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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 17.10.14

Aconteceu numa noite deste plúmbeo Setembro - Carlos Gamito

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Carlos Gamito   Aconteceu numa noite deste plúmbeo Setembro

 

toulouse-lautrec.jpg

 

(quadro de Toulouse-Lautrec)

  

   Era mais uma noite a inscrever no compêndio das minhas paixões.

Paixões singulares que encontram os seus alicerces na geografia de cada madrugada.

Circunvagámos – eu e o meu querido amigo Carlos Ferreira –, pelas ruas de calçadas mal rendilhadas e tristemente desabitadas desta capital outrora povoada por magotes de apaixonados pela noite e que emprestavam ritmo e vida às trevas sobrantes do adormecimento melancólico dos traços reluzentes desprendidos pelo Sol.

A fluorescência dos néones, coloridos e simetricamente regulados pelos seus próprios movimentos, serviu de convite à nossa entrada naquela cave psicodelicamente iluminada e ornada por um tecto que alardeava salpicos intermitentes de luz cor de ocre que emprestavam um ambiente aquecido aos muitos eles que, na expectativa de acrescentarem mais vida aos dias – isto considerando a impossibilidade de acrescentarem mais dias à vida –, ali estavam de olhares lânguidos e sobrevestidos de ternura.

Eram olhares semicerrados que tropeçavam nos olhares vigilantes das muitas senhoras desenhadas com o aparamento de silicone e cabelos tingidos, ora cor de ouro, ora pintados de negro tição.

Discretamente atentei na entrada de mais um ele.

Este ele era pequeno e ostentava um ralo e minguado bigode que lhe adornava a fuça.

Este homem de poupadas dimensões e que se servia do diminuído bigode na esperança de que o adereço facial lhe ampliasse a dimensão física que não tinha, era notório que se ataviara com o fatinho domingueiro defumado de patchouli e que naquela noite servia de cenário para ir às meninas.

O brilho nevado da camisa de terylene fazia salientar as cores garridas da gravata bem aprumada na vertical e que complementava o ataviamento solene daquela porção de homem trazido ao mundo pela vontade de Deus.

Eu, de modo a arregimentar argumentos para mais este naco de prosa, continuei com os olhos cosidos ao homem pequeno, de diminuído bigode e camisa de terylene.

Atentei que o homem pequeno erguia uma taça de cerveja que, pausadamente, ia beberricando.

Uma cerveja que eu, à distância, sentia a sua temperatura.

Uma temperatura que se sentia cálida e sem cheiro nem sabor.

O homem pequeno, sepultado na avareza do seu volume corporal, alheado de tudo e de todos, enquanto fumava cigarros de cor castanha e tão delgados quanto ele, ia repousando o olhar langoroso na mulher que, sentada ao seu lado e mascarada de sensualidade, intencionalmente estimulava as determinações daquele homem que ainda encontrou espaço na carranca para ostentar um decrescido bigode a cheirar a patchouli.

Enquanto o meu inestimável amigo, que naquela tépida noite avolumou os prazeres da nossa sã amizade, cavaqueava alegremente com um dos barmans, eu, afundado na ruçada cadeira, num outro rasgado olhar que lancei pela sala ornamentada por pernas bem torneadas e cabelos pigmentados, contemplei a presença de uma outra figura.

A figura que me propus contemplar era de um outro senhor.

Um senhor cuja cabeça, fruto da acentuada calvície, refulgia com o brilho das luzinhas cor de ocre que engalanavam o tecto.

Era um senhor careca.

Era um senhor que só se movia amparado em duas amplas muletas.

Era coxo.

Deus fê-lo nascer já velho, careca e coxo.

Mas as muitas imperfeições que o senhor amontoava não se mostravam impedimento para que, através das grossas lentes embutidas na armação preta dos óculos que usava, lançasse faiscantes olhares à concha da criação da sedutora mulher que com ele brindava à existência do Amor.

 

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por Augusta Clara às 15:00


1 comentário

De Beatriz Santos a 17.10.2014 às 16:12

É um bom quadro este texto. Sem mais nada ser. Que já é bastante

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