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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 29.10.15

Que dia é hoje? - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Que dia é hoje?

 

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Oda sonha com o derrube do regime sírio, mas não tem vontade de voltar à pátria.

 

Chegada à Paz (Visão), 28 de Outubro de 2015 

 

   Oda e eu somos filhos da mesma fornada. Em junho de 1994, a minha mãe e a dele chegaram ao fim da gravidez e prepararam-se para trazer mais um bebé a este mundo, ambas com algumas reticências quanto à conjuntura política do mundo, mas nada que lhes tirasse a felicidade própria da ocasião.

Desde que aprendi a falar, a minha família ensinou-me a pensar, a refletir e a contestar aquilo que não achasse justo, o meu avô sempre se orgulhou do meu lado revolucionário, característica que, no meio em que cresci, foi tão incentivada como alvo de brincadeiras e piadas sem maldade. No caso deste meu contemporâneo, a sua capacidade de questionar e reivindicar não pôde ser vista com tanta ligeireza. Nos anos da adolescência, juntou-se a um grupo de rebeldes como ele, que acreditavam na mudança e espalhavam uma mensagem de contestação e luta pela liberdade. Tornou-se oficialmente inimigo do Estado sírio aos dezasseis anos. Um terrorista.

Não quis entrar em pormenores, contou-me apenas que tinham matado todos os seus amigos, depois de serem perseguidos, presos e torturados. Aos dezassete, fugiu com a família para o Egito, entrou para a faculdade de engenharia no Cairo e, passados dois anos, o seu passaporte caducou. Foi à embaixada para renovar os documentos, mas o funcionário estava a par da sua situação criminal. Negaram-lhe a documentação, ordenaram-lhe que regressasse à Síria. Só tinha uma alternativa: fugir.

Oda deixou a família na capital egípcia e partiu para a costa, onde apanhou um barco ilegal que o levaria a ele, com mais trezentos, para Itália. Conhecemos, em Lisboa, essas imagens. Pagou três mil e quinhentos dólares e, navegadas poucas milhas, a embarcação cedeu por excesso de peso e má qualidade dos materiais. O naufrágio tirou a vida a mais de metade dos passageiros.

Oda sobreviveu, conseguiu chegar à costa e durante dois dias andou perdido no deserto. Se a polícia o apanhasse, seria preso por ter embarcado ilegalmente e logo deportado para a Síria, onde a morte, ou pior, o esperava. Conseguiu regressar ao Cairo, arranjar trabalho e juntar dinheiro para a viagem seguinte.

A família, de classe média, reunia também condições para ajudar o filho a sair do Egito. O total da passagem para a paz viria a ultrapassar os 10 mil euros. Da Turquia, Oda partiu para as ilhas gregas, num barco pequenino com o dobro do número aconselhável de passageiros. De Atenas viajou para a Macedónia e foi a pé até à Sérvia. Conta-me isto tudo com uma calma que me surpreende.

Atravessou a caótica fronteira húngara a pé, com milhares de desconhecidos. Conseguiu um táxi para Budapeste, dali um carro particular até Viena e por fim um comboio para Bruxelas, onde nos encontrámos. Já cá está há três meses e meio. Dorme em casa de um primo e passa o dia no centro para ter comida e uma muda de roupa.

"Amanhã vemo-nos de certeza", diz-me à despedida, "eu estou sempre aqui, farto desta vida, desta espera, não faço ideia se hoje é terça, domingo ou sexta-feira."

A verdade, que me dói, é que não mudaria nada se Oda soubesse que dia é hoje. O meu amigo quer continuar a estudar e voltar para a família, no Egito, onde tinha uma vida. Sonha com o fim do atual regime sírio, mas não tem vontade de regressar à sua pátria. “Se a guerra acabar nada me resta, tudo foi destruído, já não há nada de bom para ver. Foi-se tudo, já não existe nada do que me faria voltar”.

Oda e eu temos a mesma idade. Temos alguns sonhos em comum, mas oportunidades de vida assustadoramente distantes. Demo-nos bem, trocámos uma história triste, mas também muitos sorrisos. No fim da conversa, ele tinha os olhos brilhantes, quis confortá-lo, mas nunca hei de saber o que dizer. Ele também não saberia. Sorri-lhe. “Temos de esperar, vai tudo resolver-se”, foi o melhor que me saiu. Oda e eu temos a mesma idade.

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 27.10.15

Gente à espera de uma vida - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Gente à espera de uma vida

 

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As primerias impressões de Adriana Costa Santos no Hall Maximillian, campo de refugiados em Bruxelas 

 

Chegada à Paz (Visão), 26 de Outubro de 2015

 

   Hall Maximillian fica a poucos metros do jardim que há uma semana era a casa de centenas de migrantes. Quando cheguei a Bruxelas, o campo havia já sido encerrado, o governo disponibilizara casas de acolhimento para os refugiados e a sociedade civil unia esforços para lhes dar condições básicas de sobrevivência.

O sítio onde agora trabalho, o tal Hall Maximilian, é um armazém antigo, precariamente transformado num local em que os refugiados passam o dia, recebem roupas e comida, apoio educativo e legal, cuidados de saúde e atividades de lazer. No dia em que fecharam o campo, contou-me a minha colega Chantal, voluntários e refugiados uniram esforços, deitaram paredes abaixo, construíram degraus, bancos e bancadas com paletes de madeira e criaram divisões com paredes de pano e contraplacado. Entrando pela velha garagem, encontramos uma cozinha improvisada, uma casinha para as roupas, uma sala de estar com colchões e almofadas, escolas de línguas, um centro de saúde gerido pelos Médecins du Monde, um gabinete de psicologia e assuntos legais, um espaço para as crianças e uma grande cantina.

No centro trabalham cerca de sessenta voluntários. Uns distribuem comida e roupas, outros são médicos, professores, auxiliares. Eu trabalho na secretaria, forneço as informações necessárias a refugiados e voluntários, distribuo as doações pelos vários departamentos e participo, de um modo geral, na gestão do espaço. Pelas mãos, todos os dias me passam folhas de papel, documentos e cartas das secretarias e centros de imigração, apertos calorosos e bebés pequeninos, que se instalam no meu colo e brincam com os meus cabelos.

À frente do balcão em que me debruço, há uma pequena salinha de paredes cobertas por desenhos de crianças refugiadas. Uns têm sóis e arco-íris, corações e muitas cores, outros são de cores escuras, riscos carregados e imagens difusas de sofrimento. Um grande cartaz dá nome à sala – “La Voix des Refugis” – a voz dos refugiados expressa num alfabeto que não compreendo, em recortes de jornais que noticiam manifestações de boas-vindas, a ação da sociedade civil, a impotência dos governos e a criação de outros centros e campos na Europa, do género deste em que trabalho. Raramente se vêem mulheres. Há algumas crianças escondidas nos braços fortes dos pais e são homens quem ocupa os espaços, quem faz fila para a comida, para as roupas, são eles que se reúnem a conversar para passar o tempo e se aproximam do balcão, curiosos, para me observar, uma menina nova, ainda por cima loirinha.

Abdullah veio de Gaza, tem 19 anos e gostava muito de jogar futebol, mas teve de abandonar o seu bairro reduzido a destroços e partir, por causa da guerra. Está há um mês na Bélgica. Pergunta-me de onde venho e entusiasma-se, exclamando, com um grande sorriso: “Portugal! Cristiano Ronaldo!”. Apresenta-me o seu amigo iraquiano, cujo nome não consigo entender. No Iraque também há guerra, explica-me Abdullah, por isso é que ele está aqui. Depois dessa nossa primeira conversa, passou a seguir-me ofegante para todo o lado. Este é um mundo novo, que desconhece. Não sabe como reagir e acho que até está a fazê-lo muito bem, tendo em conta o rodopio em que deverá andar a sua cabeça. Quando não sabe o que há de dizer, pergunta-me se tenho frio. Diz-me que eu devia ter cuidado e não andar de bicicleta à chuva, (entretanto comprei uma, em segunda mão, para as deslocações na cidade), que posso ficar doente e depois já não vou ao centro. Pediu-me o número, disse-lhe que não tinha, ofereceu-me um cigarro, disse-lhe que não queria. Obrigada, tenho de ir trabalhar. E lá vai ele dar mais uma voltinha.

Aqui, a maioria dos refugiados vem do Iraque, da Palestina e, só em terceiro lugar, da Síria. Por dia, entram e saem à volta de quinhentas pessoas que fugiram da guerra nos seus países, uma pequena percentagem do mar de gente que atravessou o Mediterrâneo para agora permanecer numa situação indefinida, à espera de papéis, estatutos e oportunidades.

É gente à espera de uma vida, nesta terra onde encontrou a paz exterior. Quanto à interior, nem acredito na paz de espírito que demonstram e na tranquilidade com que vêem os dias a passar.

Uma grande parte dos voluntários com quem trabalho são imigrantes de países árabes. Paul, marroquino criado em Londres, também já dormiu na rua e demonstra um claro orgulho no seu sotaque britânico. O problema, conta-me, é que os que mais sofrem com a guerra nem sequer têm condições para fugir e têm de lá ficar a ver a sua vida miserável a agravar-se a cada dia, sem alternativa.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 26.10.15

Chegada à paz - Adriana Costa Santos

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CHEGADA Á PAZ é o blogue que relata a experiência de Adriana Costa Santos, que largou tudo em Portugal para ir dar ajuda num campo de refugiados sírios em Bruxelas

 

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 (Adriana Costa Santos à esquerda na fotografia)

  

23 de Outubro de 2015

   A secretária do meu quarto está virada para uma grande parede branca. Conheço os seus riscos de cor, de tantas vezes que me sentei a olhar para ela, de caderno em branco e caneta destapada, prestes a tomar grandes decisões. Numa noite, daquelas que não ficam na memória, ali estava eu, impaciente em relação ao futuro e à espera que uma resposta proviesse da cal. Tinha-me licenciado e resolvera parar de estudar um ano para pensar no resto da minha vida. Enquanto refletia, de computador fechado, os meus amigos do Facebook dividiam-se em opiniões extremas, sem qualquer fundamentação, quanto à grande questão dos refugiados sírios. Usavam e abusavam de termos como invasão, terrorismo e fundamentalismo, disparavam com “eles querem é rebentar com a Europa”, “agora vamos ter de pôr as nossas mulheres de burka”. Naturalmente, surgiam também vozes de apoio e compaixão, e, por todo o lado, centenas de portugueses disponibilizavam-se para receber refugiados nas suas casas. Estava na hora de fazer alguma coisa. Mais do que ler e entender a fundo a guerra na Síria e a crise humanitária a que assistíamos, concluí que o contexto em que me encontrava era o ideal para dar uma ajuda concreta, em qualquer parte da Europa.

Não tenho filhos, nem responsabilidades, tenho um trabalho, mas só para pagar as saídas à noite, não tenho nada a perder. Posso ajudar estas pessoas, aplicar os valores de solidariedade e tolerância que o projeto europeu me ensinou, e que prega, mas não pratica. Uma amiga falou-me do campo de refugiados de Bruxelas e ofereceu-me alojamento em sua casa. Perfeito. Decidi fazer a minha parte. Vou.

Não sei o que me espera, sei que vou dar e receber, aprender, crescer e fazer parte desta História. Sei que serão precisos muitos mais braços, no sítio para onde vou e em todos os campos que, na Europa, se opõem aos muros e às fronteiras, tentando dar esperança e dignidade aos que são iguais a nós e fogem de uma guerra que também é nossa.

Agora é a minha vez de contar ao mundo o que se passa e dar a conhecer a minha versão, pura e dura, dos acontecimentos, mantendo-me fiel aos princípios que me guiam, e com o único objetivo de promover a tolerância, a justiça e a paz.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 14.05.14

“Guerra aberta” em Bruxelas por causa da Ucrânia - José Goulão

http://www.jornalistassemfronteiras.com/

 

José Goulão  “Guerra aberta” em Bruxelas por causa da Ucrânia

 

 

14 de Maio de 2014

 

   “Aqui dentro está tudo em guerra por causa da Ucrânia”. Quem assim fala é um alto funcionário das comunidades que se declara “farto de tanta birra e tanto amadorismo” a propósito da “descoordenação total entre dirigentes da União” sobre o que fazer com a actual situação ucraniana.
O desabafo foi feito depois do acto solene em que Durão Barroso pôs mil milhões de euros dos contribuintes europeus à mercê de Arseny Iatseniuk, o primeiro ministro não eleito de Kiev e um dos principais responsáveis pela entrega do aparelho militar e de segurança do país aos círculos neonazis e revanchistas.
Sobre a entrega desta verba aos meios que se indignam quando são qualificados como “junta” no poder não há grandes novidades. Diz-se que é para pagar as dívidas do gás natural à Rússia e que em troca deve a Ucrânia realizar as reformas fiscais e estruturais que muitos europeus não ucranianos bem conhecem,  principalmente os mais de 25 milhões no desemprego.
Porém, a “guerra” de que fala o alto funcionário não é por causa deste assunto, que é pacífico porque “está no ADN do golpe de Estado”, para usar uma expressão proferida pelo socialista belga Philippe Bertrand, correndo o risco de ser insultado como perigoso esquerdista. O mesmo Bertrand que se interrogou, em inocente conversa de café, sobre o critério que têm os dirigentes europeus ao entregar mil milhões de euros a um governo que dizem ser “transitório”, a menos de 15 dias de eleições. “Só se já sabem o resultado das eleições”, murmurou o meu amigo belga.
O que está em causa nesta grande guerra europeia de bastidores é “a confusão e a precipitação” de dirigentes da União, e também da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa), agora que todos decidiram ser promotores de negociações entre Kiev e o Leste da Ucrânia.
“O gabinete do presidente do Conselho, Van Rompuy, diz as últimas do ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Frank-Walter Steinmeier, por se ter deslocado a Kiev, propor negociações sem ter informado Bruxelas”, explicou o alto funcionário. “Se calhar o ministro alemão também ficou irritado quando deu de caras com Van Rompuy em Kiev, igualmente para tratar de conversações entre ucranianos. Estavam ao mesmo tempo na mesma capital a falar com as mesmas pessoas, sobre o mesmo assunto, e não sabiam um do outro”, admitiu.
Como se não bastasse, prosseguiu o meu interlocutor, o presidente da OSCE, o presidente suíço Didier Burkhalter, saiu finalmente com o prometido “roteiro” à procura de uma solução na Ucrânia que alegadamente proteja os direitos das comunidades de língua russa.
“Não sei bem porque razão”, disse o alto funcionário das comunidades, “o ministro alemão alegou que foi a Kiev tratar  da aplicação deste ‘roteiro’, talvez seja porque será mediado por um funcionário alemão, mas lá se arranjou mais um pretexto para fogo cruzado, que agora também envolveu a OSCE – uma catástrofe neste processo desde a história do envio de uma delegação formada por militares de países da NATO”.
Um diplomata em serviço na NATO, que tem igualmente uma visão muito céptica do modo como a Europa – e também os Estados Unidos conduzem as mudanças na Ucrânia – não está muito a par das guerras internas da União Europeia. Mas já percebeu que “o modo como decorreram os referendos em Donetsk fizeram mais mossa na estratégia ocidental do que seria de esperar”.
“Este desfile para Kiev só pode ter uma razão: encontrar rapidamente uma solução negociada, ou arranjar pretexto para acusar os russófonos pelo fracasso, para dar alguma credibilidade às eleições presidenciais de dia 25”, disse o diplomata. Estas eleições “têm dois riscos para os seus defensores e organizadores”, acrescentou. “São facilmente comparáveis, em legitimidade, aos referendos no Leste e quem considerou estes ‘uma farsa’ ridiculariza-se ao garantir que as outras são sérias, montadas por um governo que nada tem de credível; ou o boicote às presidenciais no Leste tem grande impacto, pelo que esta consulta pode ficar a ser conhecida como ‘os referendos de Kiev’. Nenhuma das saídas é animadoras no estado actual das coisas, e por isso quem há pouco rejeitava negociações agora diz que é preciso negociar a todo o vapor”.
O diplomata da NATO sabe quem se está “a rebolar de gozo com tudo isto: Putin”. “Considerava-me a última pessoa a ser capaz de dizer isto, mas a Rússia tem dado um grande baile a estes incompetentes. Não sei como lhes passou pela  cabeça que russos pudessem repetir no Leste da Ucrânia o que fizeram na Crimeia. Também deveriam ter informações mais do que suficientes – é para isso que existe a espionagem e não é tão barata como isso – para saber que os russos não estão metidos na organização dos grupos do Leste, nem tencionam lá meter-se. Não contentes com isso montaram aquela operação em Odessa de tal maneira que juntar meia dúzia de vídeos amadores como quem soma dois mais dois tira a limpo que aquilo foi feito, e mal feito, pela polícia secreta de Kiev, o que não é uma grande recomendação profissional para os fascistas que tomaram conta dela”.
Na opinião do diplomata da NATO, “o maior erro de avaliação de todos cometido por Bruxelas – os Estados Unidos jogam mais com a ameaça da força do que com a diplomacia e provavelmente  também vão dar-se mal – foi o de admitirem que a Rússia assumiria o papel de negociar em nome do Leste; a seguir, optaram pela recusa de negociações alegando que os insubmissos não poderiam querer fazer-se representar; agora andam à procura de negociadores depois de lhes terem dado tempo para se legitimarem, por muito que tentem desacreditar os referendos. Um desastre de uma ponta à outra”.

José Goulão, Bruxelas


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por Augusta Clara às 18:30

Sábado, 03.05.14

Exclusivo JSF: Inquietação em Bruxelas com as atitudes de Kiev

 

Exclusivo JSF: Inquietação em Bruxelas com as atitudes de Kiev

 

 

 Catherine Ashton com o PM golpista Iatseniuk

 

 

José Goulão, Pilar Camacho, Bruxelas, 3 de Maio de 2014

 

   Não é oficial, mas nos bastidores do Serviço de Acção Externa da União Europeia (SAE) e outras estruturas diplomáticas, em Bruxelas, cresce a inquietação com os comportamentos do governo de Kiev em relação às oposições a que chama "pró-russas" e às regiões da Ucrânia onde que são maioritárias.
"Fascistas ou não fascistas, o que são antes de mais é irresponsáveis, ou aconselhados por gente irresponsável", afirma um funcionário originário de um país do Leste da Europa. "Tomaram o freio nos dentes e agora fazem lembrar aquele garoto que teima em desafiar o gigante da escola porque se acha com as costas quentes por o pai ser campeão de boxe", acrescenta.
Os receios com o que se passa na Ucrânia são manifestados, em privado, por diversos funcionários do SAE que temem os efeitos da insistência nestes "comportamentos perigosos" não apenas sobre a União Europeia mas sobre toda a Europa."Será que eles pensam que os russos vão ficar sossegados a assistir ao massacre de comunidades que têm afinidades culturais, linguísticas e religiosas com eles? E por mais quanto tempo resistirão às provocações, que crescem todos os dias de intensidade?" - interroga-se um diplomata do Serviço, de nacionalidade britânica tal como a comissária Catherine Ashton, a responsável pela diplomacia da União.
O diplomata franze o sobrolho e guarda silêncio perante a pergunta sobre a reacção da própria Ashton à situação e desvia o tema. "Infelizmente", lamenta, "ainda há muita gente que não aprendeu com os resultados desastrosos das mentiras que provocaram a invasão do Iraque; a mentalidade de Bush e Blair deixou escola, só que do outro lado não está um Saddam Hussein que definíamos como perigoso para fazermos de heróis. E que faremos se os russos forem socorrer o Leste da Ucrânia? A NATO entra em guerra com eles? Se assim acontecer não será esta a mãe de todas as guerras, a mãe de todas as tragédias?"  
No quartel general da NATO fala-se pouco sobre o que vai na cabeça de cada um, reina a disciplina militar, a ordem chega de cima e ponto. "Não tenho dúvida de existem receios", confessa um diplomata nórdico, que pede anomimato como todos os interlocutores do Serviço de Acção Externa. O silêncio tem a virtude da compreensível segurança no posto, mesmo quando estão milhões e milhões de vidas humanas em jogo.
"Simplesmente não se manifestam esses receios porque a organização não foi definida para os escutar", insiste.

"A propaganda desta casa é um desastre", acusa o diplomata. "É definida por americanos que só vivem bem com a existência de guerras, desde que não sejam em sua casa, e executadas por gente que segue a voz do dono e normalmente é mais papista que o papa. As ordens espalhadas para esconder que existem fascistas no governo da Ucrânia, ou seja, a insistência numa estratégia errada desde o início para conseguir o golpe de Estado, não favorecem condições para que agora sejam denunciados os riscos em toda a sua amplitude. Fez-se crer que aquilo em Kiev era democracia e tinha a ver com o espírito europeísta, seja lá o que isso ainda for hoje, e agora não existe audiência para uma voz de comando capaz de endireitar este plano inclinado para o abismo. Não é preciso ser-se diplomata para saber que os chefes militares americanos jamais admitem um erro", afirma o diplomata.

Entre funcionários do Serviço de Acção Externa da União percebe-se que não é fácil viver nesta dependência em relação à NATO. Um dos interlocutores escutados admitiu-o com toda a franqueza - e irritação - e resumiu a opinião numa frase: "Todos os dias os Estados Unidos concentram esforços militares nos países europeus que fazem fronteira com a Rússia, montam estruturas de espionagem física e electrónica, instalam tropas regulares e especiais e agora têm em desenvolvimento a fase para o controlo absoluto da Ucrânia, abafando as comunidades dissidentes mesmo que recorrendo a colaboradores fascistas. Tudo isto para impor dissuasão à Rússia? Não acredito: seria matar moscas com mísseis, há meios tão eficazes, muito mais ligeiros, menos dispendiosos e perigosos. Parece haver deste lado quem esteja interessado numa guerra com Moscovo. É uma aposta tão forte como criminosa".

O que está a acontecer nestes dias em território ucraniano, considera o diplomata, "é o início de uma limpeza étnica, ou melhor, de uma purificação da Ucrânia, ou não seja promovida por gente nazi e xenófoba". A dúvida, insiste, é "saber até quando os russos vão aguentar quietos. Sabemos que estão a preparar-se para acolher fugitivos em massa, mas não se pode iludir que o problema, além de humanitário, toca no orgulho do país: desta vez as vítimas não são eslavos dos Balcãs, são mesmo russos. Há um risco sério de rebentar uma guerra em que sairemos todos derrotados, seja qual for o lado".
 

 

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por Augusta Clara às 22:00



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