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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Os últimos dias da Guerra
As pessoas estão nas ruas como de costume. Filas diante das lojas. Já há algumas cerejas. Compro um jornal. Os russos encontram-se em Strausberg e talvez mesmo mais longe, perto de Berlim. Espero também a queda de Berlim. Toda a gente espera por isso, o mundo inteiro. Todos os governos estão de acordo. O coração da Alemanha, dizem os jornais. As mulheres de deportados também: «Eles hão-de ver.» E a minha porteira. Quando deixar de bater, estará tudo acabado. As ruas estão cheias de assassinos. Têm-se sonhos de assassinos. Eu sonho com uma cidade ideal, em cinzas, entre as ruínas da qual correria o sangue alemão. Julgo sentir o odor desse sangue, é mais vermelho do que o sangue de boi, seria semelhante ao sangue de porco, não se coagularia, escorreria para longe, e, nas margens dos rios, mulheres em lágrimas nas quais eu daria pontapés no cu, e meteria o nariz no sangue dos seus homens. As pessoas que neste momento, neste dia, sentem piedade pela Alemanha, ou antes não sentem ódio por ela, metem-me também elas dó. Muito especialmente a espécie dos padres.
Um deles, nestes últimos dias, levou uma criança alemã órfã para o centro, com um sorriso nos lábios, explicando: «É um pequeno órfão.» Todo orgulhoso. Levando-o pela mão. Evidentemente, não está errado (ignomínia das pessoas que nunca erram), evidentemente que se devia ficar com ele, esse pobre rapazinho irresponsável. A espécie dos padres arranja sempre uma oportunidade para fazer caridade, a sua pequena Boa Acção alemã. E provável que, se eu tivesse esse miúdo, não o matasse, trataria dele. Mas porquê lembrar-nos que restam criancinhas na Alemanha? Porquê lembrar-nos isso neste momento? Eu quero o meu ódio pleno e inteiro. O meu pão negro. Uma rapariga dizia-me há pouco tempo: «Os alemães? Eles são oitenta milhões. Pois bem, oitenta milhões de balas arranjam-se, não?» Aquele que não sonhou este sonho sangrento a respeito da Alemanha pelo menos durante uma noite da sua vida, neste mês de Abril de 1945 (era cristã), está doente. Entre as voluntárias engravidadas pelos nazis e o padreco que traz o pequeno alemão, eu sou pelas voluntárias. Primeiro que tudo, o padreco nunca será voluntário, era prisioneiro de guerra, e depois, não há problema, a função clerical paga bastante bem ao seu homem para que ele não tenha de escolher - e pode bem perdoar todos os pecados, nunca cometeu pecados, tem muito cuidado com isso. Que ele possa julgar-se no direito de absolver - não.
(in Cadernos da Guerra, Oceanos)
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