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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Eva Cruz A leira
(Adão Cruz)
Fica mesmo no coração do vale. Consta há muito da habilitação de herdeiros e também por ela se paga contribuição. Sempre a conheci por leira do cortinhal. Mas apesar de ali viver tão perto, nunca soube ao certo a sua exacta localização. Não é fácil identificar as terras quando elas são tão parceladas, e há muito que os marcos se enterraram no chão ou se deixaram cobrir pelas ervas ou pelas silvas.
Alguém mostrou interesse em comprar a leira, alguém que precisava ali de um pouco mais de terra. Desde pequenita ouvi dizer lá em casa que terra não se vende, terra trabalha-se. É da terra que tudo vem.
Andava o dia pelo lusco-fusco, quando me decidi ir ver onde se situava exactamente a leira. Acompanhou-me uma pessoa já de alguma idade, bem conhecedora daquelas terras e das coisas da terra.
- É por aqui, dizia eu. Lembrava-me do carreiro que seguia ao longo do rego da água, a água que em suaves murmúrios se desprendia da levada e se repartia pelos campos, guiada pelos talhadouros à medida da secular e sagrada lei das regas.
- Não, há muito que foi tapada por aí a servidão. Agora tem de se ir à volta. Esse era o caminho de pé. Só deixaram o caminho de carro, carro de bois, entenda-se…hoje caminho de tractor.
A leira fora sempre cultivada por caseiros, que me lembre, de graça. Apenas um dava todos os anos, à minha mãe, um saco de batatas. Outro resolveu cultivar flores, gabando-se de que a sua leira parece um jardim. De vez em quando, em épocas festivas, lá apareciam por casa ramos de gladíolos ou sécias de todas as cores como forma de gratidão.
Já se avistavam as primeiras estrelas no céu, ainda empalidecidas pela ténue claridade do poente, quando chegámos à leira. Estava fresada e alisada. Duas filas de viçosas couves-galegas limitavam-na ao comprido de um lado e do outro. Pelo meio, uma fiada de pessegueiros, já com os rebentos a espreitar.
Com passadas largas foi medida a leira ao comprido e ao través ficando o resultado à beira de quinhentos metros. A um euro o metro, se a tanto se aventurassem, daria quinhentos euros.
Estendi os olhos por aquela tão antiga pequena manta de terra, bordada a couves e pessegueiros, por aqueles quinhentos euros e senti bem fundo a beleza daquela leira, exposta ao céu, sempre à espera da semente que há tantos anos recolhe com ternura no seu regaço. Imaginei-a na Primavera coberta de rama e flores, e a frescura do ar trouxe-me à memória aquele nome, a leira do cortinhal, o apego à terra, na boca e no sangue de tantas gerações.
Na sua quietude natural assim ficará para a próxima geração. Haverá sempre quem goste de flores.
Carla Romualdo Já não há fantasmas
(Pavlina Fátorová)
Aqui no bairro há um palacete que está há tempos para ser convertido em qualquer coisa ao serviço dos turistas mas não há meio de isso acontecer porque é preciso muito dinheiro para recuperar aquelas velhas paredes e o lugar é pouco apetecível para camones. É uma casa bastante feia, construída ao gosto novo-rico da época, e foi abandonada há mais de uma década. As portadas já não cerram e deixam esvoaçar cortinados negros e há vultos a assomar-se às janelas em noites de luar.
Não há crianças a pular o muro para ir explorar a casa porque as crianças já não fazem essas coisas, têm o tempo tomado por actividades extracurriculares, mas é uma casa claramente assombrada, a pedir que crianças com tempo livre vão lá assustar-se. E é precisamente neste ponto que começa o diferendo entre mim e o bairro. Espantosamente, já ninguém acredita em casas assombradas. Na mercearia olham para mim como se eu tivesse acabado de defender que é o sol a girar à nossa volta.
– Assombrada?! Ahahaha, diz cada coisa! – ri-se a merceeira, uma mulher de sorriso franco e rosto emoldurado por caracoizinhos de garota.
Os outros clientes também acham muita graça que “hoje em dia”, “nos tempos que correm”, com “tanta tecnologia” e “a internet” haja gente que acredita nessas histórias. Não é que eu acredite ou deixe de acreditar em fantasmas, só acho que o bairro se torna muitíssimo mais interessante se tiver uma casa assombrada. Também gostaria que por aqui houvesse um lago com um monstro pré-histórico que aparecesse em manhãs de neblina, mas o último terreno livre foi ocupado pelo supermercado e já vejo poucas possibilidades de isso vir a acontecer.
Até o meu filho, criança que está a ter uma esmerada educação como criptozoólogo amador, passa pelo palacete e torce o nariz quando eu lhe falo no altíssimo potencial de assombramento que têm aquelas paredes. Os fantasmas, definitivamente, são coisa careta. Mas continuo a não perceber essa concepção de assombramento e tecnologia como coisas que se auto-excluem. Em qualquer caso, creio que preferia conversar com um fantasma do que com um sistema operativo e não vai há muito que me sentei, boquiaberta, a ver um filme em que um homem se apaixonava pelo sistema operativo do seu computador.
O fantasma foi, pelo menos, humano, num outro tempo e talvez num outro espaço, e se algum canal de comunicação mantém com estes será por curiosidade, talvez por incompletude, arrependimento, talvez amor, desejo de testemunhar aquilo de que foi privado de viver, e com tudo isso posso identificar-me. Nada do que é humano num fantasma me é estranho, afinal.
Talvez os visitantes dos castelos assombrados se ocupem agora a tentar tirar uma selfie com um fantasma, coisa que deve ser complicada, porque fantasma que o seja de verdade será arisco às fotos, mas sobretudo desejará produzir uma impressão em quem o avista, não necessariamente medo, mas alguma perturbação que parece difícil “nos tempos que correm”, e não há grande disposição para o assombro quando uma pessoa está a actualizar o seu estado ou a espremer um pensamento para 140 caracteres. Já não há, assumamo-lo, condições para assombrar.
Já para não falar do dislate que é mencionar fantasmas quando os números macroeconómicos são o que são, e a borbulha imobiliária está para rebentar, e a Grécia, e a China, e o Japão, por favor, os tempos não estão para disparates.
No meio de tudo isto, que farão os fantasmas? Aborrecem-se, contam histórias mil vezes repetidas uns aos outros, atravessam as paredes de um lado para outro, de um lado para outro, de um lado para outro, comohamsters neuróticos? Atrevem-se a posar para uma selfie? Passam em frente das câmaras de vigilância na esperança de que alguém os veja e apareça, talvez com as pernas a tremer, o coração aos pulos, mas movido por essa curiosidade por uma boa história que ainda é o que nos faz sair da cama a muitos? Pergunto.
Fez-se um grande silêncio na mercearia. A merceeira, que é uma rapariga prática, rematou bem:
– Não quer levar um melão? É muito docinho.
Definitivamente, neste bairro ninguém me compreende. Deve ser por isso que eu gosto dele.
Carla Romualdo Jacob Maersk
Nós tivemos um navio naufragado na nossa praia, anos e anos a vê-lo enferrujar, um colosso enterrado, ou o que restava dele, um pedaço de proa ao alto, que os miúdos usavam como parque de diversões, perigoso como era, havia que trepá-lo apesar da inclinação, segurar-se às ripas podres, evitar as lâminas enferrujadas, e, uma vez conquistado, segurar-se bem ao bico da proa e olhar em volta, capitão por instantes. As meninas lingrinhas como eu não o trepavam mas ficavam a ver os rapazes, como se exibiam barco acima enquanto nós temíamos vê-los morrer ali mesmo enquanto comíamos maçãs, que história teríamos depois para contar, aquele rapaz matou-se no barco encalhado, era tão giro, fazia covinhas na cara quando ria. Mas eles salvavam-se sempre, regressavam ao areal triunfais, pegavam-se à porrada para celebrar o feito, obrigavam o vencido a comer areia, e nunca nenhum morreu, o que para nós era bom e entediante.
Ainda antes de nascermos, o encalhado fora um superpetroleiro dinamarquês, cruzava os mares com toneladas, mas fora encalhar num banco de areia, ardera durante três dias e com isso tornara a vida na cidade insuportável, fumos tóxicos, gente internada com problemas respiratórios, lojas fechadas. Depois uma parte afundou, mas a proa foi-se chegando a terra e ali ficou. Nós já só o conhecemos destroço. Deveria ter sido levado dali mas não foi, ou melhor só o seria ao fim de 20 anos, e de tanto ficar passou a ser parte da praia, como se tivéssemos herdado o areal cravejado de pedras pontiagudas, os rochedos, as gaivotas, o mar sempre gelado, os sargaços que atirávamos uns aos outros e que eram como tentáculos de criaturas espantosas que o mar escondia, frias e gelatinosas, e a ruína do barco, onírico navio fantasma que para nós estava ali desde sempre, uma advertência a navegantes, um sinal de que o improvável pode estar entre nós.
Naquelas manhãs em que o nevoeiro não levantava, e do mar vinha um bafo gelado, sentados a tiritar com a toalha pelas costas, ficávamos a olhar o barco engolido pela névoa e víamos sombras de marinheiros, esqueletos caminhando com passos cautelosos para não se desconjuntarem, um perfil de caveira com chapéu de pirata que se voltava lentamente para nós, e quando por fim nos encarava havia lume na cova dos seus olhos e uma gargalhada que nos fazia sair a correr aos gritos pela areia, e era bom ter medo de propósito e saber que não havia lá nada e ainda assim gritar e correr como loucos, e passar mesmo ao lado dos adultos estendidos nas toalhas e ouvi-los berrar, lá atrás, que não lhes mandássemos areia para os olhos, grandessíssimos malcriados que nós éramos.
E ao fim da tarde, quando o mar se incendiava e o barco era sombra, retomava o seu perfil de ruína orgulhosa, que trocara o fundo do mar por nós, seus guardiões involuntários, porque era melhor morrer na praia que perder-se no limbo silencioso que o esperava lá em baixo.
Quando o levaram por fim, ninguém pôde protestar contra a medida, tão certa do ponto de vista ambiental, tão necessária para garantir a segurança, tão regulamentar e ordeira. Mas lamentamos perdê-lo, porque era a nossa ruína, o nosso pesadelo feito fábula, o nosso medo convertido em gargalhada, e a praia sem ele era só uma praia.
Só agora, por ocasião dos 40 anos do naufrágio, conheci o seu nome: Jacob Maersk.
David Mourão-Ferreira Trepadeira submersa
(Audrey Marienkoff)
Que o avô paterno, já muito velho, vivia na província em pleno século XIII. Que a avó materna, também viúva, mas habitando em Lisboa, ninguém a arrancava do século XVII, onde o mais decotadamente vivia, em francês, escrevendo a várias amigas íntimas, espalhadas pelos quatro cantos do mundo, longas epístolas no mais puro estilo de Madame de Sévigné. Que os pais, esses, havia muito que se tinham instalado no século XIX, se bem que ocupassem ambos, naquela casa, quartos separados e distantes: o da mãe com os relógios parados em 1830; e o do pai, um pouco atravancado entre a guerra franco-prussiana e a guerra dos bóeres, tinha contudo uma varanda sobre o mar, de onde ele, nos dias de sol, e através de um óculo datado de 1891, procurava distinguir, no horizonte, a queda da Monarquia, os antecedentes da guerra de 14-18, a muito possível e pacata loucura dos anos 20. Que, finalmente, do único irmão que tinha, bastante mais novo, e que estava destacado em África, lhe chegavam de avião, todas as semanas, as mais frescas notícias da Idade da Pedra.
Os olhos, afinal, eram azuis; as mobílias escuras. E o vestido, vermelho, ficava bem com estes dois tons, harmonizava-se igualmente com as restantes cores. Somente o aquário, entre as duas estantes, parecia um pouco
despropositado. Os livros, de lombadas coloridas (quase nenhumas encadernações), atraíam os olhos irresistivelmente; e apetecia passar-lhes a mão por cima, como sobre o dorso de animais domésticos. Aos mais antigos, ou mais usados, apetecia mesmo pegar-lhes ao colo, aninhá-los entre almofadas, deixá-los a dormir dentro de cestos de verga. Mas via-se que todos estavam contentes — até aqueles em que há muito tempo ela não tocava — por terem sido, alguma vez, acariciados pelas suas mãos. E eram justamente as mãos dela que faziam pensar em tudo isso, porque a voz, em contrapartida, insistia em vibrar pequenas chicotadas.
Que sim, que tinha percebido, desde o início, todo o interesse que eu mostrava em lhe falar a sós. Que de propósito me dizia as coisas mais tolas ou mais agrestes. Que evidentemente lhe agradava, até certo ponto, ver-me na sombra do anfiteatro, quando só ela, à secretária, ficava a registar os sumários, e eu permanecia, já de pé, sem conseguir arredar-me da segunda fila, na vaga esperança de que me chamasse, ou se irritasse comigo de uma vez para sempre. Que, no entanto, nunca tinha feito nem uma coisa nem outra. Que apenas olhava, de lado, por cima dos óculos, para o quadro preto onde tinha escrito, durante a aula, nomes e datas, sobretudo datas, datas de batalhas, datas de tratados, referências a este ou àquele século.
E o mar ao fundo, entre duas palmeiras. E só três ou quatro telhados desde o rectângulo da janela a essa nesga de azul muito claro, quase branco. Mas bastava trocar a cadeira de braços pelo pouf de couro (onde, minutos antes, ela se tinha sentado) para nem os telhados se divisarem e apenas se ver o mar, como um gato angora, todo estiraçado no peitoril. Então, semicerrando os olhos, adivinhava-se-lhe a pele arrepanhada, muito de leve, pelos dedos quentes de Julho.
Que tinha vivido naquela casa, em criança, durante longuíssimas temporadas, só na companhia de uma criada e de uma governante. Que o pai, nessa altura, em virtude das andanças da «carreira», tinha estado sucessivamente ancorado, sempre com a mãe a reboque, em Buenos Aires, em Tóquio, em Madrid, em Helsínquia. Que a tal governante, só à sua conta, daria para encher páginas e páginas de um tratado de psicopatologia. Que tinha todo o ar, por outro lado, de quem acabava de sair, de ponto em branco, de um romance de Henry James. Que tinha artes para a manter, permanentemente, no mais alucinante clima de terror. Que a obrigava, por exemplo, a assistir às suas abluções nocturnas e lhe concedia, de quando em quando, o supremo privilégio de lhe dar a beijar os pés, as pernas, as coxas escanzeladas. Que nunca, apesar de tudo, pessoa alguma a tinha marcado tanto.
A mão direita levantou, distraída, de cima da secretária, uma faca de papel. Mas logo a seguir deixou a faca onde estava para se aproximar, vagarosamente, da outra mão, que se tinha pousado, entretanto, num globo maciço de vidro vermelho, todo irisado por dentro e que servia de pesa-papéis.
Que, pronto, a respeito dela, já eu sabia agora o mais importante. Que tinha esperado pelo fim do ano a fim de ter comigo aquela conversa. Que poderia, é claro, ter-me simplesmente convidado para um café, e quem diz um café diz outra coisa qualquer, mesmo no bar do Instituto. Que tinha, no entanto, resolvido, depois de pensar melhor, convidar-me antes ali para casa. E que os versos que eu tinha escrito, que lhe tinha entregue, não eram melhores nem piores que todos os versos que se escrevem aos dezoito anos.
Que também ela, aos dezoito anos, tinha escrito poemas, mas em prosa, inspirados por uma pessoa amiga lá de casa. Que em todos esses poemas a tal pessoa aparecia invariavelmente comparada, ora a uma torre, ora a uma árvore. Que o seu próprio desejo, por sua vez, em relação à torre, em relação à árvore, surgia obsessivamente transfigurado na imagem de uma trepadeira. Que de todos os meus versos, decerto por isso mesmo, os que mais a tinham impressionado eram aqueles em que eu falava de uma trepadeira submersa. Que os tinha, aliás, mostrado, mas sem dizer de quem eram, à tal pessoa amiga lá de casa. Que a tal pessoa, enfim, continuava a ser a sua melhor amiga.
As mãos tinham retirado, debaixo do pesa-papéis, um pequeno maço de folhas onde reconheci a minha letra. E não era só o meu rosto que me parecia ter ficado tão vermelho como o vestido que ela trazia, como o próprio pesa-papéis: era também o mar, era também a água do aquário, eram também as lombadas de todos os livros. Por outro lado, só então reparei como aquela ténue e caprichosa flora, lá dentro do aquário, sugeria o desenho de uma trepadeira submersa.
Que já se esquecia de me dizer outra coisa. Que eu abusava muito das maiúsculas e dos pontos de exclamação. Que logo nos meus exercícios tinha dado por isso, mas ainda mais ali naqueles versos. Que o facto, evidentemente, era próprio da minha idade. Que eu havia de ver, no entanto, à medida que o tempo fosse correndo, como são raras as pessoas e as coisas que merecem maiúscula, como quase nada, no mundo, merece as honras de um ponto de exclamação.
Que não lhe parecia ser preciso dizer mais nada. Que seria o suficiente para eu compreender. Que tinha igualmente compreedido o que eu sentia em relação a ela. Que só não sabia, no fim de contas, dentro daquela família que lhe tinha cabido em sorte, com cada pessoa a viver na sua época, qual o tempo que em verdade lhe pertencia. Que não era capaz, de qualquer modo, de se transformar em mártir ou em profeta, de se exibir como um Sócrates de saias a corromper a juventude, de abolir por completo a moral corrente que fingia seguir para não arranjar problemas. Que ao menos ficasse assente, entre nós as duas, que não devia haver hipocrisia de parte a parte. Que também ela me achava amorosa, amorosa, amorosa. Que de propósito empregava o termo que eu própria, já por duas vezes, tinha utilizado a respeito dela. Que o seu desejo não era apenas, evidentemente, o de me agarrar assim pelos ombros, com os braços estendidos, muito esticados, a fim de evitar que os nossos rostos se aproximassem. Que me pedia, pelo amor de Deus, para eu tentar esquecer — depressa, depressa— tudo aquilo que nem me tinha dito.
Que lhe deixasse, apesar de tudo, os versos que lhe entregara. Que lhe deixasse, pelo menos, aqueles em que se falava de uma trepadeira submersa.
(in Os Amantes e Outros Contos, Dom Quixote)
Eva Cruz A cheia
Toda a noite caiu água.
Logo de manhã, da varanda, contemplei o vale a acordar. Estava irreconhecível. Não havia combros, nem vedações. Apenas as pontas de algumas ramadas mostravam que por ali deveria ser a orla de um ou outro campo.
O Caima andava a monte lá para Entre-Pontes, quase cavalgando a Ponte de Cornados, e nas Remolhas, na foz do Vigues, ambas as águas se fundiam no abraço dos rios.
Mais abaixo, no meio daquele mar de água, emergia um carreirinho mais escuro, no topo do paredão que antigamente dava saída à Ponte do Pinho, que encurtava o caminho lá para os lados de Areias.
De onde lhe viera o nome não sei. A ponte era de pinho, muito estreita e comprida com fios de arame a todo o correr. Assentava do lado norte no último degrau de uma estreita e íngreme escada de pedra e do outro lado sobre um pilar de onde descia outra escada para a margem esquerda do rio. Pinho tanto poderia ser o nome do arquitecto, formado na escola da vida com a sabedoria bastante para a manter segura por tantos anos, como o costumeiro nome de gentes e famílias que por ali tinham lameiros de um e de outro lado do rio. Fosse qual fosse a origem, a ponte sempre fora uma bênção para os lavradores, na árdua travessia de carregos e molhos entre as duas margens.
Hoje a ponte já não existe, para tristeza de muitos. Arrastara-a uma cheia em tempos idos, deixando metade ao dependuro, num penoso quadro de abandono como amputado braço entre as terras de um e outro lado. E os caminhos que outrora dela nasciam também morreram, comidos pela lama e pela erva, assim apagando para sempre os passos dos que por lá trilharam tantos anos de labuta.
Reconheci com saudade o meu rio de menina na sua majestade impiedosa, no seu barulho de cachoeira no pino do Inverno, e recordei-o na sua canção de Verão, de pouca água, descendo suavemente os açudes, bordado de espuma branca, estendendo pequenos braços por entre salgueiros e amieiros. O meu rio das merendas à beira das poças de água ou da levada, dos meninos a nadar, das lavadeiras a corar a roupa branca, das amoras silvestres, dos cardumes de peixinhos e das enguias a rabear por entre as pedras.
Contemplei o rio na sua majestade. Um grande e alargado caudal, mais veloz no meio da torrente, deixando que as águas laterais, junto às margens, se arrastassem mais lentas e menos enfurecidas, e até parassem, por vezes, frente a qualquer obstáculo. Todavia, os tempos são outros. Outrora, quando todos os campos eram de cultivo, o rio levava tudo o que encontrasse pela frente, abóboras, medas de palha, porcos, galinhas, em patético baile ao sabor da corrente. Hoje arrasta apenas o tempo do mudo e desértico abandono.
Perdi-me na canção do rio, e arrebatada pela fantasia, deixei que a cheia me levasse até aos confins do tempo e lá me deixasse no aconchego da saudade.
As cordas grossas da chuva foram-se lentamente adelgaçando e de repente parou de chover. Assim também lentamente se desfizeram os fios da fantasia e o meu rio há-de voltar ao seu leito.
Ana Paula Tavares Carta para Alexandra
(Autor desconhecido)
Kuito, Angola, longe, muito longe do mundo
Alexandra:
Um manto de silêncio desce das montanhas, agora que o calor começa, e deixa semear o milho, colher amoras silvestres e mel, faz aumentar o choro das crianças e as barrigas das mulheres. Sabemos que vai durar pouco e todas as noites recolhemos preces novas, para juntar às antigas e, na pá de zinco dos sacrifícios, queimamos alecrim e eucalipto com açúcar mascavado. Quando a noite começa, o nosso medo aumenta: «Os bárbaros aparecem à noite. Antes de escurecer, deve recolher-se a última cabra, trancar os portões, colocar uma sentinela, em todas as guaritas, para gritar o alerta está. Toda a noite, diz-se, os bárbaros rondam para matar e roubar. Em sonhos, as crianças vêem o rosto feroz dos bárbaros a espreitar pelos postigos. «Os bárbaros estão aqui!», gritam, sem poder ser consoladas. As roupas desaparecerão das cordas de secar, a comida, das despensas, ainda que estejam bem trancadas. «Os bárbaros cavaram um túnel sob as muralhas», dizem as pessoas. «Vão e vêm como querem...» Os lavradores ainda cultivam os campos, mas têm que sair em bando, nunca sozinhos. Trabalham sem ânimo. «Os bárbaros estão só à espera que as colheitas estejam preparadas, e então inundarão os campos outra vez», disse o escritor (1) e a avó também falou. Nós acreditamos, porque as nossas noites já não são como antigamente. Um cheiro espesso de guerra ficou aqui para sempre. As nossas casas ainda existem, porque nascemos aqui e as sabemos contar. O que resta delas são paredes porosas que suportam o céu. A superfície, podemos ver agora o entrançado de bordão e capim, todo ligado por uma argamassa que sabe a cal, mas talvez não seja bem isso, mas as próprias entranhas da terra sem tratamento. Por entre os buracos das balas, escapa-se uma luz coada, como se mil pólens a tornassem sólida como o gelo. À noite, nada, isto é, só o nosso medo e as esperas. Temos fome, mas ninguém se lembra, e os campos ainda demoram um pouco para produzir. Salvam-nos as folhas que ainda conseguem nascer, o leite das cabras e das mulheres de barriga inchada, outra vez inchada, como se tivessem que transportar a terra inteira às costas e por dentro de si próprias.
Sei que estás no centro da terra e de lá escreves o mundo. Amiga, que os deuses da manhã transformem os teus pés descalços no suporte do teu corpo e lhes dêem a pele da serpente, para que mude a cada ferida. Vais ficar com as cicatrizes, mas isso já é normal. Todo o nosso corpo antigo transporta os lugares de lentas e infinitas cicatrizes, as que herdámos do lado da mãe, que já transportava as das avós e das tias, complexas como os cestos tecidos de fibras de várias cores, ou os tapetes que contam a vida e a morte das crianças. Que as tuas mãos guiem cada letra da ciência da escrita que tão bem praticas, para gravar no papel as palavras da denúncia, os gritos do desespero, a espera silenciosa de quem já não consegue falar nem gritar e anda às voltas em busca de um local de silêncio, como esses agora espalhados por toda a parte e que se chamam campos e são só outras maneiras de dizer reservas, lugar das pessoas perdidas para sempre. Bem que a avó tinha razão, quando dizia que o mundo ia mudar.
Teus olhos, Alexandra, tão lindos como sempre, estão de certeza abertos para fixar esses pássaros doidos que se estilhaçam nas montanhas e matam as flores antes dos ciclos. No que resta da janela das duas paredes que sobraram da nossa antiga casa, num cartaz, ainda pode se ler «Em Soweto, Alexandra, rebentam bombas no sexo dos anjos» (2) ... Tudo o resto desapareceu, comido pelo sol, desfeito pela chuva. Mas alguém pensou em ti, há muito tempo e sabia o teu caminho, antes do tempo da lua e dos sinais.
Não sei a que cheira uma guerra nova, amiga. A guerra que passou aqui misturou os cheiros todos, os da pólvora (unia pólvora lenta, como algodão-em-rama, esteve aqui parada durante muitos anos), o cheiro seco da poeira (que afastou a chuva, a manteiga e as rãs) e o dos soldados (suor azedo e cansaço misturado com medo e violência). Mas mesmo assim não sei, amiga, a que cheira uma guerra nova e por isso não posso ajudar-te a preparar os óleos essenciais para poderes resistir a esse novo odor. A única coisa que sei é que deve ser um cheiro seco, de montanha moída, de barro, de cimento e de ferro. Lembrei-me dos ferreiros e do ferro a derreter o interior da terra. Mas tudo isso é antigo, como os livros que restam no meu chão e estas paredes lentas, que mostram o seu avesso e deixam que o vento dos espíritos sopre por aqui sem limites. A única coisa que posso dizer-te é que as histórias ajudam a espantar o medo e, como à noite e na falta de mantas nos enovelamos de histórias, roubei algumas da avó para te mandar, com a certeza de que te serão úteis.
Não posso falar-te de tempo, porque aqui misturámos os tempos todos. Ontem, hoje, amanhã não significa nada. O nosso tempo é um tempo dos bárbaros e só sabemos dos dias e das noites e da espera.
Há mesmo gente que constrói altares. Talvez para que o sacrifício seja mais fácil. Para ti, minha irmã do mundo, desejo-te sorte, e que consigas dizer da morte anunciada das mulheres, do choro das crianças, lá em todos os sítios onde, ao que parece, o mundo anda do avesso e a terra não consegue completar as suas trezentas e muitas voltas em torno do Sol.
(1) J. M. Coetzee, A Espera dos Bárbaros, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1986, p. 109.
(2) Frase de David Mestre incluída num cartaz publicado em Luanda, em 1978.
Eva Cruz O S. Joãozinho de marfim
(Adão Cruz)
É uma imagem com cerca de dez centímetros de altura, esculpida no marfim com toda a perfeição. Sentado num tronco de uma árvore, de pernas cruzadas, o S. João parece deliciar-se com a frescura do lugar. Provavelmente à beira de um riacho, numa tarde quente de Verão, a contemplar as águas cristalinas e a verdura em seu redor.
As suas vestes são leves e frescas. Traz na ponta de um cajado uma cabacinha daquelas que apertam o bojo em forma de gargalo. Lá dentro, talvez a água refrescante da fonte que lhe apaga a sede.
A cara tem o viço de menino e a cabecita é adornada por tufos de caracóis loiros esculpidos num anelado que sobressai em alto-relevo.
Tem mais de cem anos. É muito valioso. Só é pena ter um pé partido. Ouvi isto desde a minha meninice.
Realmente, a pontinha dos dedos de um pé está partida. Sempre pensei que ali estaria uma fortuna, e na minha mente de criança era uma espécie de tesouro a bem guardar.
Recordo que um dia alguém levara a escultura a uma casa de velharias para ser avaliada. Grande foi a desilusão pois o valor não correspondia a nada do que era esperado.
Aquela imagem pueril para ali ficou esquecida. Sempre que a vejo, tenho uma sensação de paz e tranquilidade, ao olhar a cara deliciada do S. João que hoje terá mais de duzentos anos.
Quem sabe!
Pensei levá-la para ser novamente avaliada. Mas o valor rondou o mesmo que outrora. Nem sequer cobria a inflação, a não ser que tivesse havido algum default ou spinn off.
Na cabecinha anelada do S. João não havia lugar para negócios ou derivagens. Tudo passava ao lado como as águas do rio.
Fiquei muito contente porque podia ter tido a malfadada ideia de passar o S. Joãozinho a patacos.
Ainda bem que não foi assim.
Se o tivesse vendido, nunca mais teria esta sensação de paz e tranquilidade, que me inspira o sorriso de ternura daquela imagem com pouco mais de dez centímetros.
Eva Cruz Dia de Reis
(Adão Cruz)
Nasci a 6 de Janeiro.
Minha mãe dizia-me:
- És rainha. Mas o mais importante é seres rainha nas virtudes.
Não fazia a mínima ideia do que seriam virtudes, e ainda hoje não sou capaz de medir o alcance das suas palavras.
O Dia de Reis era um dia especial.
Começava logo pela véspera, a primeira consoada do ano. Já noite dentro, lá vinha a toada dos reis, as Janeiras, tocadas e cantadas por músicos da banda que nas festas se exibiam no coreto.
Muito distante no tempo, recordo apenas o som vivo do clarinete que cortava o silêncio sagrado da noite.
Um quarteto de homens vestidos de preto surgiam na faixa de luz quando a porta se abria, ofuscados pelo reflexo metálico dos instrumentos.
O Dia de Reis era Dia Santo e as férias do Natal duravam até lá.
Sempre se festejaram os meus anos com amiguinhos da escola, cacau ou banacau, pão com manteiga e doce sortido.
Na mesa havia camélias brancas, as flores preferidas da minha mãe.
Brincadeira até à noitinha, a saltar à corda, jogar à cabra-cega, à patela, à roda ou a correr pelos campos.
Às escondidas, lá íamos mirar o poço velho, de onde se tirava água com um sarilho. Era um dos maiores perigos do lugar.
O poço não tinha vedação e nós espreitávamos à volta. Lá em baixo, as nossas cabecitas reflectiam-se nas águas paradas, e no ventre da fantasia e do mistério, via sobre a minha cabeça uma coroa de rainha. Um poço de virtudes, soubesse eu o que eram virtudes!
Fui também rainha dos campos, com coroas de pampilos amarelos tecidas pela inocência da infância. Rainha dos montes com grinaldas de perfume das giestas e eucaliptos. Rainha do rio, com coroas de juncos ou bailando nas cheias que cobriam os lameiros, arrastando tudo em séquito majestoso.
Quando colhi as últimas camélias para a minha mãe, no Dia de Reis, tinha ela cem anos. Com a frescura e a brancura de Janeiro, poisei-lhe, ao de leve, um ramo no regaço.
- São as suas flores predilectas.
- São lindas.
- Faz hoje anos que teve uma menina, estavam a tocar as três para a missa. Lembra-se?
O seu rosto vestiu-se de uma expressão serena, perdida no tempo.
- Talvez.
- Teve uma rainha, não foi?
Revelou alguma surpresa, no ingénuo sorriso da candura da idade.
- Estou agora a sabê-lo!
Todos os Dias de Reis me apetece colher camélias brancas, mas as que mais gostaria de colher ficaram para sempre no seu regaço.
Eva Cruz O azevinho
(Adão Cruz)
Anda pelos noventa anos. Vive ao cimo da calçada numa casita empoleirada sobre a adega, apenas com duas janelas e uma porta. Faça chuva ou faça sol, uma das janelas, a do lado nascente, está sempre aberta até altas horas. Nas noites quentes de Verão ou nas noites claras de Inverno, lá está a Micas à janela a contemplar a lua e as estrelas até a noite entrar pela madrugada.
Mulher jeitosa e bonita no seu tempo, ficou solteira toda a vida. Nunca soube o que era um home. Quem ela queria não a quis e quem a queria não quis ela.
Viveu com o pai e com a mãe. Deles cuidou até à morte, sempre amarrada à terra. Era jornaleira e o seu grande amor fora trabalhar no campo.
De dez irmãos, seis já se foram.
Pelo Natal e pela Páscoa reparto algum afecto pelas minhas vizinhas da aldeia, umas coisitas doces. Com o meu saquito de chocolates acenei-lhe debaixo da janela a desejar-lhe um Bom Natal.
O Natal já não me diz nada. Resta-me olhar para as estrelas e rezar por eles todos. O Senhor esqueceu-se de mim. Passo aqui o meu tempo. Doença de verdade não tenho. Como e durmo bem. Só os ossos é que não me deixam trabalhar na terra. Gostava tanto de poder trabalhar! É o meu maior desgosto.
Olhei em volta e na penumbra do anoitecer desapareceu a vida daquela aldeia. Nas paredes das casas mal caiadas bailavam as sombras dos que por ali viveram, sombras agigantadas pela memória da luz da candeia. Nos muros velhos e nos combros hibernavam agora cobras e lagartos. As borboletas brancas dos lameiros e as pintalgadas dos açudes aninhavam-se talvez em casulos, agasalhando as crisálidas com mãos de seda. O silêncio pairava no ar que arrefecia. As aves tinham partido. Nem sequer o pio agoirento e arrepiante do mocho se fazia ouvir lá para os matos, sufocado pelas copas dos pinheiros bravos.
A Micas, uma das resistentes ao desaparecimento, retribuía-me o afecto com algum produto das suas leiritas. Um cesto de uvas americanas, uns formosos limões, umas rosas de uma roseira que há anos cresce solitária encostada à porta ou um ramo de hidrângeas brancas, de um branco tão branco como nunca se viu. Um dia deu-me uma haste que espetei na beira de um combro, porque pega de estaca. Para meu desconsolo, deu flor de um rosa pálido. Disse-me a Micas que a cor depende da terra. Há hidrângeas de muitas cores, mas brancas só as dela.
Ofereceu-me há tempos um azevinho que deu este ano bolinhas vermelhas pela primeira vez.
É um pé de azevinho de boa qualidade. Não é bravo, é dos que dão bolinhas vermelhas. Plante-o onde quiser. Só é pena é que já não vai dar bolinhas no meu tempo.
Segredei-lhe a novidade.
Lá está o azevinho, este Natal, verde e vermelho, virado para a calçada, a olhar para a Micas nas noites quentes ou frias, enquanto para ela houver estrelas e luar.
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