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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Adão Cruz Minha amiga Maria da Criatividade

(Adão Cruz)
Dentro das alegorias possíveis e de uma espécie de polifonia pictórica, considero-te a música do Universo, a mulher reinventada nas vivências e passagens do tempo, elemento de candor poético na intimidade afectiva do quotidiano. Nunca te outorguei o exíguo papel que outros te atribuem, quem sabe, decorrente do hormonalismo poético da tua imagem feminina. Mas pago bem caras a aspiração da tua pureza, a procura da tua inocência, a adoração da tua beleza, a ansiedade do teu absoluto que fazem de mim um náufrago de sonhos preso nos lastros da realidade.
![16873377_Swd0T[1].jpg 16873377_Swd0T[1].jpg](https://fotos.web.sapo.io/i/B781719ea/22071290_ToBMF.jpeg)
Adão Cruz 25 de Abril, o grande vencedor
O 25 de Abril foi o mais importante fenómeno político-social da nossa história moderna. O mais fascinante fenómeno político-social da vida de todos aqueles que tinham dentro de si a terra preparada para nascerem cravos.
Foi uma rajada de vento estilhaçando as janelas do tempo e deixando entrar o futuro e os sonhos pela mão dos pequenos gestos de cada um de nós. Uma generosa pincelada de cor e de vida nas paredes gastas da existência, nas palavras desencantadas e nos rostos mortos da esperança. O abrir da madrugada que há tanto tempo se recusava a ser dia.
Sensação única e irrepetível. A praça do entusiasmo era demasiado grande e a alegria brotava em cada esquina, entoando canções que ardiam no ventre da arte e da poesia. Eram muitas as certezas, ainda mais as incertezas e uma cândida ingenuidade brilhava em todos os olhos. Acreditava-se que neste pérfido mundo ainda havia almas grandes, as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão da cidadania, da honra e da dignidade.
Ao calor do 25 de Abril se deve o germinar da revolucionária ideia de que é na relação com os outros que nós percebemos quem somos e que o sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência. A maior conquista do 25 de Abril foi, de facto, o nascimento de uma necessidade crescente de sentir a beleza, o autêntico, a verdade, o gosto da vida para cada um e para todos, a solidariedade, a sede de saber e a consciência da soberania da liberdade e da justiça.
Comemoramos hoje os quarenta anos do nascimento de uma vida por que tanto lutámos. Mas é com tristeza que penduramos o cravo na lapela e uma lágrima nos olhos. Hoje já não sabemos se é dor ou alegria o que sonhamos quando abrimos ao sol as portas de Abril. Não sabemos se é dor, tristeza oualegria, aquilo que sentimos quando a revolução faz tantos anos de saudade e nostalgia.
O 25 de Abril sempre teve e tem alma de esquerda. Nunca poderia ser o gene da nova ditadura que aí está desde há muito, cada dia mais tecnologicamente evoluída e sofisticada. Não demorou muito depois de Abril a incubação do ovo da serpente. Como fazem os micróbios quando aprendem a utilizar o antibiótico como alimento, os saudosos do antigo regime apoderaram-se da palavra democracia, usando-a como rótulo do veneno que lentamente foram injectandonas consciências e nas inconsciências do nosso povo.
O seu caldo de cultura é não só o domínio da comunicação, onde ferreamente institucionalizou a desinformação e a mentira com máscaras de informação, mas também a eterna manutenção da ignorância, da estupidificação, da pobreza e do obscurantismo. Tudo em nome da competitividade e da convergência, da globalização, da modernidade, da religiosidade, da flexibilização, da privatização, palavras inquestionáveis das estratégias de dominação por parte daqueles que sabem quem tudo ganha à custa de quem tudo perde.
São estes responsáveis pelo abrir de portas e pelo estender de tapetes às chancelarias do crime que provocaram ou facilitaram esta barbárie dos tempos modernos, a corrupção, os roubos ao país, os cortes de salários e o esbulho das pensões, a degradação social, a fome ao lado da loucura do consumismo, o monetarismo e o ultraliberalismo cujo útero reside nos tecnocratas da rapina e na cabeça do patrão planetário que os condecora por cavarem cada vez mais fundo o fosso entre ricos e pobres.
De cravo ao peito ou sem ele, comemoram com toda a desfaçatez a honrosa revolução que sempre odiaram, numa tentativa de a desnaturar e de neutralizar o genuíno espírito de Abril. O que se passa na Assembleia da República é paradigmático. A hipocrisia é maior do que o monte de cravos ali aprisionados nesse dia. Dia que muitos suportarão com dificuldade, conhecidos que são osseus claros sinais de alergia.
Nos dias que correm, a luta tem de ser redobrada dentro de cada um de nós. Não é o grau de facilidade ou dificuldade ou a carga pragmática ou utópica que ditam o que deve ser feito ou obstam àquilo que deve ser feito, mas é, sobretudo, a resistência e a força da verdade da nossa consciência perante a submissão.
A identificação com os autênticos valores de liberdade em todo um processo de valorização pessoal e colectiva, exprime uma inquestionável adesão ao Bem e à Justiça, uma interioridade e uma nobreza de carácter só reconhecidas às almas grandes. É por tudo isto que ABRIL é e será sempre o GRANDE VENCEDOR.



Eva Cruz Os caramuleiros
O novo abrandar do confinamento logo acelerou a vontade de respirar ar puro. Desta vez o ar da Serra do Caramulo. O dia era um esplendor e a temperatura de Verão. A “Alma”, romance-poema de Manuel Alegre, enfeitou a memória dos caminhos de Águeda, por onde há muito não passávamos, quando começámos a subir a montanha, revivendo passeios de outros tempos com os filhos ainda crianças. Já quase no alto, o meu irmão Adão e eu Eva, encontrámos um recanto maravilhoso à beira do rio, com açude e ponte romana, por engraçada coincidência denominado “Parque de merendas Paraíso”. Ali abrimos o farnel que nos soube melhor do que a maçã, sem que ninguém nos expulsasse.
Chegados ao alto do Caramulo, uma das mais belas serras de Portugal, recordei de imediato a “prima Laurindinha”, prima com quem minha mãe viveu na juventude, e personagem do meu livro “Aurora Adormecida”. Por ali passou tristes dias da sua vida em busca da cura para a tuberculose. Os bons ares do Caramulo transformaram esta serra na estância sanatorial mais importante da Península Ibérica, estando o médico Jerónimo Lacerda ligado à construção do mais antigo sanatório do Caramulo, que data de 1922. Foi um médico visionário que conseguiu dotá-lo das melhores infra-estruturas para a época, dando assim um enorme contributo para a erradicação da tuberculose no país. Pois foi nesse mesmo sanatório que a prima Laurindinha esteve internada. De nada lhe valeu, infelizmente, pois a doença matou-a ainda muito nova. Outros sanatórios foram criados, tornando-se o Caramulo, nos anos vinte e trinta, na mais “elegante” estância de saúde do País. Sobre este assunto transcrevo aqui algumas passagens do meu livro: “O ambiente do sanatório era deprimente. As fumigações de formalina cheiravam a morte. Embrulhados na sua tosse de tísicos, os doentes agasalhavam a doença dia e noite sem esperança. Na sua fraqueza trocavam olhares de forte cumplicidade, fazendo nascer amizades e amores que a dor e o sofrimento alimentavam. Montanha Mágica de sentimentos, de superstições, de medos e de morbidez, onde em vez de retratos se trocavam radiografias!”
Como satélites do grande sanatório, outros mais pequenos se espalharam pela montanha. E como os doentes, também foram morrendo ao longo do tempo. Hoje formam uma impressionante constelação de esqueletos, de janelas estilhaçadas, de paredes descarnadas e buracos entranhados de silêncio, solidão, pedaços de dor e saudade pelos que ali sofreram e ali morreram”. Com a erradicação da tuberculose, a estância do Caramulo foi votada ao abandono, mas a paisagem que os nossos olhos alcançam do cimo da Serra continua a ser de uma beleza única na sua lonjura a perder de vista e a conter a respiração. Nem tudo a morte levou, deixando viva a natureza em toda a sua plenitude. E foi a olhar ao longe que me veio lá do fundo da memória outra recordação, agora da minha infância, os Caramuleiros. Pelos dias frios de Inverno apareciam na minha aldeia, todos os anos, os Caramuleiros a vender carvão para o ferro de engomar e cobertores da serra. Dizia-se que vinham de muito longe, da Serra do Caramulo, e as crianças fugiam assustadas com as caras desconhecidas dessa gente pobre e estranha. Hoje já ninguém se lembra deles, nem dos ferros de brasas, nem dos cobertores serranos.
E assim, no meio dos montes, entre memórias e saudades, se passou este belo dia de desconfinamento, não só do corpo mas sobretudo do espírito.

Adão Cruz Reflexão

(Adão Cruz)
A genuína pureza da poesia vive e anda por aí em tudo o que é vida, mas não é fácil captar a sua complexa simplicidade. Como não é fácil - ou não se quer - entender a complexa simplicidade da evidência que também anda por aí, em quase tudo. O medo da evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo de pessoas habituadas e traquejadas numa moderna cultura científica da evidência. Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da evidência que não conseguem negar.

Adão Cruz O que penso

É muito difícil saber o que é a Arte. Duvido de quem diz que sabe o que é a Arte. A Arte não tem definição que nos satisfaça, e penso que nunca se saberá, verdadeiramente, o que é a Arte. Por isso, prefiro chamar-lhe sentimento artístico. Mas, mais do que teorizar, o que interessa é a prática da sensibilidade, não só do criador mas do contemplador e da sociedade em geral, bem como a liberdade da constante destruição-criação das raízes do pensamento. Sem sensibilidade e sem curiosidade universal não me parece possível a formação de uma personalidade artística, capaz de entender a Arte como o caminho mais natural para viver a verdade.
Muitas vezes dou comigo a pensar que o Homem é um ser uno e indivisível, extremamente complexo. No entanto, ele é composto por uma infinidade de subunidades, todas intimamente ligadas entre si, a mais importante das quais, a unidade soberana, se assim podemos dizer, é o cérebro. Este órgão é constituído por cerca de cem biliões de neurónios em permanente actividade, através dos quais se processam em cada momento, provavelmente, triliões de neuro-transmissões. O nosso esquema cerebral é idêntico em todos nós mas o conteúdo de cada cérebro é totalmente diferente. Daí que o sentimento artístico, pertencendo à espécie, é de cada um na sua individualidade, especificidade e profundidade.
Por outro lado, sou levado a pensar que a Humanidade não é um mero conjunto de homens e mulheres, mas uma profunda e intrincada rede de relações, de relações humanas muito diversas e complexas. O cérebro de cada um de nós, apesar de encerrado num compartimento estanque, não se encontra isolado. Relaciona-se, permanentemente e mais ou menos intimamente, com todos os outros, e todos os outros se relacionam com ele, através dos múltiplos canais de comunicação que vão desde a linguagem falada, escrita ou gestual, à mímica, à postura, às atitudes, aos comportamentos. Todavia, o sentimento artístico, seja ele o que for e tome a obra de arte a expressão que tomar, parece-me a forma mais nobre e sublime da comunicação e da relação do homem consigo mesmo e com o mundo. Será, provavelmente, a única que permite ao homem assentar os pés no caminho da universalidade.
Todo o homem se relaciona mais ou menos activamente com os inúmeros fenómenos que o rodeiam e com tudo o que vê e ouve, com tudo o que entende e não entende. O diálogo do Homem consigo mesmo e do Homem com o mundo no seio da natureza e da Humanidade é permanente, profundo e inevitável, e constitui a fonte universal e inesgotável de todas as ideias. O Homem tem caminhado ao longo do tempo em profunda relação dialéctica com o meio, confrontando-se com as difíceis questões da sobrevivência, do pensamento, da razão e da difícil descoberta de si próprio. Nesta descoberta do entendimento de si próprio reside, a meu ver, a força que o impele para o infinito e para a sua dimensão universal, dito de outra forma, a força que o projecta nos horizontes da expressão artística. Mas a arte, apesar de ser a voz da alma na vida infinita, nunca atinge a perfeição, por isso ela será sempre eternidade, inquietude e procura constante. Não se compadece nem com a abreviatura do silêncio nem com a amplidão do grito, pois emerge de uma luta permanente entre sonho e pesadelo, o sonho de ser um pássaro voando na proporção do infinito e o pesadelo de ser um Homem feito à medida do vento, arrastando as asas.
No meu entendimento, a Arte, ou sentimento artístico, fruto da obediência ao facto de existirmos, é a proclamação da inocência contra as culpas do mundo, é a mais segura tábua de salvação nos naufrágios da fraqueza humana e o melhor antídoto contra as sistemáticas tentativas de cretinização da sociedade. Age sobre a sensibilidade, a imaginação e a inteligência, enriquece o sentido da humanização, ajuda o processo de reflexão, ilumina as emoções e os sentimentos, cria uma poderosa afinidade com a consciência, gera a necessidade de identificação com a verdade e a liberdade, desenvolve o sentido da estética, da beleza, da harmonia e da justiça, e abre a mente do ser humano ao valor da dignidade e à compreensão dos indeléveis mistérios das relações do homem com a natureza, impedindo-o de mastigar crendices, atavismos e superstições absurdas que o escravizam.
Penso que qualquer obra de arte tem um sentido para aquele que a produz, sentido que pode não ser o mesmo daquele que a vê, ouve ou contempla. O conceito de sentido é fundamental na comunicação. E o sentido está dentro de cada um e resulta da forma como cada um responde interiormente às suas experiências, forma essa que é diferente em cada pessoa. O sentido é fruto de um complicado processo em constante movimento, e ao transmiti-lo, não se deve esperar uma colagem pura e simples mas sim uma integração consciente nos mecanismos construtivistas do sentido dos outros, isto é, deve haver sempre, tendencialmente, um sentido de obra colectiva. Daí que, tomando como objecto de relação humana a realização de um acto criativo, não nos seja difícil compreender que quando alguém escreve um poema ou um livro, quando escreve uma peça musical ou pinta um quadro, introduz nessa obra, mais ou menos conscientemente, dentro de um real conhecimento das circunstâncias, toda a sua vida, toda a sua estruturação como ser humano individual e livre. A obra é tecida com todas as suas vivências, as suas memorizações, as suas emoções, os seus sentimentos.
Quando alguém vai ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, não vai apenas ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, mas, à luz de toda a sua riqueza espiritual, vai sentir também a sua própria obra, o seu próprio poema, a sua própria música, o seu próprio quadro, já que não é com os olhos, os sentimentos e a vida do autor que ele a vai sentir, mas com a sua própria vida, através das suas próprias emoções e sentimentos. Desta forma, a obra pode desencadear em quem a lê, ouve ou observa, uma imensidade de fenómenos e sensações, uma forte necessidade de sair do vazio, e pode funcionar como um poderoso estímulo, mais penetrante ou menos penetrante, mais revolvente ou menos revolvente, que pode despertar e até desnudar o mais profundo interior de cada um na sua identificação com o que lê, ouve ou observa. Sobretudo, quando a obra for capaz de inquietar o pensamento, criar rupturas, abrir conflitos entre conceitos caducos, levar à meditação e pôr em causa o mundo estreito das velhas ideias. Quando a obra for capaz de nos ensinar que ninguém vê com os nossos olhos, ninguém pensa com o nosso cérebro e ninguém sente com o nosso espírito.

Adão Cruz Como vejo a transcendência

(Max Ernst)
Sou suficiente humilde para não me considerar sábio em nada. Tudo aquilo que escrevo corresponde à minha maneira de ver as coisas, à minha opinião, àquilo a que eu chamo as minhas verdades. Há quem as aceite e há quem as rejeite.
Não vejo qualquer razão, sendo nós senhores da nossa Liberdade interior, para complicar as coisas. Quanto a mim, Transcendência é igual a desconhecimento. Transcende-nos sempre aquilo que não conhecemos. O Homem primitivo não se questionava, penso eu, sobre a origem do Universo, mas era para ele transcendente o facto de uma pedra cair e o fumo subir. A nós, transcende-nos a origem da vida, por exemplo, embora a Ciência tenha já avançado muito no caminho da sua explicação. Transcende-nos a origem do Universo, porque, embora haja teorias para a explicar, ainda não há nada que permita aceitá-la como Facto Científico. A Gravidade, a esfericidade e a Rotação da Terra, por exemplo, são Factos Científicos, isto é, fenómenos praticamente impossíveis de desmentir. Através dos séculos, especialmente nos últimos tempos, a Ciência, quanto a mim o único caminho da Verdade, sempre com muita humildade e prudência, conseguiu explicar e aceitar como Factos Científicos milhares de fenómenos que nos eram transcendentes, e de cuja origem quase ninguém duvida. Na minha maneira de ver, a complicação está em darmos à palavra Transcendental uma conotação sobrenatural, pondo de lado o pensamento e a razão. Como diz o povo, o mal está em pormos o carro à frente dos bois.

Adão Cruz Reflexão sobre a liberdade

(Auguste Rodin, O pensador)

Augusta Clara Matos O Zeca era assim


Eva Cruz Recordar Zeca Afonso

(Dorindo Carvalho)

Eva Cruz Cuidemos do nosso jardim

(Adão Cruz)
“Cândido ou o Optimismo” de Voltaire, um dos maiores vultos do Iluminismo, é uma obra notável que foi publicada clandestinamente no século XVIII, o que lhe valeu nos séculos posteriores milhares de edições. Romance picaresco ou Bildungsroman, conto filosófico ou sátira tornou-se inspirador de vários autores, artistas, músicos, cineastas, não só pela crítica mas também pela filosofia que encerra. Debruça-se sobre a metafísica do Mal, sobre a utopia e a distopia da Vida e do Mundo. Não vou entrar por considerações académicas ou filosóficas, pois não é essa a minha área nem o meu propósito.
Cândido é um jovem que vive num mundo paradisíaco, recebendo de seu mestre ou tutor Pangloss ensinamentos de optimismo, essencialmente baseados na filosofia de Leibniz. Abruptamente, este seu mundo edénico é cortado quando Cândido toma contacto com a realidade. A sua vida sofre imensos reveses e ele acaba convencido de que se não tivesse passado por tudo isso não estava a comer doce de cidra e pistache. “Tudo isso está muito bem dito - mas devemos cultivar o nosso jardim”.
A propósito de Optimismo, as palavras mais marcantes da minha vida de professora foram ditas por um aluno, hoje um grande senhor e um grande amigo. “Obrigado, professora, por ser optimista.” Na verdade, nunca, por mais básico que fosse o conhecimento de algum aluno, eu deixei de ter para com ele uma palavra de esperança ou entusiasmo. Por isso, quero deixar aqui o meu apreço às palavras do virologista Pedro Simas, o qual, no meio desta arrasadora pandemia, deste tenebroso confinamento, aparece sempre com um rosto calmo e tranquilizante, com palavras de esperança transmitindo algum do ansiado optimismo que tanto escasseia. Pedro Simas dá-nos a todos uma excelente lição de pedagogia. A sua expressão e a sua voz inspiram confiança e optimismo, aquilo de que neste momento mais precisamos. É uma voz eloquente, sábia, serena, credível e muito simples. Das poucas que não assustam. Todos o entendemos e todos nos animamos ao ouvi-lo dizer, sem demagogias, que Portugal está a ter uma redução abrupta de contágios, resultante do confinamento, o que poderia colocar o país entre os melhores do mundo a controlar a terceira vaga da pandemia.
Todos os dias nos entra em casa a comunicação social, com imagens de enfermarias a abarrotar de doentes em estado deplorável, de ambientes quase surreais, seringadelas em braços mil vezes repetidas, de INEMS e ambulâncias com luzes de alarme e sirenes de emergência, de telejornais abarrotados de recordes de mortes e infectados como se de resultados de jogos se tratasse. Recuperados, sempre no fim da lista, como notícia secundária. Se porventura, alguma melhoria se nota aqui ou ali, vem logo um “mas…” ou “ o pior está para vir… “ou” já se atingiu o limite…!” E como se não bastasse, vêm a seguir políticos e comentadores que nada têm a ver com profissionais de saúde, a assustar com gráficos, opiniões e poses de quem sabe tudo e mais alguma coisa. “ Quem está fora racha lenha” diz o nosso povo. Curiosamente, os menos críticos, mais reservados e serenos são os da linha da frente, aqueles que fazem o mais difícil, estóico, único e exemplar.
É muito importante estarmos informados, é muito importante passar a mensagem da gravidade da situação que todos estamos a viver, mas também é muito importante a forma, a sabedoria e a pedagogia com que essa informação se faz. E, acima de tudo, que não se critique de ânimo leve quem está a fazer o melhor que pode, com todas as carências que não são só de agora, no meio de um labirinto de científicas e humanas dúvidas e incertezas. Todos acham que fariam melhor, todos querem tirar dividendos políticos desta triste situação, e é isto que leva à saturação e ao descrédito e dá muitas vezes vontade de dizer ”put yourself on the other side.”
Cândido foi perdendo ao longo da vida o optimismo exagerado, mas chegado ao fim, aceitou os ensinamentos de Pangloss “ tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Sem maniqueísmos, aprendamos a dizer “ tudo isso é muito bem dito, mas cuidemos do nosso jardim”
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