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Jardim das Delícias



Sábado, 14.03.15

As raparigas lá de casa - Emanuel Félix

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Emanuel Félix  As raparigas lá de casa

(Emanuel Félix nasceu na Ilha Terceira)

 

004-2013a.jpg

 

(Adão Cruz)  

 

Como eu amei as raparigas lá de casa
discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.

(in 121 Poemas Escolhidos, Edições Salamandra, 2003)

 

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por Augusta Clara às 15:00


1 comentário

De Anónimo a 05.10.2019 às 15:41

Eu agradeco-lhe a ideia de transcrever aqui este belissimo tema do grande Enanuel Féliz, um dos melhores poetas da Lingua Portuguesa de sempre. Eu, como filho de Angra chego a emocionar-me com as coisas tao bonitas que o Professor Emanuel Féliz escreveu sobre os Acores. Quem escreveu e sentiu esta terra como o poeta Emanuel Feliz, será eterno, jamais se irá desta vida.

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