que espreitava por entre as nuvens cinzentas, mas logo vi que se tratava de bandos diferentes. Como são aves gregárias, organizam-se em pequenas colónias, que na presença de qualquer coisa estranha, se juntam e apertam de tal modo, que fazem lembrar pequenas manchas à tona de água.

Com esta imagem singular na cabeça, tentei recolher alguma informação e fiquei a saber que estes flamingos são oriundos da bacia do Mediterrâneo e migram no Outono e Inverno à procura de alimento e talvez nidificação. A foz dos rios, os estuários, os deltas, as lagoas pouco profundas, os sapais são o santuário dos flamingos. Desde há uns anos, a Ria de Aveiro, talvez devido às águas do Vouga, passou a ser também procurada por eles. A cor rosada das suas pernas e asas deve-se a um pigmento vermelho de crustáceos ou algas que fazem parte do seu alimento.

Soube bem sentir a paz desta ria e destas águas, e entrar assim no reino das aves em plena tarde de Outono. Mas para lá desta linda paisagem, impressionou-me sobretudo a beleza inspiradora daquelas manchas brancas ou rosadas pintando a tarde pardacenta. Mais do que o lirismo apaziguador desta vivência, aqueles plácidos bandos de flamingos incutiram em mim um sentimento de luz, de paz, de ascensão e de fuga desta mancha escura que estamos a viver.

 

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por Augusta Clara às 16:16

Quarta-feira, 21.10.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 16:09

Segunda-feira, 19.10.20

A oração - Eva Cruz

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Eva Cruz  A oração

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(Adão Cruz)

 

 

   Nasci em plena guerra mas sou mulher de paz. Vivi os tempos difíceis que vieram depois, em que havia falta de tudo. Tive a sorte de não o sentir, pois em minha casa havia sempre o essencial. E se não havia, eu não dava por ela, pois fui sempre criada com muito amor e carinho. Posso dizer que fui uma criança feliz, crescendo e vivendo a minha natureza entre o verde dos campos e o azul do céu. Sempre me “vesti de sol e me despi de luar”.
Para além do luar, quando a lua se dignava aparecer, não havia luz nos sombrios caminhos da aldeia. Nas noites de breu, o que nos abria os passos era uma facha de colmo ou uma mão-cheia de agulhas acesas na lareira. Dentro da maior parte das casas, valiam-se da candeia de azeite ou do candeeiro de petróleo. No meu tempo já havia electricidade, tendo sido a nossa casa uma das primeiras a ter lâmpadas acesas.
Volto a dizer que fui uma criança feliz. Houve, no entanto, algumas nuvens que cobriram, por vezes, o sol da minha felicidade infantil.
À noite, ao serão, contavam-se histórias de aterrar, desde o lobisomem em noites de lua cheia, ao tamanquear do tardo na calçada e às luzinhas de almas penadas voando frente às janelas ou pousando na enxada dos que, de madrugada, faziam a rega do milho. A minha mente de criança era uma esponja. Absorvia tudo. Ninguém dava conta daquela minha atenção, mas foi ela que alimentou muitas das minhas fantasias, umas lindas, que me faziam ver para além dos montes e das estrelas, outras feias e tenebrosas como pesadelos e visões, único tormento da minha infância. Via monstros nos galhos das videiras ou nas rancas das árvores, baloiçando com o vento nas noites de luar, criei visões e alucinações que muitas vezes levavam a terrores nocturnos. Impressionavam-me as alminhas nas encruzilhadas, com as almas a arder nas chamas do inferno, de braços no ar, gritando por clemência, uma imagem do Coração de Jesus, pendurada na parede da sala, trespassado por uma lança e a sangrar, olhando para mim em qualquer canto onde eu me posicionasse, a imagem do Senhor dos Passos, na capela, coroado de espinhos, e que fazia a devoção de minha mãe. Também cismava vezes sem conta na letra das rezas e ladainhas, particularmente da salve-rainha que falava em desterro e degredados filhos de Eva. Filhos de Eva?! Na minha inocência, cheguei a perguntar ao meu pai se tinha alguma coisa a ver comigo. Ele, descrente, bondoso e inteligente ria-se com a bonomia que lhe era peculiar, dizendo-me para esquecer e não ligar nada a essas rezas. Amávamo-nos muito e foi das pessoas do mundo com quem melhor me entendi. Minha mãe era muito devota, educando-nos religiosamente, sem qualquer interferência de meu pai.
Interessante é que, no meio de todo este fantasmagórico cenário, havia uma imagem de um santinho, oferecido pelos irmãos jesuítas do Seminário, de que eu gostava muito. Um anjinho da guarda com um ar muito doce, de asas abertas, protectoras, com as mãos quase a tocar a cabeça de um menino e uma menina, que de mãos dadas atravessavam uma ponte de pau sobre um riacho de águas cristalinas. Por trás uma oração: “Anjo da Guarda, minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia”. Vezes sem conta, ouvi minha mãe rezá-la… mas com uma pequena alteração: “Anjo da Guarda, minha companhia, guarda o corpo e a alma de meus filhos de noite e de dia”. E o que é certo é que eu em paz adormecia.

 

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por Augusta Clara às 14:52

Sábado, 10.10.20

"Graffiti" - Eva Cruz

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Eva Cruz  Graffiti

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(Jean-Michel Basquiat)

 

   Graffiti, nome plural vindo do Latim. Grafitos transformou-se numa arte que nasceu nas ruas e chegou às grandes galerias, incluindo a própria fachada da Tate Modern. Deu asas à imaginação e à criatividade nas paredes, nos muros, nas escolas, nas portas, nas casas de banho. Uma arte de aprendizagem associada a experiências transformadoras. O Maio de 68 serviu-se dessa linguagem internacional de intervenção política, nos muros de Paris. O 25 de Abril foi fértil no aproveitamento desse potencial, sobretudo na pintura de escolas deterioradas e sombrias, transformando-as, pela força da motivação e das ideologias, em lugares mais atractivos e coloridos. Era a Escola comprometida no sonho de uma vida nova. Através desses gestos e pinturas se procurava transmitir mensagens poéticas, filosóficas e de protesto. Em tempos de um predominante analfabetismo, estes graffiti eram conhecidos como bíblia política dos analfabetos, como acontecera com as pinturas de Cranach, as quais ajudaram a entender a Bíblia de Lutero e por isso ficaram conhecidas pela Bíblia dos pobres.
Infelizmente, como em tudo na vida, as boas intenções nem sempre são aproveitadas como deve ser, e depressa os graffiti passaram, em muitos casos, a puro vandalismo, a pichação associada a transgressão, a estragos de lugares ou bens sociais, incluindo paredes de edifícios públicos, carruagens de metro, e de comboio. Os backjump, pinturas em comboios parados, o end to end, pintura de ponta a ponta, o train, vagão pintado ou o whole car, de alto-a-baixo, sem qualquer critério nem estética, causando danos irreparáveis em bens colectivos.
No meu tempo de professora, muitas foram as circulares e as reformas que tentámos, no sentido de chamar a atenção para a limpeza nas escolas, e longa foi a discussão que à volta disso se gerou. Sempre fui de opinião que, como espaço educativo, a Escola tivesse lugares apropriados para o exercício dessa arte e que até fossem criados concursos e premiados trabalhos. Nunca tive receio de que esta minha opinião se estendesse à sociedade em geral. Mas com a consciência de que não se pode entrar na lei do “vale tudo”. Os bens públicos e colectivos têm de ser respeitados e transgressão é transgressão. Vivemos em sociedade, temos leis que regem o colectivo que somos. Temos uma Constituição que invocamos constantemente no que respeita aos direitos e deveres nela consagrados.
Para mim a anarquia é uma utopia, por mais bem intencionada que seja a sua ilusão teórica. A própria Vida, a Natureza, o Cosmos, o Universo obedecem a leis e às ordens que delas emanam, pois se assim não fosse, o resultado seria o caos.
Sei que é polémico e discutível o que aqui defendo, sobretudo quando se trata de concepções políticas, sociais e artísticas, mas vale o que vale, ou seja, tem o valor de uma opinião. E essa opinião leva-me a considerar que é urgente reparar o que ainda tem solução, evitando, em nome da liberdade, a destruição da verdadeira Liberdade.

 

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por Augusta Clara às 15:44

Sexta-feira, 09.10.20

A carquejeira - Adão Cruz

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Adão Cruz  A carquejeira

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por Augusta Clara às 18:05

Sexta-feira, 09.10.20

Dizem que é louca - Adão Cruz

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Adão Cruz  Dizem que é louca

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(Adão Cruz)

 

Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge dos comedores de cabeças
que vivem dentro de nós.
Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge da ferida aberta
no mais fechado segredo
dos brancos lençóis do nosso íntimo prazer.
Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge dos vampiros da mente
devoradores de sonhos e sentimentos
que habitam cobardemente
os cantos e esquinas da nossa cidade interior.
Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge do terror
de ver entrar a vida pela porta de saída
para os abismos da dor.
Dizem que é louca
mas não é.
Loucos somos nós.
Sorrimos
bocejamos
e calmamente nos sentamos
todos os dias
cegos e mudos
à mesa do café.

 

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por Augusta Clara às 17:20

Quarta-feira, 07.10.20

Águas Passadas Movem Moinhos - Eva Cruz

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Eva Cruz  Águas Passadas Movem Moinhos

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(Leonor Fini) 

   Sobe do rio um murmúrio de águas mansas, coado por entre os verdes plátanos, agarrados às margens pelas grossas e velhas raízes que há séculos por ali os alimentam. Espreguiçando-se pela manhã ou caloroso e manso pelo fim da tarde, o sol sempre se esgueira, aqui e ali, em jogos de luz, brincando ao sabor da brisa nas frondosas copas da árvores ou cintilando como pérolas de luz na água do rio.

Patos bravos seguem ao jeito da corrente, mergulhando em ginástica acrobática, ensinando os filhos ainda pequenitos que lhes vão no encalço, em ninhadas bem ordenadas e conduzidas. Pequenas manchas castanhas, salpicando a nudez do rio animam as águas quase paradas.

O pensamento também cai no rio e os olhos mergulham fundo até às suas entranhas. O mesmo rio, o mesmo leito, as mesmas margens, as mesmas árvores, as mesmas raízes. Só as águas não são as mesmas, apesar de parecerem paradas. Nem é mesma a vida que nelas corre.
 
Os olhos mergulham bem fundo, saudosos de momentos de outros dias. A mesma imagem do palácio cor-de-rosa, reflectido nas águas do rio, toma agora a cor de pedra, simples miragem do passado, iludindo o presente.
 
Assim aconteceu com D. Quixote, lutando contra moinhos de vento. Moinhos que o vento move, águas movidas pela saudade.
 
“Let bygones be bygones”, passado é passado, “it´s just water under the bridge”, é apenas água por baixo da ponte. Águas passadas não movem moinhos, mas nem tudo leva a corrente.
 
 

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por Augusta Clara às 22:39

Terça-feira, 06.10.20

A garça do Cais do Ouro - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  A garça do Cais do Ouro

 

a garça do cais do Ouro1.jpg

 

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por Augusta Clara às 22:41

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