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Jardim das Delícias



Sábado, 26.06.21

Preso à cidade - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  Preso à cidade

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(fotografia de Manel Cruz)

 

Preso à cidade
nesta inquietante angústia das sombras
ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange
cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha
que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.
Lá atrás
uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido
sob as janelas podres
lembra que se alma houvesse
seria fácil presa de um qualquer rígido corpo
enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo.
A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo
definhada de luz e consciência
deixando atrás de si os últimos passos de uma existência
presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.
Até o vento se foi
para não arrastar a neblina estranha
e para não calar o pesado silêncio que se prende ao corpo
como mortalha do tempo que desfaz a réstia de luz
presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.
Ainda ontem era dia nos braços do trabalho
e nas carnes que não conheciam o exílio
recusando morrer fora dos sonhos e da vida
e o vento varria o silêncio
para libertar o corpo e a mente
da neblina das noites pegajosas.
Havia certezas por entre os tremores da indecisão
havia sorrisos verdades e ilusões
e havia brisas sonâmbulas calando os medos
e havia rios arrastando as paredes negras
e todas as sombras dos candeeiros partidos.
Preso à cidade
na tristeza que nos envolve e nos liberta o pensamento
cai dos telhados a poeira do tempo
que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos
e abre no chão quadriculado um espelho negro
com um menino tocando o céu azul
rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos
e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa
e carinhosamente
e sigilosamente
nos devolve ao nada por um caminho oculto
irreversível.

 

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por Augusta Clara às 23:38

Quinta-feira, 03.06.21

O Quadro - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O Quadro

do conde1.jpg

(Adão Cruz)

   Terminado o almoço na sala requintadamente sóbria, ficaria na memória a vitela de Lafões e as batatinhas lustrosas de cor aloirada que o forno de lenha pintou. Um café na pastelaria dos “vouguinhas”, o seu orgulho de fabrico diário, despertou a caminhada pelas margens verdes do rio, onde cada pássaro exibia o seu gorjeio, e cada pato mostrava a sua perícia, cortando em leque as águas profundas. Outros espreguiçavam-se nas margens, enchendo a relva de várias cores. No meio do rio, perfurando o ar, um grande jacto de água brincava com o sol formando um arco-íris. O mesmo arco-íris que coroava a serra em tantos Maios da nossa infância.

Mais adiante uma placa indicando o Condado de Beirós. A seta assinalava o caminho já varrido da memória, e a cor parecia indicar o interesse de uma visita.

- Lembras-te da exposição de pintura no Condado de Beirós, há mais ou menos vinte anos, a minha maior exposição individual, com várias salas, corredores e claustros cheios?

- Claro que sim, então não havia de recordar! Com tanta gente que ali acorreu, vinda de todos os lados. Um rol de nomes, amigos e conhecidos, alguns que ainda lembro com saudade e a voz enternecida, muitos deles já saídos deste mundo e da lembrança!

Algo emergiu das entranhas do passado que nos obrigou a pegar no carro e seguir o caminho de outrora à procura do Condado. E foi em busca de alguns eventuais restos que subimos o monte, entramos no portão da quinta e encontrámos, com surpresa, o velho solar quase intacto, o branco da cal um tanto desbotado, a pedra escurecida, a natureza em volta bem tratada, e uma bela piscina, no meio de um campo relvado. Em volta da casa muitos carros velhos, enferrujados, incluindo um Maserati a desfazer-se. Lembrámo-nos, então, que em tempos o dono tinha uma paixão especial por carros antigos.

A porta do solar estava aberta. Bati e voltei a bater com toda a força, chamei e voltei a chamar por alguém, e como não obtive qualquer resposta ou perturbação daquele silêncio, entrei. Tudo impecavelmente arranjado e decorado, nas paredes muitos quadros, retratos antigos, bonitos móveis, tudo bem tratado e asseado. Não havia dúvidas de que estava habitado e aberto ao público…que não existia, mas que o desconfinamento haveria, muito provavelmente, de voltar a trazer. Subi o primeiro lance de escadas tapetado com passadeira vermelha, depois outro igual virando à direita. No topo da escadaria de pedra boleada, em lugar de honra, um quadro com moldura dourada prendeu a minha atenção. Só poderia ser, não tinha dúvidas. Chamei o meu irmão que de imediato confirmou que aquela pintura era sua. Lá estava o seu nome e a data 2002.

 

 

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por Augusta Clara às 20:44



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