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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Marcos Cruz A mentira a nu como horizonte da verdade
(Adão Cruz)
Aqui há uns anos, quando ainda era jornalista, fiz uma reportagem para o Diário de Notícias sobre vocações tardias. Fui à procura de gente que seguiu a via religiosa depois de experiências profissionais que nada tinham a ver com ela. Entrevistei um ex-guitarrista de uma banda rock que foi ordenado diácono em Braga, uma positivista apaixonada pela ciência que se tornou monja de clausura na Vila das Aves e mais três ou quatro dissidentes da vida laica com experiências curiosas anteriores à conversão. Não passou muito tempo desde então, mas tudo me leva a crer que hoje esse trabalho não teria o impacto e a receptividade que teve. A aceitação social das incertezas dos padres, que encontrou no actual Papa – e de forma inadvertida também no seu antecessor, ou não tivesse ele renunciado – um catalisador crucial, atravessa uma fase de acentuada expansão, apesar de o exemplo daquele pároco de Canelas que parece o Demis Roussos poder sugerir o contrário, pela revolta da população. De vez em quando surgem-me notícias de prevaricações no mapa nacional do clericato. Uma destas noites, um amigo contava-me, perplexo, que tinha estado numa festa de anos onde um dos convidados se fizera acompanhar por outro rapaz a quem não se coibia de, aqui e ali, dar uns repolhudos linguados. Veio depois a saber, entredentes, que o acompanhante era padre numa paróquia próxima do Porto. Ontem mesmo soube de outra história: na aldeia de Cepães, vizinha da cidade-berço, o padre lembrou-se em tempos de fazer um retiro de meditação, tendo aproveitado a última missa para informar a comunidade de que tal desígnio o obrigaria a ausentar-se por duas semanas. O problema é que houve gente da terra que foi ao mesmo retiro: era um cruzeiro no Atlântico, e ele lá com uma gaja. Se a gente procurar casos destes, rapidamente tem para um livro. Claro que sempre os houve, mas uma sociedade que aceita com placidez a contingência de os vários poderes serem assumidos por gente corrupta que os usa em benefício próprio e prejuízo de todos faz crescer exponencialmente o risco de contágio dessa complacência – e autocomplacência – à igreja. Porque é que o Papa se tem desdobrado em discursos de renovação, tendentes a uma leitura menos constritiva das escrituras, aludindo mesmo – agora que estudos mais profundos sobre a vida de Jesus admitem a hipótese de ele, ou Ele, conforme se prefira, ter tido mulher e filhos – à possibilidade de revisão do celibato como pré-requisito fulcral para o exercício do sacerdócio? Porque pode. Porque a sociedade pede. Porque a igreja precisa. Pensemos em Portugal, embora estes fenómenos sejam mundiais: olha-se para a direita e vê-se o sector financeiro sem ponta de crédito, olha-se para esquerda (aqui entendida apenas como referência espacial) e vê-se o sector político com a imagem arruinada, olha-se para baixo e vê-se os sectores judicial e mediático a disputarem um lugar no lodo - como não olhar para cima e ver o sector clerical em queda livre? O exemplo que nos tem vindo a ser dado pelas várias cúpulas deste País não oferece margem a interpretações equívocas: é de interesse superior continuar a corromper os valores fundacionais da sociedade civilizada que outrora quisemos constituir até que se imponha como normal um paradigma em que todas as acções humanas se pautam por critérios de custo-benefício, na sua maioria económicos e, em qualquer caso, de poder. A relativa parcimónia com que este processo se tem desenvolvido está longe de traduzir pudor ou alguma réstia de dignidade. É puro know-how: chama-se vaselina. E, claro, mais tarde ou mais cedo, a não ser que aquela profecia eternamente adiada de que a paciência dos portugueses se há-de esgotar venha por fim a concretizar-se, estaremos todos rendidos a uma anestesia geral sob a qual o mais forte pode tranquilamente e sem sombra de oposição comer o mais fraco. Serão considerados contributos de valor para uma reforma constitucional juízos como o que eu, ainda com certo espanto, ouvi há dias na padaria: “O Sócrates? Gosto bem dele. É um mentiroso transparente”. E estará estendido o tapete vermelho para que também os padres entrem no regabofe, sem prejuízo da sua autoridade moral – ou seja, fazendo o que velada e, quero crer, minoritariamente sempre fizeram, mas debaixo dos holofotes, sob escrutínio universal (Deus não é para aqui chamado) e ao abrigo de uma nova ideologia: transparência fixista. Se eu sou corrupto, ajo como tal. Beneficio meritoriamente da assunção daquilo que sou. Viva a honestidade. Era o jardim do Éden para a carne podre que nos tutela.
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