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Jardim das Delícias



Segunda-feira, 04.11.13

Lumpen-burguesia: um conceito novo - António Pinho Vargas

 

António Pinho Vargas  Lumpen-burguesia: um conceito novo

 

 

   Disse o velho Karl Marx que a humanidade era capaz de resolver todos os problemas que conseguia formular, citação aproximada de memória que creio manter o essencial da sua ideia. Um dos nossos problemas actuais, nesta conjuntura mundial hiper-complexa, tem sido justamente a falta de conceitos para analisar e pensar problemas novos, a incapacidade de formular. E...ntão novos conceitos são necessários para se tentar avançar no entendimento da realidade e na formulação dos novos problemas. 

A propósito de uma entrevista com o escritor italiano Claudio Magris, no mesmo Ipsilon de hoje, o excelente António Guerreiro escreve: "A Itália assistiu na era Berlusconi ao triunfo de uma lumpen-burguesia 'que tanto no plano intelectual como moral perdeu o sentido da decência e do respeito'. Prossegue Guerreiro: "Esta categoria da lumpen-burguesia não é uma invenção de Magris, mas ele dá-lhe um novo sentido: é uma classe que vive a euforia de uma nova inocência porque a vergonha, o mais íntimo sentimento do Eu, é um bem que ela não possuiu. E por isso é incapaz de sentir qualquer sensação de embaraço." p.34 Mais adiante: "Como todas as criações do laboratório italiano , também a lumpen-burguesia se difundiu por todo o lado como um filme publicitário. Podemos encontrá-la entre nós, expondo-se na sua vacuidade, da Comporta às Avenidas Novas. " O seu artigo prossegue em torno do caso Carrilho-BG, que não me interessa abordar aqui. O pudor recomenda-me recato e já há muito escrito por todo o lado. Por isso não faz falta nenhuma. 

Mas o novo conceito tem potencial que deve ser aprofundado. Julgo que de outro modo já tinha intuído, no meio da enorme mobilidade social que caracteriza este tempo, a emergência desta nova classe lumpen: não serão os donos e os beneficários do BPN exemplos dela? Não serão exemplo os carros topo de gama que circulam  nas cidades conduzidos com a ferocidade de grunhos que pensam tudo lhes ser permitido, tanto nas ruas, nas estradas, como na vida? Não será que toda a classe política no poder e talvez mesmo uma parte da oposição dá mostras ter perdido qualquer 'sentido da decência e do respeito' nas sucessivas encenações que promove nesta pseudo-vida política de comediantes no poder, sendo pior que, por ridículas que sejam, estas encenações tendem a ser levadas a sério pelos media, como se tratassem de propostas sérias? Não será exemplo disso o facto de Cavaco dizer agora que Portugal tem de ser 'um país normal' - governo até ao fim do mandato - quando ele próprio propôs, apenas há meio ano, eleições em 2014 no meio daquela confusão - ela própria digna de comediantes - destinada a salvar o governo enlouquecido? Não serão todos estes exemplos sinais da perda "do sentido da decência e do respeito"?

Penso que vale a pena estudar o novo conceito, aprofundá-lo e desenvolvê-lo. Porque é esta lumpen-burguesia que nos governa, que dirige o estado, os bancos e as instituições em geral. O processo de purga no PSD será um exemplo de expulsão da velha burguesia dissidente pela nova lumpen-burguesia do poder e do dinheiro.

Formular correctamente os problemas, como dizia Marx, é condição necessária para dirigir as acções e as contestações num sentido eficaz. Que não é nada fácil, em plena turbulência, já sabemos.

APV

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por Augusta Clara às 12:00


4 comentários

De Beatriz Santos a 04.11.2013 às 21:24

Envergonha-me estar nas mãos desta gente lumpen. Qualquer de nós é melhor que eles. Ora eu nem me considero grande coisa...

De Augusta Clara a 04.11.2013 às 21:51

Pois somos, e não temos que ter nenhum problema em afirmá-lo.

De Teresa Ferreira gomes a 27.01.2014 às 21:10

Estou completamente de acordo apesar de não saber como se pode acabar com esta raça doente que se espalhou .. Posso prometer que vou pensar numa forma de ultrapassar isso porque mesmo já na curva descendente não sou pessoa para desistir ... !! Obrigada pela fantástica análise

De Drrmeval Ribeiro a 03.07.2016 às 15:15

Excelente definição para um lixo social emergente...Entre nós aqui dos trópicos tivemos a figura do Macunaima, do escritor Osvaldo de Andrade - o herói sem nenhum carácter - que deu tom ao migrante sertanejo espertalhão que tenta sobreviver a todo custo na cidade grande.Depois de muitos percalços retorna ao campo cheio das quinquilharias que conseguiu amealhar..

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