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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Glenway Wescott Um Apartamento em Atenas
O livro fala da ocupação da Grécia pelas tropas do exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e acompanha o inferno em que se transformou o quotidiano duma família ateniense obrigada a alojar um oficial nazi que os privou da maior parte da habitação, inclusive da casa de banho que reservou para seu uso exclusivo.
Transformados em autênticos escravos, os Helianos tinham que cuidar do bem estar do capitão nazi que preferia mandá-los entregar os restos das suas refeições ao cão de um amigo a permitir que o casal e os filhos matassem a fome.
Esta foi uma história verídica e, como ela, se imaginam tantas outras.
Como pode a Alemanha ter o desplante de, mais uma vez, humilhar a Grécia como está a fazer agora?
Aqui ficam dois trechos do livro que provam a monstruosidade a que os gregos foram sujeitos. Talvez, ao ler este livro, nos interroguemos como é possivel a um povo que já foi tão vilipendiado aceitar mais esta humilhação. O tempo responderá.
Augusta Clara
"A Cruz Vermelha não dispunha de leite ou medicamentos em quantidade suficiente para todos; por conseguinte, a política da instituição passava por escolher em cada família pobre a criança mais saudável, aquela que tinha mais probabilidades de sobreviver, e concentrar nela os seus esforços. Daí que nas famílias realmente pobres se vissem situações de injustiça e de desigualdade sem precedentes: uma criança afortunada, escolhida, rodeada por irmãos de olhos encovados, estômagos inchados e membros cadavéricos, secando e morrendo aos poucos. Não havia nada a fazer. Não se podiam dar ao luxo de desperdiçar comida com os não-escolhidos. Corria o rumor de que davam preferência às raparigas, porque após a guerra um só rapaz podia servir várias delas, em termos de repovoamento do país."
(...)
Depois disso a mulher calou-se e concentrou-se nas suas compras, até as terminar. Mas a seguir, recordando, sem dúvida, as palavras amáveis da Sr.a Helianos, viera até junto dela para lhe mostrar os parcos artigos que conseguira comprar, num dia em que tivera mais sorte do que o habitual.
«Sabe, quando tenho a sorte de arranjar qualquer coisa para comer é uma chatice», dissera ela, «porque tenho de alimentar à parte o da Cruz Vermelha, porque ele está muito mais forte do que o irmão ou a irmã; fica sempre com uma porção maior do que devia.»
(in Glenway Wescott, Um Apartamento em Atenas, Relógio D'Água)
Mário de Oliveira "Fátima S.A."
Günter Grass "Quanto mais velho estou ..."
(...) Quanto mais velho estou, mais frágil me fica a bengala da cronologia. Mesmo quando consulto, por serem úteis, catálogos de amarelecidos ou mesmo se quisesse, através da Internet, ficar a saber ao certo, com a ajuda de alguns exemplares da revista Der Monat de meados dos anos cinquenta, aquilo que afirmo como acontecimento a partir de agora marcante, ficaria pendurado na imprecisão.
Certo é que, antes de a Anna e eu seguirmos viagem, com nossa tenda laranja-avermelhada, em direcção a sul, rompeu querela sobre arte em Berlim, que durou até ao ano seguinte, mais ainda, até depois da morte de Karl Hofer, e que ainda deveria irritar os vanguardistas de então, de tal forma se discutiu radicalmente, reivindicando o conceito «do Modernismo»; tomei só marginalmente partido na disputa.
Furioso, porque magoado, Hofer defendia a pintura figurativa definida pela imagem do humano, contra a primazia absoluta atribuída a imagens não figurativas, cujo estilo era propagandeado como «pintura informal» e, nos catálogos de arte, elogiado como o Modernismo mais moderno.
O adversário dele na querela chamava-se Will Grohmann crítico de arte que só valorizava aquilo que, no julgamento de Hofer, tinha como consequência o «deslizar para as névoas longínquas do nada». Escreveu artigos contra a intolerância reinante e chegou mesmo ao ponto de advertir para aproximações ao «estado nazi dos líderes provinciais».
Não foi oficialmente, como director na nossa escola, mas como combatente isolado que o velho senhor batalhou: via a arte ameaçada por «decoradores de superfícies» como Kandinsky e defendia Paul Klee, que chamava um «poeta pintor», contra o «kitsch horrivelmente colorido» do russo.
Em consequência disso, foi caluniado a muitas vozes como «anquilosado e ultrapassado», como «adversário, cego de raiva, do Modernismo» e, em suma, como «reaccionário». Palavras, conceitos, os novíssimos «ismos» concorriam uns com os outros. A querela alastrou para a Associação dos Artistas. Houve membros que saíram.
Quando Hofer, por fim, acusou ainda a América de ser o país de origem do novíssimo dogma - lá o novo em si era valorizado só pela novidade e considerado bom para o negócio - , foi insultado como comunista encapotado e de imediato se levantou uma suspeita que - como era habitual na altura -, embora tendo sido rapidamente abafada, voltou décadas mais tarde. Pesquisadores de arquivos afirmaram que os serviços secretos americanos, a CIA, tinham promovido, por cálculo político, a pintura não figurativa e dita informal por ser decorativamente inofensiva, e também porque assim o conceito de «Modernismo» prometia passar a ser propriedade fixa do Ocidente.
Quando evoco, com os olhos de hoje, esta querela e a peso, torna-se claro com que intensidade o conflito entre Hofer e Grohmann, o austero retratista do humano e o papa da arte daqueles anos, deu rumo ao meu trabalho artístico; tal como na disputa entre Camus e Sartre, que determinou a minha postura política posterior, tornando-me partidário de Camus, decidi-me a favor de Hofer,
A exclamação dele «Oh divino Klee, se tu soubesses o que se tem passado em teu nome!» tornou-se citação. E quando nos dava a entender a nós, alunos de Belas-Artes do princípio dos anos cinquenta, que «o problema central das artes plásticas era e seria o ser humano e tudo quanto anda à volta do humano, o eterno drama», o apelo dele, por muito patética que seja a entoação, ecoa até aos meus dias de velhice. (...)
(in Descascando a cebola. Autobiografia 1939-1959, Casa das Letras)
Nota: o texto seguinte pertence ao livro correspondente a esta imagem. Foi seu autor o professor, escritor e jornalista brasileiro Paulo de Castro, publicou-o a Forum Editora do Rio de Janeiro em 1969. Adquiri-o aqui em Portugal em 1973 mas, neste momento, não consigo encontrar-lhe nenhuma referência. É pena porque se trata duma obra de qualidade, muito bem documentada.
Como se lê na contracapa "Este livro é um estudo e um testemunho. Estudo de problemas atuais delineado num fundo histórico, e em análises de ordem filosófica e política, cingindo todos os aspectos da agressão sionista ao mundo árabe, e um testemunho de um amigo de sempre do povo judeu - desde as jornadas na Espanha Republicana até aos campos de concentração fascistas durante a última guerra mundial".
Dada a dificuldade actual em se encontrar este livro, tentarei publicar outras partes do seu conteúdo em próximas edições. Neste momento em que a monstruosa invasão e destruição da Faixa de Gaza pelas poderosas forças armadas de Israel procura justificar-se por causas próximas, mas actuando com uma brutal desproporção e desrespeito pelo Direito Internacional e a protecção de civis em conflitos armados - na verdade, Israel não pretende mais do que fazer desaparecer Gaza do mapa e usurpar-lhe o território -, o testemunho de quem conheceu a fundo os pressupostos do sionismo e a maneira como a Inglaterra manobrou para a criação do Estado de Israel não pode deixar de ser uma preciosa leitura. A. C.
Paulo de Castro A Grande Fraude
A instalação dos sionistas na Palestina é uma fraude, de tipo monumental.
A seguir à derrota da Turquia, no fim da Primeira Guerra Mundial, a Palestina ficou sob o mandato britânico. Nesse momento, o país contava 700.000 habitantes, dos quais 574.000 muçulmanos, 70.000 cristãos e 56.000 judeus. Em 1946, a população era de 1.936.000 habitantes, dos quais 1.293.000 árabes (muçulmanos e cristãos) e 608.000 judeus e 35.000 de várias origens. No mesmo mês de maio de 1948, se não se tivesse dado a expulsão, teriamos 1.380.000 árabes e 650.000 judeus, isto é, a proporção de um judeu para dois árabes.
Quanto à propriedade da terra, apesar de tôda a corrupção dos sionistas e de todos os fundos da Agência Judaica, os judeus possuíam apenas 6%, cifra que não justifica a tentativa de domínio sôbre tôda a Palestina. A Declaração Balfour de 1917 concedia “um lar judeu na Palestina”, não a Palestina para os judeus, ou um Estado judeu na Palestina.
Mas a convicção dos meios sionistas é que mediante uma pressão inclusive pelo terror, o govêrno britânico no fim do Mandato entregaria a Palestina, tôda a Palestina à Agência Judaica, a qual com suas fôrças militares treinadas na Palestina com a benevolência dos inglêses, imporiam a sua vontade total, à totalidade do país.
A Declaração Balfour, pelo lugar que ocupa na tragédia do povo da Palestina, merece que nos detenhamos um pouco na sua análise, que terá naturalmente de seguir, inevitavelmente, em alguns pontos trabalhos já realizados por intelectuais árabes, e judeus não-sionistas.
A 2 de novembro de 1917, o govêrno britânico publicou sob a forma de uma carta enviada por M.A.J. Balfour, mais tarde Lord Balfour, então Ministro das Relações Exteriores, a Lord Rotschild, uma declaração concebida nestes têrmos: "Tenho o grande prazer de dirigir-lhe da parte do govêrno de Sua Majestade a seguinte declaração de simpatia pelas aspirações sionistas dos judeus, declaração que submetida ao Gabinete foi por êle aprovada:
“O Govêrno de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um Lar Nacional para o povo judeu e empregará todos os seus esforços para facilitar a realização dêste objetivo, sendo claramente entendido que nada será feito que possa representar um prejuízo aos direitos civis e religiosos das comunidades não-judaicas na Palestina assim como aos direitos e ao estatuto político de que os judeus possam beneficiar em qualquer outro país."
“Polio We Will Win” é um livro de fotografia que retrata o esforço para acabar com a doença da Pólio através do poder da imagem do sorriso das crianças salvas desta doença. É também o primeiro livro escrito em Português, Turco e Inglês e com testemunhos de vários voluntários como é o caso do Prof. Doutor Fernando de Pádua.
Nota de edição: este livro deve ser esfregado bem na cara dessa gente que anda por aí a tentar enganar os outros, incentivando-os à não vacinação, especialmente dos filhos. É crime.
Soube de um médico que o fazia, não dando a cara, sob pseudónimo. Provavelmente para não irritar os mecenas da indústria farmacêutica. Todos sabemos que, quanto menos vacinas, mais doenças e mais lucros em medicamentos para certas máfias do grande negócio da saúde.
"Magnífica obra comemorando os noventa anos da BIAL, com prefácios de João Lobo Antunes e Manuel Sobrinho Simões. Noventa Pinturas de autores com obras publicadas pela BIAL e Noventa Poemas de autores médicos, antigos e contemporâneos"
Com estas palavras nos apresenta Adão Cruz, médico cardiologista, pintor e poeta, colaborador deste blogue, o belo livro em que a BIAL incluiu peças da sua arte poética e da sua pintura
Augusta Clara A ilha que todos somos
Não sei fazer crítica literária nem quero saber. Fico até indiferente quando leio que um livro é o melhor do século tal ou de determinado ano. Sorrio sempre que acontece haver mais do que um assim classificado em simultâneo. Regra geral não se trata de ex-aequo, trata-se de interesse comercial. Mas “A Ilha de Arturo”, de Elsa Morante, é, de certeza, um dos mais poderosos romances que já li caracterizando o tumulto das emoções humanas. Neste caso, particularmente, sobre a evolução da passagem entre a infância e a adolescência de um rapazinho de vida selvagem.
A crisálida a sair do casulo, a dor de romper os fios tão bem tecidos que nos protegem nas primeiras fases da vida, a curiosidade de afastar a cortina de espuma que nos defendia os sonhos e a imaginação. O que essa travessia tem de complexo na alma humana irrompe em algumas das mais belas páginas deste livro.
Depois, a transmutação desse mundo primeiro e maravilhoso, arrastando ainda, colados ao corpo, os restos da seda protectora da infância, no tormentoso caos do mundo adulto onde os artifícios passam a ser o casulo. Tão bem descrita é esta passagem rápida de um mundo ao outro, quase sem transição, como se não houvesse tempo para isso, como se fosse demasiado perigoso deixar vazios.
Julgo eu, que não pertenço ao mundo dos psis, ser aí que residem as dores da adolescência. E Elsa Morante traduziu-as com uma mestria sem par. Por fim, já, também, nós nos reconhecemos ali naquele menino que se transmuta em adulto, com as nossas falsidades, os nossos disfarces, o nosso medo do amor, aquilo a que a nossa traidora oralidade nos confina e tudo o mais que iludiu a dimensão de pessoa que estávamos fadados para ser.
Já ali reconhecemos a ilha em que todos nos tornamos.
José Ferrer [*] Porque devemos sair do Euro, um livro indispensável
Tive a sorte, ainda na minha adolescência, de conhecer, pela mão do Jorge de Sena, o poema Cena do ódio , do Almada Negreiros.
Entre outras passagens do poema, nunca esqueci a seguinte:
Ó Horror! Os burgueses de Portugal têm de pior que os outros o serem portugueses! [1]
Está claro que a passagem pouco esclarece para além de si mesma, mas o certo é que ela se aviva na minha memória sempre que tento perceber os motivos profundos pelos quais Portugal não atingiu, ou atingiu mal e tardiamente, muitos desenvolvimentos sócio-económicos logrados pela generalidade dos países da Europa Ocidental na sequência da Revolução Industrial.
Isto, apesar da histórica abertura de Portugal ao Mundo, em força desde o século XV, da implantação da Maçonaria entre nós desde o fim do século XVIII, da chegada das ideias socialistas (geração de 70) pouco depois da publicação do Manifesto Comunista no século XIX.
Um exemplo, que me é pessoalmente caro: a indústria siderúrgica, entendida modernamente, chegou com atraso da ordem de um século a Portugal; pois bem, passadas quatro décadas após o arranque (em 1961) do único alto-forno que explorámos, Portugal viu reduzir a sua siderurgia ao tipo da dos chamados países subdesenvolvidos, que iniciam logicamente a actividade industrial pela adopção das produções industriais menos complexas. Digamos que Portugal chegou tarde, e saiu cedo da siderurgia.
O exemplo da siderurgia é o que se vê, apesar de Ferreira Dias, o então ministro da Economia de Salazar, ter afirmado décadas atrás: "País sem siderurgia, não é um país, é uma horta". Temos assim, por ora, uma siderurgia menor e, ao que vemos, sequer tivemos a sorte de constituir uma horta (entenda-se, agricultura) que nos pudesse alimentar capazmente.
João Ferreira do Amaral (JFA), em livro assaz resumido mas de leitura instrutiva que acaba de lançar [2] , analisa muitos dos sérios problemas económicos em que nos vêm mergulhando, em particular desde a adesão ao Euro. Não é que JFA mitifique a economia que tínhamos antes, o problema que coloca, e, a meu ver, muito bem, é que o enquadramento criado pela integração de Portugal na zona do Euro – mesmo que não tivesse aparecido a chamada crise financeira em 2007/2008 – ter-nos-ia igualmente conduzido a uma crise deste tipo (desmantelamento do aparelho produtivo, elevado desemprego).
O FEDERALISMO DOS ENDIVIDADOS...
JFA rejeita tanto a deriva neoliberal em curso como a suposta alternativa do federalismo europeu. Desta via é cáustico ao ponto de comentar: os "nossos federalistas – que se lembraram que o eram quando começou a ser preciso que alguém nos pagasse as dívidas" (p.116).
Daí que proponha a saída do Euro como medida indispensável à saída da crise em que estamos mergulhados.
Um aspecto importa realçar: JFA não resiste a criticar os responsáveis pela condução da política e da economia que nos levaram à integração na moeda única, justamente porque invoca, e nisso não foi o único, os alertas que emitiu atempadamente contra os elevados perigos para a economia portuguesa que resultariam daquela opção. Mas, no fundo, e apesar de agora apontar responsáveis dirigentes da política e economia, é manifesto que a JFA terá custado a entender o motivo pelo qual, não obstante se viver em regime dito democrático, as coisas evoluíram como se sabe.
JFA denuncia e exprime o seu desencanto:
"Chamei frequentemente a atenção para o conceito de bens transaccionáveis (…) e para o risco que estávamos a correr com a redução do peso da produção desses bens no total da economia. Repeti a mensagem vezes sem conta em intervenções orais e escritas. Sem qualquer resultado.
Lamento dizer que fiquei desde essa altura com uma péssima impressão das nossas elites, impressão que infelizmente tarda a desvanecer-se. O espesso manto de iliteracia económica que as afecta (mesmo de muitos supostos economistas), a suficiência bacoca e a total ausência de sentido crítico que as caracteriza fazem certamente de Portugal um dos países da Europa com piores elites". (p.106).
Assim, uma vez mais, e da parte de pessoas que sequer se reivindicam do ideal comunista, quando se atira para o aprofundamento das raízes dos nossos problemas, aí temos a mesma ideia central: a burguesia portuguesa nem do patriotismo de outras é capaz. Eis por que, sobre a tarefa de tratarmos da saída do Euro, importa também avançar na substituição da burguesia pelas classes trabalhadoras. Ponto é que estas se compenetrem de que chegou a hora da sua intervenção e que se libertem dos atávicos receios de conquistar e exercer o poder ao mais alto nível. Portugal precisa delas.
[1] Líricas Portuguesas (Antologia), Selecção, Prefácio e Notas de Jorge de Sena, Portugália Editora, (1958), Lisboa, p.111.
[2] Lisboa, Editora Lua de Papel , Abril de 2013, 128 p., ISBN 978-989-23-2314-5
Ver também:
[*] Engenheiro.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
(Tradução do francês por Francisco Paiva Boléo)
Châlons-sur-Marne, Inverno de 1971.
Caserna da École d'Application d'Artillerie.
Na distribuição matinal de tarefas, o soldado de 2ª. classe, Fulano (n.e 14672/1, bem conhecido nos Serviços), oferece-se sistematicamente como voluntário para a tarefa menos desejada, mais ingrata, frequentemente atribuída a título de sanção e que é um verdadeiro atentado à honra de qualquer um: a lendária, a infamante, a inominável tarefa das latrinas.
Todas as manhãs.
Com o mesmo sorriso. (Interior)
— Tarefa das latrinas?
Ele dá um passo em frente:
— Fulano!
Com a gravidade que antecede o assalto, agarra na vassoura de onde pende a serapilheira, como se se tratasse do estandarte da Companhia, e desaparece, perante o enorme alívio dos restantes. É um herói: ninguém o segue. Todos ficam na trincheira das tarefas honrosas.
As horas passam. Se calhar perdeu-se. Quase se esqueceram dele. Esqueceram-se dele. No entanto, ao fim da manhã, aparece, batendo os tacões ao relatar o resultado do seu trabalho: «latrinas impecáveis, meu sargento!» O sargento recupera serapilheira e vassoura com uma interrogação no olhar, mas que nunca formulará. (O respeito humano a isso obriga.) O soldado faz a continência, dá meia-volta e retira-se, levando consigo o segredo.
O segredo pesa no bolso direito do seu camuflado: 1900 páginas do volume que a Plêiade dedica às obras completas de Nicolau Gogol. Um quarto de hora de esfregão contra uma manhã de Gogol... Todas as manhãs, desde há dois meses, confortavelmente sentado na sala de tronos fechada à chave, o soldado Fulano voa muito por cima das contingências militares. O Gogol todo! Dos nostálgicos Serões da Ucrânia aos hilariantes Contos de Sampetersburgo, passando pelo terrível Taras Bulha, e o humor negro de Almas Monas, sem esquecer o teatro e a correspondência de Gogol, esse incrível Tartufo.
Porque Gogol é o Tartufo que Molière inventou — o que o soldado Fulano nunca teria compreendido se tivesse deixado a outros a tarefa das latrinas.
O exército gosta de festejar feitos de armas.
Do soldado Fulano, restam dois alexandrinos, gravados bem alto no metal de um autoclismo, e que se incluem nos mais sumptuosos da poesia francesa:
Sim, posso sem mentir— senta-te, pedagogo — Afirmar ter lido todo o meu Gogol nas latrinas. *
(Por seu lado, o velho Clemenceau, o «Tigre», também ele um famoso soldado, dava graças a uma prisão-de-ventre crónica, sem a qual, dizia ele, não teria nunca tido a felicidade de ler as Memórias de Saint-Simon.)
______________
* A tradução não pode restituir a ironia que resulta das palavras utilizadas: «Oui je peux sans mentir, assieds-toi, pédagogue, / Affirmer avoir lu tout mon Gogol aux gogues.» (N. do T)
(in Daniel Pennac, Como Um Romance. Edições ASA)
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