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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 08.02.16

Reportagem de Marcos Cruz na pesca em alto mar

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   E agora para algo completamente diferente: um texto especial, uma memória grata do meu tempo de jornalista. A reportagem que fiz, com o Hernani Pereira, em alto mar. Perdi o rasto aos companheiros de tripulação, mas se por um feliz acaso o Rui, o Nelson, o Russo, o João, o Batata ou o mestre José Luís encalharem uns minutos nestas linhas, gostava de os fazer saber que, de algum modo, nunca os esquecerei. Terminada a leitura, encontram umas quantas fotografias da aventura, cujo relato rezava assim:

Durante a greve dos pescadores, ouvi uma senhora, na doca de Matosinhos, dizer que o primeiro-ministro “devia era ir ao mar”. Não sou primeiro-ministro nem pretendo sê-lo, mas achei pertinente, para um jornalista, a sugestão. Tratei das coisas, fui e não me arrependo. Tão cedo, no entanto, não me apanham nesta rede. É vida dura, demasiado dura para um burguês como eu, habituado a ter peixe na mesa.

 

MARCOS CRUZ Texto
HERNÂNI PEREIRA Fotografia

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“Vocês agora vão descansar”, recomendou a voz da experiência. Eu, apesar de ter questionado o sentido de se descansar quando não se está cansado, acatei a “ordem” e fui. Bem vistas as coisas, o Eça de Queirós acabara de sair da doca de Matosinhos e havia ainda “duas horas, duas horas e meia” de liberdade pela frente. Depois disso pedir-me-iam para arregaçar as mangas, e eu não fazia a mínima ideia da intensidade do trabalho que me esperava.
O Hernâni, repórter fotográfico, não queria perder pitada. “A mim interessa-me apanhar as várias fases da viagem”, respondeu ao armador. Este, nada paternalista, acedeu. Ficaram então os dois à conversa, na casa do leme. A noite estava óptima, e eu, quando desci aos “aposentos” para me enfiar num caixão em cujos extremos os meus extremos tocavam, pensei que eles iriam ter ali um bocadinho agradável. Eis senão quando, depois de haver concluído que não conseguiria dormir ali nem um minuto (com a excitação, o aperto do leito e o balanço das ondas), percebi, pelo ar nauseado do Hernâni, mal voltei “à tona”, que fizera bem em ser obediente.
José Luís Silva ria-se. O ritual iniciático estava cumprido.
A partir dali, aquela raposa do mar, presidente da Associação de Armadores de Pesca do Norte, não era apenas o mestre dos pescadores da embarcação. Era também o nosso. Os seus conselhos eram ordens.
Foi então que o suplício começou. “Vocês vão trabalhar?”, perguntou Nélson, rapaz novo, pai de um casal de crianças. “Sim”, retorqui, expondo o processo e o objectivo da reportagem. “Esta vida não interessa a ninguém”, postulou ele, num misto de espanto e desdém. Enquanto isso, vestíamos as fardas: os sete pescadores, alguns dos quais acabavam de sair das tocas, puseram oleados (calças e casaco), luvas, chapéus e galochas; eu enfiei-me numa jardineira de pesca desportiva com botas incorporadas. Quem dá (apenas) o que tem... pode ver-se obrigado a aceitar a ajuda dos outros: luvas, mangas impermeáveis e umas palmadas nas costas.
De súbito, placas, cordas, roldanas, tudo em andamento. “O que é que eu posso fazer?”, perguntei. “Arrumares-te para aí”, foi a resposta. A operação pesca de polvo estava no warm-up, forma de dizer preparação do equipamento: monta mesa, tira bóia, aperta nós, levanta isto, baixa aquilo... Um corre-corre que eu, embaraçado como um qualquer daqueles muitos fios, só acompanhava com os olhos.

O polvo, mesmo unido, lá foi vencido

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Até hoje, a palavra pote desenhou sempre na minha cabeça a imagem do recipiente onde, em pequeno, fazia as necessidades fisiológicas mais repugnantes. Agora, se me falarem num pote, a primeira coisa que me assoma ao pensamento é um polvo desesperado. Um representando muitos. Só eu, naquela noite, devo ter matado mais de uma centena. Posso estar a exagerar, pelo que me custou, mas pareceu. Vinham nos ditos potes, amarrados a um cabo imenso puxado com uma roldana para o porão do barco.
“E agora?”, inquiri-me, não querendo atrapalhar a tripulação. “Pegas na lixívia e mandas um bocado lá para dentro. Assim, vês? Olha o gajo a sair. Agora espetas-lhe a faca no meio dos olhos e quando aparecer esta coisa branca ele já está morto. Atiras para ali”, ensinou sumária e eficazmente o Nélson. As fotografias ao canto superior direito da página ao lado documentam as minhas primeiras tentativas e, julgo, o meu parco talento.
Foi aí que me senti mais perto do vómito. Chamem-lhe hipersensibilidade burguesa, reacção de menino, o que quiserem. Eu procurava equilibrar-me física e emocionalmente face, por um lado, à agitação do barco e, por outro, à luta estóica dos moluscos contra a morte, forma eufemística de dizer contra mim. Eu, transformado num serial killer, tentando contrabalançar cada facada com a imagem de uma garfada. Matar para dar a viver, que inevitável contra-senso.

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“Anda, vamos fazer outra coisa.” Era a voz do Rui, mostrando-me a que sabe o som de um gong antes do soco fatal. Fomos enfileirar potes vazios para voltarem ao mar. Tirando o “pormenor” da vida, o porão é uma linha de montagem. “Enjoado?”, perguntou. Olhei bem para ele: corpo enorme, olhar manso, uma atitude afável inspirando competência.“Não, não, fiquei só um bocado impressionado por matar tanto polvo.”

Que pescador gosta da vida no mar?

Aos 28 anos, o Rui é um homem que não teme a dureza do trabalho. Antes da pesca, passou pela construção civil, como cofrador e a acartar ferro. “Quando um gajo é novo não quer estudar. Depois lixa-se”, resume. A conversa foi seguindo ao ritmo dos potes. Soube que ele era pai de um bebé de sete meses, que adorava ter outro, que o pior dia da semana para ele e para os outros pescadores era o domingo (“depois de um fim-de-semana com a família, o jantar antes de voltar ao barco nem nos sabe”), que dantes os armadores tratavam os “camaradas” do pior mas agora já mudaram o registo (“como falta mão-de-obra eles são obrigados a respeitar as pessoas; e eu tenho sorte, porque o nosso mestre é cinco estrelas”), que a pesca aceita tudo (“drogados, criminosos, gente boa”) e que, ao contrário do que por aí se veicula, os pescadores não gostam da vida no mar (“pergunta a qualquer um destes, vais ver o que ele te diz”). Pudera...
Ouve-se um grito de zanga e o Rui traduz: “É a hora a passar. O pessoal começa a ficar cansado”. Nada como o entoar de um fado para acalmar as águas. Está a acabar mais uma rodada de polvo e chega a informação de que talvez o mestre permita uma pausa. Confirma-se, vamos poder encostar-nos, literalmente, às boxes. 40 minutos contados.
Estourado mas sem sono, conjecturo sobre o que ainda virá. Penso numa rede cheia, despejada sobre o porão, todo o tipo de peixe a rabear e nós a separá-lo. Parece-me mais interessante. Qual quê...Assim que a buzina soa e eu me levanto, percebo pelo preparar da mecânica que o esquema não é tão simples. A primeira rede vem e eu furto-me a partilhar a minha imaginação. Sou mesmo ignorante. O peixe chega aos poucos, enredado na teia densa e que vai saindo do mar como uma língua infinita. A nossa tarefa é, ironia das ironias, “safá-lo”, termo utilizado para dizer desprendê-lo da rede.

As várias maneiras de “safar” o peixe

O Russo (parece nome de peixe mas é de pescador) vê-me em apuros com os primeiros “convidados”. Explica-me que cada um é safo à sua maneira. Vem uma cavala e eu aplico os novos conhecimentos: dobro-lhe o rabo, que se desenvencilha, e puxo-a cá para fora, orgulhoso. Aparece um linguado e abordo-o confiante, sem fazer ideia de que ele escorrega mais que um sabonete. O João, pai do Nélson, velha guarda do mar, com histórias mirabolantes de vida que incluem vinte minutos debaixo
de fogo da Frente Polisário nas águas de Marrocos, ri-se. Claro. “Se queres safar um linguado tens de o apertar aqui [debaixo das guelras], que ele já não mexe. Depois tiras os fios com cuidado.” Eu querer, queria, só que um linguado é um magnífico exemplo da distinção entre a teoria e a prática.
“A faneca é pela cabeça”, “esse, dá cá, que ainda te espetas”, “havia era de vir uma tremedeira para apanhares um choque”, “bota isso fora, não vês que está podre?” – a pouco e pouco, resignado a ser motivo de riso, fui-me sentindo mais pescador.
O facto de ver que a minha presença aligeirava o dia dos camaradas também ajudou. Caí no erro de o confessar. “Ai é? Então queres voltar no domingo?”, troçou o Batata, fartinho de saber a resposta: “Nem pensar!”
Ao todo, demos conta de 50 redes, em cinco séries de dez. No final de cada uma, recordávamos uns para os outros: “Só faltam x”. A resistência, no meu caso, tornava-se já uma questão de orgulho e, com o aproximar do fim da “escravatura”, as forças caíam a pique. Um ou outro incentivo, do tipo “tu davas para marinheiro, és rijo!”, ia atrasando o estouro. Quando o Rui sentenciou a trégua, eu nem festejar conseguia. Em típica conversa de balneário masculino, “picaram-me” eles: “Anda lá que tens uma gaja boa à tua espera na doca.” Claro que o assunto mulheres não poderia deixar de aparecer. Mulheres de fantasia, como sereias, até porque as caxineiras “são tesas”.

Há conclusões que também vêm à rede

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Nisto tudo, o Hernâni esteve presente. Por vezes, confesso, até me constrangia a convivência com a objectiva, como se eu fosse uma estrela no meio de gente infinitamente mais capaz em inúmeros aspectos da vida. Gente humilde, franca, de fibra. Gente grande forçada a viver pequeno. Gente que nunca se vingou do novato na oportunidade que teve, como acontece tantas vezes em sectores de actividade mais bem cotados.
Foi, pois, uma experiência para reter na memória. Valeria a pena alguns dos nossos governantes porem-se, um dia, na pele de produtores das áreas que tutelam. Claro que aqui, como em quase todos os domínios, se aplica a máxima “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, ou seja, o equilíbrio estará algures entre o que quem anda com redes nas ondas e o que quem lida com papéis nos gabinetes defende. Mas o que também se aplica é a velha lei: quem se lixa é o mexilhão. Neste caso, o pescador.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 01.02.16

Indiedependência - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Indiedependência

 

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   Assim como, no princípio deste século, uma franja considerável de críticos de produtos artísticos e culturais renunciou à pele do intelectual esquisito e inacessível que lhe era vestida pelo senso comum e passou a revelar uma simpatia crescente por objectos e eventos mainstream, respondendo positivamente ao aceno de um mercado tão explosivo quanto indiferente a quem lhe oferecia resistência, hoje vemos consolidar-se um movimento de sentido inverso por parte do próprio mainstream, a reboque de um fervor expansionista com apetite voraz pela anexação de correntes de opinião livre. É assim que rebenta este fenómeno do indie. Hoje, todos queremos ser indie. Os filmes que trocamos, os sites de música que procuramos, os livros que recomendamos, é tudo indie. A coisa evoluiu a tal ponto que já se torna difícil s mainstreameparar o indie do mainstream, e boa parte das vezes a fronteira é cosmética – nada mais nada menos que o mainstream a revelar a verdadeira natureza de um dos seus tentáculos mais trendy.

Ora, o indie preenche em nós, ilusoriamente, o vazio idiossincrático que resulta de uma vida entregue a outrem. A reflexão pede tempo e disponibilidade mental, verdadeiros luxos para quem martela os dias com a batida repetitiva das logísticas casa-trabalho-casa. Vai daí, preterimos a experiência criativa em favor de um produto cujo rótulo de cultural, e ainda por cima indie, serve de almofada à nossa consciência. Assim que o dia nasce trocamos um novo cromo.

Perversamente, opera-se no (in)consciente colectivo uma transferência de valor entre o produto cultural e o conhecimento da sua existência. Passa a ser mais importante falar do filme, da música, do livro, do que ter deles um usufruto pessoal. E é esse consumo supérfluo e exibicionista que adensa a dependência do indie, aquilo a que ironicamente poderíamos chamar de indiedependência. O mais paradoxal é que o indiedependente procura através do vício de fugir da sociedade inscrever-se nela.

Tomemos um exemplo: com a credibilidade dos media em queda livre, o cinema tem explorado avidamente o filão da realidade. Seja em documentários ou produtos ficcionais de base verídica, há hoje uma obsessão por capturar todo o tipo de experiências de vida. Se isso traduz uma tomada de consciência da sétima arte de que temos de combater o facto de nos estarmos a afastar uns dos outros ou configura apenas um aproveitamento estratégico da circunstância de que não falta quem queira observar cada uma dessas borboletas no respectivo frasco, é análise complexa que o curso do tempo tratará de esclarecer. Mas que a disponibilidade da maior parte do público indie para visionar as pessoas que habitam essas micro-realidades filmadas não encontra correspondência na sua vontade de se relacionar com elas em terreno vivo, disso não haja qualquer espécie de dúvida.

Talvez isto não baste para postular um “ver ou viver, eis a questão”, mesmo que o fosso entre o voyeurismo e a vida vivida não pare de aumentar e que a generalidade dos indievíduos possa ainda não ter visto o filme em que se meteu. Poucos rebaterão, no entanto, a ideia de que aquele tipo de produtos culturais oferece a quem o consome uma espécie de preservativo, para que a viagem seja segura. E, já agora, que serve uma realidade necessariamente manipulada, de acordo com a subjectividade do seu autor e, na esmagadora maioria dos casos, de modo a que a experiência humana proporcionada cumpra propósitos emotivos, catárticos e reflexivos intrínsecos à sua legitimação no mercado. É assim que pequenos mundos esquecidos (pessoas sem-abrigo, toxicodependentes, doentes terminais, profissionais do sexo, vítimas de violência doméstica, entre tantos outros), como que salvos pela indústria da arte, ganham de repente um glamour inesperado, provocando no indievíduo um misto de revolta (pelo facto de o mundo retirar o manto da humanidade a quem mais dele precisa) e conforto (por sentir revolta).

Na esmagadora maioria dos casos, nenhum destes sentimentos produz nada de consistente, tendendo mesmo a desaparecer cada vez mais eficientemente na voragem dos dias. A revolta esvai-se onde reaparece: na conversa de café da manhã seguinte – e já cumpriu o seu papel; o conforto, acordado pela realidade, é um efeito que também dura pouco. Daí o indievíduo precisar de mais, de mais revolta e mais conforto, de mais indievídeos sobre indivíduos para mostrar que é indivíduo a outros indievíduos, e tudo numa escalada cuja cadência é ditada pela indústria ao abrigo da lei do consumismo. Quer vejamos nisso perfídia de quem produz ou descontrolo de quem consome, ou as duas coisas, o circuito indie torna-se tão fechado que não só limita a experiência dos que o habitam como os aprisiona nessa experiência limitada.

De um modo que não deixa de ser sintomático, o conceito de indie descende do de alternativo. Embora sejam palavras de significado distinto, elas coincidem no facto de que é alternativo ser independente. Além disso, tanto uma como outra têm vindo a ser levianamente usadas e abusivamente distorcidas, o que faz com que o vazio lhes esteja cada vez mais próximo. Nesse cenário, quase todos vaticinarão que, tirando o suicídio e outras saídas perturbadoras, dificilmente restará alternativa à dependência. Mesmo hoje, em paralelo com espíritos que, tomados pelo optimismo da criatividade, procuram novos rumos capazes de desmentir a inelutabilidade da tirania financeira, há muita gente informada que parou de acreditar na reversibilidade do fracasso humano e, tendo hipotecado a reflexão, já se limita a preservar o conforto da existência física.

Mas há alternativas. Sempre. Pensemos num caso de vida comum: um homem levanta-se cedo e vai trabalhar. À noite, quando chega a casa, e já depois de ter feito as compras no supermercado, trata dos filhos (dá banho, veste pijamas, cuida) enquanto a mulher prepara o jantar. Assim que a cozinha está arrumada e os filhos deitados, ele e a mulher, cansados, deitam-se no sofá a ver um filme ou, se já não houver tempo, um episódio da série que estão a acompanhar. Ele ou ela adormecem a meio. Batem à porta: é o dia seguinte.

Agora imaginemos que, por uma vez, o homem chega a casa e a filha lhe pede que desenhe com ela. Ele fá-lo e, pouco a pouco, percebe que se reacende em si o gozo há muito perdido do desenho. A filha mostra-se mais próxima dele do que no resto dos dias. E a mulher, por empatia, também. Certamente, muitos de nós se revêem nisto. O mesmo é dizer que muitos de nós são este homem ou esta mulher. Eis uma premissa importante para o êxito de um filme. Se um realizador trabalhasse esta ideia (injectando a devida tensão nos binómios consumir/criar, aceitar/decidir, continuar/romper), havia uma forte probabilidade de muitos de nós, ou seja, muitos destes homens ou destas mulheres, reagirem a este produto cultural como a tantos outros de que gostam: sentir-se-iam mais humanos, mais integrados, mais cultos. A questão é: sentirão o mesmo quando experienciam, na própria vida, a essência de que se alimenta o filme?

Uma resposta negativa legitimaria a admissão de que, para o senso comum, a cultura se autentica no produto. Se eu vou de carro com quatro amigos e tenho uma conversa filosófica em que abordo profundamente alguns dos temas mais importantes da contemporaneidade, isso não é cultura. Se alguém filma essa minha conversa, já é cultura.

O rótulo, claro, interessa sobretudo a quem quer vender cultura. E a quem, tendo-se resignado ao sonambulismo quotidiano, a quer comprar. O indievíduo pode até convencer-se de que não joga este jogo, mas é, paradoxalmente, uma das suas pedras fundamentais: a bolsa de credibilidade, a ONG de que o sistema precisa para que o espectáculo possa continuar.

Desenha-se, pois, uma alternativa: libertar a cultura. Retirar-lhe o espartilho dos formatos, dos rótulos, dos donos. Criar. Enquanto não percebermos que a vida é arte e que dinheiro nenhum pode comprar o que dá real sentido a telas, pincéis e tintas, seremos sempre dependentes. Indie ou não.

 

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por Augusta Clara às 19:16

Segunda-feira, 18.01.16

Há um gajo que me irrita solenemente na política portuguesa - Marcos Cruz

  

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   Há um gajo que me irrita solenemente na política portuguesa. Há vários, mas hoje há um em especial: o Assis. E não é por não ter sobrancelhas, é mais por não ter vergonha. Achei repugnante a forma como abandonou o barco do PS após os resultados eleitorais, pondo o eu à frente do nós, sob o pretexto de uma alegada autonomia de pensamento assente em valores e princípios ideológicos para si inalienáveis. Então o que era assim tão mau? Simples: a viragem à esquerda de um partido que vinha evoluindo em sentido contrário, tal como ele, Assis. Ainda me lembro de o considerar uma voz progressista dentro do PS. Pelos vistos, tem mais ginga o partido, com a complexidade logística e humana que o habita, do que o militante, em abono de cuja inflexibilidade se podem apenas invocar uns quilos a mais. A verdade é que ele previu um futuro para o PS e, quando se deu conta, já nem no presente cabia – mais uma vez, não pela gordura. Fora ultrapassado. Daí achar cómico que ele agora, como cronista do Público, cite Faulkner a propósito do "tempo novo" de Sampaio da Nóvoa: “The past is never dead. It’s not even past”. É contra a "demagogia da beatitude" que Assis se insurge. Para ele, se o sistema corrompe as pessoas, torna-se muito mais perigoso embarcar em discursos purificadores, porque a história demonstra que "dão mau resultado", do que seguir visões pragmáticas. Especulando com um exemplo: a McDonald's, segundo a Elisa Ferreira, passou anos a fio sem pagar impostos sobre os lucros; ora, eu imagino que, para Assis, a necessidade de captação de investimento se sobreponha ao capricho de fiscalizar o investidor. Como avisava Nuno Melo no caso da Wolkswagen, o fervor justiceiro da esquerda pode afastar as empresas. Mas o que eu acho mais revelador é o facto de Assis ter escolhido Sampaio da Nóvoa para alvo do seu ressabiamento, assumindo, pelo caminho, o papel de advogado de defesa de Maria de Belém. Realmente, se de um lado está o tempo novo, mas esse tempo novo não foi concebido por si e muito menos para si, e do outro está o tempo velho, ele apoia este último na medida em que com ele partilha a dor de corno. Porque se o problema de Assis é o ímpeto saneador dos pretensos impolutos então a sua mira deveria estar apontada a Paulo Morais. Ou de Morais. Ou talvez Demorais, porque ele realmente demora a identificar os casos concretos de corrupção que apregoa. Mas não. A luta de Assis é contra quem lhe tirou o tapete. Porque a tudo isto subjaz, fundamentalmente, uma coisa: o desejo de poder.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Quinta-feira, 07.01.16

Ready-made Man - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Ready-made Man 

 

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   Tolstói entendia a depressão como a distância entre a consciência do indivíduo e a sua praxis. Crendo nele, não custa aceitar que filósofos, artistas, românticos e outros pescadores de águas fundas estejam entre os que mais arriscam a falência anímica. Uma sociedade como a de hoje, que evapora o longo alcance na câmara ardente da sobrevivência, não põe lugar na mesa para espíritos indagadores da sua própria natureza.

Mais fácil, pois, do que tirar o apetite a quem depende da fome para existir é fazer da fome a sua consciência. E assim, para esses, acaba-se a depressão, pelo menos enquanto houver comida.

Que, nos tempos mais recentes, filósofos, artistas, românticos e outros pescadores de águas fundas se tenham convertido a esta receita, eis a parte mais complicada de mastigar. A verdade, porém, é que de diferentes instâncias autenticadas do saber emergem tendências alérgicas a uma defesa da ética e da moral como elementos estruturantes da consciência.

Encostada às cordas desde o fim da Guerra Fria, a esquerda tem sido o alvo privilegiado desses socos retardatários, talvez porque a conjuntura actual seja propícia a que ela reanime. Então, mal ganha expressão social o apelo aos valores humanos, de pronto se levanta um modelo de intelectual muito em voga, intitulado de politicamente incorrecto, reduzindo o fenómeno a um “regresso da mentira da esquerda”. Com este conceito, pretende relembrar-nos de que enquanto uma pessoa de direita diz o que sente, uma pessoa de esquerda diz o que gostaria de sentir.

Trata-se de um discurso cujo fogo alastra tanto mais depressa quanto a palha é o pão dos nossos dias. Mais ai de quem diga uma coisa destas, mesmo não sendo o que gostaria de sentir. Vem imediatamente o veredicto: “As pessoas de esquerda acham-se moralmente superiores”.

Eu não cinjo a vida das ideias a uma contenda entre esquerda e direita. Penso o que penso. E sou, claro, parte do problema. Quando digo que a palha é o pão dos nossos dias, ainda sinto vestígios dela entre os dentes. Mas há uma coisa que eu não confundo: o burro com a burrice.

Ora, quem preconiza uma sociedade baseada num conceito de honestidade segundo o qual cada indivíduo se comporta de acordo com aquilo que sente deve assumir claramente a mensagem que transporta: se nascemos burros, burros devemos continuar.

A mim parece-me que, mais do que se acharem moralmente superiores, as tais pessoas de esquerda acham moralmente superiores os ideais por que se sacrificam até à depressão. E isso, sob um prisma individualista, faz delas burras. Mas talvez seja útil dizer a quem queira produzir juízos nesse plano de análise que ele não se ajusta minimamente ao contexto em que todos vivemos.

A civilização, tanto quanto a vejo, é um conceito evolutivo que visa não apenas harmonizar as vivências individuais e colectivas de um todo social, mas também criar as condições mais propícias ao seu desenvolvimento. Ser civilizado é, pois, defender a espécie.

Antes, porém, de defendermos alguma coisa, devemos imaginá-la, concebê-la, querer senti-la. Do meu ponto de vista, uma sociedade em que cada um diz e faz apenas o que sente tem um valor inestimável enquanto utopia. Não seria sequer o tecto da casa humana, era o céu. Agora, apontá-la hoje como terapia instantânea é o retrato fiel do pensamento individualista contemporâneo: curto, desintegrado. Para se ter o mundo na mão, tem de se dar a mão ao mundo.

A mim, não há depressão que me desvie do caminho.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 21.12.15

Um breve conto de Natal - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Um breve conto de Natal

 

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   António era um bife. Mal passado, passava mal. Mas tinha a resistência suficiente para lutar contra os que o queriam passar bem, pois sabia que “uma vez bem passado, bem passado para sempre”. Passava mal no presente, mais precisamente, já que o seu passado fora até bem passado, ou, como todos os passados, bem e mal passado. Em parte, era com isso que ele se passava: se, por um lado, “uma vez bem passado, bem passado para sempre” e, por outro, o seu passado havia sido bem e mal passado, ou seja, em parte, bem passado, porque não estaria ele bem passado no presente? Talvez, sem o ter presente, estivesse. Mas então por que razão passava mal? Era uma problema pesado, difícil de ultrapassar, e por isso António pediu ajuda. Foi ter com um bife que, por haver passado muito e (aparentemente) passar bem sem estar bem passado, talvez o pudesse fazer passar melhor no futuro, passando-lhe uma receita, ou algo assim, que o dispensasse de ser bem passado para deixar de passar mal. Era o melhor presente possível e, à beirinha do Natal, António passava o tempo todo, incluindo todo o tempo passado com o outro bife, a pedi-lo. Porém, passado pouco tempo, e vendo que António o havia passado mal a ansiar pelo momento de o passar a passar bem sem estar bem passado, o outro bife explicou-lhe que esse não era pedido que ele pudesse fazer a não ser a si próprio, pois nem ele, o outro bife, e muito menos o Pai Natal o poderiam satisfazer. Completamente passado, aqui já não interessa se bem se mal, António deixou o outro bife com um cortante “passar bem” e foi para casa pensar que passaria a mais desconsolada consoada da sua mal passada existência. Só, e descompassado com a ideia de que mais vale só que mal acompanhado, jantou um bife bem passado e passou o resto da noite a dormir, passando a linha do Natal sem se aperceber. Ao acordar, olhou para a árvore luzente que, apesar de tudo, havia comprado e percebeu que alguma coisa se tinha passado, pois no lugar do passado estava lá um presente. Entusiasmado, correu a abri-lo. Era uma bifana. Dormia como um anjo por nascer, mas já se constatava que era uma bela bifana, daquelas que fazem qualquer bife, mesmo o mais indefinidamente passado, como António, ultrapassar-se. A incredulidade guiou-o, qual sonâmbulo, até à casa de banho, onde passou água pelos olhos. Foi então que, confrontado com o espelho, viu que não se via. O seu tempo, dizia-lhe a superfície das imagens avessas - e que ali estampava também a do Natal - tinha passado. António deixara de ser um bife para passar a ser nada, como acontece com todos os bifes. E não lhe restava sequer o consolo de, enquanto nada, pensar que quando fora um bife o havia sido mal passado, já que passara à história com essa incerteza. Resignado, decidiu aprender com o passado e viver plenamente a espécie de segundo nascimento que lhe fora concedida. Outrora recém-nado, hoje recém-nada. Nesse preciso momento, a bifana acordou.

 

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por Augusta Clara às 19:30

Quarta-feira, 16.12.15

"A Grande Beleza" - crítica de cinema por Marcos Cruz

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Marcos Cruz  "A Grande Beleza"

 

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   "A Grande Beleza" está para Paolo Sorrentino como "A Árvore da Vida" para Terrence Malick. São obras de profunda reflexão que representam como nenhuma outra os seus autores, quer em termos filosóficos quer cinematográficos. Depois delas, torna-se difícil reinventarem-se. Malick fez "A Essência do Amor" e concentrou-se mais na poesia. Entendeu que uma forma interessante de se libertar de "A Árvore da Vida" era realizar um filme justamente sobre a libertação do corpo. As voltas e voltas que Olga Kurylenko dá em torno de si mesma são a coreografia de um processo de transformação, de purga. Como os patos batem apressadamente as asas depois de uma luta para se livrarem rápido das más energias, também a actriz que contracena com Ben Affleck roda o corpo para o desprender dos fios que o impedem de ascender a um plano menos denso da existência, onde as necessidades e os desejos se desvaneçam na consciência de que tudo é merecedor de amor. Sorrentino fez "A Juventude" e concentrou-se mais na emoção. Ao criar uma personagem como a de Michael Caine, cuja escolha também não é despicienda, o realizador italiano pretende exorcizar através dela o seu próprio medo de, tendo culminado com "A Grande Beleza" a construção daquilo a que se pode chamar de uma identidade cinematográfica, não ter mais nada para dar que não belisque a obra já feita. E é aí que entra Harvey Keitel, quase o Tyler Durden de Caine. Sorrentino supera a "persona" arriscando ser fiel às emoções, deixando-se guiar por elas sem, claro, pôr em causa o rigorosíssimo critério estético, narrativo e mesmo filosófico do seu percurso. Revela, com isso, amor à arte, o antídoto que escolhe para a tentação do orgulho e da vaidade, mas em dois ou três momentos do filme, paradoxalmente, talvez lhe escape da mão o orgulho de não ter sido orgulhoso: quando a emoção resvala para perto do sentimentalismo. Meros pormenores, danos colaterais numa obra de libertação que a mim, pessoalmente, me descansa sobre o futuro deste grande cineasta.

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 12.12.15

Cinema - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Cinema

 

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   Poucas coisas há que me comovam tanto como ver flores a nascer do lixo, contrariando a ideia de inevitabilidade, a cuja sombra este país, mero exemplo, hipotecou o seu futuro durante anos de mais. Em boa hora, por isso, me tirei dos meus confortos e fui ontem a Santa Maria da Feira ver o novo filme de Gabriel Mascaro, "Boi Neon", um objecto de cinema que, como poucos, desnuda uma realidade tapada dos nossos olhos pela obsessão do mercado em alimentar o consumo com a erva de t...udo o resto. Lá onde as cercas limitam o horizonte ao nosso focinho, lá onde a merda é o chão que pisamos, lá onde a claustrofobia dos gestos embrutece, lá onde tudo se encurrala, lá onde nem casa temos e andar sobre rodas não significa prosperar, moram connosco mil sonhos impossíveis, companheiros de vida que atenuam a dureza da gravidade e nos fazem levantar os olhos da aridez para as estrelas. É esta a fantasia de "Boi Neon", onde Iremar e a equipa que com ele viaja pelo nordeste do Brasil transportando bois para vaquejadas [rodeos] vão assentando as cabeças depois do suor. Uma fantasia que tanto pode esbarrar contra revistas pornográficas, colando as suas páginas, como desenhar-se sobre essas mesmas páginas, uma vez descoladas, na forma (infantil) de cavalos alados ou (adulta) de modelos de roupa para shows eróticos. É das trevas do desterro que nasce a luz do encantamento, e é da mistura de ambos que se compõe a poesia de "Boi Neon", condensada, aliás, no próprio título. Como Iremar deslumbra a pequena Cacá, filha de Galega, mulher-homem, mulher-cavalo, mulher-tudo que conduz o camião-casa-curral de vaquejada para vaquejada, quando lhe diz que o osso do boi faz sabão e a gordura gelatina, o filme arrebata-nos com a umbilicalidade que estabelece entre bosta e perfume, rijeza e ternura, corpo e evasão, preparando-nos paulatinamente o espírito para vermos sublime beleza onde de outro modo veríamos a mais rematada abjecção. De verbo pouco existe para contar, o cinema de Mascaro não se mascara: com pouco ficamos a saber muito sobre as personagens, as suas incompletudes, as suas fragilidades, e são os silêncios, os jeitos, os esgares que no-lo transmitem. Quase as cheiramos, estão aqui perto, continuam aqui perto. Como perto, ou mais do que isso, bem cá dentro, há de ficar eternamente o bailado final - chamemos-lhe bailado, para não prejudicar quem ainda tenha a sorte de ver o filme -, cujo título poderia ser "As árvores também nascem dos frutos". Em "Boi Neon" tudo é possível. E isso, numa palavra, é cinema.

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por Augusta Clara às 18:20

Quinta-feira, 12.11.15

"Um raciocínio associativo mais rápido que a própria sombra ..." - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  "Um raciocínio associativo mais rápido que a própria sombra ..."

 

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   Um raciocínio associativo mais rápido que a própria sombra, a ponto de o fazer voar para longe das coisas terrenas, praticáveis, exequíveis, sem que ele parecesse importar-se ou sequer concordar com isso, como alguém que improvisa rumo ao infinito possível, um Forrest Gump das ideias. O Paulo Cunha e Silva era um ser borbulhante, sempre inquieto, de uma simpatia nervosa que raras vezes, em contexto social, convidava a conversas longas, instaladas, profundas. Ele gostava de pairar porque estava assim mais defendido. Mas apanhei-lhe momentos que recordo pela compatibilidade intelectual que tínhamos, não necessariamente em termos de filosofias ou convicções mas de uma predisposição para a deriva diletante das ideias sobre uma lógica não escrita que nos era comum. Deu-me muito gozo, durante o Porto 2001, reflectir com ele a partir dos conceitos que inventava, desenhar nuvens combinadas no quadro etéreo do pensamento como se fossem possibilidades reais, dois adultos entusiasmados a brincar com coisas antes de elas serem sérias. É esse lado lunático do Paulo que recordo agora com mais saudade, porque, ao contrário de muitos filósofos, ele tinha não só a coragem como a vontade de o experimentar na Terra. O Paulo abria caminhos. Gostava de lhe ter dito isto no sábado, quando o vi, depois da conferência do Lipovetsky, mas o que lhe disse - e para mal dos meus pecados já não me posso redimir - foi que a conferência estaria mais ajustada a um Fórum do Passado do que do Futuro, pela absoluta ausência de novidade ou disrupção naquilo que Lipovetsky nos transmitiu. Uma deselegância de que agora me penitencio, num dia triste, sem regresso.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 23.06.15

S. João - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  S. João

 

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   João estava são mas não tencionava ir ao S. João. Era uma contradição evidente, pois no Porto só não vai ao S. João quem estiver morto ou doente. Mas João tinha uma explicação assaz convincente: o seu cão, pouco paciente, não lhe daria paz em noite tão exigente. Uma solução era deixar o cão na vizinha, mas esta, tripeira dos quatro costados, queria também ir à festa, e sozinha, sem atrelados. O que fazer, então? Das tripas coração? Talvez não. Para o João, afinal, o S. João não valia tanto como aquele espanto de animal. No entanto, mais do que ninguém, estava o dono seguro de que quem troca a sardinha na brasa e o pão, mole ou duro, por passar, com o cão, em casa, um serão distinto, sem um grãozinho na asa, não sabe o que perde, pois como isso não há nada, nem o chouriço, o vinho, verde ou tinto, nem a própria martelada. Bailarico popular é o S. João, e só ficam a ganhar os que lá vão. Já resignado à desdita, o João, acabrunhado, teve súbita visita de uma cantora de fado. Ainda ela lhe dizia que viera de Lisboa rever uma velha amiga mas não a tinha encontrado, logo o João, animado, deu corda à imaginação, pensando se não seria a sumida rapariga a sua vizinha do lado. Era mesmo, pois então, e foi em tom de cantiga que o bom do João propôs à querida fadista condição oportunista para lhe dar guarida até ao regresso da amiga: tomar-lhe conta do cão. Ela ficou convencida e, pronto, missão cumprida, lá foi ele, feliz da vida, cumprir também a tradição.

 

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por Augusta Clara às 18:10

Quarta-feira, 04.03.15

A aranha - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A aranha

 

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   Chovia lá fora e, na minha varanda, entre o vaso da figueira que nunca deu nada e a divisória de vidro que me encobre do vizinho, aguentava-se estoicamente uma teia de aranha. Pequenas partículas de água pesavam sobre o quadriculado daquele naperon da Natureza, que aqui e ali se ia rasgando mas não perdia a sua estrutura, como uma cidade que resiste aos bombardeamentos de uma guerra ainda que veja sacrificados alguns dos seus quarteirões. Observando o padrão criado pelos fios de seda, veio-me à ideia um sofá de três lugares, com a minha avó e as suas duas irmãs sentadas em plena acção de costura, a produzir cachecóis, camisolas de malha e outros agasalhos. Ocorreu-me que entre elas e as aranhas havia um vínculo biológico até então por mim insuspeito. Após um tímido esboço de autocensura, o meu primeiro pensamento foi que se elas tivessem glândulas produtoras, não de fibra proteica mas de lã, redobrariam o prazer de costurar, já que, sem a barreira técnica das agulhas e o barulho que as mesmas fazem batendo uma na outra, não encontrariam no processo qualquer entrave à sua verdadeira expressão, ou pelo menos entrave maior que o de usar a boca para falar. O que talvez também aumentasse era a escala do produto, imaginei em seguida, congeminando assim uma aproximação crescente entre os mundos humano e aracnídeo. Mas não. Afinal, do mesmo modo que as aranhas visam, com aquela delicada arquitectura, aprisionar os seus alvos, a minha avó e as irmãs teriam sempre como essencial propósito vestir e proteger a família – embora não me escape que a estes pequenos mimos subjaz igualmente um intuito de controlo. Os dados estavam, porém, lançados e era demasiado tarde para que o pendor associativo do meu cérebro não trouxesse à colação a imagem da Joana Vasconcelos. Costura, escala… Num salto onírico indesejado, vi uma renda gigante em forma de teia a atravessar de ponta a ponta o salão principal de um palácio e, a meio da dita, a própria Joana, movimentando-se como uma aranha, com os membros flectidos mas abertos, pequeníssimos face ao volume do resto do corpo, atenta a cada passo ou trejeito das pessoas que ali se juntavam para apreciar a obra. Arrepiado pela demência do seu olhar eléctrico, fechei o parêntesis do delírio e voltei a dar-me conta de que chovia lá fora, aliás, cá fora. Vim para dentro ainda com fios agarrados, mas por fim decidido a pousar as agulhas do meu pensamento.

 

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por Augusta Clara às 18:30



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