Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jardim das Delícias



Sexta-feira, 14.06.13

Está a acontecer. Já se apercebeu? - Nicolau Santos

 

Nicolau Santos  Está a acontecer. Já se apercebeu?

 

 

 

  

Publicado em As Minhas Leituras no dia 12 de Junho de 2013

 

   Está a acontecer. Aquilo que nem nos passava pela cabeça que pudesse acontecer está mesmo a acontecer. Está a acontecer cada vez com mais regularidade as farmácias não terem os medicamentos de que precisamos. Está a acontecer que nos hospitais há racionamento de fármacos e uma utilização cada vez mais limitada dos equipamentos. Está a acontecer que muitos produtos que comprávamos nos supermercados desapareceram e já não se encontram em nenhuma prateleira. Está a acontecer que a reparação de um carro, que necessita de um farol ou de uma peça, tem agora de esperar uma ou duas semanas porque o material tem de ser importado do exterior. Está a acontecer que as estradas e as ruas abrem buracos com regularidade, que ou ficam assim durante longos meses ou são reparados de forma atamancada, voltando rapidamente a reabrir. Está a acontecer que a iluminação pública é mais reduzida, que mais e mais lojas dos centros comerciais são entaipadas e desaparecem misteriosamente. Está a acontecer que nas livrarias há menos títulos novos e que as lojas de música se volatilizaram completamente. Está a acontecer que nos bares e restaurantes há agora vagas com fartura, que os cinemas funcionam a meio gás, que os teatros vivem no terror da falta de público. Está tudo isto a acontecer e nós, como o sapo colocado em água fria que vai aquecendo lentamente até ferver, não vemos o perigo, vamos aceitando resignados este lento mas inexorável definhar da nossa vida coletiva e do Estado social, com uma infinita tristeza e uma funda turbação.

Está a acontecer e não poderia ser de outro modo. Está a acontecer porque esta política cega de austeridade está a liquidar a classe média, conduzindo-a a uma crescente pauperização, de onde não regressará durante décadas. Está a acontecer porque, nos últimos quase 40 anos, foi esta classe média que alimentou cinemas, teatros, espetáculos, restaurantes, comércio, serviços de saúde, tudo o que verdadeiramente mudou no país e aquilo que verdadeiramente traduz os hábitos de consumo numa sociedade moderna. Foi na classe média — de professores, médicos, funcionários públicos, economistas, pequenos e médios empresários, jornalistas, artistas, músicos, dançarinos, advogados, polícias, etc. —, que a austeridade cravou o seu mais afiado e longo punhal. E com a morte da classe média morre também a economia e o próprio país.

E morre porque era esta classe média que mais consumia — e que mais estimulava — os produtos culturais nacionais, da literatura à dança, dos jornais às revistas, da música a outro tipo de espetáculos e de manifestações culturais. É por isso que a cultura está a morrer neste país, juntamente com a economia. E se a economia pode ainda recuperar lentamente, já a cultura que desaparece não volta mais. Um país sem economia é um sítio. Um país sem cultura não existe.

Durante a II Guerra Mundial, quando o esforço militar consumia todos os recursos das ilhas britânicas, foi sugerido ao primeiro-ministro Winston Churchill que cortasse nas verbas da cultura. O homem que conduziu a Inglaterra à vitória sobre a Alemanha recusou perentoriamente. “Se cortamos na cultura, estamos a fazer esta guerra para qué?” Mutatis mutandis, a mesma pergunta poderíamos fazer hoje: se retiramos todas as verbas para a cultura, estamos a fazer este ajustamento em nome de quê? Mas esta, claro, é uma questão que nunca se colocará às brilhantes cabeças que nos governam.

Nicolau Santos .

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 13:00


5 comentários

De Beatriz Santos a 14.06.2013 às 16:27

Verdade. Passa-se mesmo. E não sei o que nos acontece em seguida. Se fôssemos um sapo saltávamos. Mas acontece que não somos sapos. Nem temos para onde saltar. Nós temos que ficar aqui. Este é o nosso lugar. Quem tem de sair não somos nós. Ou teremos de ser?!
Sem nós, o povo, aqueles senhores que se encheram de dinheiros esquisitos não conseguem pagar as dívidas que eles mesmos fizeram. Eles precisam de nós. Tenho dúvidas acerca de me serem necessários. Lixo!

De Pedro Gonçalves a 28.06.2013 às 10:57

Parece-me bastante propriado que tenha citado Churchill. Churchill era um Estadista, algo que em Portugal não existe nem se vislumbra que venha a existir. Portugal entrou há décadas num ciclo de mediocridade (a todos os níveis que não apenas o político) do qual não consegue sair. E no meio da mediocridade, não há lugar certamente para a cultura. Para mais quando a cultura se confunde com o lixo televisivo, futebol, festivais de verão e pouco mais.

De Anónimo a 28.01.2014 às 16:18

Brilhante

De Isabel Cristóvão a 28.01.2014 às 22:31

Mas está surpreendido?

De Goncalo a 29.01.2014 às 14:21

nao e relevante mas o Churchill nunca disse isso. Nao obstante, o texto mantem todo o significado (so perde glamour).
G.

Comentar post




Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos