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Jardim das Delícias



Sábado, 02.04.16

Lanthimos e o cinema - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Lanthimos e o cinema

 

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   Não é que eu ande a ver muitos filmes, mas fico com a sensação de que há poucos realizadores capazes de problematizar a história, a sociedade, o futuro, o amor, o terrorismo ou qualquer outra construção humana sem se apoiar nas suas representações reconhecíveis, para não dizer convencionais. O cinema, como a arte de um modo geral, vive hoje sob o medo do público, quando deveria ter por ele o desejo de sempre, ou mais ainda. É o drama do “overqualified”: o... problema não está em ficar aquém da exigência do espectador mais capaz, mas em ir além do “average”. Neste sentido, parece-me importante sinalizar as excepções que por aí andam. Gente que transige pouco, que leva a sua ideia até próximo das últimas consequências. É o caso de Yorgos Lanthimos, o grego de "Canino", que agora nos serve "The Lobster", sempre no afã de desconstruir os códigos e as convenções que aqui nos trouxeram, à civilização do medo. O percurso de Lanthimos tem sido sinuoso, com avanços e recuos que denunciam um equilíbrio entre a vontade de questionar, de desafiar, de provocar, e a consciência de que tal vontade se revela infecunda se não penetrar de algum modo o chão que todos pisamos. "Canino", até agora o meu preferido dos seus filmes, foca o medo do outro, do exterior, do impuro, e a protecção fanática de uma ideia de pureza que, enquanto não escrutinada, sê-lo-á apenas pretensamente. Tivemos, ainda há pouco, a estreia de um documentário, "Wolf Pack", que transporta um bocadinho a proposta aparentemente estapafúrdia de "Canino" para a realidade mais central e urbana dos nossos dias – embora sem proveito que se lhe compare, quer do ponto de vista do cinema quer da capacidade de estimular a reflexão. "Canino" podia perfeitamente ser a encenação do drama artístico, e assim existencial, de um cineasta: a recusa em profanar as suas ideias num exterior que não as aceita. Lanthimos tem, como hoje é raro ver-se, essa capacidade metafórica. E a coragem de a experimentar. "Alpeis", o filme seguinte, radicaliza o império da mente do realizador, que talvez tenha lido na aceitação mais ou menos generalizada de "Canino" uma carta branca para desconcertar, levando a desreferenciação a pontos pouco compatíveis com o tal equilíbrio que acima mencionei. Mas nem isso, do meu ponto de vista, beliscou a convicção de ser Lanthimos um farol do cinema nesta actualidade escura e nebulosa – aliás, veio mesmo confirmá-lo como um artista comprometido, antes de mais, com a sua arte. Corporizando um recuo na liberdade experimental, porventura até uma perda de profundidade, o recém-estreado "The Lobster" obtém a proeza de se estender a um público alargado sem renunciar ao propósito de analisar fria e desempoeiradamente a nossa natureza, os nossos propósitos, os nossos métodos, e de nos co-responsabilizar não apenas por tudo o que vemos como pelo que nos recusamos a ver. E hoje temos obrigação de saber que não nos salva de nada continuar de cabeça enfiada na areia.

 

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por Augusta Clara às 14:00


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