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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 16.07.14

Israel, os terroristas “bons” e os terroristas “maus" - Charles Hussain (Beirute)

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Charles Hussain (Beirute)  Israel, os terroristas “bons” e os terroristas “maus”

 

 

   15 de Julho de 2014

   Na esteira dos seus aliados norte-americanos e europeus, designadamente França e Reino Unido, Israel tem relações cúmplices, inclusive de âmbito operacional, com grupos terroristas islâmicos que participam no processo de “remodelação” de fronteiras em curso no Médio Oriente.
Essa realidade já não é sequer “um segredo de Polichinelo”, admite-se em Beirute, onde se avolumam provas e informações sobre a “rede mais ou menos clandestina, mas conhecida, envolvendo militares e serviços de espionagem de grandes potências e grupos armados sectários e religiosos multinacionais assentes em estruturas mercenárias”, segundo um general do exército libanês na reserva.
“Desde que um oficial austríaco de uma força de observadores das Nações Unidas nos Montes Golã denunciou a colaboração directa entre estruturas militares israelitas e grupos terroristas islâmicos actuando na Síria para derrubar o governo de Assad percebeu-se que estava reservado um papel importante ao denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante nos acontecimentos da região”, declarou o general.
De acordo com as denúncias do oficial austríaco, entretanto tornadas públicas, Israel montou um hospital de campanha nos Montes Golã onde os serviços militares de saúde israelita socorrem mercenários dos grupos islâmicos, transportando-os para hospitais israelitas nos casos mais graves.
O mesmo oficial revelou que existe no mesmo território sírio sob ocupação israelita uma sala de operações comum onde militares israelitas e chefes dos grupos islamitas coordenam as acções na Síria, “e agora por certo também no Iraque, onde o Exército Islâmico proclamou o seu califado”, afirma o militar libanês.
“É importante que se saiba que Israel disponibilizou um sistema de novos mísseis de médio e longo alcance instalado também nos Montes Golã para dar cobertura às operações dos grupos com afinidades à Al-Qaida no interior da Síria”, segundo Nadia Said, comentadora de assuntos militares e estratégicos em meios de comunicação libaneses. “Esta informação não é um ‘top secret’, pois foi divulgada por um dos principais canais de televisão israelitas”, acrescentou.
“A questão é que para Israel e os Estados Unidos há terroristas islâmicos bons e terroristas islâmicos maus”, explica Lionel Villepoint, professor universitário francês há muito radicado em Beirute e que dedica grande parte do seu trabalho a investigar as transformações em curso no Médio Oriente. “Não sou eu que acho, foi o primeiro ministro Netanyahu que o disse segundo os relatos de uma visita que, acompanhado por altos comandos militares israelitas, fez às estruturas colocadas ao dispor dos extremistas islâmicos nos MonteGolã”, acrescentou.
Villepoint recordou o relato da visita de Netanyahu ao hospital de companha montado por Israel para socorrer os extremistas islâmicos que combatem na Síria publicado pelo diário Jerusalem Post, identificado com as correntes governamentais israelitas. “Diz o jornal que Netanyahu declarou aquele hospital como o lugar de separação entre os bons e os maus, sendo os bons os combatentes da liberdade que actuam na Síria e os maus os que, sustentados pelo Irão, apoiam o regime de Damasco”, afirma Lionel Villepoint.
“Pelos vistos”, acrescentou o professor francês, “aquele hospital não separa apenas ‘bons dos maus’; ele simboliza as linhas de confrontação no Médio Oriente e que fazem com que Israel se identifique com o ‘califado’ do Exército Islâmico proclamado no Iraque ao mesmo tempo que combate o Hamas em Gaza”.
“Este comportamento torna evidente a linha de fractura mais importante existente actualmente no Médio Oriente”, sublinha Lionel Villepoint: “Israel, Estados Unidos, grandes potências da União Europeia e as monarquias petrolíferas do Golfo apoiando o extremismo islâmico sunita que concretiza os seus objectivos no terreno; e os mesmos países proclamando como inimigo principal o extremismo xiita, devido aos seus laços com o Irão, e também grupos sunitas ‘contra natura’, como o Hamas, porque recebem igualmente apoio de Teerão”.
O professor Villepoint considera que esta realidade  explica igualmente o que se passou no Egipto, “onde por imposição das ditaduras petrolíferas do Golfo é preciso aniquilar a Irmandade Muçulmana, não sendo por acaso que o grupo equivalente na Síria se submerge perante o poder e os apoios dos novos extremismos. Para o fundamentalismo extremista waahabita que governa a Arábia Saudita, a Irmandade Muçulmana é uma heresia a eliminar”, diz Lionel Villepoint. “E o Hamas", acrescenta, “paga caro por ser uma tripla vítima da situação: nasceu da Irmandade Muçulmana, recebe apoios do Irão xiita e pretende um Estado Palestiniano, coisa que, na verdade, começa a passar à história neste cenário”.

Charles Hussain, Beirute

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por Augusta Clara às 15:50


1 comentário

De Augusta Clara a 16.07.2014 às 18:06

Mas que excelente artigo que não faz mais do que anular a argumentação in extremis " do Governo de Israel e dos seus apoiantes por todo o mundo, inclusive em Portugal, que não vêem outra maneira de justificar a anulação da Palestina senão agitando o espantalho do Hamas . Felizmente que há jornalistas que levam a sério a sua profissão de informar.

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