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Jardim das Delícias



Sábado, 30.01.21

Memórias, saudades, alegrias e tristezas - Adão Cruz

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Adão Cruz  Memórias, saudades, alegrias e tristezas

   Este é o meu velho consultório de há quase cinquenta anos, fechado desde o início da pandemia. Entro lá de vez em quando, sento-me no sofá, e os meus olhos enchem-se de vazio. Não admira. Por aqui passaram milhares de pacientes, de Vale de Cambra, S. João da Madeira, Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis, Sever do Vouga, Arouca, Alvarenga, Castelo de Paiva, Castro Daire, Cinfães do Douro, Amarante, Gondomar, Porto, Matosinhos, Espinho, Ovar, Estarreja, Aveiro, Albergaria e mesmo de mais longe, como S. Pedro do Sul, Viseu, Carregal do Sal, Guarda e até de Lisboa. Por aqui passaram também neste meio século muitos emigrantes, sobretudo em tempo de férias, da França, da Inglaterra, da Alemanha, da Suíça, do Luxemburgo, da Venezuela, do Brasil e até dos Estados Unidos.

A quarta fotografia mostra dois aparelhos, ecocardiógrafos. O mais pequeno, do lado esquerdo, um Alloka SSD 110 S (peça de museu), foi o primeiro ecocardiógrafo bidimensional que entrou no país, importado directamente do Japão. O da segunda foto foi o último que adquiri e que funciona correctamente. Tive ao todo oito ecocardiógrafos, três neste consultório e mais cinco no Gabinete de Ecocardiografia, em colaboração com os meus grandes e inesquecíveis amigos Dr. Duarte Correia e Professor Cassiano Abreu Lima. Entre eles, o primeiro Eco-Doppler a cor. Havia apenas dois laboratórios de Ecocardiografia no Porto que serviam todo o norte de Portugal.

A quinta foto a contar do fim mostra a velha secretária da minha empregada Aldina, mulher carinhosa e simpática que os doentes adoravam, conhecida por todas as redondezas e que sempre me acompanhou em quase sessenta anos, desde o início da clínica geral em Vale de cambra, antes e depois da guerra da Guiné.

A quarta fotografia a contar do fim mostra o soneto que dediquei ao meu pai e que ainda se encontra na parede da primitiva sala de espera. As três seguintes são algumas das minhas primeiras pinturas que ainda por lá se encontram penduradas.

A despeito da idade, tudo poderia acabar de forma menos dura e menos triste, se não fosse a maldita pandemia. Mas a vida é assim e não há volta a dar-lhe.

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por Augusta Clara às 19:16

Sexta-feira, 29.01.21

Adão Cruz, 2021

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por Augusta Clara às 17:07

Segunda-feira, 25.01.21

Adão Cruz, 2021

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 18.01.21

Adão Cruz, 2021

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por Augusta Clara às 21:52

Sábado, 16.01.21

Adão Cruz, 2021

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por Augusta Clara às 16:59

Sexta-feira, 15.01.21

Para o Adriano - Adão Cruz

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Adão Cruz  Para o Adriano

 

 

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“E de súbito um sino”
um cravo vermelho
“Raiz” de vida no céu de chumbo
aberto em dia limpo e perfumado.
“E a carne se fez verbo”
“Por aquele caminho” da esperança
às portas da cidade
“E o bosque se fez barco”
por aquele mar de sonho
na “Trova do vento que passa”.
 
Todo o mel escorria por entre “As mãos”
e todos os frutos do “Regresso”
eram versos de “Uma canção (sem) lágrimas”
na “Canção da nossa tristeza”.
Graças a ti cravo vermelho
que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã abriu o coração
na “Fala do homem nascido”.
“O sol perguntou à lua”
quando “A noite dos poetas” se fez de estrelas
que desceram aos cantos do jardim
 
se eram cravos vermelhos
ou a “Canção tão simples”
da tua voz sempre divina
numa “Cantiga de amigo”.
O mundo tinha o sabor a maçã
não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira
na praça do entusiasmo.
Os olhos de todos nós
eram cravos vermelhos
dormindo um sono de criança
entre “As mãos” da revolução.
“Como hei-de amar serenamente”
esta voz da “Roseira brava”
e os cabelos trigueiros desta seara
dourada pelo sol e pela lua
a “Cantar para um pastor”
a canção de Abril que encheu a rua.

 

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por Augusta Clara às 17:58

Sexta-feira, 15.01.21

Trova do vento que passa - Eva Cruz

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Eva Cruz  Trova do vento que passa

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   A lareira a crepitar, a árvore de Natal ao lado a tremeluzir, e a saudosa voz de ADRIANO libertando-se de um antigo LP de vinil, a rodar no velho gira-discos Dual, trazido da Alemanha pelos amigos Margitte e Jürgen.

Trova do vento que passa…!

Deixei-me levar nas asas do vento que passa, e no infindo écran da memória vi-me a percorrer a calcetada e estreita Rua do Loureiro, na velha Alta Coimbrã, tão estreita que nela mal cabia a largura de um carro. Os peões tinham de se enfiar na ombreira das portas para lhe dar passagem. Na esquina com a travessa da Matemática, lá estava o número 16, a casa da Dr.ª Virgínia Gersão, tia da escritora Teolinda Gersão e como ela também escritora e interventora parlamentar com trabalhos sobre o Ensino. Fora a grande paixão do Menano. Ficara solteira para criar dois sobrinhos que cedo se tornaram órfãos de pai e mãe. Recebia como hóspedes meninas universitárias. Paralela à Rua do Loureiro, na Rua da Matemática, morava o ADRIANO, no número 6, na Real República do RásTe parta. Com ele várias vezes me cruzei e lembro-me de ter votado na lista para a Associação Académica que incluía o seu nome. Ainda a Velha Academia era perto das Escadas de Minerva, iniciando-se a sessão com três pancadas de martelo. Acompanhava-me sempre a grande amiga Lídia Gama que infelizmente já partiu. Minha companheira de quarto, foi mais tarde  médica pediatra no Hospital da Estefânia. Mais velha do que eu, muito com ela eu aprendi. Uma personalidade que se impunha naquela sociedade machista dos anos sessenta, em que as estudantes ficavam queimadas se eram vistas duas vezes na Baixa. A Lídia era um exemplo de inteligência, sabedoria, ética e estética. Uma mulata esguia, linda, de olhos amendoados, angolana, filha de pai branco da alta sociedade. Era da JUC, mais tarde do Graal, sendo através dela que conheci a engenheira Lurdes Pintassilgo.

Trova do vento que passa…!

Na Rua do Loureiro, para além da nossa casa, havia de um lado a casa mãe, onde tomávamos banho e eram servidas as refeições, e do outro lado os quartos das estudantes. Havia ainda a casa de um médico, o Dr. Castela, primo da Lídia, e a casa de um explicador de matemática de cujo nome já não me recordo. Entre os restantes havia gente humilde e pobre. O Sr. Luís sapateiro que me fazia o nó da gravata sempre que eu vestia o traje académico e a pobre Sofia, com uma ninhada de filhos de um amante, que herdaram o sobrenome do marido. No casebre do rés-do-chão lá estava sempre uma chupeta de pano atada com um cordel, e ao lado uma pequena malga com açúcar para a adoçar e calar o mais pequenito. A própria Lídia, pessoa muito respeitada, ao passar a caminho da Faculdade, se via o puto a chorar, entrava, metia a chupeta no açúcar, enfiava-lha na boca e a criança calava-se. No nosso quarto havia um gira-discos que tocava para a rua toda. Logo pela manhã, a Lídia abria a janela e punha o som no máximo. No quarto, quase não nos ouvíamos, de tão alta a música. Édith Piaf, Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, André Claveau, Jacques Brell, Yves Montand. Canções  como La vie en rose, Milord, Mourrir d´Aimer, Et maintenant, Dominó, La chanson des vieux amants, Les feuilles mortes voavam pelo ar enchendo a rua de lés-a-lés.

Trova do vento que passa… !

Na travessa da Matemática morava a Hermengarda, mesmo em frente a uma das janelas do nosso quarto, uma das conhecidas prostitutas da Alta Coimbrã. A Lídia chegou a ir a casa dela dar-lhe injecções. A Hermengarda punha um vaso à janela sempre que estava ocupada. Nas noites cálidas de Verão, quando só era possível estudar de noite, ouviam-se vozes aqui e além, sem se saber de onde, a ler e reler as velhas páginas da sebenta. A Hermengarda, de vestido de veludo preto sem mangas, saía com um cântaro de barro à cabeça a buscar água à Torre de Anto, perto do célebre Quebra Costas e dizia: - Boa noite doutor. Como ninguém lhe respondia, ela replicava: - Ai UniversidadeUniversidade, que educação dás tu a esta gente!

Coimbra foi e é realmente Uma lição de sonho e tradição…  

Trova do vento que passa…!

A lareira crepitava cheia de lume, e o disco ainda rodava como que tocado pelo vento. Ouvi então a serenata na Rua do Loureiro, tangida por um grupo de capas negras, iniciada pelo estilhaço provocado por uma pedra que alguém atirou ao lampião, ficando a rua às escuras, apenas com o luar bem aberto no céu negro. Era da praxe apagarem-se as luzes, e assim fizemos na nossa casa. Um sussurro nas escadas e um murmúrio de vozes no nosso quarto aos primeiros acordes da guitarra. Reconheceram na noite a voz do ADRIANO amparada pela guitarra do OCTÁVIO. O Octávio Sérgio, brilhante guitarrista de Zeca Afonso era amigo daquele que um dia veio a ser o meu marido. Cantaram, entre outras canções, a Senhora do Almortão. Quando se ouviu minha maçã camoesa criada no Paraíso, todas disseram que a serenata era para a Eva. Mais tarde vim a confirmar que sim. Um estudante algarvio, de medicina, que me perseguia quase há um ano e que muito me intrigava fora o autor da proeza. Muito alto, de olhos verdes, sempre de capa e batina, fumava cachimbo Mayflower, escrevia versos para a Via Latina e Briosa. Diziam que era do reviralho. Falava-me em cortina de ferro e eu só conhecia cortinas de pano, dizia-se ateu, e eu era menina da JUC, de comunhão diária. Ele achava-me uma criança e dizia que o atraía o meu ar angelical. Para mim, ele era o diabo em figura de gente. Anos mais tarde voltou a Coimbra, telefonou lá para casa e logo reconheci a sua voz quente e meiga. Disse-me que viera a Coimbra em romagem de saudade e que ia partir para a guerra de Angola. - Peço-lhe que me deseje boa sorte. Se morrer, lá a encontrarei nesse céu em que a Eva acredita e eu não. Constou que mais tarde fora parar ao Tarrafal.

Trova do vento que passa…!

…Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa.

…e o vento passou… e com ele levou o ADRIANO, mas o vento não teve força para enfrentar  a força da melodia dessa voz que nunca nos deixou. 

 

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por Augusta Clara às 16:32

Quarta-feira, 13.01.21

Adão Cruz, 2021

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por Augusta Clara às 18:16

Quarta-feira, 13.01.21

Adão Cruz, 2021

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por Augusta Clara às 16:41

Terça-feira, 12.01.21

Bom proveito, Adão!

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por Augusta Clara às 20:22

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