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Jardim das Delícias



Terça-feira, 03.04.18

A marcha pelas nossas vidas em Gaza - Alexandra Lucas Coelho

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Alexandra Lucas Coelho  A marcha pelas nossas vidas em Gaza

 

SAPO24, 30 de Março de 2018

 

O mundo viu a cara de Emma Gonzalez. No mesmo exacto dia, estudantes revoltavam-se em Gaza. Saem de casa para a escola a cada dia, marcham pela sua vida todos os dias. Espero o dia em que a América, e o mundo, também se possam ver na cara deles.

1. A América em luto viu-se na cara de Emma Gonzalez. A América em choque desde a eleição de Trump viu-se na cara de Emma Gonzalez durante seis minutos e vinte segundos, o tempo que o atirador da Florida levou a matar 17 pessoas. Essa América respirou com ela, sofreu com dela, chorou com ela, lágrimas rolando em silêncio, perante meio milhão de pessoas ali em Washington, perante o mundo. Quando Emma Gonzalez saiu do palco, a América tinha um ícone para o futuro, um perfil do Monte Rushmore. A nova estrela da América, ou a estrela da nova América era mulher, bissexual, 18 anos, cabelo rapado, cara lavada, a pele escura dos latino-americanos, o apelido de quem descende de outra América, mais abaixo (no caso dela, Cuba). Go Emma, we love you, tinham gritado jovens na assistência, ao todo dois milhões de americanos nas ruas de várias cidades contra a violência das armas, pelas suas vidas. Emma Gonzalez era o épico de um tempo, este tempo, a coisa mais poderosa que acontecia na América desde a eleição de Donald Trump. Seis minutos e vinte segundos de cinema, feito na América, pela América, essa utopia de uma só palavra na voz de Walt Whitman (America // Centre of equal daughters, equal sons…)

 

Aconteceu sábado, em directo dos Estados Unidos da América.

 

2. Por assombrosa coincidência, nesse mesmo dia, nesse mesmo sábado, houve uma revolta de estudantes na Faixa de Gaza. Um sit-in disperso à bastonada pela polícia local. Não soube disso em tempo real, como em tempo real soubemos de Emma em Washington, e todos os seus colegas que iniciaram o movimento #neveragain, propulsionando a histórica March For Our Lives de 24 de Março. Soube por um email quatro dias depois, do Palestinian Center of Human Rights (PCHR), um centro baseado em Gaza que conheço há bastantes anos, e regularmente envia relatórios da situação na Faixa para os seus contactos em todo o mundo. Há pouquíssimas notícias de Gaza, há muitos poucos jornalistas em Gaza a reportar para fora, então os relatórios do PCHR são pelo menos um vislumbre regular.

Esse email contava:

“De acordo com informação obtida pelo PCHR, a administração da Universidade al-Azhar anunciou dia 21 Março de 2018 a decisão de impedir qualquer estudante masculino ou feminino de entrar nas salas de exame sem pagar as propinas. Centenas de estudantes recusaram a decisão por as famílias não terem meios de fazer o pagamento, dada a deterioração das condições económicas e sociais [na Faixa de Gaza]. Na manhã de sábado, 24 de Março 2018, centenas de estudantes protestaram dentro do campus da universidade contra a decisão, causando altercações entre os estudantes e os empregados. A Segurança da Universidade interveio para dispersar o sit-in. Os acontecimentos precipitaram-se e agentes do Serviço de Polícia Palestiniana intervieram, chamados pela Administração da Universidade. Os agentes dispersaram o sit-in, e dezenas de estudantes ficaram feridos, depois de serem espancados com bastões. A polícia deteve também vários estudantes e um fotojornalista, Mahmoud Zo'abor, que trabalha para a al-Hadaf News, após um homem, que se identificou como sendo do Ministério do Interior, confiscar a câmara e o telemóvel do jornalista [foram mais tarde libertados].” Cheguei entretanto a outras, breves, notícias que confirmam a tensão estudantil em Gaza nas últimas semanas.

E pensei nos rapazes e nas raparigas da universidade al-Azhar com quem estive em Maio passado, lá em Gaza. Valerá a pena algum contexto, para perceber melhor o que está a acontecer agora.

 

3. O pedacinho de orla que é Gaza (40 quilómetros de comprimento por seis a dez de largura) tem dois milhões de pessoas lá dentro, literalmente presas há décadas, como o mundo sabe. Literalmente presas quer dizer: impedidas de sair. Não há metáfora. E não há nada, mas nada, que se compare a isto em todo o planeta

Desses dois milhões de pessoas 66 por cento têm menos de 25 anos. Ou seja, dois terços dos habitantes daquela prisão única são jovens. Pensem em todos os jovens que viram pela TV nas ruas dos EUA, sábado passado. Em Gaza são mais. E o desemprego, que em Gaza está em 50 por cento, é mais alto ainda entre os jovens. Centenas de milhares de rapazes e raparigas que literalmente, sem metáfora, não têm saída. E, além de não terem forma de sair, fisicamente, nem terem trabalho quando acabam de estudar, não têm um único cinema, já quase não têm música ao vivo, não têm água potável nas torneiras, não têm electricidade 20 horas por dia, nem podem ser bissexuais, gays, trans, intersexo, sob risco, real, de serem mortos (no ano anterior, o Hamas executara um seu comandante, alegadamente condenado por roubo e “sexo homossexual”).

Em Maio, conversei com mais de uma dezenas destes estudantes junto à universidade da Cidade de Gaza onde agora os protestos aconteceram. Não dentro do campus, porque isso os podia pôr em risco, chamar a atenção dos empregados, mas nas imediações. Primeiro, com um grupo de rapazes, depois com um gupo de raparigas. Todos usavam as redes sociais: Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter. Essa era a janela, o único oxigénio do mundo. Nas três ou quatro horas de electricidade, que são as que restam diariamente, carregavam os telemóveis, e muitas vezes usavam os ecrãs como lanterna para estudar à noite.

E, vendo agora Emma Gonzalez, lembrei-me sobretudo de Rozan, a Rozan de 18 anos que estava ao centro do grupo de universitárias com quem falei, depois dos rapazes. Emma e Rozan têm a mesma idade, um carisma natural, uma força que sabe-se lá de onde vem. Rozan, cuja cara o mundo não conhece, falou-me como uma líder nata. “Somos muçulmanas mas não apoiamos o Hamas”, disse, rodeada pelas colegas, todas de cabelo coberto, todas de telemóvel na mão. “O Hamas passou dez anos no poder aqui, e como estamos? Não há electricidade, não há salários, não há gasolina. Três guerras! Eu tenho 18 anos e vivi uma intifada e três guerras. E ainda uma guerra civil entre Fatah e Hamas. Isto não é vida, é morte. E temos a certeza de que nos vamos licenciar e não encontraremos trabalho.”
Como a esmagadora maioria das pessoas que encontrei em Gaza nessa estadia de 2017 (em reportagem para a “Visão História”), Rozan e os seus contemporâneos sentiam-se duplamente reféns. Primeiro, reféns de Israel, a potência que controla Gaza por terra, mar e ar, a bombardeia regularmente, a sujeita ao mais longo e desumano bloqueio do planeta. Depois, reféns do Hamas, porque os últimos dez anos de poder em Gaza, os dez anos de divisão interna palestiniana são o fruto dramático do cerco israelita. Conheci Gaza em 2002, e fui visitando a faixa ao longo dos anos. Em Maio de 2017, a atmosfera era não só literalmente pútrida, como toda a gente parecia à beira de enlouquecer, e disparara a desconfiança sobre quem serve o quê, quem espia para quem. A gaiola onde Israel fechou os palestinianos chegava ao ponto a que chega uma gaiola nestas circunstâncias. Só que à vista do mundo, e com dois milhões de pessoas lá dentro, em vez de ratinhos.

 

4. Este é o contexto. O mais espantoso, porém, é que estas centenas de milhares de jovens em Gaza não estão a matar ninguém, nem a fazerem-se explodir, apesar de conhecerem na carne a violência das armas, e das bombas, desde que nasceram. Estão a ir às aulas, estão a lutar pelos seus exames. Estão a marchar todos os dias pelas suas vidas, na verdade, de casa para as aulas, das aulas para casa, de vez em quando para a praia, onde já nem se pode tomar banho sem risco de adoecer, porque é um mar de fezes, porque os esgotos não são tratados, proque não há condições para os tratar, porque o contexto é este. Há décadas. À vista de todos.

Em Outubro, Hamas e Fatah assinaram um acordo de reconciliação, que mal saiu do papel até agora. Não houve eleições, Abbas ainda é aquele presidente da Palestina lá em Ramallah, com quem o mundo fala porque acha que é o único que há, mas em quem os palestinianos não se revêm. O Hamas deu sinais de ter percebido que alguma coisa tinha de mudar, porque a situação em Gaza era insustentável, e a popularidade interna dos islamistas estava em queda, mas o mundo continuou a ter mais em que pensar. Há dias, o primeiro-ministro de Ramallah foi a Gaza inaugurar uma coisa e rebentou um explosivo que atingiu dois carros da sua caravana. Fatah e Hamas puniram-se mutamente, mostrando como é utópica a reconciliação neste contexto.

A partir de hoje, sexta-feira, e até 15 de Maio, quando Israel celebra o aniversário da sua fundação, o Hamas tem cinco acampamentos montados ao longo da fronteira de Gaza com Israel e incentivou a população a manifestar-se, como forma de lembrar o direito de retorno, de assinalar os 70 anos desse 15 de Maio, que para os palestinianos é a Naqba, ou Catástrofe. Israel está a responder com um aparato militar ao longo da fronteira, incluindo atiradores de elite. No momento em que escrevo, sete palestinianos já morreram e há dezenas de feridos.

Isto é Gaza, 30 de março de 2018.

 

5. Em Fevereiro estive nos EUA, parti no dia em que o atirador da Florida matou os colegas de Emma. Esse dia fez um clique que nenhum outro massacre tinha feito. Dos dois milhões que terão saído à rua no dia 24, quase um terço nunca se manifestara, e havia muita gente que não era adolescente. Outro dado interessante: 70 por cento de mulheres. É bom acreditar que uma nova geração esteja em pé. É bom ver Emma Gonzalez, com tudo o que ela é, arrebatar o mundo. E sim, ser bissexual não é um detalhe sem importância, foi nessa luta que ela se fez também, activista da Gay-Straight Alliance na sua escola. Emma é a primeira a dizer que, para ela, o activismo pelos direitos gay e o activismo contra as armas estão ligados. É a vida dela, com tudo o que ela é, e sem ter percebido quem era não estaria agora ali, dando a cara ao mundo.

Vejo a cara de Emma e penso até que ponto os estudantes que conheci em Gaza a acompanharam, desde o massacre na Florida, eles que seguem tudo pelas redes sociais. Penso como terão olhado para o movimento que se estava a formar, eles que mais do que nunca viram o inimigo sentar-se na Casa Branca, com a eleição de Trump. Eles que estão assistir à construção da nova embaixada dos EUA em Jerusalém, contra todas as resoluções internacionais. E que viram Trump cortar fundos para a UNRWA, a agência das Nações Unidas responsável pelos seis milhões de refugiados palestinianos. A maioria da população em Gaza tem esse estatuto, refugiada, e depende da UNRWA. Se tem algum abrigo, alguma comida, alguma educação, algum cuidado de saúde, é devido à UNRWA. Faca de dois gumes, porque isso também permite que Israel, e o mundo, continuem a assobiar para o ar.
E não tenho forma de a contactar, mas gostava muito de saber o que Rozan, aquela estudante de Gaza, pensa de tudo isto. Ela não tem uma cabeleira loura descoberta como Ahed Tamimi, a brava adolescente da Cisjordânia que se tornou recentemente um símbolo da luta pró-palestiniana, condenada a oito meses de pisão por ter esbofeteado um soldado isrealita. Rozan não é a cara com que uma plateia não-muçulmana se identifica mais facilmente, nem usa as roupas casuais de Ahed. Tal como Gaza não é a Cisjordânia, nem os forasteiros podem entrar em Gaza como entram na Cisjordânia. É mesmo muito difícil uma rapariga de Gaza não cobrir o cabelo, ainda que não seja essa a sua escolha. E é em Gaza que Rozan, como todos os outros, marcha pela vida todos os dias. Espero o dia em que a América, e o mundo, também se possam ver na cara dela.

 

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por Augusta Clara às 08:00




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