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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 05.12.12

Deixei-a num ninho feito de terra - Albano Esteves Martins

Albano Esteves Martins  Deixei-a num ninho feito de terra

 

(Albano Esteves Martins é engenheiro civil, natural do Porto, actualmente a trabalhar em Angola)

 

(Adão Cruz)

 

   Tenta descansar, vê se dormes um pouco. Eu sei, as bombas, mas disparam à toa e estão muito longe. Estás na casa do Rei Leão, nada te acontecerá aqui. E eu volto já. Tenta descansar, tenta dormir. Deixo a Lua ligada? Se te juro que volto? Ouve só: volto. E vou trazer coisas boas para comer. Não minha filha, não trarei a tua mãe, é-me impossível, aceita-me com o que eu te posso dar. Viverás, viveremos, e encontraremos a tua mãe. Mas não hoje.

Deixei-a num ninho feito de terra e pequenos trapos no mais alto cubículo do Huambo, exactamente onde há 4 anos atrás eu e Jacinta nos abraçámos.

A guerra tinha tomado conta da cidade e cada esquina das muitas que era preciso dobrar para buscar um naco de vida, podia ser a última. Fugir da cidade implicava caminhar sobre um chão crivado de minas, de medo, um chão traiçoeiro que te deita por terra e te sepulta numa amálgama do teu próprio sangue, da tua própria terra e da tua própria carne, onde toda a ajuda que podes chorar é um tiro, limpo, numa esquina, ontem.

Ficámos assim até ao último latido do último cão.

Num olhar que já não cruzávamos há tanto tempo dissemo-nos que nada mais havia para continuar. E que não esperaríamos mais pelo fim da guerra dos outros: seríamos dois seres em paz numa cidade em guerra. E assim que sacudimos a poeira, o sangue, toda a guerra das nossas pobres roupas rompemos pela cidade de mãos dadas, num riso leve, num passo dobrado, numa nuvem do nosso amor, fulgurante, achado, reencontrado, sacudido do peso de alimentar apenas os corpos, de não lhes deixar esvair a carne.

Não houve um único tiro contra nós, não houve uma única bala perdida que nos encontrasse. Nem sei sequer o que foi na alma da chaimite que abrandou estupefacta em frente aos nossos risos e que nos seguiu com o seu canhãozito ridículo que só nos fez rir ainda mais. Sei que se assustou quando a Jacinta lhe bateu o pé e se foi. Sorrimos, outra vez, corremos outra vez com as mãos ainda dadas, talvez cantando, não sei, talvez.

A casa do Rei Leão é um cubículo na cobertura do velho Fapa, um edifício inacabado de 17 andares, na rua 5, em frente à saída para Benfica. Fomos amigos de infância mas foi lá que nos conhecemos como amantes, inocentes, claro, virgens, claro, de amor pelo menos, de amar pelo menos.

E foi lá que subimos para chorar abraçados o pôr-do-sol que sabíamos que não tardaria a ser engolido pela noite, o pôr da nossa loucura que sabíamos que não tardaria a ser engolida pela infame sanidade da sobrevivência.

Está fraca, esfaimada, morre a nossa filha. Sou o que lhe resta, quase nada.

Tenho que lhe levar um pouco de comida para depois de descansarmos tentarmos chegar ao avião que talvez poise por um momento apressado para levar os que couberem. Chegar lá não é fácil, não é seguro, não é. Mas talvez pela manhã, confundidos na pequena agitação matinal que é concedida às cidades em guerra, na hora em que os soldados, cansados de matar, adormecem.

Está fraca, esfaimada, morre a nossa filha. O meu tronco nú, os meus pés descalços, a minha fome, a minha vertigem, a minha parte da minha vida, escadas abaixo, calados, silenciosos, cheios de medo de não voltar.

Escondo-me do tanque que passa a ranger. Ouço uma rajada, um grito, um homem que morre. O tanque volta a ranger mas para longe. Vou tentar sair. Vejo agora que o meu corpo é branco, que eu sou branco, que não posso procurar nada assim, branco, branco, visível, alvo. Não voltarei se sair assim. Paro. Ouço e estranho o silêncio cortado por um outro grito. Mas não outro grito igual, não houve tiro, não houve rajada, nada rangeu nem o grito foi de dor ou raiva de nenhum homem. A mãe águia, o ninho da águia, como não me ocorreu, como? Subo, subo, corro escadas acima, subo, grito baixinho já vou, estou a chegar minha pequenina.

O ninho lá estava, no mesmo sítio onde onde eu e Jacinta ajudámos o seu filhote a voltar ao ninho. Deixa-me amiga, não ouço as crias, são ovos, tens quantos ovos? Deixa-me, salvei-te um filho um dia, salvo-te estes também deste mundo de tiros, de guerras, de gente malvada que mata crianças de tristeza e homens de razão. Deixa-me. Voa.

Não voou logo, não sei, deixou-se cair, talvez pensasse, não sei, asas abertas, desceu pelos ares abaixo sem me olhar, sem hesitar, parecendo saber tudo. No lugar dos ovos encontrei pequenas penas, velhas, sinais de que há muito as novas águias teriam já partido. Não faz sentido, o que faz aqui a águia se não há ovos, se não há crias?

Cambaleio para o cubículo, para a Teresinha.

Sou o que lhe resta, nada.

Sobre a cama de terra, já fria, uma pedra sobre um papel azul sem nada escrito. Entre os dois, uma pena de águia, enorme, linda.

 

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por Augusta Clara às 18:00


3 comentários

De Augusta Clara a 06.12.2012 às 16:32

Espero que o Albano Martins continue a enviar-nos textos como este, duma enorme beleza.

De Inês Aguiar a 09.12.2012 às 20:32

líndissimo conto, parabéns!

De Anónimo a 05.07.2016 às 22:51

Continua, não deixes...ADOREI!

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