Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jardim das Delícias



Sexta-feira, 11.01.13

A prisão da pequenina Léa - José Goulão

 

José Goulão  A prisão da pequenina Léa

 

 

   Um dia destes, há muito pouco tempo, uma agente da polícia do município de Ustaritz, em França, entrou na escola de Saint Vincent, identificou a pequenina estudante Léa, que tem somente cinco anos, e levou-a para a esquadra vizinha onde a manteve durante algum tempo até lhe permitirem regressar às aulas, da parte da tarde, perante a estupefação de colegas, professores e diretor do estabelecimento. Razão da diligência: os pais de Léa devem 170 euros à cantina da escola, gerida pela Câmara de Ustaritz, e por isso o presidente do município ou maire proíbe a garota de almoçar no estabelecimento.

Passa-se isto na Europa das infindáveis virtudes, da interminável capacidade para julgar os outros, sobretudo quando se trata de direitos humanos e de liberdades cívicas, esta Europa farol inquestionável da democracia.

Nas aulas desse dia, os professores tentaram apagar o trauma gerado nas crianças, isto é, procuraram explicar o inexplicável porque na sua cada vez mais perseguida profissão (na Europa) ainda acontecem coisas para as quais não estão preparados; o diretor confessou aos jornais a revolta pela utilização de crianças como “reféns”; o pai de Léa quer saber quem se responsabiliza por um processo em que a sua filha foi levada da escola “manu militari”. O presidente da Câmara alegou que os pais de Léa foram notificados várias vezes da dívida associada à filha sem que tenham respondido pelo que, não o disse mas extrai-se da sua atitude, não havia outro remédio senão prender a garota, mesmo tendo cinco anos, para que eles dessem a cara indo busca-la à esquadra. Um sequestro de uma criança, portanto.

Se pensam que este caso é único na virtuosa Europa, uma ocasional manifestação de mentes perturbadas pelos inconvenientes que uma dívida de 170 euros provoca nos apertados orçamentos municipais, estão muito enganados. Também há pouco tempo, em Portugal, crianças foram proibidas de comer na cantina de uma escola porque os pais tinham dívidas que já somavam 60 euros. E voltando a França, agora à região de Yvellines, um maire admirador do ex-presidente Sarkozy manifestou vistas mais largas tentando prevenir em vez de ser obrigado a remediar: emitiu uma normativa que proíbe crianças que tenham pelo menos um dos progenitores desempregado de frequentar as cantinas e os centros de tempos livres das escolas do município. É o que se chama cortar o mal pela raiz. Antes a fome que as dívidas, antes o dinheiro que as pessoas, antes desempregados que caloteiros, quem não tem dinheiro não tem vícios, ainda que seja o de comer. O maior pecado que pode cometer-se no mundo que se considera o centro da civilização é, para que ninguém esqueça, faltar ao respeito ao dinheiro.

Como se não bastassem os cortes orçamentais na saúde e na educação nos países da União Europeia, como se não passe pela mente de governantes com cérebro de folha de Excel obrigar de novo a pagar o ensino público, como se a escola não fosse cada vez mais tratada como um luxo com inerência discriminatória, então que se acrescentem a fome e as restrições económicas para que as crianças oriundas dos meios mais desfavorecidos deixem de vez o ensino, ainda que para tal tenham de passar pela esquadra e viver logo aos cinco anos a primeira experiência de potencial criminoso.

Pensemos no drama da pequena Léa. Não estamos já perante casos de má governação, injustiça ou estupidez burocrática. Somos vítimas de mentes transviadas que perderam o mais elementar senso de humanidade.

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:00


4 comentários

De Augusta Clara a 11.01.2013 às 19:10

Que nome têm estas mentes? Fascistas, maldosas, cruéis, totalitárias...? Algo de parecido será e é preciso impedir que se desenvolvam, como o ovo da serpente.

De Inês Aguiar a 11.01.2013 às 19:32

Eu ainda não entendi como consegue esta gente dormir e que nome tem a pedra que lhes substitiu a alma. Este fenómeno obsceno está por todo o lado e se o ser humano não forjar a dignidade em palavras de aço, pobres de nós! Vou partilhar, Augusta Clara, bjinho

De Augusta Clara a 11.01.2013 às 19:42

Chama-se "dinheiro" essa pedra. Não há trégua a dar a esta gente.

De Augusta Clara a 12.01.2013 às 20:04

Mil vezes BASTA! a esta Europa transviada nas mãos desses banqueiros que, ainda por cima dizem "Ai, aguenta, aguenta!" a um povo que está a ser espoliado dos seus bens, dos seus direitos, daquilo por que trabalhou. Querem instalar a sua casta com todo o conforto à custa da miséria dos os outros. Um ensino de elite, uma saúde de elite. Tudo de elite a começar pelas crianças deles. As outras que se mantenham abaixo do olhar desdenhoso e sobranceiro das cobrinhas que estão a criar. Mas a corda tanto estica que acabará por rebentar! Têm dúvidas?

Comentar post




Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos