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Jardim das Delícias



Quinta-feira, 27.02.14

A mulher que amanha o peixe - Adão Cruz

 

 

Adão Cruz  A mulher que amanha o peixe

 

(Adão Cruz, pormenor de quadro) 

 

 

   Sempre que a vejo no supermercado onde vou reconheço que não é por acaso.

Muito bonita a mulher que amanha o peixe não sei se amanha se amanhece.

Rosto combatido dorido olhar sofrido e manso não sei o que faz desta mulher um poema se os olhos negros e fundos se o desenho rasgado da face se um gesto brusco da natureza revoltada de cansaço.

Um vale profundo entre o cá e o lá banca de peixe mar imenso mar morto do outro lado um peixe vivo no céu tocando o mar estripando com mãos invisíveis entre lágrimas e sangues as entranhas da vida nas elegâncias difíceis dos plásticos cobertos de escamas.

Passos molhados encharcados pesados cheirando a algas ondas de tempestade no lindo rosto marcadas pela ânsia de voar.

Com tantos apetrechos de borracha botas altas luvas e avental não sou capaz de adivinhar o corpo que tem por baixo nem quero que tal aconteça.

A mulher é segredo a mulher é sonho de si mesma no olhar dos outros sonho de ventre liso crescente de imensidão fonte de pão e de leite eternidade e sorriso dança de movimento para além das formas e da imaginação.

Trepadeira de vida e de morte olhos que se abrem no céu e repousam no mar mãos de todas as direcções ainda que vestidas de plástico amanhando o peixe.

Não sei se é casada ou mãe se é tudo ou nada no reduto escasso do dia-a-dia nem me interessa.

Bastam-me os olhos infinitos a boca seca de beijos a dor-desenho dos lábios a doçura-criança que não cresceu por falta de uso tempo e espaço.

O corpo desta mulher está na face oculta e sedenta na ânsia fervente do impulso na mais íntima agitação do mundo e da dimensão que pode caber numa banca de peixe.

Difícil acertar ideias e olhares quando só olhares fazem ideias...enfeita-se a beleza desta forma estranha criando beleza no amanhar do peixe.

Cruel seria descobri-la a dançar pesadamente etérea e volátil nos salões de púrpura da mulher vulgar entre rendas e espumas que não são espuma do mar.

Como sempre tenho de dizer até amanhã sou forçado a serenar as ondas a desnavegar meu barco.

Muito obrigado.

Não tem de quê.

Você é das mulheres mais lindas que já vi.

Muito amável um exagero...faça o senhor o resto das compras e depois passe por cá.

Buscar o peixe...ou voltar a vê-la?

Sei lá!

.

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por Augusta Clara às 15:00


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