Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Terça-feira, 23.06.15

Demasiado lampeiros para serem sérios - José Pacheco Pereira

o balanço das folhas1.jpg

 

José Pacheco Pereira  Demasiado lampeiros para serem sérios

 

pacheco pereira1.png

 

 

Público, 20 de Junho de 2015

 

   Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de salamaleques politicamente correctos.

A língua portuguesa está cheia de palavras certíssimas para designar quase todas as cambiantes do comportamento humano. Escritores como Vieira, Bernardes, Camilo, Eça e Aquilino, levaram-na tão longe, que em português tudo se pode dizer, todas as infinitas flutuações das pessoas encontram uma ágil palavra para as designar.

Agora que a nossa bela língua está a ser atacada por todos os lados, na sua ortografia, na sua complexidade vocabular, na sua riqueza expressiva, é sempre bom encontrar um refúgio nos falares antigos, ou naqueles que pouco a pouco estão a ser esquecidos por falta de uso. A semana passada falei de “tresvaliar”, palavra de Sá de Miranda, e esta semana Fernando Alves na TSF fez uma crónica sobre “surdir”, palavra usada por Camilo (sempre ele) e Eça, tudo palavras esquecidas.

O que se passa hoje é como se, invisivelmente, se estivesse a realizar uma das funções essenciais que Orwell atribuía ao Big Brother, que era tirar todos os anos algumas palavras de circulação, porque sabia que é mais fácil controlar pessoas cujo vocabulário é restrito e que, por isso, tem dificuldades em expressar-se com clareza e riqueza e, em consequência, dominam menos o mundo em que vivem. O incremento de formas de expressão quase guturais como os SMS e o Twitter, apenas dá expressão a um problema mais de fundo que é desertificação do vocabulário, fruto de pouca leitura, e de um universo mediático muito pobre e estereotipado. Salva-nos o senhor Vice-Primeiro Ministro Portas que anda para aí a dizer que as “exportações estão a bombar”, convencido que ninguém o acha ridículo no seu afã propagandístico. Viva o Big Brother!

Tudo isto vem a propósito da palavra que mais me veio à cabeça – bem sei que uma cabeça muito deformada pelo “ressabiamento” por este governo não me ter dado um cargo qualquer – quando ouvi o debate parlamentar com o Primeiro-ministro na sexta-feira passada. Como ele está lampeiro com a verdade! Lampeiro é a palavra do dia.

Lampeiros com a verdade, neste governo e no anterior, há muitos. Sócrates é sempre o primeiro exemplo, mas Maria Luís Albuquerque partilha com ele a mesma desenvoltura na inverdade, como se diz na Terra dos Eufemismos. E agora Passos deu um curso completo dentro da nova tese de que tudo que se diz que ele disse é um mito urbano. Não existiu. Antes, no tempo do outro, era a ”narrativa”, agora é o “mito urbano”.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 03.06.15

Cristãos desde sempre no Iraque agora em fuga ao “Estado Islâmico” - Alexandra Lucas Coelho (em Erbil)

o balanço das folhas1.jpg

 

Alexandra Lucas Coelho (em Erbil)  Cristãos desde sempre no Iraque agora em fuga ao “Estado Islâmico”

 

refugiados cristãos em erbil - alc.png

 Refugiados cristãos em Erbil  SAFIN HAMED/AFP

 

 

Público, 30 de Maio de 2015

 

Entre os cristãos que fugiram de Mossul, há quem não pense voltar mesmo que o “Estado Islâmico” saia. Porque os vizinhos, árabes sunitas, ajudaram a expansão jihadista. Segundo retrato de uma região desfeita por todos os erros.

 

   Na porta do contentor, um autocolante em inglês diz: “Salvem os cristãos do Iraque”. Lá dentro há uma família, e à volta outros contentores, outras famílias, uma pequena parte das dezenas de milhares de cristãos iraquianos que fugiram do “Estado Islâmico”, a parte que se acha a salvo e com sorte, porque um contentor é melhor do que uma tenda.

No pátio desta igreja, em Erbil, capital do Curdistão Iraquiano, contentores funcionam até como sala de música, de computadores, de brincar, o que alegra o tempo mas não reverte a história. Vizinhas por baixo de um calendário com a Virgem, adolescentes numa mesa de pinguepongue ou meninos com Legos: refugiados como milhões de iraquianos no seu próprio país, a maior parte dos quais em acampamentos onde a chuva entra, o sol queima.

É assim desde o Verão de 2014, quando o “Estado Islâmico” mudou o mapa oriental ao desfazer a fronteira entre a Síria e o Iraque. Os domínios do auto-proclamado Califado são hoje maiores do que, por exemplo, a Grã-Bretanha, e Erbil já esteve cercada, vai-não-vai para cair. Ainda há um mês a cidade tremeu quando um carro-bomba explodiu a algumas ruas daqui, junto ao Consulado Americano. Militantes do “Estado Islâmico” conseguiram atravessar o Curdistão, território que lhes é hostil, estacionar o carro em Ankawa, o bairro mais cosmopolita de Erbil, e fazê-lo explodir, matando três pessoas e ferindo 14. Atingiram assim, em simultâneo, um alvo americano e o bairro cristão, cheio de refugiados.

“As pessoas foram chegando desde 7 de Agosto de 2014, quando o ‘Estado Islâmico’ começou a atacar os cristãos em Qaraqosh”, conta Daniel Al Khoury, o jovem padre de 25 anos que recebe o PÚBLICO. Estamos apenas a 80 quilómetros de Mossul, a maior cidade do Iraque controlada pelo “Estado Islâmico”, e Qaraqosh fica a meio caminho. Os jihadistas dominaram Mossul a 10 de Junho, foram avançando na direcção de Erbil, até que a 7 de Agosto se deu a debandada de Qaraqosh, 60 mil cristãos, segundo o padre Daniel, mais outros 60 mil em diferentes regiões. “Os peshmerga [combatentes curdos] tinham prometido proteger aquelas povoações mas no último momento avisaram que já não seria possível. Então as igrejas começaram a tocar os sinos.” Era de noite, os cristãos juntaram-se para fugir em carros, autocarros, umas poucas dezenas ficaram para trás, por não terem acordado ou sido localizadas. “Ainda falámos com eles durante dois meses mas agora não sabemos o que lhes aconteceu, se estão vivos ou mortos.” O fluxo de refugiados dividiu-se pelas cidades do Curdistão, Duhok, a norte, Suleymaniah, a sul, Erbil a leste.

Só nesta igreja, Mar Elia, são 118 famílias, ao todo 546 pessoas. “No começo eram 1600. Chegaram sem nada, dormiram no jardim, a igreja começou a distribuí-los por outros espaços.” Ficou cerca de um terço. “A ONU trouxe tendas, mas era demasiado quente, e havia recém-nascidos.” Há fotografias desses dias, aulas a serem dadas dentro de tendas. “Depois outras organizações trouxeram tendas à prova de água, e há dois meses chegaram os contentores.”

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 26.05.15

A invasão que aí vem - Miguel Esteves Cardoso

o balanço das folhas1.jpg

 

Miguel Esteves Cardoso  A invasão que aí vem

 

MEC.jpg

 

  

Público, 19 de Maio de 2015

 

   No PÚBLICO.pt de ontem dá-se conta de uma reportagem da LUSA sobre o protesto dos pequenos produtores da aldeia transmontana de Duas Igrejas contra a nova lei das sementes que está quase a ser aprovada pelo Parlamento Europeu.

Falam por todas as sementes, todas as hortas, todos os agricultores e, sobretudo, pela economia e cultura portuguesas. A lei das sementes - que proíbe, regulamentando, a milenária troca de sementes entre produtores - é pior do que uma invasão francesa de Napoleão.

É uma invasão fascista que quer queimar a terra para preparar a incursão das agro-corporações multinacionais (como a gigantesca e sinistra Monsanto) que virão patentear as sementes que são nossas há que séculos, obrigando-nos depois a pagar-lhes direitos de autor, só por serem legalisticamente mais espertos. Pense-se em cada semente como uma palavra da língua portuguesa. Na nova lei colonialista das sementes é como obrigar os portugueses a sofrer a chatice e a despesa de registar tudo o que dizem, burocratizando cada conversa.

Atenção: é o pior ataque à nossa cultura e economia desde que todos nascemos. Querem empobrecer-nos e tornar-nos ainda mais pobres do que somos, roubando-nos as nossas poucas riquezas para podermos passar a ter de comprá-las a empresas multinacionais que se apoderaram delas, legalmente mas sem qualquer mérito, desculpa ou escrutínio.

Revoltemo-nos. Já. Faltam poucos dias antes de ser ter tarde de mais. E para sempre. Acorde.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 10:00

Sexta-feira, 01.05.15

Linhas verdes e linhas vermelhas - Isabel do Carmo

o balanço das folhas2.jpg

 

Isabel do Carmo  Linhas verdes e linhas vermelhas

 

isabel do carmo.png

 

Público, 30 de Abril de 2015

Seja o que for que suceda com a Grécia, o grito de rebelião da sua população e do Syriza foi uma vitória.

 

   Nós repetimos que “vemos, ouvimos e lemos” e “não podemos ignorar”, mas muitas vezes parece que ignoramos. Perante a escalada de desumanização que nos rodeia, é de ordem política e moral a necessidade de agir. Alguém poderá perguntar daqui a dezenas ou centenas de anos, olhando retrospectivamente: “Eles estavam lá e o que é que fizeram?”

Tal como hoje podemos perguntar aos socialistas, comunistas, outras organizações de luta e aos cidadãos em geral o que é que não fizeram e o que fizeram de errado nos anos que precederam a dominação nazista e fascista na Europa.

É perante a situação actual que podemos reflectir sobre as linhas verdes de coincidência e as linhas vermelhas de limite ao tacticismo e às cumplicidades tóxicas, que deverão nortear a necessidade de unidade à esquerda. Basta andar com os ouvidos atentos à população para perceber que essa necessidade é sentida de forma urgente para fora dos círculos restritos das organizações partidárias, fechadas sobre si próprias, com a sua narrativa interna e o eleitoralismo clubista.

A história que a esquerda se foi contando a partir da revolução francesa deu a aparência de uma linha de tendência ascendente, apesar de algumas quedas terríveis. E de facto não vemos hoje na Europa multidões de andrajosos e famintos a trabalharem dezasseis horas por dia; em muitos espaços mundiais as mulheres têm igualdade de direitos legislada; já não há colónias; a América Latina saiu das ditaduras e da fome: a Ásia não é devastada por milhões de famintos. Quanto à direita, essa não tem história, senão a das “glórias da pátria”, que não podem ser vistas com os nossos critérios actuais. A direita não tem moral, é pragmática. Mas a partir da terceira Revolução Industrial, com a introdução da microelectrónica, novas formas de energia, de produção e de comunicação, o mundo entrou numa espiral, a qual não pode ser lida com as grelhas de leitura do passado. As grandes massas de proletariado vão sendo sucessivamente substituídas por máquinas. As pessoas, as empresas, os países, o mundo, entraram numa espiral de crédito e de dívida, que não tem fim. Um operário da indústria automóvel, com contrato por tempo indeterminado, pode ter uma vida mais estável que um pequeno empresário, individual ou com poucos trabalhadores, endividado nas finanças, no empréstimo da casa, na Segurança Social. Estas dívidas, que são as da “vergonha”, constituem uma mancha de óleo que cobre todo o país e que não parece poder ter correspondência num movimento de massas.

Na situação actual, a leitura da luta de classes não pode ser a da primeira e segunda revoluções industriais. As colónias fora da Europa desapareceram, mas nós, os países do Sul da Europa, somos as novas colónias dos países do Norte, perdemos a soberania e também temos por cá os seus representantes, os novos administradores de tabanca. Por isso seja o que for que suceda com a Grécia, o grito de rebelião da sua população e do Syriza foi uma vitória. Havia outro caminho? Enquanto isto, as proezas geoestratégicas dos países “ocidentais” (estão a ocidente de quê? O mundo é redondo) transformaram o Médio Oriente e o Mediterrâneo num novo holocausto. As desigualdades agravam-se como demonstra Piketty e claro que os desiguais de cima estão dispostos a todas as crueldades para aí se manterem. Tudo isto parece ser a implosão do sistema, mas antes de acabar muito sangue e sofrimento fará correr. Parafraseando o poeta Manuel Pina, “ainda não é o fim, calma, é apenas um pouco tarde”.

Quem não tiver dúvidas que levante um braço. E, com modéstia, lembremo-nos que houve um tempo, em que nós, tal como o Presidente da República, não tínhamos dúvidas e nunca nos enganávamos… A surpresa é que muito do discurso dos partidos de esquerda é hoje, quase sempre, remanescente dessa época. E em vez de uma procura de pontos comuns, há um clubismo e um eleitoralismo, que põem em segundo ou terceiro lugar o mundo real. Ora há convergências possíveis ao nível da educação, da saúde e da segurança social. É possível uma luta comum contra a precariedade. É possível encontrar uma barreira às privatizações. Para tudo isso é necessário ter o espírito de encontrar coincidências e, pelo contrário, não andar a “catar” as divergências, mesmo que prováveis ou possíveis, no sentido de abrir fossos, onde ainda pode haver pontes. Claro que a preservação do Estado social é incompatível com o tratado orçamental (no que é omisso o documento estratégico do PS), que tem que haver pelo menos renegociação da dívida enfrentando o centro de poder na Europa. Mas mais uma vez, o caminho faz-se caminhando, arriscando possíveis erros. A realidade traz-nos surpresas e não é no quietismo narcísico de análise ou na resistência enquistada no seu terreno, tratando sempre os outros partidos da esquerda eleitoral como o inimigo principal, que encontraremos solução para a desgraça actual. Estaremos agora, nos dias após a morte de Mariano Gago e os elogios post mortem, a esquecer as críticas vorazes, sem relevar nunca os lados positivos do seu Ministério, que o acompanharam enquanto foi ministro, só porque o era num Governo PS? Quem se esqueceu que vá aos registos dessa época. E pense.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 26.03.15

A propósito da candidatura de Henrique Neto

o balanço das folhas2.jpg

 

Público, 26 de Março de 2015

 

A candidatura de António Guterres fá-lo-ia desistir?...

"Já não. António Guterres é um homem com qualidades muito especiais e por quem nutro admiração. Mas teve práticas políticas na sua governação — não ter uma estratégia — a ponto de eu lhe ter escrito uma carta aberta em que já expunha algumas destas coisas de que falo. Guterres foi eleito, entre outras coisas, com críticas fortes à política de betão de Cavaco Silva. Ele aumentou a política de betão. Também trabalhou na política da educação mas a política de betão foi fatal.

Além disso, foi muito influenciado por pessoas que o rodeavam. Não considero que António Guterres possa regressar a Portugal e fazer as mudanças que o país necessita." (da entrevista de hoje ao Público)"

 

E, AGORA, PERGUNTO EU: Ai foi? E, então, quando nessa altura, andavam os investigadores do INETI a fazer propostas para a reestruturação daquele organismo de investigação, no tempo em que o Mariano Gago resolveu dar uma machadada nos Laboratórios do Estado - Cavaco Silva já tinha permitido o sumiço de muito do dinheiro vindo da UE -, e um tal Engenheiro Henrique Neto, dono duma fábrica de moldes, resolveu pronunciar-se pela pura extinção daquela instituição com áreas de investigação dirigida a variados ramos da indústria, com um quadro de experientes investigadores em todas elas, excelentes instalações e equipamento, num dos melhores campus científico/tecnológicos do país?

Pois, ao contrário do que diz, quando António Guterres foi eleito Primeiro-Ministro, é que nós sentimos a esperança de que alguma coisa poderia mudar na investigação científica e nos mobilizámos numas Jornadas que quase sentimos como "um novo 25 de Abril no INETI". Sabe deus ou o diabo quem terá puxado as rédeas para trás. Mas quem tão fácil e radicalmente faz propostas de demolição de estruturas válidas não vai levar, certamente, o meu voto para Presidente da República.

Augusta Clara

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 18:15

Segunda-feira, 09.03.15

Hoje o EUROGRUPO vai pronunciar-se sobre as propostas do Governo grego

grécia1.jpg

Uma criança em Atenas a receber comida numa igreja ortodoxa. O Eurogrupo discute as propostas do Syriza e o combate à pobreza estará na agenda

 

   A Grécia vive uma catrástrofe humanitária. O que lhe fizeram é a continuada canalhice para com um povo, imposta por uma denominada União que hoje não é mais que um IV Reich alemão, com a infame cumplicidade dos governos de países como o nosso que perfilham a mesma perversa actuação.
O artigo do Público de hoje é mais um relato dessa tragédia que atingiu um expoente inimaginável. São verdades sobre as quais já lemos mas que é preciso nos voltem a entrar olhos dentro.

"Há médicos a ver cancros como nunca tinham visto: estes não são removidos e os tumores crescem até não ser possível fazer nada. Não são considerados os casos urgentes para os quais há tratamento para quem não tem seguro. Mesmo nestes, o responsável pelas contas do hospital irá rapidamente tentar perguntar ao doente ou à família se não há algo que possa ser vendido ou penhorado para pagar a conta."

"(...) o subsídio de desemprego dura apenas um ano, (...) passado pouco tempo acaba a cobertura de saúde e o acesso a cuidados nos estabelecimentos públicos. Muitos jovens que nunca tiveram emprego também nunca tiveram acesso a cuidados de saúde".

Leia aqui o artigo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:00

Segunda-feira, 19.01.15

Paris-Srebernica - Alexandra Lucas Coelho

o balanço das folhas2.jpg

 

Alexandra Lucas Coelho  Paris-Srebernica

 

alexandra lucas coelho.png

 

 atlântico-sul, 18 de Janeiro de 2015

  1. Há um ruí­do extremo a que só responde a mudez. Seria como falar num funeral onde gente que nunca conviveu com o morto disputa o luto com gente que atira mortos para debaixo do tapete. O horror do que acaba de acontecer, do que acontece em contí­nuo e do que se anuncia confluem num silêncio. Foi o que se passou comigo depois do ataque ao "Charlie Hebdo".
  1. Quando o ataque aconteceu eu estava fechada em Belgrado a escrever. Tinha vindo de Sarajevo há dias e ia para Srebrenica dentro de dias, dois símbolos da guerra na Bósnia. Passavam vinte e oito anos desde que a minha carteira de jornalista fora emitida. O último livro que publiquei não teria saí­do na ditadura. Liberdade de expressão não é este mês de Janeiro, nem um emprego, é a vida.
  1. As capas do "Charlie Hebdo" nunca me fizeram rir, nada daquilo me interessa e há tanta coisa interessante para ler, como haverá gente que gosta de ler o "Charlie": tudo isso é irrelevante para o horror de 12 pessoas executadas numa redacção porque fazem um jornal satí­rico. Então, curvo a cabeça perante a sepultura de cada uma, minha camarada de vida. O horror destas mortes existe autónomo, estanque. Não é atenuado por nada e não exclui nada. Horror puro.
  1. Os assassinos da equipa do "CH" (e, depois, do ataque à  mercearia "kosher"), sim, têm passado, contexto, tal como a França, a Europa ou aqueles chefes-de-estado unidos na compaixão global, uma frente tão inclusiva que não excluiu assassinos de estado. Charlie realmente não merecia que Netanyahu fosse Charlie. Fora essa frente, e mercenários em geral, bom ver tanta gente junta pela liberdade. A liberdade de expressão sai mais forte de tudo isto, quero crer, a começar pelo "CH" pós-matança ter saí­do com um Maomé a dizer "Je suis Charlie".
  1. Escrevo esta crónica de Srebrenica onde em Julho de 1995 a Europa deixou que 8372 homens fossem separados das mulheres e crianças e sistematicamente mortos apenas por serem muçulmanos. Aliás, "8372..." diz a pedra do memorial, porque 8372 era o número de corpos identificados no momento em que a pedra foi lá posta. Entretanto, dezenas de outros corpos continuam a sair do puzzle da antropologia forense. Em Janeiro de 2015, em Srebrenica, vejo muitas sepulturas provisórias posteriormente acrescentadas, placas de plástico verde à espera dos marcos em mármore que compõem esta floresta única. Foi o maior massacre europeu desde o Holocausto, genocídio, decidiu finalmente o Tribunal de Haia. Aconteceu há dezanove anos e meio, no sudeste da Europa, perante europeus: os holandeses capacetes azuis da ONU, que a ONU entendeu não reforçar, quando era evidente que não seriam capazes de conter as tropas sérvias de Ratko Mladic, neste momento ainda réu em Haia por crimes contra a humanidade e genocí­dio.
  1. Perante europeus e entre europeus, porque "o mundo muçulmano" não é um lugar fora da Europa. Se mundo muçulmano é onde houver um muçulmano, a Bósnia tem uma maioria muçulmana há séculos. A Europa integra o mundo muçulmano, o mundo muçulmano integra a Europa. Os polí­ticos podiam começar por aí­, quando falam de "integração" nos "valores europeus". É que segundo esses tais valores, um muçulmano da Bósnia não é menos europeu do que a senhora Merkel.
  1. Não fui eu que falei da matança de Paris, foi ele, o jovem imã da mesquita central de Srebrenica. Também não tí­nhamos combinado nada. Eu descera a colina com um amigo, entre todas aquelas casas de tijolo em bruto que são a paisagem semi-reconstruí­da da cidade, uma beleza de encostas alpinas habitada por quem não tem dinheiro para acabamentos. Chegámos à mesquita, mesmo ao lado da igreja ortodoxa, num largo coberto de neve, pouco antes do pôr-do-sol. Mas quando pressionei a maçaneta, o portão abriu. E daí­ a nada apareceu um rapaz muito alto de gorro, como todos aqui no Inverno. Era o imã, vinha para a oração, convidou-nos a tirar as botas, entrar. Depois chegou um pequeno ancião, fisicamente o oposto do imã. Ali ficámos sentados, a assistir à oração na mesquita principal de Srebrenica: o jovem imã e o velho fiel, voltados para Meca, cercados pelo vazio.
  1. Mas à sexta-feira a mesquita enche, ressalva o imã, que se chama Ahmed Hrustanovic e tem 28 anos. Em 1995 estava a salvo com a mãe a dezenas de quilómetros daqui, era criança. Já os homens da famí­lia, foram todos executados pelas tropas de Ratko Mladic: pai, quatro tios, dois avós. Perfaz sete parentes Hrustanovic gravados na grande floresta funerária de Srebrenica. Não é um apelido raro.
  1. Entre os que fugiram, os que foram deportados e os que morreram, não sobraram muitos muçulmanos em Srebrenica, em 1995. Depois dos acordos de paz, a Bósnia foi dividida em duas entidades, Federação da Bósnia e Herzegovina e República Srpska, onde existe uma maioria sérrvia. É nessa metade que está Srebrenica, muito perto da fronteira com a Sérvia. Ainda assim, apesar do massacre, e da firme presença sérvia, muitos muçulmanos foram regressando ao seu pedaço de terra, e hoje Srebrenica tem uns 3500 muçulmanos e uns 3500 sérvios. A relação é cordial, diz o jovem imã, ele faz compras em lojas sérvias, só não consegue esquecer que são sérvios. Mas há um mês um amigo casou, ele muçulmano, ela sérvia, como acontecia tanto antes da guerra, e hoje acontece tão menos. Hoje é pior, claro, e depois de Paris talvez pior. É o jovem imã quem fala de Paris, quem chama loucos aos assassinos, quem teme o efeito disto na vida dos muçulmanos.
  1. Depois de quem perdeu a vida, ninguém perdeu tanto com Paris como os muçulmanos. A vida de cada um vai ficar um pouco mais difí­cil. Em compensação a vida da famí­lia Le Pen ficará melhor, e com ela a dos xenófabos em geral. Sobretudo a vida das milí­cias recrutadoras estilo Boko Haram-ISIS-Al Qaeda, a quem só interessa que a vida dos muçulmanos na Europa se torne cada vez mais difí­cil. Carne para canhão. Este é o horror que se anuncia, acrescentado ao horror contínuo.
  1. Antes do genocí­dio, a ONU garantira aos muçulmanos que nada lhes aconteceria, aprovara até uma resolução declarando Srebrenica Zona Segura. Foi fazer companhia na gaveta a todas aquelas resoluções que o governo de Israel ignora, e o que é que a Europa, por acaso ex-colonizadora (França, Inglaterra) de todo aquele território israelo-palestiniano & vizinhanças tem feito por isso nas últimas décadas? Enquanto a liberdade de expressão é um bem oficial em Israel (não contando com os obstáculos à liberdade de movimento e circulação de jornalistas), uns milhões de palestinianos nunca tiveram liberdade de circulação e movimento no seu tempo de vida, dos pais ou dos avós. Este é o horror antes e além da compaixão global, até porque ninguém aguenta emocionar-se durante tanto tempo.
  1. Apesar de tudo, o jovem imã de Srebrenica continua a deixar a porta aberta. No fim da conversa, já bem caí­ra a noite, aliás, voltou à  roupa de Inverno, ao gorro de lã, e despediu-se, deixando-nos ainda descalços, com a mesquita toda por nossa conta.

(Público, 18-1-2015)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 30.12.14

O ano visto por António Guterres - entrevista de Teresa de Sousa

o balanço das folhas2.jpg

 

Todos perdemos

 

Teresa de Sousa

Do seu posto de liderança do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres tem uma visão global e real da desordem que impera no mundo. O ACNUR tem hoje a seu cargo o maior número de refugiados e deslocados desde a II Guerra Mundial.

 

   António Guterres vive o lado mais trágico dos conflitos: o seu lado humano. Tem hoje a seu cargo o maior número de refugiados e deslocados desde a II Guerra. E, por isso mesmo, o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados tem uma visão global e real da desordem que hoje impera no mundo.

Há um dado que nos choca particularmente: o número de refugiados e deslocados em 2014 é o maior desde o fim da II Guerra.
É verdade. No final de 2013 tínhamos mais de 51 milhões de pessoas internamente deslocadas ou refugiadas por causa de conflitos, o que aconteceu pela primeira vez desde a II Guerra Mundial. Só que 2014 não vai ser melhor. Vou dar-lhe apenas uma breve descrição de alguns dos acontecimentos que tivemos de enfrentar no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Logo no princípio do ano houve o agravamento dramático da situação na República Centro-africana e no Sudão do Sul. Na RCA a explosão de violência resultou até hoje em meio milhão de pessoas internamente deslocadas e mais de 200 mil novos refugiados nos quatro países à volta. E isto, não contando com os mais de 200 mil que já lá estavam de crises anteriores. No Sudão do Sul, a erupção de violência começou a 15 de Dezembro e já levou a 1,4 milhões de pessoas internamente deslocadas e a cerca de meio milhão de novos refugiados na Etiópia, Quénia, Uganda e Sudão.

António Guterres é desde 2005 é alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados Miguel Manso

Esses são aqueles a quem muitas vezes quase não prestamos atenção.
Essas são as crises de alguma forma negligenciadas pela comunidade internacional, uma vez que as atenções estão essencialmente concentradas no Médio Oriente e, em particular, a crise sírio-iraquiana.

Que aumentou muito o número de refugiados a que tem de responder.
Entre Síria e Iraque temos cerca de 13 milhões de pessoas deslocadas internamente ou refugiadas nos países vizinhos. Logo em Janeiro, tivemos a violência em Anbar (Iraque, na fronteira com a Síria), que originou cerca de 600 mil pessoas deslocadas no interior do Iraque. Depois, em Fevereiro, houve a evacuação de Homs e a complexidade da situação da Síria. Logo em Abril o número de refugiados sírios no Líbano atinge um milhão e podemos imaginar o impacte que teve num país que está, ele próprio, em crise política e com uma situação de segurança extremamente precária. Um terço da sua população é hoje composto por sírios e palestinianos. Ainda em Abril, no Líbano, ocorreu o rapto de vários soldados libaneses no campo de refugiados de Azraq, que têm vindo a ser horrivelmente degolados pelo Estado Islâmico.

Esse é o novo método de terror dos fundamentalistas
Embora com muito menos publicidade do que os ocidentais que tiveram o mesmo destino. Tudo somado, temos hoje 3,3 milhões de refugiados sírios e 7,6 milhões de pessoas internamente deslocadas. Nessa altura, tivemos de enfrentar a crise aguda de falta de financiamento do Programa Alimentar Mundial (PAM), que fornece a alimentação aos campos de refugiados e que, por falta de fundos, anunciou que iria reduzir a alimentação a cerca de 800 mil refugiados em vários países africanos. Foi um momento extremamente dramático como pode calcular.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 13.12.14

Prémio Pessoa 2014 atribuído ao investigador Henrique Leitão - Nicolau Ferreira

ao cair da tarde 2a.jpg

 

Nicolau Ferreira  Prémio Pessoa 2014 atribuído ao investigador Henrique Leitão

 

henrique leitão.jpg

 

 

   Público, 12 de Dezembro de 2014

   O investigador e historiador de ciência Henrique Leitão é o prémio Pessoa de 2014. O galardão reconhece a intervenção de uma personalidade portuguesa na vida cultural e científica do país e tem um valor monetário de 60 mil euros, está na 28.ª edição e foi anunciado esta sexta-feira no Palácio de Seteais, em Sintra.

Henrique Leitão é investigador principal no Centro Interuniversitário da História das Ciências e Tecnologia (CIUHCT), e docente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O júri destaca que o seu trabalho "teve um grande destaque pela projecção nacional e internacional da exposição 360º Ciência Descoberta", realizada em 2013 na Fundação Calouste Gulbenkian, "dando a conhecer ao grande público a importância crítica que a Península Ibérica teve para o desenvolvimento científico e o progresso civilizacional".

Henrique Leitão nasceu em 1964, em Lisboa. Em 1998, completou o doutoramento em física teórica pela Universidade de Lisboa. Mas os seus interesses foram-no levando para a história da ciência portuguesa. Desde 2002 que é historiador de ciência a tempo inteiro, focando-se na história das ciências exactas, entre o século XV e o século XVII.

Desde então, coordenou a publicação das obras do matemático e cosmógrafo português Pedro Nunes, que viveu no século XVI e inventou o nónio, um aparelho de alta precisão para medir a posição dos navios durante a navegação.

O investigador estudou as actividades do colégio da Companhia de Jesus como o Colégio de Santo Antão, uma escola que esteve activa em Lisboa durante 170 anos, entre finais do século XVI e meados do século XVIII, onde se ensinava disciplinas como matemática.

Mais recentemente, em 2012, estudou e ajudou a traduzir o manuscrito original do matemático português Francisco de Melo: “O manuscrito é importante porque mostra a matemática de alto nível de um português no início do século XVI”, explicava nessa altura ao PÚBLICO Henrique Leitão. “Há uma visão muito miserabilista da história científica portuguesa. Nunca tivemos produção científica ao nível da Alemanha, França ou Inglaterra, mas tivemos alguma e estes documentos confirmam isso.”

Nos últimos anos, organizou quatro exposições sobre história da ciência na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa. A última, que esteve aberta ao público em Março último, foi sobre Serrão Pimentel, cosmógrafo-mor e engenheiro do século XVII. Como noutras das suas exposições, Henrique Leitão trouxe até ao público as realizações científicas passadas dos portugueses com o intuito de destruir mitos. “Não há coisa mais destruidora para um miúdo em Portugal do que ouvir dizer que os portugueses não gostam de ciência, de matemática”, defendeu então ao PÚBLICO.

Na exposição da Gulbenkian de 2013 foi mais longe e evidenciou o lugar de Portugal no aparecimento da ciência moderna: “Não se pode compreender o surgimento da ciência moderna sem compreender o que se passou [antes] em Portugal e Espanha. Esta exposição aparece no momento em que a historiografia internacional reconhece a importância da ciência ibérica de uma maneira que não reconhecia há 50 anos”, disse na altura.

Em 2013 foi eleito para a Academia Internacional de História das Ciências, uma distinção que já não era atribuída a um historiador português há mais de meio século.

A formação científica e o conhecimento humanista tornam Henrique Leitão num “verdadeiro cultor da interdisciplinaridade”, segundo o júri do Prémio Pessoa, que vai mais longe, sublinhando que este investigador “é a personalidade em torno da qual se constitui uma escola de pensamento” devido ao seu trabalho de reconstrução histórica do legado científico português e peninsular para a modernidade.

O júri é presidido por Francisco Pinto Balsemão e integra Álvaro Nascimento, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Maria de Sousa, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho Marques.

Em 2013, o prémio foi atribuído à investigadora Maria Manuel Mota pelos estudos desenvolvidos sobre a malária.

O Prémio Pessoa é atribuído anualmente desde 1987 a uma pessoa que, segundo a organização, tenha sido "protagonista de uma intervenção particularmente relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica do país".

O historiador José Mattoso, os poetas António Ramos Rosa e Herberto Helder (que recusou o galardão), a pianista Maria João Pires, os investigadores António e Hanna Damásio, os arquitectos Eduardo Souto de Moura e Carrilho da Graça e o ensaísta Eduardo Lourenço são algumas das personalidades já distinguidas.

O Prémio Pessoa é uma iniciativa do semanário Expresso com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 15.10.14

Quando os inquisidores começam a mostrar os dentes - José Vítor Malheiros

o balanço das folhas2.jpg

 

José Vítor Malheiros  Quando os inquisidores começam a mostrar os dentes

 

 

josé vótor malheiros.jpg

 

Público, 14 de Outubro de 2014

A acção da European Science Foundation é uma acção de censura, inaceitável em termos éticos e políticos.

 

   Devo confessar que, quando li pela primeira vez esta notícia, fui verificar cuidadosamente o endereço do site que estava a consultar, para me certificar de que não estava a ler The Onion ou o Inimigo Público ou outro site satírico do género, cuja semelhança com a realidade é sempre perturbadora. Mas não estava.

O que aconteceu foi que, na semana passada, a astrofísica espanhola Amaya Moro-Martin, investigadora do Space Telescope Science Institute de Baltimore (EUA) e uma conhecida activista em defesa da investigação na União Europeia, escreveu um artigo na secção de opinião da revista Nature, intitulado “A call to those who care about Europe’s science”. No artigo da Nature, escrito a pretexto da recente nomeação de Carlos Moedas como comissário europeu responsável pela investigação, a investigadora chamava a atenção para os cortes realizados na ciência nos últimos anos em Itália, Grécia, Espanha e Portugal e denunciava, nomeadamente, os riscos do abandono da investigação fundamental e da fuga de cérebros dos países do Sul para os países do Norte da Europa. A dada altura, e a título de exemplo, a par de outras informações, Moro-Martin referia que Portugal poderia ver-se obrigado a fechar metade das suas unidades de investigação devido a um “processo de avaliação com erros levado a cabo com o apoio da European Science Foundation” (“a flawed evaluation process supported by the European Science Foundation”).

A história não teria nenhum interesse particular se acabasse aqui. Mas não acaba. Na sequência da publicação do seu artigo, a investigadora recebeu uma carta assinada por um Dr. Jean-Claude Worms em nome da European Science Foundation (ESF), que exigia que a autora retractasse a frase onde dizia que havia erros na avaliação das unidades de investigação portuguesas levada a cabo pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e a ESF e ameaçando-a com um processo judicial se não o fizesse.

O gesto da ESF é vergonhoso a vários títulos, mas é particularmente chocante no contexto da ciência. Não faz parte das tradições da ciência nem dos cânones do método científico tentar obrigar uma pessoa a mudar de opinião sob ameaça de um processo judicial.

O problema vai, porém, muito para além das regras da ciência. A acção da European Science Foundation é uma acção de censura, que tenta limitar a liberdade de expressão e é, por isso, inaceitável em termos éticos e políticos. Trata-se de um gesto autoritário e anti-democrático que nenhuma sociedade pode tolerar. Não admira por isso que, nos últimos dias, se tenham multiplicado as tomadas de posição na Internet com investigadores a declarar que deixarão de prestar qualquer colaboração à ESF.

O gesto da European Science Foundation é, também, profundamente estúpido. Agir como um rufia para tentar calar uma voz discordante com intimidações não é a melhor forma de convencer seja quem for de que a avaliação que realizou em Portugal foi conduzida de forma irrepreensível. No entanto, o descaramento com que o acto de censura foi praticado, levado a cabo a céu aberto por uma organização europeia que reúne dezenas de instituições responsáveis pela coordenação e financiamento da investigação em inúmeros países, demonstra até que ponto as nossas liberdades cívicas estão em risco e como existe uma indiferença crescente em relação aos direitos dos cidadãos quando eles colidem com os interesses das organizações. Estas considerações seriam excessivas se a carta de Worms fosse apenas uma carta de um burocrata palerma, mas nesse caso ela já teria sido desmentida com um pedido de desculpas pela ESF e Worms despedido. E isso não aconteceu.

Podia acontecer que o artigo de Moro-Martin se estendesse em acusações à ESF que esta pudesse considerar difamatórias, mas não há nada disso no texto. A autora fala apenas de “erros” (“flawed evaluation process”) e esses há-os às dezenas como tem sido largamente noticiado e denunciado. Aliás, qualquer processo de avaliação tem erros, razão por que é triplamente estúpido que a ESF queira ver corrigida essa declaração. Mas a questão da liberdade de opinião é independente da base material dessa opinião. Ainda que mais ninguém concordasse com Amaya Moro-Martin, ela continuaria a ter todo o direito de considerar que há erros no processo de avaliação desde que - em nome do rigor científico e não da obrigação judicial - os pudesse apontar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 11:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Agradecia que se identificasse. Quem escreveu este...

  • Anónimo

    Gosto substancialmente de pessoas que dizem bem ou...

  • Anónimo

    Texto e foto deliciosos, parabéns!

  • Anónimo

    Palavras como dinamite.E passados 50 anos sobre os...

  • Anónimo

    Lindo!


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos