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Jardim das Delícias



Segunda-feira, 20.10.14

A lebre e a tartaruga - Marcos Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Marcos Cruz  A lebre e a  tartaruga

Ele há coisas1.jpg

 

 

(Adão Cruz)

 

 

   Uma das coisas que mais me ocupam neste momento é o autoescrutínio. Não no sentido potencialmente esquizofrénico de um superego que se separa do ego para o fiscalizar em permanência, como um patrão que diminui e humilha o empregado para criar nele um atrofiante sentimento de dependência. O autoescrutínio de que eu falo é o de medir sempre que possível a distância entre aquilo que digo e o que faço. Uma espécie de termómetro. Por exemplo: dou muitas vezes por mim a repetir ideias em conversas com amigos. Não que isso seja grave, mas deixa-me com a sensação de que de algum modo me estou a promover, em vez de aproveitar o tempo para ouvir, simplesmente, e aprender mais qualquer coisa. O autoescrutínio regista então uma temperatura que aponta para um certo desespero - talvez não desespero, e se calhar ainda menos um certo desespero, já que desespero é desespero e ponto, mas uma certa urgência. Urgência de ser admirado, desejado, necessário. Tenho algum medo da descartabilidade, de ser como aquelas pessoas que estarem ou não estarem é a mesma coisa. Outro exemplo do meu autoescrutínio revela-se quando transmito a alguém uma ideia filosófica, uma luz orientadora, uma conclusão pessoal pronta-a-vestir por quem esteja mais ou menos no mesmo comprimento de onda, e de imediato me dou conta de que acredito mais nisso do que o pratico de facto. Lemas há-os por aí aos montes. E postuladores também. E é sumamente irritante estar sempre a tropeçar em máximas - até certo ponto faz-nos crer que os outros sabem coisas que nós não; passado esse ponto, acende-se em nós um desprezo que nada de benéfico produz. E eu não quero ser um de nenhum desses gajos: o desprezível e o que despreza. Apetece-me lavrar na bondade, na construção, no contributo, mas sem vender teorias utópicas ou não pessoalmente comprovadas. Por outro lado, sendo um tipo irremediavelmente especulativo, às vezes deixo o pensamento voar para lá da minha capacidade prática de o replicar no mundo, como um estilista que faz um vestido inusável. Gosto muito das ideias e gosto muito das pessoas, esse é o meu dilema. Quero que umas encaixem nas outras, que se sirvam mutuamente, mas eu sou a prova, por via do autoescrutínio, de que para isso acontecer, das duas uma: ou a perna das ideias não dá um passo maior que ela mesma, a ponto de a pessoa não o poder acompanhar e ficar frustrada; ou, dando-o, a pessoa responde pacientemente, consciente de que nada mais se acendeu do que uma nova luz ao fundo de um longo túnel. Eu prefiro, sem grandes dúvidas, esta segunda opção. Conto com o autoescrutínio para me elucidar sobre quando estarei a exigir de mais, ou de menos, da minha pessoa, e já me contentaria se as duas velocidades a que esta e o meu pensamento se deslocam não se distanciassem mais com o tempo, com a vida, com a decrepitude, com a velhice. Mas bem mais importante do que isso é que o rumo de uma e do outro sejam o mesmo, como a lebre que puxa pela tartaruga em vez de competir com ela. Se assim não for, não há autoescrutínio que me valha. 

 

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por Augusta Clara às 17:00


1 comentário

De Beatriz Santos a 21.10.2014 às 14:27

Não sei se uso muito ou pouco o autoescrutínio e sou capaz de repetir ideias com que concordo, mesmo que não sejam minhas e ainda as não tenha experimentado. Já dei muita vez por ser demais numa conversa ou mesmo transparente. Digamos que temos de aprender o que falar com quem e não fazermos do facto um cavalo de batalha. A última opção parece-me mais plausível com o inesperado da vida. Mas conhecer os interlocutores também dá jeito, sem deixar que o ego se inebrie. Há felizmente algumas coisas onde competir não resolve:) Gostei da ideia da lebre que puxa pela tartaruga. Nunca ninguém ma ensinou na escola.

Máximas e pensamentos profundos: abundam. Achamo-los engraçados ou bem pensados. Mas em nós só têm vida e existem aqueles que fomos nós a pensá-los, sem sabermos que alguém os pensara antes. Talvez isto possa dar pelo nome de "experimentar"...

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