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Jardim das Delícias



Sábado, 05.12.20

África versus Mahler - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  África versus Mahler

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(Adão Cruz)

 

   Tinha pensado escrever sobre África mas, vergonhosamente tarde, descobri Mahler. E a minha felicidade disparou.
Quem opta pela dor perante o prazer?
Fui arrastada, arrasada, por esse fragor e fiquei à deriva. Uma ampla asa metálica levou-me pelos espaços e esqueci-me do discurso que tinha engendrado sobre aquela penosa realidade.
Não se pode ser feliz ao mesmo tempo que se constata a dor dos outros. É da natureza humana.
O que Ki-Zerbo defendia, também, era a felicidade para África. Não sabia era para quando.
Joseph Ki-Zerbo desmistificou a África exótica, dos cheiros e das cores, cujo rasto apenas encontrou na História da Europa, a propósito do comércio de escravos, quando estudava na Sorbonne.
O que ele queria para essa parte do mundo, onde a Humanidade se descobriu a si própria, à sua fala, à sua escrita, à sua música, era o reconhecimento duma genuinidade, ao contrário da vil classificação de Pré-História para todo o seu percurso vivencial. Pré-História da História Europeia, claro está, à qual não deixaria mais de estar ligada, mas apenas como um apêndice.
Joseph Ki-Zerbo não era um nostálgico da África pré-colonial, mas soube reconhecer como, ao interromper os fluxos comerciais e culturais entre a África Central e os povos do Norte do continente, o colonialismo enfraqueceu deliberadamente o progresso que se processava de forma harmoniosa para os povos das sociedades africanas. Cidades como Tombuctu, nos séculos XIII e XIV, tinham um desenvolvimento cultural maior que muitas cidades da Europa, a ela afluindo professores universitários e alunos de além Sara. Essa foi a evolução que o colonialismo travou.
Ele não repudiava o desenvolvimento das tecnologias de informação e de outras tecnologias de ponta. O que constatava era que a importação pura e simples dessas tecnologias tal como eram concebidas nos países do Norte não servia os genuínos objectivos das sociedades africanas no seu todo. Haveria que, aproveitando esses valiosos instrumentos, pô-los ao seu serviço mas impedindo que minassem os valores intrínsecos dessas sociedades por ele identificados como o amor, a descoberta de uma verdade científica, a amizade, a estética ou a música. Para ele “o mundo dos valores é uma imensidade que ultrapassa de longe o mundo material”.
Pelos auscultadores, entra-me, agora, o “Adagietto” da 5ª.Sinfonia, considerado já como um dos mais preciosos trechos da música clássica. A mim, analfabeta musical, soa-me a beleza em estado puro. Thomas Mann, “A Morte em Veneza”, Visconti. Quando as imagens se associam o prazer é mais intenso
O que esse velho sábio burquino, nascido no antigo Alto Volta, queria era o contrário do que está a acontecer hoje: a África há séculos saqueada das suas matérias-primas, vê-as, agora, irem-se tornando progressivamente inúteis pelo desenvolvimento tecnológico dos seus predadores de sempre. Exemplo deste facto é o aparecimento da fibra óptica que arruinou a Zâmbia substituindo o cobre que era a sua principal matéria-prima. Não quereria ter visto o desenvolvimento erróneo de uma classe média despolitizada, perdida da sua cultura original e transformada em presa consumidora de marcas das transnacionais em fuga às zonas mundiais em crise.
Mas eis os violinos, em massa, em uníssono, em apoteose. Verdadeiro sortilégio.
O meu cérebro suspendeu-se. Só pulsa o coração e muitas outras fibras de que não sei a designação anatómica.
Estou em morte cerebral. Passei para outro mundo.
África fica para depois. A felicidade não se pode adiar. Não se deve. Puro egoísmo humano? Que me perdoem os deuses mas a vida é curta. Não chega para tanto.
Também, tem tempo. Poucos africanos se terão apercebido bem do que Ki-Zerbo desejava. Uns porque ainda não têm condições para isso; outros porque nem o desejam mesmo. Há visões mais tentadoras de imediato.
Quanto a mim, Mahler, o avassalador Mahler fez-me apaixonar. Quando estiver saciada deste prazer, logo volto a pensar.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. Joseph Ki-Zerbo (entrevista de René Holenstein), Para Quando África?, Campo das Letras, 2006.
2. Jean-Christophe Servant, “A Miragem das Classes Médias Africanas”, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Agosto de 2010.

 

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por Augusta Clara às 21:26


2 comentários

De Fernando Ribeiro a 06.12.2020 às 01:51

Não me parece que os problemas da Zâmbia, enquanto exportadora de cobre, tenham alguma relação com a fibra ótica. Os cabos de cobre que a fibra substituiu eram finíssimos (da ordem de meio milímetro de diâmetro cada fio) e, de resto, as redes de distribuição de energia elétrica continuam a ser de cobre (grosso). Os problemas da Zâmbia e da África em geral residem na exportação de matérias-primas e na subsequente importação de produtos fabricados com essas mesmas matérias-primas. O caso da República Democrática do Congo, então, é trágico. As suas minas de "coltan" (columbite e tantalite), onde trabalham em condições de exploração desumana muitos milhares de mineiros (incluindo muitíssimas crianças), alimentam os telemóveis e os computadores que nós não dispensamos e pelos quais pagamos preços exorbitantes.

Há muitos anos (muitos mesmo), li umas coisas de Joseph Ki-Zerbo, mas já não me recordo de quase nada do que li. Não tenho presentes no meu espírito os escritos de Ki-Zerbo, mas tenho presente o poema "Mãos", do santomense Francisco José Tenreiro: https://www.escritas.org/pt/t/8500/maos

É inevitável a associação do Adagietto da 5.ª Sinfonia de Mahler ao filme "Morte em Veneza", de Luchino Visconti, baseado em Thomas Mann. O filme é poderosíssimo e o Adagietto também. Nada mais natural do que associar uma coisa à outra, embora Mahler não fosse veneziano nem alemão, e muito provavelmente terá composto o Adagietto na sua casa de verão nos Alpes Austríacos, que era onde ele costumava escrever as suas sinfonias. Eu gostaria de sugerir que se ouvisse o Adagietto por si só, sem associá-lo a qualquer filme ou a qualquer livro. Sugiro ouvir a música pela música. O maestro Leonard Bernstein pode dar uma ajuda: https://www.youtube.com/watch?v=e6AuSs55t64

Não sei porquê, o Adagietto de Mahler faz-me sempre lembrar o Adagio para Cordas do americano Samuel Barber. Sinto que há qualquer coisa que os aproxima, embora o Adagio de Barber seja muito mais trágico: https://www.youtube.com/watch?v=eJTLNuaw8_4

De Augusta Clara a 06.12.2020 às 02:13

Obrigada pelo seu comentário . Começo a minha resposta pelo fim dizendo que já ouvi o Adagietto de Mahler "n" vezes e por variadas orquestras nomeradamente dirigidas por Bernstein , Abbado, Barenboim e Karajan. A interpretação deste último é a que mais me agrada.
Quanto ao cobre da Zâmbia nada posso opinar. Não tenho mais conhecimentos sobre o assunto do que um professor africano como o citado neste texto.
Dizer que os problemas da Àfrica têm a ver com a exportação das suas matérias primas é usar um eufemismo para falar da rapina a que o continente está sujeito às mãos das transnacionais que, de facto, depois, obrigam os países africanos a comprarem os produtos fabricados com as riquezas que lhes roubaram. Estes é que são os problemas de África. É esta a verdade.

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