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Jardim das Delícias



Sábado, 11.01.14

À Libânia (meretriz e filantropa) - Crónica de fim de semana - Carlos Esperança

 

Carlos Esperança  À Libânia (meretriz e filantropa)

 

- Crónica de fim de semana -  

 

 

Homenagem de três gerações de estudantes....

    Libânia (Libaninha). Não precisava de apelidos para ser referenciada. Continuam desnecessários para ser recordada.

No seu peito nunca brilhou uma comenda mas a ele se aconchegaram muitas inseguranças em véspera de exames, muitas ansiedades a preceder esponsais, muitas inquietações à procura do primeiro emprego.

O seu corpo não teve a moldá-lo um escultor que o imortalizasse em bronze, mas teve milhares de corpos que, em êxtase, o ajudaram a modelar.

Três gerações de estudantes aprenderam nela a inutilidade do pecado solitário. Foi, por assim dizer, a primeira educadora sexual. Sem diploma.

Teve mais matrículas que o mais inveterado dos cábulas. E não chumbou por faltas, não lhe minguou a competência, nem se furtou às chamadas.

Não sendo culta foi uma mulher sábia. Não pertencendo a instituições de beneficência foi solidária. Foi tolerante, generosa e boa.

Pela sua casa passaram quase todas as profissões da cidade em busca dos préstimos da sua. Nivelou no tálamo as diferenças sociais que uma cidade beata e hipócrita fomentava.

Os estudantes foram a sua paixão. O seu consolo e a sua ruína. E a memória honesta que a recorda.

Mudou-se para Lisboa quando lhe fecharam a casa. Ali encontrou muitos dos seus estudantes queridos. Alguns lhe haviam de virar as costas, senhores que a posição estragou, crápulas que o poder corrompeu. Mas a maior parte permaneceu fiel. Sem falsos pudores, sem atos de contrição, sem penitências.

Homenagear a Libânia, hoje, é um ato de humor e de amor. E um gesto de cultura. Trata-se de um manifesto contra a hipocrisia, duma vingança póstuma em defesa de quem foi vítima das aparências, dum libelo contra os guardiões da moral importada duma qualquer vulgata sem que, a nível pessoal, com ela se importem.

A Libânia era o desprendimento em pessoa. Parecia desprezar o óbolo que os mais endinheirados lhe deixavam, tanto quanto a remuneração do trabalho que efetuava.

Reagindo contra uma cultura que persegue o sucesso e o individualismo, contra uma postura que incensa o poder e o dinheiro, contra uma tradição que exalta a castidade e a abstinência, prestamos à Libânia a homenagem de quem a recorda com saudade e se não envergonha dos afetos que perduraram e percorrem as nossas vidas.

A vida de puta foi o ónus que a puta da vida lhe obrigou a pagar. A generosidade, a simpatia e a bondade foram as excelsas virtudes que a exornaram e a tornaram credora da homenagem que agora aqui lhe tributamos.

Com este ato ficamos mais aliviados de uma dívida que durante a vida nos perseguiu. E exorcizamos os demónios da hipocrisia.

Tibi gratias, Libânia!

Coimbra, Restaurante Neptuno, 26-05-2000 – (Jantar de antigos estudantes da Guarda)

Publicado:
«Pedras Soltas», pág. 191

«Guarda Formosa na Primeira Metade do Século XX», pág. 403

 

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por Augusta Clara às 15:00


5 comentários

De Beatriz Santos a 12.01.2014 às 15:50

A Libaninha lembra-me D. Rosinha-peito-de-pomba de Erico Veríssimo em O retrato.

De Augusta Clara a 12.01.2014 às 16:27

Já não me lembro. Li-o há tantos anos! Ando à espero de arranjar tempo para ler "O Tempo e o Vento" na íntegra.

De Beatriz Santos a 13.01.2014 às 17:38

Penso que li O tempo e o vento, mas não me lembro de nada. Erico Veríssimo fazia parte dos autores que as irmãs tinham em stoque numa das casas em que estive interna; nessa altura, pouco me era dado fazer e passei aqueles livros todos a pente fino:) . Ajudaram-me bastante. Era um esquecimento momentâneo, mas dava-me folga à vida:)
Pena que não houvesse livros melhores. Odete de Saint Maurice estava inteirinha excepção feita ao mundanismo dos artigos da crónica feminina. Também marchou. E depois tiveram que encapar O crime do padre amaro e O primo basílio - o meu preferido dos livros de Eça, nem sei bem porquê -, para que os pudesse ler com pouca suspeita. Nem entendi por que seriam proíbidos. Grande parte dos dois romances era pura descrição. Gostei mais deles por nunca mais acabarem.

De Augusta Clara a 13.01.2014 às 21:32

O amigo Carlos Leça da Veiga pediu-me para publicar o seguinte comentário que ele não conseguiu:

"Conheci a Libaninha quando tive de fazer o serviço militar na cidade da Guarda. Uma vez por semana tinha de estar de oficial da ronda à cidade e nas noites frias ia aquecer os pés para a casa de meninas da Libaninha onde havia, dia e noite, na sua sala principal, uma braseira muito acolhedora e não menos reconfortante. Bons tempos !!!
Há, talvez, quatro ou cinco anos que uma Amiga de longa data, a Graça - cujo apelido o Alzeimar não deixa recordá-lo -, emprestou-me um livro da autoria de dois antigos estudantes liceais que, na casa da Libânia, à semelhança do muitos outros, não só passaram bons momentos como, também, só ouviram bons conselhos e receberam muito amparo."

De Maria Ramos a 08.04.2022 às 03:49

A casa da Libaninha não seria a casa que o Zé Pires Sanches e o Manuel Poppe registaram como sendo o "Moulin Rouge" da Guarda?

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