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Jardim das Delícias



Terça-feira, 30.07.13

O viajante clandestino - Mia Couto

 

Mia Couto  O viajante clandestino

 

(Mojca Fo)

 

 

- Não é arvião. Diz-se: avião.

O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matri­mónio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se semelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.

- Mãe: avioneta é a neta do avião?

Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as sa­las fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admolestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apon­tou os passageiros, seus ares graves, sotúrnicos. O me­nino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo ma­terno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se arfogou no tropel dos mo­tores.

Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.

Seria aquele menino a fractura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da in­fância. Valha-nos nós.

O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços esten­didos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçan­do as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adul­tos.

Arranja-te. Estamos quase a partir.

- Então vou despedir do passaporteiro

A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se subditava. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:

Quando for grande quero ser passaporteiro.

E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.

- Vou estudar para migraceiro.

És doido, filho. Fica quieto.

O miúdo guardou seus jogos, constreito. Que crian­ça, neste mundo, tem vocação para adulto?

Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O me­nino seguia seus passos quando, na lisura do alca­trão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?

O menino parou, observente, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.

- Mãe, eu posso levar o sapo?

A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O meni­no, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata ban­deira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.

(in Cronicando, Caminho)

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por Augusta Clara às 17:00


4 comentários

De Beatriz Santos a 30.07.2013 às 23:38

Muito obrigada mesmo por Mia Couto e este conto tão seu; não sei de ninguém que siga tão junto ao que escreve como Mia. Tão eterno no terno de todas as palavras que inventa.
Boa noite:)

De Augusta Clara a 31.07.2013 às 00:19

Boa noite :) Este é o livro de crónicas. Por isso, deve ser um episódio verídico.

De Augusta Clara a 31.07.2013 às 00:25

Bom, não tenho a certeza se deixariam entrar o Mia Couto com um sapo no avião :))))

De Beatriz Santos a 31.07.2013 às 14:16

ia clandestino:) parece-me rapaz para isso, mas pode que só em pensamento. De todo o modo, é bonito. E basta.

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