Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Marcos Cruz A cerveja no topo do dolo
Antes, a análise política nos media era bem mais profunda, a fasquia do argumentário estava alta e o leitor/espectador, regra geral, sentia a necessidade de se informar, de trabalhar o seu eu político para acompanhar a discussão das matérias. Depois, já com o fim do milénio à vista, alguns órgãos de comunicação social, e não só tabloides, também jornais de referência, entenderam que se Maomé não ia à montanha era preciso levar a montanha a Maomé, pelo que, postas as coisas em palavras francas, baixaram consideravelmente o nível. Veio a política pop, aquela que se faz parecer democrática, na medida em que todos se sentem capazes de a discutir, mas afasta, talvez como nenhuma outra, as pessoas dos assuntos que afectam mais as suas vidas. A “gaffe” passou a ter honras de manchete, qual sardinha que um dia acorda e é marisco, o fait-divers suplantou a premência noticiosa do grande facto, a escolha da gravata do político tornou-se mais importante que o seu ideário. Um dos ícones do novo paradigma era então meu chefe: Carlos Magno. Independentemente de estarem sanados os conflitos que tivemos e de hoje nos cumprimentarmos com amabilidade, manda a verdade que o descreva como um surfista da análise política, alguém que contribuiu conscientemente para um strip que reduziu a esfera política não à sua essência mas, bem pelo contrário, ao seu artifício. Ele e outros cavalgaram essa onda e, no seio de uma opinião pública lisonjeada com a promessa de maior participação (ou “interactividade”, era a palavra), ajudaram a legitimar uma nova concepção de política, destituída dos pressupostos de nobreza e representatividade que a distinguiam. A partir dali, tendia a ser tacitamente aceite que os políticos se representassem a si mesmos e aos seus interesses, como acontece com os clubes de futebol, que há muito já se livraram da responsabilidade de promover o desporto. Para a análise, em consequência ou conformidade, sobravam os aspectos tácticos e, menos, estratégicos (os dias passaram a ser mais curtos), desvalorizados que haviam sido os da substância política – no que ela contém de ética, cultura, ideologia, etc. – quer do discurso quer da acção. A aferição da qualidade de um político deixou de se prender tanto com os seus valores (não materiais, entenda-se) e tornou-se mais vinculada ao conhecimento que ele revela do xadrez em que se move e à habilidade com que dentro dele verga os adversários e rechaça os seus ataques. Muitas vezes, observando esta autodesresponsabilização do jornalismo, a cada dia mais enredado na política dos interesses, promovendo orgulhosamente o trânsito de dois sentidos entre o seu espaço e o dos políticos (com claro prejuízo da política), falei na necessidade de dar às pessoas instrumentos – fossem eles notícias, reportagens ou os então glorificados conteúdos – para compreender, discutir e co-criar a realidade, em vez de as anestesiar com programas que as tornavam menos e menos exigentes, atentas, profundas, responsáveis e interventivas. Em resposta, era-me sistematicamente despejado aquele chavão: "Deve dar-se às pessoas o que elas querem".
Hoje, ao ver Marcelo na presidência da República, é inevitável lembrar-me desse tempo.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.