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Jardim das Delícias



Segunda-feira, 31.05.21

Vem cá do fundo - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Vem cá do fundo

a eva e o pássaro azul1.jpg

(Adão Cruz)

Vem cá do fundo uma tristeza enorme
que varre o sorriso dos lábios
e perpassa o ar de saudade
sem o perfume do ligustro ou do jasmim.
Perde-se no absoluto e na razão da finitude
e os sonhos murcham no seio da realidade.
Voam andorinhas e estorninhos entre as árvores
imersas no verde da Primavera
e o rio desafia o tempo na eternidade das águas
que os patos sulcam em flecha até à margem
buscando alimento no interior do silêncio e da memória.
Não tenho coragem para lhes dizer não
e no fim partem em debandada.
Apenas o pato branco
de brancura sem mácula
se detém na margem
a namorar o meu rosto esquecido
nas lembranças da vida.
Tão manso no olhar
só ele poderia despertar
o sorriso do meu rosto perdido.

 

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por Augusta Clara às 18:50

Segunda-feira, 24.05.21

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

IMG_5815a.jpg

 

(Adão Cruz) 

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia
entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento
que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas
rouxinóis e cotovias
sardões
caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 02:23

Sábado, 15.05.21

Palestina - Adão Cruz

o balanço das folhas3a.jpg

 

Adão Cruz  Palestina

Palestina 5a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Não há sol nos céus da Palestina
não há luz nos olhos da Palestina
roubaram o sorriso à Palestina.
São de sangue as gotas de orvalho da madrugada
e o vento só é vento quando as balas assobiam
roubaram as manhãs à Palestina.
O céu de chumbo esmaga as almas e os ossos
e é de lágrimas a chuva quando cai
não há sol nos céus da Palestina.
Do ventre da lua cheia de aço e de amargura
nasce a cada hora um menino com bombas à cintura
mataram a infância na Palestina.
Rasgam as mães os seios com arroubos de ternura
para alimentar a raiva
por cada filho que perdem outro nasce da sepultura
semearam a dor na Palestina.
Nas casas esventradas
rompem por entre as pedras leitos de sofrimento
onde à noite se acoitam os amantes
queimando a dor na paixão de um momento
fizeram em pedaços o amor na Palestina.
Cada instante é uma vida na vida da Palestina
cada momento uma taça de vingança clandestina
cada gesto um vulcão de raiva que nem a morte amansa
roubaram a paz à Palestina.
Na sombra do dia ou na calada da noite
cravam os vampiros nazis seus dentes de ferro
no coração da Palestina
não há sangue que farte a fúria assassina
sangraram cobardemente a Palestina.
Para atirar contra os tanques uma pedra
agiganta-se o ódio a cada bater do coração
por não haver sangue de tanto sangue vertido
outra força não há para erguer a mão...
e dar à Palestina algum sentido.

 

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por Augusta Clara às 21:16

Sexta-feira, 07.05.21

A Masculinidade Dominante - António Guerreiro

ao cair da tarde 5b.jpg

 

António Guerreiro  A Masculinidade Dominante

 

antónio gierreiro.png

Ípsilon, 7 de Maio dev2021
   Era de prever: a longa história da dominação
masculina, que se manteve quase intacta
mesmo depois de todos os combates pelas
liberdades e emancipações nos mais diversos
domínios políticos e sociais iria desencadear,
quando os ventos soprassem de feição, um
ambiente de guerra dos sexos e dos géneros. Esse
ambiente está instaurado e não há tréguas à vista.
Os vários feminismos, do século XIX ao nosso
tempo, foram ainda tentativas pacíficas de
reivindicar a igualdade entre homens e mulheres.
Tratou-se sempre de reclamar os direitos que os
homens já tinham, mas sem pôr em causa
verdadeiramente as prerrogativas masculinas. O
feminismo procedia pela nomeação e interrogação
das mulheres, sobre si próprias e os seus direitos. O
movimento #MeToo introduziu um aspecto
diferente: nomeou e apontou com o dedo a
sociedade patriarcal, masculina; objectivou o que
sempre tinha tido o estatuto de sujeito. E fê-lo com
uma fúria que tem sido, nalguns momentos,
associado a um terror delator. O #MeToo pôs os
homens causa, declarou guerra à permanência do
patriarcado, assaltou as fortalezas que guardavam os
privilégios de género. Não é propriamente um
movimento de reivindicação, como foram os vários
feminismos, mas de ataque; tem um pensamento
estratégico e não se fica pelas tácticas. Em suma:
recorreu a alguma violência contra o que jamais se
transformaria por meios pacíficos.
Nomear e objectivar o masculino, interrogá-lo e
pô-lo em causa, é uma operação da maior
importância, na medida em que lhe retira o
privilégio que sempre teve: o de ser o próprio lugar
da razão (daí, a mulher como bruxa, histérica,
irracional, “continente negro”). Trata-se de uma
autêntica revolução que muitos ainda não
compreenderam ou que relacionam apenas com a
guerra em curso e as suas tropas mais avançadas.
Mas essa operação alargou-se, está a ser levada a
cabo também por outros meios, mais serenos e
reflexivos, o que é uma prova de que, para além de
todo o ambiente de guerra, há algo muito mais
profundo e irreversível que veio a de cima. Ou do
qual essa guerra é um sintoma. Um historiador e
escritor francês, Ivan Jablonka, tem dado um
contributo enorme para uma crítica da sociedade
patriarcal, da dominação masculina, tão alienada do
exercício de introspecção. No seu último livro, Des
hommes justes. Du patriarcat aux nouvelles
masculimités, ele define uma moral do masculino,
capaz de instaurar uma “justiça de género”.
Trata-se, como se diz logo na introdução, de uma
utopia. Mas de uma utopia que deve guiar o
pensamento e a acção. Essa “justiça de género”
obriga, por exemplo, a pensar muito a sério o que se
tem revelado muito difícil de pensar, a diferença
entre a sedução e o assédio, sem que se acuse de
operação “policial” o que é uma prática justa ou,
inversamente, sem que a justiça de género se
transforme em polícia de género. Ivan Jablonka
mostra que não tem nada de bizarro — e responde
adequadamente a uma necessidade terminológica —
o conceito de “masculinidade tóxica”. É um modo
de definir certas formas de masculinidade que
consistem na adesão, responsável por modos de
alienação masculina, a um certo número de
estereótipos. O que é que a masculinidade tóxica
aliena? Aquilo a que Jablonka chama as
“masculinidades dissidentes”. A masculinidade
tóxica coincide com o modelo do macho tradicional
(cujo reinado, diz Jablonka, chegou ao fim) como
máquina de dominação, não apenas das mulheres,
mas também dos homens cuja masculinidade é
considerada ilegítima, dissidente ou débil. Por isso, é
importante que aquilo que dantes era designado
como “drama passional” seja hoje dito com a palavra
“feminicício” porque é disso que se trata: uma
mulher que é morta pelo cônjuge ou ex-cônjuge
enquanto mulher. A masculinidade criminosa é uma
tipologia que não tem equivalente no feminino, o
que mostra bem até onde chega a masculinidade de
dominação.
A utilização do plural, masculinidades e não
masculinidade, é da maior importância no discurso
de Jablonka. Desde logo porque permite dissociar a
masculinidade da virilidade (a primeira tem um
sentido muito mais lato), e depois porque é um
modo de dizer que não existe o “eterno masculino”,
há muitas formas de ser homem. Na verdade, o
“eterno feminino” foi uma operação retórica através
da qual era o masculino que se eternizava, até
porque o que sempre se disse, antes e depois de
Verdi, é que “la donna è mobile".
 

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por Augusta Clara às 17:04

Quarta-feira, 05.05.21

PAUL KLEE - Jarras com flores

flores em jarras1.jpg

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por Augusta Clara às 19:19

Segunda-feira, 03.05.21

O velho eléctrico - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O velho eléctrico

eléctricos.jpg

   O rio, junto à Foz, é quase um lago de águas paradas. Não tem a cor do ouro que lhe dá o nome, antes reflecte o azul do céu e do mar que ali o espera um pouco mais à frente para o abraço final. A remos ou à vela por lá deslizam barcos e barquinhos ao sabor da brisa leve desta luminosa primavera. Centenas de gaivotas, algumas garças, patos bravos, corvos marinhos, os habituais donos destas margens espreguiçam-se ao sol, ou dançam no ar em voos suaves, ou se lançam em corridas quase rasantes sobre as águas. Os corvos marinhos alinhados no que resta de terra na maré cheia, abrem as asas a todo o pano para receberem o sol que as vai secando. É Domingo. A correr e a caminhar, ao ritmo das forças de cada um, toda a gente saiu de casa em busca do sol e da liberdade que entrou de rompante pelas portas do desconfinamento.
Amarelo de sempre, por vezes esverdeado ou pintalgado de modernice, arrastado de tempo e de memórias, lá vai e vem o eléctrico gemendo sobre a linha ao longo da margem, levando a Ribeira até à Foz, e trazendo de volta o romântico Passeio Alegre com a sua alameda de palmeiras e as lindas casas da Foz Velha. A linha 1, uma das três linhas sobreviventes de entre muitas, juntamente com a linha 18, de Massarelos à Cordoaria, e a 22 entre o Carmo e a Batalha. Pequenos restos do século XIX que teimam em não se desgarrar de um velho Porto que é só memória e saudade.
Nos meus tempos de menina de Liceu, sempre foi o eléctrico a levar-me onde eu queria. E mesmo nos tempos de minha mãe que viveu a sua juventude entre Gaia e Porto, assim teria sido também, pois lembro-me de ela ter falado no eléctrico, aquando de um acidente na Rua 31 de Janeiro, em que o guarda-freios não conseguiu travá-lo e ele veio desenfreado e de escantilhão até à Baixa.
Sentei-me ao sol num dos muitos bancos que seguem a margem desde a Cantareira ao Cais do Ouro, e lembrei-me do livro de Tennessee Williams “A Street Car named Desire” ( Um Eléctrico chamado Desejo). Nada tem a ver com este eléctrico que geme atrás de mim, mas levou-me a desnudar uma espécie de nostálgica reminiscência do passado que, serenamente, criou em mim algum disfarce da desilusão e alguma fantasia que me permitiu esquecer por momentos a realidade da velhice.

 

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por Augusta Clara às 20:25



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