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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Carlos de Matos Gomes A Grécia e os novos Kissinger
«Provavelmente, temos que atacar Portugal» disse Kissinger o Secretário de Estado americano em Abril de 1975, a propósito da ameaça de mau exemplo que Portugal dava na Europa com a sua revolução e a busca de caminhos políticos autónomos desalinhados do rebanho europeu conduzido pelos EUA através da NATO. Washington receava que o País caísse no “campo comunista” e lançou uma ofensiva para evitá-lo. Era preciso «atacar» Portugal e expulsá-lo da NATO.
Algumas frases retiradas de uma audiência no Vaticano entre uma delegação americana com Gerald Ford e Kissinger e o papa Paulo VI, para convencer o chefe da Igreja Católica a não se opor à acção dos ditos “Aliados” contra Portugal: «Portugal pode evoluir para um regime que é a combinação da Jugoslávia com a Argélia. Com um regime desses, e mantendo-se Portugal na NATO, pode ter más influências na Itália, conduzindo ao “compromisso histórico” [entendimento entre democratas-cristãos e comunistas], que nós não queremos.» Gerald Ford: «É difícil entender que Portugal, com um governo comunista, seja nosso parceiro. A NATO foi criada para se opor ao comunismo.» Kissinger: «Se um membro da Aliança se tornar comunista, (...) isso iria destruir a Aliança Atlântica. Não podemos dar um mau exemplo em Portugal.» (citado de Nuno Simas in DN 28 de abril de 2004)
Algumas frases recentes dos ministros das Finanças e do Eurogrupo contra o governo Grego do Syriza eleito em 2015, quarenta anos depois do Verão Quente em Portugal:
«A Alemanha tem sido intransigente quanto à Grécia e ao pedido de extensão dos empréstimos e qualquer mudança na política de austeridade do país. O ministro das Finanças germânico (Wolfgang Schaeuble) tem sido a principal figura desta campanha...e é mesmo classificado como o “carrasco” de Atenas.»
«O governo alemão considera que “as propostas de Atenas” não conduzem a uma solução substancial.»
«Grupo de trabalho do Eurogrupo discute situação grega. Pierre Moscovici, avisa que o tempo é limitado.» Em Bruxelas, Margaritis Schinas, porta-voz do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, disse «não existir, nesta altura, uma agenda para entregar dinheiro a Atenas e admitiu que a decisão pode vir a ser adotada numa teleconferência antes da Páscoa.»
«Berlim continua a exigir uma lista mais precisa de reformas para desbloquear fundos para Atenas. Em Bruxelas fala-se de discussões complicadas.»
«Não há mais tempo a perder»; foi esta a mensagem deixada pelo presidente do Eurogrupo, na reunião de ministros das Finanças da Zona Euro em Bruxelas, centrada na Grécia.
«O ministro grego das Finanças, Yannis Varoufakis, estará debaixo de pressão mais uma vez. A chanceler alemã, Angela Merkel, não esconde que o caminho será difícil: “O nosso objetivo é manter a Grécia na zona euro. Trabalhamos nesta questão há vários anos. Mas é verdade que a moeda tem duas faces: de um lado a solidariedade dos parceiros europeus e do outro a prontidão a implementar reformas e os compromissos no país. Sobre isto, temos um caminho difícil pela frente”. O Eurogrupo exige que Atenas implemente reformas para ter acesso a ajuda financeira.»
Reino Unido teme resultado “muito mau” na Grécia. George Osborne, o ministro das Finanças do Reino Unido que esteve reunido com Yanis Varoufakis na semana passada, diz que «está a crescer o perigo de um "resultado muito mau" para a crise na Grécia.»
O governo de Passos Coelho também entende que a Grécia é um mau exemplo: «Na última semana a Grécia entrou pelo discurso do PSD como mau exemplo. Para os sociais-democratas Portugal deve continuar o caminho seguido pelo governo nos últimos três anos e meio.» O ministro Marques Guedes: «Portugal é a "formiga" e a Grécia a "cigarra".»
Para Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal do EUA, a saída da Grécia do euro é «uma questão de tempo.»
Durão Barroso admitiu hoje (6/1/2015), que se a Grécia não cumprir os compromissos haverá consequências. «Espero que não mas, se a Grécia sair do euro, projeto europeu não ficará comprometido.»
A Grécia é hoje a ovelha negra do rebanho, como Portugal foi em 1975. Estão à vista os herdeiros dos «mata e esfola» de 75. Tudo farão para colocar a Grécia sob controlo. Amarrada de pés e mãos para o sacrifício no altar dos mercados. A menor falha no coro será punida sem dó nem piedade para exemplo de futuros rebeldes. Os credores mandam e os seus tiranos executam.
Os missionários e outros propagandistas chamam União Europeia a esta tirania. Chamam ao garrote ajustamento. Chamam conversações à humilhação. Chamam ao saque serviço da dívida. Chamam aos gregos subversivos. Daqui a uns dias serão terroristas. Chama a esta loucura bom senso político. Depois haverá uma guerra e o negócio seguirá como habitualmente, com lucros garantidos para os mesmos de sempre.
Carlos de Matos Gomes
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