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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Alfredo Barroso (*) Mais um programa social-liberal do PS
Não constituiu qualquer surpresa para mim o conteúdo do documento intitulado «Uma Década para Portugal» (que em boa verdade abrange apenas meia década), apresentado pelo secretário-geral do PS, António Costa, e pelo coordenador e relator do documento, o economista liberal Mário Centeno.
É óbvio que o documento diz aquilo que querem ouvir, tanto a actual direcção do PS (e a antiga), como a ala mais à direita do partido (na qual pontifica Francisco Assis, que insiste em provar que é um evidente erro de «casting») e também os funcionários e quadros políticos, assim como muitos militantes e eleitores, que se estão perfeitamente «nas tintas» para as orientações ideológicas do partido, e apenas se preocupam com o rápido regresso do PS ao poder, do mesmo modo que os adeptos de um clube de futebol só querem que este seja campeão. O ferrete da «blairização» do partido foi cravado bem fundo no tempo de António Guterres e continua bem à vista.
Atenho-me às «Cinco questões ao PS para memória futura», que tornei públicas em 1 de Agosto de 2014 (no jornal «i»), quando decidi dar o meu apoio à candidatura de António Costa a secretário-geral do PS, em disputa com António José Seguro:
1 - A primeira questão que coloquei foi a de saber qual a atitude da futura direcção do PS relativamente ao «pacto de austeridade perpétua contra a democracia consubstanciado no famoso Tratado para a Estabilidade, a Coordenação e a Governação, vulgo Tratado Orçamental, imposto à zona euro (e à União Europeia) pela chanceler alemã Ângela Merkel, e prontamente aprovado em Portugal pelo PPD de Passos Coelho, o CDS de Paulo Portas e o PS de António José Seguro». Pois a resposta não podia ser mais clara: as normas e regras do Tratado são para cumprir e serão aplicadas na íntegra, com o objectivo de alcançar «o quase equilíbrio estrutural das contas públicas e a redução do endividamento».Mais austeridade à vista, portanto! Até porque António Costa não quer «levar com a porta na cara» em Bruxelas e… em Berlim!
2 - A segunda questão foi a de saber se a nova direcção do PS «(iria) ou não defender, sem ambiguidades, a reestruturação ou renegociação da dívida». A resposta também é muito clara: a direcção do PS abandonou qualquer propósito de renegociar e reestruturar a dívida pública do país. Nada de incomodar os credores e de suscitar a ira de Bruxelas (UE), Berlim e Washington (FMI)...
3 - A terceira questão que coloquei foi sobre a «política de privatizações que o actual Governo (PPD-CDS) pôs em prática» e sobre o que faria um futuro Governo do PS neste domínio.Resposta: haverá mais privatizações, de acordo com o critério resultante da «clarificação do conceito de "sector estratégico nacional"», mas o documento não avança com qualquer «clarificação do conceito». Depois se verá...
4 - A quarta questão foi sobre «a futura posição do PS quanto à política de alianças», nomeadamente «caso o partido não consiga obter uma maioria absoluta de deputados nas próximas eleições legislativas». Aqui, a ambiguidade tem sido a regra: António Costa promete que nunca fará uma aliança com o PPD de Passos Coelho (fará com um PPD de Rui Rio?) e, aparentemente,também não com o CDS de Paulo Portas (embora isso não seja claro); quanto a partidos à esquerda do PS, António Costa apenas «piscou o olho» ao pequeno agrupamento organizado por dissidentes do BE intitulado «Livre, Tempo de Avançar». É pouco...
5 - A quinta questão que coloquei foi esta: «O que fará uma direcção do PS no futuro para pôr cobro à promiscuidade entre política e negócios, que infelizmente atravessa o chamado "arco da governação" de uma ponta à outra?». Nenhuma resposta nem qualquer iniciativa sobre esta questão. Advogados de negócios, gestores de empresas e representantes de conhecidos grupos de interesses continuam a percorrer à vontade os corredores e os bastidores do partido, alguns deles deputados e/ou com assento em órgãos nacionais e locais do PS. E aparecem muito na televisão...
Além destas cinco questões que coloquei em 2014, há muitas outras a que o PS não parece interessado em dar respostas ou fazer propostas adequadas. Por exemplo: o documento agora divulgado passa por cima dos graves problemas do nosso sistema financeiro (designadamente dos bancos e do péssimo estado em que estão) como «gato sobre brasas»; a idade da reforma é para aumentar e o valor real das pensões é para diminuir (8% até 2019); o restabelecimento dos salários e pensões é para adiar, em claro desrespeito pela decisão do Tribunal Constitucional; sobre o Serviço Nacional de Saúde, o documento guarda de Conrado o prudente silêncio; quanto a «Estado regulador», a «Estado estratego»,a «Estado promotor de investimento público», tudo isso é «chão que deu uvas».Para o PS, o Estado deve ser reduzido à sua expressão mais simples, como queremos neoliberais.
Mas há mais, muito mais, e todos os aspectos altamente negativos e preocupantes deste documento não conseguem ser compensados, nem de perto nem de longe, por algumas medidas simpáticas e positivas que visam tão-só dar um cunho mais social e menos liberal às políticas austeritárias que o PS defende. De facto, o neoliberalismo continua. Trata-se de «renovação na continuidade». Como costumo dizer: o social-liberalismo é a «doença infantil» do neoliberalismo... Em suma: fiz muito bem em desfiliar-me e afastar-me do PS.
(*) Escrito em 23/Abril/2015, foi publicado no jornal «i» em 5/Maio/2015
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