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Jardim das Delícias


Sábado, 18.04.15

Ódio de perdição - Fernanda Câncio

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Fernanda Câncio  Ódio de perdição 

 

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   Diário de Notícias, 17 de Abril de 2015

   Marta Nogueira, 21 anos, Joana Nogueira, 23. Primas. Anteontem de manhã, na pastelaria onde trabalhavam, no Pinhão, Trás--os-Montes, um homem entrou e apontou a arma para matar, para apagar, para desfigurar: cara, pescoço, cabeça. Joana morreu, Marta está em coma. Os jornais - este jornal - titulam: "Ciúme levou Manuel a disparar." Manuel, parece, tivera namoro com Marta. O crime passa logo, então, à categoria "passional". Como quem diz de amor, de sentimento, "que levam a".

É sempre assim: homem mata mulher? Coitado, gostava demasiado dela, e ela ou o "deixou", ou ele tinha medo que ela o "deixasse", ou ela "portava-se mal", ou ele tinha medo que ela se "portasse mal". Mesmo, note-se, quando uma das mortas é prima do alegado objeto de amor; estamos perante o crime passional por afinidade. Porque será, então, que o homicídio do bebé de 5 meses que o pai esfaqueou há uma semana depois, diz-se, de ligar à mãe da criança a ameaçá-la, não é "de paixão"? Será porque a desculpabilização implícita, a "naturalização" e "contextualização" que induz, não é aceitável na morte de crianças? Porque nada pode justificar que se mate uma criança enquanto uma mulher, tantas mulheres, é outra coisa?

É para contextualizar? Contextualizemos. Até 1975, o Código Penal português incluía aquilo que nos países muçulmanos o Ocidente reputa de bárbaro: crimes de honra. Permitia-se ao marido enganado matar a mulher e o respetivo amante sem mais castigo que uns meses fora da comarca; o mesmo para o pai que matasse as filhas "desonradas" se menores de 21 e a viver "sob o pátrio poder". O Código Civil autorizava repudiar a mulher que fosse não virgem para o casamento, no qual estava submetida ao "chefe de família", que podia abrir-lhe a correspondência, dar--lhe ou não autorização para ter emprego e decidia tudo sobre os filhos (a mãe tinha "o direito de ser ouvida"). A mulher era ainda obrigada a viver com o marido, que podia exigir à polícia a sua devolução caso fugisse. Isto tudo era lei, há 40 anos. Era lei a submissão da mulher, era legal este desprezo que a tratava como menos que pessoa inteira, a nomeava e manietava como propriedade masculina.

A lei mudou mas o sentimento que esta consagrava e propagava não se vai tão rápido. A desculpabilização "passional" substituiu a da "honra"; subsiste a ideia de que "elas dão motivos" - como diziam os que à porta do tribunal aplaudiam Palito, o homem que há exatamente um ano, a 17 de abril de 2014, matou a ex-sogra e a irmã desta e feriu a ex-mulher e a própria filha: "Lá teve as suas razões." A própria justiça o admite, em acórdãos vergonhosos nos quais nunca se invoca isso que o Brasil no mês passado tipificou no Código Penal como feminicídio - o ódio às mulheres que mata. Cá não, é por amor. Em 15 semanas de 2015, já foram, de tão amadas, mortas onze. Somos assim românticos.


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por Augusta Clara às 11:00

Segunda-feira, 15.12.14

Palavras que libertam e atraiçoam - António Guerreiro

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António Guerreiro  Palavras que libertam e atraiçoam

 

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Ípsilon, 12 de Dezembro de 2014

 

   0 conceito de género, tal como ele é usado pelos gender studies, para além da sua fecundidade teórica, obrigou a olhar de outra maneira algumas questões fixadas em velhos axiomas. Em primeiro lugar, a determinação biológica e natural do sexo deu lugar a um modelo voltado para a dimensão cultural e social que pôs fim a todo o essencialismo (o qual tinha a sua expressão mais eloquente na ideia de “eterno feminino”, que sempre serviu para perpetuar a dominação masculina). Veja-se o que significou esta evolução: há dois séculos, médicos e filósofos estabeleciam uma perfeita sobreposição (e quando a sobreposição não era perfeita, consideravam que se tratava de uma aberração) entre homem/mulher e masculino/feminino; no início do século passado, a psicanálise e a sociologia procederam a uma clara dissociação dos seres sexuados em relação às qualidade sexuais; e nos últimos anos têm sido as próprias dualidades e toda a lógica binária a serem postas em discussão. No entanto, há alturas em que os conceitos vão para além dos seus próprios fins e se viram contra si próprios. A noção de género, usada para definir a modalidade e o objecto de uma violência, dita “violência de género”, serve muito mal o que pretende designar. Parece, aliás, um conceito inventado para dar uma aparência de igualdade e simetria ao que nada tem de igual e de simétrico: uma grande parte desta violência é exercida pelos homens sobre as mulheres; o contrário é uma percentagem ínfima. Do ponto de vista pragmático, não há aqui vantagem nenhuma em inflacionar a palavra “género” - uma abstracção, certamente importante para um modelo heurístico - e evitar as palavras “mulher” e “homem”. É quase grotesca esta preciosidade teórica, quando transposta para a linguagem corrente, quando o que está em causa é precisamente uma situação de dominação e de violência que não reconhece os termos desse novo discurso e jamais falará a mesma linguagem. O conceito de género serve para desfazer identidades e superar o modo essencialista de ver a diferença masculino/feminino. Por isso, ele serviu para libertar a mulher da “condição feminina”. Mas o tempo da teoria e da ciência não é o tempo da ordem pragmática, histórico-social. Situando-nos ainda nos mesmos domínios, um outro termo que tem sido sujeito a um uso inflacionado, e por isso nefasto, é “homofobia”. A palavra “fobia” tem um sentido preciso, muito forte, e convinha não a banalizar. Um grande parte das verdadeiras vítimas de homofobia nem conhece a palavra ou, pelo menos, está impedida de a pronunciar. A maior violência, neste domínio, é uma violência simbólica que as vítimas acabam por interiorizar e exercer contra si próprias. A homofobia engendra a autofobia, e é aí que as suas marcas mais profundas são sentidas. A homofobia existe e é de facto um problema, mas não há nenhuma vantagem em fazer dela o que os maoístas faziam da violência policial: transformavam a violência real num mito, abusando do sentido que ela tinha e enfraquecendo assim as defesas que, nas ocasiões de urgência efectiva, era preciso mobilizar. Fazer da homofobia uma pequena mitologia (no sentido das “mitologias” da sociedade de consumo, tal como Roland Barthes as definiu e analisou) é um insulto lançado aos que a sofrem na realidade e não podem dar-se ao luxo de dandismos vocabulares e semânticos. A linguagem está cheia de armadilhas e, com ela, é preciso estabelecer um compromisso ético válido para todas as ocasiões.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 05.12.14

Teresa Pizarro Beleza fala da relação entre democracia e o respeito pelo traje

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 Democaracia e direito ao traje, por Teresa Pizarro Beleza

 

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   Cada vez mais me convenço de que a mais evidente medida (sinal, talvez) de democracia e liberdade numa sociedade é a tolerância e o respeito relativos ao traje (dos outros e das outras). Todas as sociedades totalitárias são obsessivas neste campo, da China maoísta [sinal dos tempos: o software não reconhece esta palavra... ] à República Islâmica do Irão, passando pela RDA - onde uma vez, chegada de viagem e esbaforida, entrei num teatro de ópera em Leipzig informalmente vestida; olharam-me como se fora Belzebu; mas não me impediram de entrar, ao contrário do que me lembro de acontecer em S. Carlos há muitos anos com um Amigo meu - já falecido, infelizmente - que ia de casaco mas com gola alta, etc. Na verdade o 'direito' a agredir uma mulher ou a molestá-la sexualmente porque tem a saia curta, ou o vestido justo, ou o que seja tem a mesmíssima raiz: a sujeição das Mulheres, como diria o meu Amigo John Stuart Mill. As mulheres não são sujeito, mas estão sujeitas ao que os homens pensam ou querem ou acham delas, ie, são objecto. De propriedade, de cobiça, de olhares e ditos e gestos não queridos nem solicitados. Nos países do género do nosso (ditos 'ocidentais'), as mulheres querem-se atraentes e até provocantes, mas sem nunca ultrapassar a barreira invisível, ténue e traiçoeira entre senhora e prostituta. Atraente, HOT, como agora se diz (ai as americanices televisivas...) mas não demasiado «oferecida», senão o tribunal dirá que estava a pedi-las. E com fair play para achar que os «piropos» são tão giros e agradáveis. Etc. É uma canseira.

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(E na verdade as mulheres prestam-se a cada coisa, em nome da moda e da suposta beleza, ie, da capacidade de atracção, de ser «hot», «sexy», para se auto-identificarem como valiosas aos olhos dos homens? E talvez para atrair um macho que as sustente, ainda? Será atavismo, ou ainda outra forma de perpetuar desigualdades e submissão?)

(A foto dos sapatos vermelhas fica truncada; o salto deve ter pr'aí 20 cm e o conforto será equivalente a sapatos 'de pontas' - de bailado)

Nota de edição: A foto aqui não está truncada, aparece por inteiro.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 27.10.14

Deixem-se de histerias - Fernanda Câncio

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Fernanda Câncio  Deixem-se de histerias     

 

 

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Diário de Notícias, 24 de Outubro de 2014

 

   As pessoas espantam-se com cada coisa. Agora é porque um tribunal superior diz que nas mulheres a atividade sexual serve sobretudo para a procriação, logo depois dos 50 e já tendo parido dois filhos não poder ter sexo não releva grande coisa para efeitos de indemnização por danos, e dá como assente que uma mulher deve cuidar do marido.

Isto no país e na semana em que, reagindo ao caso do homem que em Soure, Coimbra, matou a mulher e uma filha à facada e deixou outra filha ferida, um porta-voz da GNR disse ao DN: "É difícil perceber, ainda para mais quando se atacam os filhos. Pertence ao domínio da psicologia." Ora bem. Se o homem matasse só a mulher seria mais fácil perceber, até porque é o pão nosso de cada dia, a gente já não estranha (só até junho foram 24, uma por semana) - e, como daquele senhor tão engraçado chamado Palito que, estando com pulseira eletrónica por violência contra a ex-mulher foi de caçadeira para a matar e matou a ex-sogra e a irmã dela por se meterem à frente, diziam os populares (as populares, aliás) que o aplaudiram à porta do tribunal, "se fez aquilo alguma razão teria."

Aliás, como nos lembrou nesta mesma semana e neste mesmo país o presidente da Federação das Associações de Ciganos, contestando um projeto parlamentar de criminalização de casamentos forçados (de menores, portanto), o papel da mulher está muito bem definido e o resto são aberrações que podem levar os homens à loucura e o mundo à ruína: "A cigana é preparada para o casamento. As ciganas aprendem a lavar, a coser, a passar a ferro, a fazer tudo. Ao contrário da sociedade maioritária em que a maioria delas nem sabem fritar um ovo. Até se vê mulheres a conduzir um automóvel e os maridos a conduzir carrinhos de bebé. As nossas são 100% femininas, 100% donas de casa."

O mesmo país em que estas declarações passam sem uma única reação institucional de repúdio (fosse um muçulmano a debitá-las, ui), que é o mesmo país em que uma proposta de criminalizar o assédio sexual das mulheres na rua é acolhida com gozo - o argumento predileto é "só as feias não gostam" - e no qual a quebra da natalidade é invariavelmente imputada à "dificuldade de conciliar maternidade e trabalho", é também o mesmo em que uma loja pode apostar, como estratégia de marketing, num cartaz à porta a dizer "homens e cães podem entrar, mulheres não." Fosse "proibida a entrada a negros", "judeus" ou "ciganos", isso sim, era inaceitável, discriminatório, insultuoso. Mas é com mulheres, pá. Qual é o problema de discriminar e insultar as mulheres, que, toda a gente sabe, já não se podem queixar de falta de igualdade? Se calhar queriam valer mais do que os homens, ou ter um estatuto intocável, não? Um bocadinho de sentido de humor, vá. E digam lá se aquele acórdão, bem vistas as coisas, não é a nossa cara.

 

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por Augusta Clara às 11:00

Quinta-feira, 29.05.14

Sudanesa condenada à morte deu à luz hoje na prisão - Mariana Pereira

 

Mariana Pereira  Sudanesa condenada à morte deu à luz hoje na prisão

 

 

Diário de Notícias, 27 de Maio de 2014 

 

   Mariam Yahya Ibrahim, a [médica] sudanesa condenada à morte por enforcamento por recusar renunciar à sua fé cristã, deu à luz na madrugada de hoje, numa prisão de Cartum.

Meriam Yehya Ibrahim, sudanesa ortodoxa de 27 anos, casada com um cristão, deu à luz uma menina na madrugada de hoje, numa prisão de Cartum, onde está presa com o seu filho de 20 meses. A justiça sudanesa, regida pela lei islâmica (sharia) desde 1983, acusou Meriam de adultério em agosto de 2013, por estar em união com um homem que não é muçulmano. Em fevereiro de 2014, foi acusada de apostasia por se ter afirmado cristã, renunciando à religião do seu país. A 15 de maio foi condenada a cem chicotadas por adultério e, por apostasia, à morte por enforcamento. Ao ouvir o veredito, a jovem manteve-se impassível, segundo relataram as agências. As embaixadas dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Holanda divulgaram um comunicado conjunto onde manifestaram a sua "profunda preocupação" com o caso e evocaram o "direito à liberdade de religião" perante o Sudão.

A Amnistia Internacional (AI) disse hoje que as condições da mãe e do bebé não são conhecidas, visto que o advogado de Meriam Ibrahim e o seu marido viram o acesso à prisão negado. "O Governo sudanês tem de garantir a sua segurança e a segurança das suas crianças, incluindo a recém-nascida", disse ao britânico The Guardian Manar Idriss, da AI. Hoje, segundo o jornal britânico, o pedido de libertação de Ibrahim lançada pela AI tem o apoio de 700 mil pessoas em todo o mundo.

Ainda antes do nascimento de hoje, as autoridades sudanesas tinham já declarado que o cumprimento da sentença de morte de Ibrahim iria ser adiado por dois anos, para que ela possa cuidar da recém-nascida.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 28.05.14

Paquistanesa morre apedrejada em nome da honra da família

 

Paquistanesa morre apedrejada em nome da honra da família

 

 

Mulher casou-se com homem que amava contra a vontade da família.

 Farzana preparava-se para dizer em tribunal que se casou por opção Mohammad Tahir/Reute

 

 

Público, 27 de Maio de 2014

 

   Farzana Iqbal, 25 anos, grávida de três meses, foi apedrejada até à morte por membros da sua família, incluindo o próprio pai, quando esperava para ser ouvida em tribunal esta terça-feira. A mulher é uma das várias centenas que morrem anualmente vítimas dos chamados “crimes de honra”. Neste caso, Farzana casou-se com um homem que não foi escolhido pela sua família.

Farzana esperava pela abertura do tribunal na cidade de Lahore, quando foi cercada por um grupo de cerca de 20 homens, entre eles o pai, dois irmãos e um antigo noivo. Os homens começaram a apedrejá-la com tijolos e pedras e após vários ferimentos sofridos a mulher caiu inanimada. A sua morte foi declarada pouco depois no hospital, indicou à Reuters Umer Cheema, um responsável da polícia local.

Com a chegada das autoridades, apenas o pai de Farzana foi interceptado e interrogado. À polícia o homem admitiu ter contribuído para a morte da filha, que resultou de uma questão de honra da família. Muitos paquistaneses acreditam que quando uma mulher se casa com alguém de sua escolha desonra os seus familiares.

Segundo Umer Cheema, a paquistanesa chegou a estar noiva de um primo, para um casamento arranjado pela família, mas recusou a imposição e decidiu casar-se com o homem que amava. O marido de Farzana acabou por ser acusado do rapto da jovem e esta terça-feira esta preparava-se para testemunhar em tribunal e negar a versão da família, indicou o seu advogado, Rao Mohammad Kharal, à AFP.

Este é um dos perto de mil casos de mortes que se registam todos os anos no Paquistão justificadas com a necessidade de honrar a família. Segundo o grupo activista pela defesa dos direitos humanos Aurat Foundation, o número de mulheres assassinadas pela própria família deverá ser superior, já que os casos registados foram todos reunidos com base em notícias.

O Governo paquistanês não tem quaisquer estatísticas sobre estes casos e são poucas as vezes em que chegam a tribunal. Quando chegam a uma sala de audiência, os processos prolongam-se durante meses ou mesmo anos. Mesmo que haja uma condenação, é raro que o acusado seja punido, porque a legislação do país permite à família da vítima perdoar o seu homicida. Na maioria dos casos, a mulher e o homicida têm uma relação familiar.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 23.05.14

O vírus Palito - Fernanda Câncio

 

Fernanda Câncio  O vírus Palito

 

 

Diário de Notícias, 23 de Maio de 2014

 

   Toda a gente conhece o nome e a cara do homicida Manuel Baltazar, aliás Palito, mas os das mulheres que matou, alguém? Pois. Com vítimas sem nome nem rosto, apagadas como se nunca tivessem existido, Palito pode ser uma anedota - a do camponês que trocou as voltas aos chuis mais de um mês (até rima) - e mesmo, no dia seguinte ao da sua detenção, herói ovacionado à porta do tribunal.

Começa aliás na alcunha. "Palito" é lá nome de perigo, de horror. Dizemos "Palito" e não vemos corpos no chão, esfacelados pela caçadeira à queima-roupa, sangue, gritos, a coragem da filha que se atravessa pela mãe (ex-mulher do assassino), se calhar a pensar que o pai não disparará (disparou), a ex-sogra e a irmã dela ceifadas na mesma tentativa. E depois, claro, queremos proteger as sobreviventes, não lhes vamos pôr a cara e o nome em todas as notícias. Mas podemos ao menos honrar as mortas. Mulheres, e velhas, ainda por cima, sim, não foi nenhuma criança violada e morta a seguir - se fosse teríamos a terra toda de forquilha à procura do Palito para o esventrar no meio na floresta em vez de o esconder e alimentar primeiro e aclamar depois -, assassinadas num país em que assassinar mulheres é à razão de uma por semana. Mulheres como Manuela Costa, 35 anos, morta em 2009 pelo ex-marido, também a tiro de caçadeira (muito gostam eles, corajosos, de execuções à gangster), dentro de uma ambulância à porta da esquadra da GNR de Montemor-o-Velho onde foi pedir ajuda, GNR que agarrou no homicida e o meteu dentro da esquadra sem o algemar, sequer revistar (estou mesmo a vê-los, "Ó pá, desgraçaste-te", mão no ombro, solidários) matando ainda ele aí um agente (depois disso, aposto, já o mandaram ao chão e algemaram, quiçá lhe tenham dado umas lambadas, afinal matou um homem, polícia ainda por cima, caramba). Manuela Costa em cuja morte a GNR nunca fez mea culpa ou o Estado o que lhe competia, indemnizando os dois filhos pela flagrante incapacidade de lhes proteger a mãe. Como podemos então surpreender-nos por haver palmas para Palito, ou que a polícia fracasse mais de 30 dias no seu encalço?

Vai haver eleições domingo, pois é. E são para decidir para onde deve ir a Europa e portanto a minha e a vossa vida, o meu e vosso país, e eu aqui a falar de duas mortas que mais a mais nunca vi. Mas que querem, são da minha raça, da minha tribo, do meu sangue, do meu clube (com metáforas futebolísticas percebem melhor?) - porque ser mulher, como se vê, é ser de um clube diferente, doutra divisão. E estou farta de perder. De um país em que há gente a dizer "coitado" sobre quem matou, como se matar fosse uma espécie de fatalidade - desde que a morta seja mulher. Tão farta que da miséria de campanha que hoje termina só me apetece dizer: confere.

 

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por Augusta Clara às 15:16

Sexta-feira, 09.05.14

A demência, o crime e o manual terrorista - Carlos Esperança

 

Carlos Esperança  A demência, o crime e o manual terrorista

 

 

   Não bastam os horrores de que um homem é capaz, por si só. A crueldade pode sempre ser superada, em nome de um Deus criado na Idade do Bronze, por homens que rejeitam sair da Idade da Pedra.

Em 14 de abril, o devoto troglodita, Abubakar Shekau, líder do grupo Boko Haram, que significa “a educação ocidental é pecado”, ansioso por criar um Estado islâmico no Norte da Nigéria, sequestrou 223 meninas que ameaça casar à força e vender como escravas.

O piedoso terrorista matou mais de 1500 pessoas em ataques a escolas, igrejas e contra símbolos do Estado e das Forças Armadas. A violência e a morte, em nome de Maomé, o misericordioso, não param. O Profeta, ideólogo analfabeto, não gosta de saber que as meninas possam ser escolarizadas. É uma abominação. Mulheres não podem desafiar as tradições tribais e misóginas. Abubakar Shekau defende a vontade de Deus e do Profeta.

Na Nigéria trava-se uma luta sem tréguas entre o protestantismo evangélico que, não sendo especialmente recomendável, está nos antípodas da barbárie de que o islamismo é capaz àquela latitude.

As jovens destinam-se a ser vendidas no mercado do matrimónio e seviciadas a mando dos raptores. A escravatura é a pena para mulheres que querem libertar-se da ignorância e, quiçá, pôr em risco a fé.  E o grupo terrorista não parou de raptar raparigas.

Quando o terrorismo é uma manifestação pia, só a repressão sobre os pregadores lhes pode pôr cobro. Hoje, um bom muçulmano não pensa que é criminoso tal como sucedia com um bom cristão dedicado à nobreza da Inquisição, à evangelização dos índios ou às Cruzadas. Quem os convenceria de que a fogueira não era purificadora e a tortura um bom método para descobrir hereges, judeus e bruxas?

À semelhança do álcool, que passou de atenuante a agravante, em acidentes rodoviários,  também a motivação religiosa do terrorismo deve sofrer a mesma evolução.

Se nós, os herdeiros do Iluminismo e da Revolução Francesa, graças à repressão política sobre o clero, pudemos erradicar as fogueiras e a tortura, também os mullahs e aiatolas podem ser obrigados a prescindir da sujeição a Maomé e ao manual terrorista Alcorão.

Estes horrores, contra as mulheres, é que não podem perpetuar-se.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 07.05.14

Quem são as centenas de jovens sequestradas na Nigéria?

 

Quem são as centenas de jovens sequestradas na Nigéria?

  

 

Estas alunas da escola de Chibok conseguiram fugir de seus agressores

 

BBC Brasil, 5 de Maio de 2014

 

   Nanoite do dia 14 de abril, homens armados - integrantes do grupo radical islâmico Boko Haram - invadiram um internato em Chibok, pequena cidade interiorana no Estado de Borno, no noroeste da Nigéria.

"Não se preocupem, não vai acontecer nada com vocês", os invasores disseram às jovens estudantes que encontraram. Depois de se apoderar de alimentos e outros produtos encontrados no local, os homens colocaram fogo no prédio e partiram, levando-as.

Duas semanas após o sequestro, quase nada se sabe sobre o destino das mais de 200 jovens, a maioria entre 16 e 18 anos, que se preparavam para fazer seus exames finais.

Uma das hipóteses é a de que elas teriam sido levadas para Sambisa, um frondoso bosque cortado por riachos e habitado por antílopes e elefantes onde, antes da insurgência, moradores da região caçavam e pescavam.

Também há relatos de que algumas teriam sido vistas em caminhões na direção do Chade ou da República dos Camarões, onde seriam vendidas por US$ 15. Também na semana passada, surgiu a informação de que elas teriam sido forçadas a casar com sequestradores, que teriam pago US$ 12 por uma noiva.

Em um vídeo, o líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, confirmou que as jovens seriam vendidas. “Deus me orientou a vendê-las, elas são propriedades Dele e eu vou fazer o que ele me pediu”, disse.

 

Foto: AFP

Em 1º de maio, muitos foram às ruas pedir que governo faça mais pelas jovens

 

Há mais de uma década, os militantes do Boko Haram estão empenhados em uma campanha violenta com o objetivo de derrubar o governo e estabelecer um Estado islâmico na região. O grupo se opõe ao que qualifica de "educação ocidental" de mulheres e quer a adoção da Lei Sharia (Lei Islâmica) no país.

Não há informações sobre as medidas tomadas pelo governo para resgatá-las - o que, segundo as autoridades, se deve à necessidade de não revelar detalhes por razões de segurança - e tão pouco sobre o número exato de estudantes
sequestradas.

Inicialmente, falava-se em 230. Depois, houve relatos de que 40 teriam conseguido escapar. Posteriormente, o número se elevou para 276. E a cifra mais recente, fornecida à BBC pelo chefe de polícia nigeriano Tanko Lawan, é de que 223 meninas teriam sido sequestradas.

Em desespero, nigerianos saíram às ruas no dia 1º de maio para protestar e exigir que o governo faça mais para resgatar as jovens.

Quem seriam, no entanto, essas jovens que venceram o medo e apostaram na educação, um caminho arriscado em um Estado cuja capital é o berço do grupo Boko Haram?

'Queria fazer medicina'

"Ela gostava muito de ir à escola", disse à BBC Ayuba Alamson, que tem duas sobrinhas, uma com 17 anos, outra com 18, e duas primas, entre as sequestradas.

"Era alegre, amorosa e ótima companhia", disse Alamson em relação a uma das sobrinhas, cujo nome ele prefere não revelar.

"Ela queria terminar seus estudos secundários, estudar medicina e se especializar em ginecologia, para ajudar as mulheres em áreas rurais que não têm acesso aos hospitais da cidade".

O que é o Boko Haram

O grupo islâmico luta desde 2009 para derrubar o governo da Nigéria e estabelecer um estado baseado na Sharia, ou lei islâmica.

Ele promove uma visão do Islã que acredita ser proibido para os muçulmanos participar de qualquer atividade social e política ligada à sociedade ocidental.

Isso inclui votar em eleições, vestir camisetas e receber uma educação secular.

Traduzido do hausa, uma das línguas locais da Nigéria, Boko Haram significa “a educação ocidental é proibida”

"Minha outra sobrinha", contou, "queria trabalhar na mídia, escrever em publicações, apresentar programas de rádio e ser escritora".

"A escola (que frequentavam) era a única escola de Estado em Chibok, por isso, o sonho de muitas das meninas era se formar, ir para a universidade e voltar para a comunidade para construir uma boa escola para seus filhos", acrescentou.

Alamson tem ainda uma irmã que teve a sorte de escapar dos sequestradores junto com outras estudantes. mas o incidente foi tão traumático que ela ainda não consegue falar sobre o que aconteceu.

"No momento, ela está há 20 km de Chibok. Quando falo com ela, chora o tempo todo e não quer se lembrar do que aconteceu, continua pensando em suas companheiras que ainda estão no bosque. Só se lembra do momento em que foi sequestrada e de ter saltado do caminhão para escapar".

Angústia

Deborah Sanya também conseguiu escapar. Tem 18 anos e está prestes a se formar.

 

Foto: AP

 

No momento do ataque, alunos faziam prova em escola

Ela disse à revista The New Yorker que era meio-dia quando chegaram ao acampamento dos militantes, em um local remoto, no meio do bosque.

Os homens obrigaram suas colegas a cozinhar. Ela disse que não comeu, não tinha apetite.

Duas horas mais tarde, convenceu duas de suas amigas a tentar escapar. Elas se esconderam atrás de uns arbustos e, quando foram vistas pelos guardas, começaram a correr.

À noite, chegaram a um povoado, dormiram na casa de um estranho que as acolheu e, no dia seguinte, telefonaram para suas famílias.

"Pensei que minha vida tinha chegado ao fim", ela disse.

Assim como a irmã de Alamson, a preocupação e angústia que Sanya sente em relação às companheiras a impede de contar mais detelhes.

No momento do ataque, só estavam na escola as estudantes que estavam fazendo os exames finais.

"As jovens em Chibok são como outras moças de 17 ou 18 anos. A maioria é filha de camponeses. As que conseguem bons resultados em seus exames sonham em prosseguir com sua educação", disse à BBC um dos líderes anciãos da comunidade, Pogo Bitrus.

A organizadora dos protestos em resposta ao sequuestro ocorridos na capital do país, Abuja, é Naomi Mutah, oriunda de Chibok.

"Os pais dessas meninas são camponeses e estão firmemente convencidos de que suas filhas devem receber educação", ela disse. "E esta região valoriza muito a educação ocidental".

"Também não se faz muita distinção entre meninos e meninas nessa região, que é de maioria cristâ", acrescentou.

"Nesse sentido, essa área é diferente de outras no país, onde as meninas não têm as mesmas oportunidades que os meninos, por conta de diferenças culturais e religiosas".

"Esses pais trabalham durante a estação das chuvas para garantir uma boa colheita que, ao ser vendida, lhes permite pagar a escola das crianças".

"Mas agora, todos esses sonhos foram subitamente interrompidos e sequer sabemos o que aconteceu com elas. Estão vivas? E se estão, onde estão? Queremos nossas crianças de volta.para que possam voltar para a escola", esbravejou.

"Não podemos nos esquecer de que esta é uma geração inteira de estudantes mulheres de Chibok. Entre elas, com certeza haverá primeiras damas, médicas, advogadas e engenheiras. Mas se nada for feito para resgatá-las, todo o nosso trabalho terá sido em vão".

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 25.11.13

Hoje também é dia de luta ...

 

... contra a violência sobre as mulheres

 

 

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por Augusta Clara às 19:00



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