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Jardim das Delícias



Sábado, 15.08.15

Crónica de fim de semana – O engate ou a longa viagem - Carlos Esperança

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Carlos Esperança  O engate ou a longa viagem

 

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(Brasan)

 

   A namorada encontrava-se em Peniche, onde regressara, depois do Natal que permitira nas terras de origem alguma convivência e o último encontro. As curtas férias de Carnaval eram uma bênção para um reencontro todos os dias ansiado. Contara os dias durante meses, dera disso conta nas cartas ternas e longas, adormecera várias vezes em doces cogitações.A Covilhã ficava a muitos quilómetros e demasiadas horas de Peniche, distância tão difícil de percorrer fisicamente como fácil de transpor em sonhos. E eram puros os sonhos e tranquilo o sono. A separação era o húmus do afeto e a distância o acicate.

Veio a calhar a boleia de um amigo no princípio da tarde da sexta-feira que precedeu aqueles dias consagrados ao romantismo, viagem que me conduziu a Lisboa. A noção de tempo é aos dezanove anos diferente da que se tem aos sessenta. E quanto à distância também deve haver diferença de perceção, mas, ciência certa, é a noção sobre as curvas da estrada que no início dos anos sessenta se julgavam mais razoáveis e se tinham por muito menos sinuosas e em menor número, sendo o contrário. Passou num instante a viagem que começou no Pelourinho, na Covilhã, com duas curtas paragens, uma para abastecer de gasolina o automóvel e outra de café os ocupantes, e terminou, por gentileza do condutor, junto ao cinema Monumental, em Lisboa, referência obrigatória para o transporte rodoviário que ligava a capital a Peniche.

Longo pareceu o tempo de espera pela camioneta. Deu para ler inteiro o jornal, hábito antigo, magnífico redutor de ansiedade. É verdade que então as más notícias eram escassas, não tanto pela ausência mas pela falta de divulgação, e, independente da vontade editorial, por zelo da censura. Importantes eram as deslocações do irrelevante Américo Tomás no seu permanente peregrinar, rumo a obscuras e bem orquestradas inaugurações, de que a comunicação social se fazia eco – um lavadoiro aqui, um fontanário acolá, alguma barragem às vezes, sempre por benevolência do Sr. Presidente do Conselho. A merecer destaque lá vinha a satisfação dos autóctones bafejados pela visita de Sua Excelência o Presidente da República, sempre acompanhado da mulher, espécie de prótese protocolar e musa inspiradora dos divertidos improvisos com que fustigava as audiências. Apreciava no Diário de Notícias, órgão situacionista por vocação e devoção, o editorial, pelo primor com que Augusto de Castro o escrevia, não pelo despudor com que incensava o ditador.

Finalmente o tempo passou e, ali bem perto do Saldanha, depois de ter entregado o pequeno saco de roupa ao condutor que a acondicionou no porta-bagagem, subi para a camioneta dos Capristanos e sentei-me à janela. Fui dos primeiros a instalar-me. Sabia que em Torres Vedras teria de me apear e esperar mais de quarenta minutos pela ligação para Peniche, ao todo mais de quatro horas para percorrer cerca de noventa quilómetros.

Abandonado o jornal que a leitura tinha esgotado, ficava disponível para a conversa que não deixaria de entabular com a pessoa que viesse sentar-se ao lado. E havia toda uma região para descobrir e provavelmente o mar que da Lourinhã a Peniche certamente se veria da estrada. Ou talvez antes. Nunca ali passara e o mar poucas vezes o vira. Nem me ocorria que a noite se aproximava e as vistas ficavam reduzidas às luzes interiores do autocarro.

Depois seria o reencontro com a namorada, que só me esperava no dia seguinte, o cumprimento cerimonioso à mãe, um eventual beijo na face à apalavrada, o máximo a que podia aspirar, que mulher séria não ia além disso antes do matrimónio, ou muito perto, nesses tempos em que o sexo era pecado e o desejo tentação a reprimir.

Estava nestes pensamentos quando entrou uma jovem particularmente bonita, como se com cerca de 18 anos houvesse mulheres feias, longos cabelos castanhos soltos sobre as costas, pestanas compridas, uma boca bem desenhada, a quem coubera o lugar da coxia. Imediatamente lhe ofereci a troca, cortesia que a jovem aceitou e agradeceu com um sorriso de bom augúrio.

As palavras ficaram por aí. No mundo dos afetos mais do que as palavras dizem os gestos, os silêncios, os olhares ou a falta deles. Adivinhava-lhe umas pernas lindas, que o vestido da época encobria, torturava-me a imaginar onde terminariam, olhava de soslaio uns olhos ternos dirigidos para a paisagem urbana que circundava a Alameda das Linhas de Torres, conferia discretamente o desenho da boca, certamente carente, um interminável pescoço que levaria imenso tempo a percorrer de beijos, uma blusa bordada que guardava avara duas deliciosas saliências onde previa crescer o desejo e o ritmo dos batimentos cardíacos.

Secou-se-me a boca, enevoaram-se-me os olhos, desordenaram-se os sentidos. Sentia que era impossível disfarçar a manifestação de um desejo que se desenrolava incontido e irreprimível. E nem um casaco leve para colocar sobre as pernas, nem o jornal, nem mesmo um boné, nada podia socorrer-me na angústia de esconder a vergonha que a coragem do corpo sobrepunha à pusilanimidade do pudor.

A camioneta parava amiudadas vezes. Entravam e saíam passageiros com volumes que transportavam ao colo ou na rede lateral e iam em busca de outros que o condutor retirava da bagageira. Se ao menos ali tivesse o pequeno saco com as duas mudas de cuecas, alguns pares de meias, uma camisola e duas camisas de que imprudentemente me separara, já teria resolvido o problema de ocultar aquela turgescência violentamente manifestada.

De nada me valeu pensar no pouco dinheiro de que dispunha, na guerra que irrompera nas colónias e a que estaria condenado, no duche de água fria que havia de tomar quando chegasse à pensão, truques, sobretudo o último, que em outras condições, ou com diferente companhia, teriam sido infalíveis. Nada. Uma violenta ereção resistia há mais de meia hora sem que houvesse maneira de derrotá-la. Levantar-me era hipótese que não podia colocar. Naquele estado todos os passageiros haviam de notar. Só restava uma forma, digna, de pôr fim àquele suplício, com a cumplicidade da causadora. E este pensamento fez outra chamada de sangue, desta vez à face, sem que a pressão, contida pelos botões, mostrasse esmorecer.

Ensinara-me o instinto que um toque era o sinal para avaliar as possibilidades de sedução de que dispunha. Comecei a fazer deslizar o pé direito até encontrar algo e, ao encontrar, prontamente parei. Fiz mais força e a resistência manteve-se. Agora já não olhava para ela, nem discretamente. O toque era tudo. Mais força ainda e o aconchego mantinha-se. Recolhi o pé por instantes para logo a seguir reincidir. O receio de não encontrar resistência, sinal evidente de que não era desejado, inquietou-me primeiro para logo se desvanecer. Agora podia empurrar com força. Do outro lado nem um sinal de contrariedade, nem uma manifestação de cansaço, nem uma hesitação. A excitação só não aumentava por cedo ter atingido o auge.

As aldeias passavam ou nós por elas que são duas formas diferentes de dizer o mesmo, sendo mais importante o que estava para vir, pouco importando por onde se ia. E se ela saísse numa delas? Como apagar o fogo que nos queimava, como saciar a ânsia que nos devorava, como poderíamos concretizar o sonho que nascera? Não, ela não iria sair, mesmo que outro fosse o destino, antes de Torres Vedras. Havia de aguardar e guardar-se para os momentos que ambos soubéramos conquistar por sinais que tínhamos trocado e cujo sentido sabíamos.

O condutor anunciou a paragem seguinte – Torres Vedras – quando pôs de novo em marcha, depois de uma última paragem, a enorme camioneta. O coração alvoroçava-se, batia cada vez mais depressa, a ansiedade aumentava, os pensamentos atropelavam-se. Que havia de dizer à apetitosa companheira para quebrar um silêncio de mais de duas horas? Não seria preciso grande coisa, o entendimento já tinha sido firmado, mas algumas palavras eram necessárias para fingir uma relação que justificasse sairmos juntos. Talvez perguntar-lhe para onde ia, não, isso era estupidez, ambos sabíamos que não era importante para onde se ia, interessava ao que se ia, sairmos juntos, bem percebíamos porquê e para quê. Perguntar-lhe se queria tomar algo, talvez uma laranjada, não, um chá, ou um café, era mais natural, isso mesmo. Como iria sair com aquela saliência a querer romper-me as calças, mas isso não interessava, ela já teria compreendido, havia de sentir-se lisonjeada e pressentido que seria mutuamente gratificante. Pois, só faltava dizer-lhe, aceita um cafezinho, isso, era um pretexto razoável, depois era só esperar que fosse ela a decidir como e para onde, para o que ambos sabíamos. A camioneta já entrara no estacionamento. A emoção subia, a ansiedade atingia o auge, a frase estava na ponta da língua à espera que a camioneta se imobilizasse. O meu pé continuava encostado como lapa a uma rocha e a rocha não cedia. Nem o desejo. A camioneta imobilizou-se. Uma voz suave segredou-me, com licença, encolhi-me, o pé continuava encostado, a jovem passou à minha frente, deliciosamente bela, e colocou-se na fila de saída, atrás doutros passageiros. Não queria acreditar. A excitação, num ápice, desaparecera. A empurrar-me o pé, com toda a força, continuava imóvel o varão de aço que resistira à pressão e escorava os assentos.

(in Pedras Soltas – Ed. 2006 (Esgotado))

 

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por Augusta Clara às 14:00




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