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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Ilustração de Adão Cruz
(...) Aborrece-vos ouvir-me falar tão demoradamente dos imbecis? A mim também me custa falar deles! Mas antes de mais nada preciso de vos persuadir de uma coisa: não vencereis os imbecis nem pelo ferro nem pelo fogo. Porque eu repito que eles não inventaram nem o ferro, nem o fogo, nem os gases, mas utilizam perfeitamente tudo quanto os dispensa do único esforço de que são realmente incapazes, que é o de pensarem peia sua cabeça. Preferirão matar a pensar, eis a pouca sorte! E vós, precisamente vós, forneceis-lhes mecanismos! O mecanismo foi feito para eles. Enquanto não chega a máquina de pensar que eles esperam, que eles exigem, que há-de vir, contentar-se-ão muito bem com a máquina de matar, ela assenta-lhes mesmo como uma luva. Industrializámos a guerra para a colocar ao seu alcance. Ela está, efectivamente, ao seu alcance.
Caso contrário, desafio-vos a explicar-me como, por que milagre, se tomou tão fácil fazer de um qualquer lojista, empregado de agente de câmbios, advogado, ou padre um soldado? Aqui como na Alemanha, na Inglaterra como no Japão. É muito simples: estendeis o vosso avental e cai-lhe dentro um herói. Não insultarei os mortos. Mas o mundo conheceu um tempo em que a vocação militar era a mais respeitada depois da do padre, atrás da qual ficava apenas em dignidade. Não deixa de ser estranho que a vossa civilização capitalista, que não tem fama de encorajar o espírito de sacrifício, disponha, em pleno primado da economia, de tantos guerreiros quantos as suas fábricas podem equipar de uniformes...
Guerreiros como certamente nunca se viu. Ides buscá-los ao escritório, à oficina, onde estão muito sossegados. Dais-lhes um bilhete para o Inferno com o carimbo da secção de recrutamento e umas botas novas, geralmente permeáveis. O derradeiro encorajamento, a suprema saudação da pátria, recebem-na sob a forma do olhar rezinguento do sargento-ajudante reincorporado, afecto ao armazém de fardamento e que os trata por idiotas. Depois disso, correm para a estação um pouco pifados, mas assustados com a ideia de perderem o comboio para o Inferno, exactamente como se fossem jantar com a família, num domingo, em Bois-Colombes ou Viroflay. Desta vez descerão na estação Inferno, mais nada. Durante um ano, dois anos, quatro anos, o tempo que for necessário, até expirar o bilhete de ida e volta entregue pelo Governo, percorrerão este país sob uma chuva de aço fundido, tendo o cuidado de não comer sem autorização o chocolate das rações de reserva, ou de fanar a um camarada o pacote de pensos que lhe falta. No dia do ataque, com uma bala no ventre, trotam como perdigotos até ao posto de socorro, deitam-se todos suados na maca e acordam no hospital de onde saem pouco mais tarde tão docilmente como entraram, com uma palmada nas costas dada pelo Sr. Major, um bom tipo... Depois regressam ao Inferno num vagão sem vidros, ruminando de estação em estação o vinho ácido e o camembert ou soletrando à luz fraca do candeeiro a guia de marcha coberta de sinais misteriosos, e de modo algum certos de estar em regra. O Dia da Vitória... Bem, no dia da vitória esperam regressar a casa! (...)
(in Georges Bernanos, Os Grandes Cemitérios Sob a Lua, Livros do Brasil)
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