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Jardim das Delícias



Sábado, 02.07.16

Mãe - Adão Cruz

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Adão Cruz  Mãe

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(Adão Cruz)

 

 

Mãe a palavra universal a palavra mais consensual da

humanidade

Nem Deus… Deus é de uns e não de outros Deus é conceito de

muitos e negação de outros tantos

A mãe não a mãe é de todos sem excepção

A mãe é de todos e é só nossa a mãe é do crente e do ateu a

mãe é do pobre e do rico do sábio e do ignorante

A mãe é dos poetas dos filósofos e artistas dos bons e dos

maus a mãe é do amigo e do inimigo

Não há mãe de uns e não de outros não há ninguém sem

mãe não há mãe de ninguém

A mãe é de toda a gente a mãe é de cada um a mãe é do

mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto

A mãe é do longe e do perto da água e do fogo do sangue

e das lágrimas da alegria e da tristeza da doçura e da

amargura da força e da fraqueza

A mãe é certeza e aventura é medo e firmeza dúvida e

crença a haste que se ergue no céu ou se aninha rente ao

chão para que a morte a não vença

A mãe é a outra parte de nós

Sem mãe somos metade sem mãe nada é exacto igual a um

igual a infinito onde se tocam princípio e fim onde os tempos

se encontram sem tempo presente passado e futuro

A mãe é tudo a mãe é de mais a mãe é o máximo

A mãe é a lágrima que não seca no sorriso que não se apaga a

nuvem que chove no sol que aquece a mensagem da luz e da

harmonia e dos acordes matinais com que abre o nosso dia

A mãe levanta‑se no orvalho das lágrimas da noite e mesmo

cansada não perde a voz nem a cor da madrugada

A mãe é a voz que se não teme a voz que se confia a voz que

tudo diz nas consoantes do grito nas vogais do silêncio nos

abismos da agonia

Mãe

Primeira palavra a nascer a última palavra a morrer a mãe

é sempre a mesma a mãe nunca é outra na sua infinita

diferença

A mãe é criação a mãe é sempre o fim da obra‑prima

inacabada a mãe nunca é ensaio nem esboço nem projecto

A mãe é um milagre no milagre do mundo o único milagre

concebido neste mundo real e concreto

Chora para que outros riam ri para que a dor a não mate

mistura‑se com a luz das estrelas para vencer a escuridão

devora as nuvens por um raio de sol

A mãe é beleza e poesia aurora fulgurante aurora

adormecida a mãe é bela porque é simples a mãe é simples

porque nasce da silenciosa lógica da vida

A mãe é o que é a mãe é a fragilidade da semente a força do

tronco a beleza da flor a doçura do fruto o dom de renascer

A mãe é tudo numa coisa só

Amor

(in Adão Cruz, VAI O RIO NO ESTUÁRIO. Poemas de braços abertos, ediçõesengenho)

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por Augusta Clara às 18:30


1 comentário

De gil santos a 03.07.2016 às 15:19

É ótimo sentir ter sensibilidade e ....afectividade!

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