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Jardim das Delícias



Terça-feira, 03.12.13

Os Animais do Presépio - Carlos Drummond de Andrade

 

 

Carlos Drummond de Andrade  Os Animais do Presépio

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Salve, reino animal:

todo o peso celeste

suportas no teu ermo.

 

Toda a carga terrestre

carregas como se

fosse feita de vento.

 

Teus cascos lacerados

na lixa do caminho

e tuas cartilagens

 

e teu rude focinho

e tua cauda zonza,

teu pêlo matizado,

 

tua escama furtiva,

as cores com que iludes

teu negrume geral,

 

teu voo limitado,

teu rastro melancólico,

tua pobre verónica

 

em mim, que nem pastor

soube ser, ou serei,

se incorporam, num sopro.

 

Para tocar o extremo

de minha natureza,

limito-me: sou burro.

 

Para trazer ao feno

o senso da escultura,

concentro-me: sou boi.

 

A vária condição

por onde se atropela

essa ânsia de explicar-me

 

agora se apascenta

à sombra do galpão

neste sinal: sou anjo.

 

(in Claro Enigma, Cotovia)

 

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por Augusta Clara às 18:00




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