Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
(da página do facebook do próprio José Goulão)
Repito a pergunta: o neoliberalismo tem esquerda?
Que disparate!, exclamarão alguns, como pode uma aberração que formata o mundo num registo tão sustentadamente de direita que nem esteve ao alcance do Hitler ter uma componente de esquerda?
Pois é, como diriam alguns ilustres deputados de mil e um parlamentos traduzidos em outras tantas línguas, a coisa “não é assim tão líquida”.
É óbvio que o neoliberalismo não tem esquerda, argumento; tão óbvio que, que para induzir as suas vítimas num processo anestesiante, nefasto e suicida, precisou de criar uma variante de “esquerda” para sua própria sobrevivência como sistema dominante, como partido único.
É assim que desde há alguma décadas temos vindo a assistir, no mundo politicamente “civilizado”, o mundo neoliberal, à afirmação de neoliberais que dizem não ser neoliberais e que supostamente, em defesa do social, o entregam de mão beijada, em nome da responsabilidade e da solidariedade institucional – seja isso o que for – à voragem neoliberal, que nada rejeita limitando-se depois de regurgitar o que não lhe agrada.
Pois bem, essa ala “esquerda” do neoliberalismo continua convencida de que existe e, mais grave ainda, convicta de que está do outro lado do neoliberalismo, o lado também “responsável”, aquele lado que pode resistir a memorandos da troika – que assinou – à defesa de direitos sociais – que ajudou a liquidar – e que pode regenerar-nos depois de nos ter enterrado.
Como maestro poderíamos falar do senhor Hollande, no poder, tão antagónico da senhora Merkel, tão sintónico com a senhora Merkel numa Europa afogada no poço, exceto para o excelentíssimo Mercado.
A nível doméstico português resta o senhor Seguro, tão institucional, tão responsável, tão neoliberal que nem se incomoda em saber se há uma esquerda neste mundo, muito menos nessa selva neoliberal. O mesmo não se poderá dizer do seu ilustre, honorável e tão mediático avozinho, patrono dos neoliberais europeus, agente que chamou o FMI a Portugal em nome da (sua) “democracia”, que implantou a precariedade laboral nos primeiros escombros de Abril, falsa esquerda que consegue ainda convencer alguns, como se vê nos tempos que correm, de que é a esquerda em pessoa. Terrível farsa essa em território português como foi com Blair nas ilhas britânicas, Schroeder nas terras de Merkel e outros Zapateros do mesmo quilate.
A esquerda do neoliberalismo? Meus senhores, isso é uma burla, uma imposturice, mais do que isso, uma oferenda natalícia aos que nem necessitam de tal sabujice porque lhes sobra poder para fazer o que têm a fazer.
Vamos entregar a esses impostores da inexistente “esquerda” neoliberal as nossas capacidades de resistir e combater ao furacão político que nos arrasa? Vamos permitir que nos convençam de que alternativas degeneradas, alimentadas pelas tetas do sistema, o podem regenerar alinhando pelos mesmos padrões que transformaram a democracia numa aberração dela própria?
Só valho por um, mas não contem comigo. Sei de que lado estava no fatídico Novembro de 1975; sei de que lado estava o avozinho, com a sua linha direta ao FMI e outras instituições de Washington. Seguro: “Who is he?”
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.