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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 30.12.20

O açude - Eva Cruz

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Eva Cruz  O açude

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(Adão Cruz)

 

   De regresso a casa depois do Natal, vivido como sempre no meu cantinho da aldeia, entre memórias, aletrias, rabanadas e lareira, parei o carro no cimo de um mato que nos pertence, ao ver que alguma coisa me havia despertado inesperadamente a atenção. Na margem da estrada, no local onde toda a vida se erguera uma cortina cerrada de árvores e arbustos, surgiu uma ampla clareira que deixava a descoberto uma paisagem que nunca dali se avistara.

Os meus olhos poisaram de imediato no rio que ao fundo corria por entre os lameiros, dobrando-se sobre um farto açude que ao brilho do sol poente tomava a cor da prata. O riacho, pouco mais largo do que uma ribeira em dias de Verão, levava agora tanta água que parecia um grande rio, todo vaidoso do seu caudal engrossado pelas chuvas abundantes deste Inverno.

Por ali me vi e me revi, pequenita, pela mão de meu pai, que de vez em quando ia ver as terras que tínhamos ao longe, arrendadas e feitas pelos caseiros. Saber como iam as coisas, se era boa a nascença, se era respeitada a lei da rega, se algum talhadouro estava mal talhado, se já pintava o bago, eram razões para a visita de meu pai. Recordo como se fosse hoje o lameiro mesmo à beira do rio, ladeado por uma ramada baixinha, onde havia videiras americanas que pintavam mais cedo. O meu pai tirava alguns bagos mais maduros para eu provar, com a preocupação de algum arejo ou moléstia, por não serem lavados. Naquele tempo, a economia de uma família era a terra, o milho e o vinho. Uma má colheita era um desastre para caseiros e senhorios.
 
Ali me mantive por alguns momentos, deixando os meus olhos fundir silenciosamente presente e passado, desfolhando páginas esquecidas deste saudoso álbum a preto e branco da minha infância. Senti que poisavam no açude como as borboletas brancas que as minhas mãos pequeninas tentavam caçar. A mesma natureza, o mesmo cenário, o mesmo palco, agora vazio, sem história nem actores. Talvez ainda houvesse crisálidas… e ainda nascessem borboletas, voando sobre a água e as flores a ligar as dobras do tempo. Meti-me no carro e rumei a casa com os olhos cheios de água… do açude.

 

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por Augusta Clara às 18:32

Quarta-feira, 30.12.20

A FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS e o SINDICATO DOS MÉDICOS DO NORTE editaram uma AGENDA 2021 com um quadro do ADÃO CRUZ na capa e um poema também seu na contracapa.

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por Augusta Clara às 01:05

Segunda-feira, 14.12.20

Almas grandes - Adão Cruz

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Adão Cruz  Almas grandes

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(Adão Cruz)

 

   Há almas grandes, almas pequenas e almas…sem alma. Eu penso que quem sente necessidade vital da escrita ou de qualquer outra forma de expressão artística, seja autor, leitor ou contemplador, procura nela o mais sublime sentimento humano, o amor. Não é fácil, porque tenham de inato aquilo que tiverem, os sentimentos vivem-se, constroem-se, estruturam-se, apuram-se e afinam-se. Para o bem… e para o mal, infelizmente.
 
Quem quer que o consiga perceber talvez possa estar no caminho das almas grandes. E o que será, no meu entender, uma alma grande? Qualquer um de nós pode ser uma alma grande, uma alma pequena ou uma alma…sem alma.
 
Sem introduzir aqui quaisquer conceitos ou critérios de moralidade ou natureza mística, eu julgo que uma alma grande é a que consegue subir até àquela espécie de interface que separa a natureza antropocêntrica, mais ou menos egoísta do ser humano e a sua dimensão universal, ainda que esta não seja mais, como sempre tenho dito, do que um belo dia de primavera nos olhos de um prisioneiro. Uma paisagem onde a mente consegue vislumbrar o verdadeiro e autêntico sentimento do cósmico, do verdadeiro e autêntico sentimento do ser e do existir, do verdadeiro e autêntico sentimento do real e incompreendido sentido da vida, do verdadeiro e autêntico sentimento de irmandade humana, do verdadeiro e autêntico sentimento poético e artístico do ser humano, bem como a mais elevada relação do Homem com a dignidade, a honestidade e a fraternidade. Quem ama a arte da vida e a vida da arte procura dar à sua obra ou à sua paixão, muitas vezes de forma mais consciente ou menos consciente, toda a sua alma, tudo o que é, toda a sua vida, toda a sua estrutura mental e cultural.
 
Por isso eu penso que este amor, o único que enriquece e enobrece todos os nossos processos de humanização, o que mantém limpa e transparente a nossa consciência, o que afina todas as nossas emoções e sentimentos, o que nos aproxima de todos os mecanismos de identificação com a verdade, sim, é ele o difícil mas compensador caminho da harmonia que poderá definir as almas grandes.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Segunda-feira, 07.12.20

Branca de neve - Eva Cruz

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Eva Cruz  Branca de neve

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(fotografia de Adão Cruz)

   A serra é mágica na sua simplicidade. Vestida de mimosas, pintada do amarelo do tojo e da giesta, rosada da urze, pintalgada de outono, despida de folhas, cinzenta das fragas, negra de breu, branca de neve, a serra é alma e coração de quem a ama. Mar de frescura, porto de abrigo, lar de aconchego, horizonte de liberdade, é a serra que nos solta os pés para chegarmos ao céu.
Sempre amei a serra. Desde criança que os meus olhos aprenderam a vê-la ao longe, erguendo-se sobre o vale, dourada de sol e de lua, prateada de neblina, flamejada de relâmpagos, praguejada de trovões ou serenamente abraçada de arco-íris.
A Serra da Freita é um tesouro que nunca me canso de visitar porque nunca me cansa o seu regaço. Desde muito nova que lhe conheço os caminhos por mais avessos que sejam, quando nem estradas havia. Ao fim de muitas horas, de cajado na mão, lá chegávamos ao cimo, por estreitos carreiros talhados no chão pelo andar de muitos anos e de muitos pés. Nunca da memória se esvai o prazer do saboroso farnel, a toalha estendida sobre as lajes ou nas margens do rio Caima por ali nascido, ainda criança, de água saltitante e cristalina, desconhecendo o abismo que mais à frente o há-de precipitar de uma altura medonha, na Frecha da Mizarela.
Hoje, não é assim. O carro vai onde quer que seja e nós não resistimos a fazer-lhe a vontade, como aconteceu. De outra forma, a idade nunca poderia aceitar a constante sedução da sua íngreme subida e o repouso do seu planalto. O sol abriu, e apesar do frio, apetecia respirar aquele ar puro que tudo parece limpar dentro de nós. A meio do caminho, porém, uma insidiosa cortina cinzenta parecia coar lentamente a luz do sol, e de repente as árvores e arbustos despidos começaram a vestir-se de um nevoeiro brilhante como num conto de fadas. No ar dançavam gotículas prateadas como numa bola de cristal. Foi tudo tão rápido que não nos apercebemos de que estava a nevar intensamente. Um deslumbramento! Cada vez mais densa, a neve caía em flocos, e em poucos minutos tudo ficou coberto de um manto branco. Como por artes mágicas, a paisagem transfigurou-se por completo numa espécie de fantasia de postal, envolvendo-nos numa inesperada beleza que enchia os olhos e a alma. Por prudência, não subimos mais e retomámos lentamente a descida, deixando Schneewittchen para trás, branca de neve, nostalgia de uma infância encantada pelos contos dos Irmãos Grimm. Talvez, quem sabe, os Sete Anões andassem por ali, mas já não tivemos coragem de os procurar.

 

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por Augusta Clara às 14:07

Domingo, 06.12.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 17:40

Sábado, 05.12.20

África versus Mahler - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  África versus Mahler

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(Adão Cruz)

 

   Tinha pensado escrever sobre África mas, vergonhosamente tarde, descobri Mahler. E a minha felicidade disparou.
Quem opta pela dor perante o prazer?
Fui arrastada, arrasada, por esse fragor e fiquei à deriva. Uma ampla asa metálica levou-me pelos espaços e esqueci-me do discurso que tinha engendrado sobre aquela penosa realidade.
Não se pode ser feliz ao mesmo tempo que se constata a dor dos outros. É da natureza humana.
O que Ki-Zerbo defendia, também, era a felicidade para África. Não sabia era para quando.
Joseph Ki-Zerbo desmistificou a África exótica, dos cheiros e das cores, cujo rasto apenas encontrou na História da Europa, a propósito do comércio de escravos, quando estudava na Sorbonne.
O que ele queria para essa parte do mundo, onde a Humanidade se descobriu a si própria, à sua fala, à sua escrita, à sua música, era o reconhecimento duma genuinidade, ao contrário da vil classificação de Pré-História para todo o seu percurso vivencial. Pré-História da História Europeia, claro está, à qual não deixaria mais de estar ligada, mas apenas como um apêndice.
Joseph Ki-Zerbo não era um nostálgico da África pré-colonial, mas soube reconhecer como, ao interromper os fluxos comerciais e culturais entre a África Central e os povos do Norte do continente, o colonialismo enfraqueceu deliberadamente o progresso que se processava de forma harmoniosa para os povos das sociedades africanas. Cidades como Tombuctu, nos séculos XIII e XIV, tinham um desenvolvimento cultural maior que muitas cidades da Europa, a ela afluindo professores universitários e alunos de além Sara. Essa foi a evolução que o colonialismo travou.
Ele não repudiava o desenvolvimento das tecnologias de informação e de outras tecnologias de ponta. O que constatava era que a importação pura e simples dessas tecnologias tal como eram concebidas nos países do Norte não servia os genuínos objectivos das sociedades africanas no seu todo. Haveria que, aproveitando esses valiosos instrumentos, pô-los ao seu serviço mas impedindo que minassem os valores intrínsecos dessas sociedades por ele identificados como o amor, a descoberta de uma verdade científica, a amizade, a estética ou a música. Para ele “o mundo dos valores é uma imensidade que ultrapassa de longe o mundo material”.
Pelos auscultadores, entra-me, agora, o “Adagietto” da 5ª.Sinfonia, considerado já como um dos mais preciosos trechos da música clássica. A mim, analfabeta musical, soa-me a beleza em estado puro. Thomas Mann, “A Morte em Veneza”, Visconti. Quando as imagens se associam o prazer é mais intenso
O que esse velho sábio burquino, nascido no antigo Alto Volta, queria era o contrário do que está a acontecer hoje: a África há séculos saqueada das suas matérias-primas, vê-as, agora, irem-se tornando progressivamente inúteis pelo desenvolvimento tecnológico dos seus predadores de sempre. Exemplo deste facto é o aparecimento da fibra óptica que arruinou a Zâmbia substituindo o cobre que era a sua principal matéria-prima. Não quereria ter visto o desenvolvimento erróneo de uma classe média despolitizada, perdida da sua cultura original e transformada em presa consumidora de marcas das transnacionais em fuga às zonas mundiais em crise.
Mas eis os violinos, em massa, em uníssono, em apoteose. Verdadeiro sortilégio.
O meu cérebro suspendeu-se. Só pulsa o coração e muitas outras fibras de que não sei a designação anatómica.
Estou em morte cerebral. Passei para outro mundo.
África fica para depois. A felicidade não se pode adiar. Não se deve. Puro egoísmo humano? Que me perdoem os deuses mas a vida é curta. Não chega para tanto.
Também, tem tempo. Poucos africanos se terão apercebido bem do que Ki-Zerbo desejava. Uns porque ainda não têm condições para isso; outros porque nem o desejam mesmo. Há visões mais tentadoras de imediato.
Quanto a mim, Mahler, o avassalador Mahler fez-me apaixonar. Quando estiver saciada deste prazer, logo volto a pensar.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. Joseph Ki-Zerbo (entrevista de René Holenstein), Para Quando África?, Campo das Letras, 2006.
2. Jean-Christophe Servant, “A Miragem das Classes Médias Africanas”, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Agosto de 2010.

 

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por Augusta Clara às 21:26

Quarta-feira, 02.12.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 16:31

Terça-feira, 01.12.20

Maradona - Eva Cruz

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Eva Cruz  Maradona

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(A. Jansson)

   Que sei eu de futebol? Que sei eu de Maradona? Eu própria me sinto estranha ao tentar abordar tal assunto, ao falar de um jogador de futebol. Nada percebo de futebol, apesar de ter vivido sempre rodeada de gente falando de golos, de campeonatos e coisas que tais. Alguns nomes me foram inculcados nos neurónios, sem que para tal eu tenha feito qualquer esforço: Eusébio, Pelé, Maradona…Gente pobre, nascida em colchão de palha, dormida em berço de pau, criada em bairro de lata, com direito a sonhos que mais não eram do que utópicas fantasias. Alguns acreditaram na sua potencial e cósmica realização, e persistiram tenazmente nessa ideia de que era possível fazer rolar o sonho dentro de uma bola imitando o rolar do mundo. De forma inata, nem de outra forma podia ser, atravessaram a dureza da vida, jogando descalços com bola de trapos, até levarem o génio e a força do engenho ao arrebatamento de multidões, soltando lágrimas do mais fundo dos olhos.
Confesso que é um fenómeno que não consigo entender. Seja arte ou não, poesia ou alucinação, arroubo ou ascese, nada arrebata o ser humano como o relvado de um campo de futebol. Apenas uma bola. Dá que pensar!
O futebol é hoje uma máquina mundial emergindo do mais profundo oceano da baixeza humana até ao mais alto céu da glória. Maradona, pelo pouco que procurei saber da sua vida, foi um menino pobre, o pobre Diego. A máquina da glória ergueu o seu génio à altura do céu e a máquina trituradora levou-o às portas do inferno. Não chegou a entrar porque era humilde, nunca se pôs em bicos de pés e nunca se ajoelhou nem esqueceu o mundo do humanismo que veste a alma de qualquer ser humano autêntico, seja ele do relvado, da passadeira de púrpura ou de qualquer campo de terra batida. O seu génio e o seu coração foram, sem dúvida, os braços que levaram as multidões a erguê-lo ao altar dos imortais.

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por Augusta Clara às 00:47



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