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Jardim das Delícias



Terça-feira, 21.08.18

Em jeito de resposta à CARTA DO PAPA FRANCISCO AO POVO DE DEUS - Adão Cruz

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Adão Cruz  Em jeito de resposta à CARTA DO PAPA FRANCISCO AO POVO DE DEUS

 

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Meu caro amigo Papa Francisco


Desculpe tratá-lo assim, sem formalidades. Tenho por si respeito, consideração e sinto que sou seu amigo. Tenho, sobretudo, alguma compreensão. Compreensão pela enorme dificuldade que sente em lidar com a doença da sua igreja, pela obrigação que lhe cabe de limpar a infecção que a instituição que chefia vai deixando pelo caminho e pela impossibilidade de apresentar as medidas concretas que toda a gente reclama. Não tenho dúvidas de que é um homem sério, honesto e bem intencionado, mas também não tenho dúvidas de que é um homem incapaz de curar este cancro bem mais difícil do que o da menina a quem deu um beijo. Mas não é por isso que o quero acusar, nem tenho o direito de o fazer. A carta que escreveu foi dirigida ao Povo de Deus, ao qual não pertenço. No entanto, convivo diariamente com esse mesmo povo e navegamos no mesmo barco, o que legitima, até certo ponto, a minha resposta.

Somos mais ou menos da mesma idade, ambos fomos enjaulados num seminário de jesuítas onde me cortaram as asas da minha infância e adolescência, dos dez aos catorze anos. Em vez de desenvolverem em mim a liberdade de pensar com que “Deus nos dotou”, sempre me alimentaram com o secular e religioso paínço com que se domesticam as aves engaioladas. Com o Papa Francisco, nessa idade, provavelmente aconteceu o mesmo. Simplesmente o Papa Francisco chegou a Papa e eu não passei de um percevejo igual aos que subiam pelas pernas da cama da nossa camarata. Felizmente! O que me valeu foi pirar-me daquele inferno onde deram cabo da minha liberdade, galgando os altos muros da cerca do seminário, numa qualquer madrugada em que a minha vida deixou de ser a mais grotesca forma de não ser. Em relação ao tema que motivou a sua carta e a minha resposta, não tenho consciência de algum dia ter sido assediado sexualmente, mas lembro-me de certos gestos, atitudes e palavras como “amizades particulares”, entre padres e alunos e mesmo entre alunos, coisa que eu na altura não entendia e hoje entendo perfeitamente. Fui uma violentada vítima da religião mas nunca fui vítima sexual.

A sua carta ao Povo de Deus é uma montanha de eufemismos e de subterfúgios. O seus eufemismos, ainda que pacificadores, não conseguem esconder que o abençoado e teórico coração da igreja foi sempre um coração falso, hipócrita e obscurantista. E isso é tanto mais grave quando toda a gente sabe que o Papa Francisco é uma pessoa inteligente. Fala de abusos sexuais de crianças “cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas” quando devia falar de um número incomensurável e intercontinental de vis e obscenos criminosos, capazes de agressões cujas características até arrepiam um ser humano normal, e que deviam ser julgados e eventualmente encarcerados. Fala em olhar para o futuro no sentido de “gerar uma cultura capaz de evitar que estas situações aconteçam e não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas”. Situações e espaços são o que não falta nos milhões de sinistros alvéolos deste secretíssimo labirinto que é a igreja. O problema não está nos espaços nem nas situações mas na mente perversa, sórdida, talvez doente em muitos casos, de milhares de cabeças que encimam qualquer traje eclesiástico, nomeadamente os ridículos e espalhafatosos trajes cardinalícios. As suas palavras, para além de eufemismos, são palavras ocas. O meu amigo Papa Francisco sabe perfeitamente e muito melhor do que eu que essa cultura, essa dignidade, esse carácter, essa ética humana religiosa, os sagrados princípios e mandamentos que deveriam ser o coração da igreja a que preside, nunca existiram e dificilmente poderão existir, porque a árvore está podre há séculos. A sede de poder, a ligação à riqueza e à vaidade, a demagogia, a falsa caridade, a lavagem cerebral, a manipulação de massas que é exercida diariamente pela pérfida organização, com objectivos económico-financeiros acima de tudo, as monumentais fraudes financeiras, a colaboração em actos bélicos com ditaduras e opressões, a escandalosa luxúria de grande parte da cúria romana, por vezes a expensas de esmolas e fundos caritativamente doados para fins humanitários, a profunda hipocrisia reconhecida por muito do “Povo de Deus”, a perda da liberdade de pensamento e a ditadura religiosa são o tronco dessa árvore que não pode deixar de dar ramos criminosos de que é exemplo o inadmissível crime universal da pedofilia.

Diz o Papa Francisco que “a dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu, que alcança a alma e que, por muito tempo, foi ignorado, emudecido e silenciado. Mas o seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo”. Mais eufemismos, mais subterfúgios. Ignorado, escamoteado, emudecido, silenciado. O Papa Francisco sabe que foi a igreja e só a igreja a calar esse gemido, criando inclusive uma espécie de catecismo ou de mandamentos que continham as regras e a conduta a seguir pelos clérigos para silenciar, esconder e abafar tais crimes. Foi a igreja que sempre tentou emudecer e silenciar não só o grito das vítimas mas sobretudo o ribombante clamor de tanta gente honrada e horrorizada, mesmo dentro do Povo de Deus, a denúncia amplamente difundida por numerosos jornalistas e investigadores de grande prestígio (Eric Frattini, Gianluigi Nuzzi, Emiliano Fittipaldi, David Yallop e tantos outros) que escreveram dezenas de livros profundamente documentados, sendo muitos deles levados a tribunal pela própria igreja e de lá saindo absolvidos.

Não vou comentar toda a carta do Papa Francisco, até porque grande parte dela é tecida de conceitos e questões religiosas que não me dizem rigorosamente nada. Mas quando o meu amigo Papa Francisco se dirige ao Povo de Deus sabe a quem se dirige, e sabe que, apesar de haver muita gente de fé que pensa e julga, a maior parte das pessoas cuja fé ninguém tem o direito de condenar são pessoas que, de uma forma ou de outra, perderam ou desleixaram a capacidade de pensar pelas suas próprias cabeças, nunca tiveram interesse e curiosidade na análise dos fenómenos que as rodeiam nem alimentaram a necessidade de julgamento, prescindem do conhecimento da verdade, fugindo mesmo dela quando pressentem que ela espreita e não querem dar à consciência o valor que ela tem, porque foram ensinadas e formatadas para não duvidarem de uma integridade e de uma sacralidade que a igreja nunca teve.

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por Augusta Clara às 23:06




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