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Jardim das Delícias



Sexta-feira, 04.04.14

Marguerite Duras faria hoje 100 anos

 

Os últimos dias da Guerra

 

   As pessoas estão nas ruas como de costume. Filas diante das lojas. Já há algumas cerejas. Compro um jornal. Os russos encontram-se em Strausberg e talvez mesmo mais longe, perto de Berlim. Espero também a queda de Berlim. Toda a gente espera por isso, o mundo inteiro. Todos os governos estão de acordo. O coração da Alemanha, dizem os jornais. As mulheres de deportados também: «Eles hão-de ver.» E a minha por­teira. Quando deixar de bater, estará tudo acabado. As ruas estão cheias de assassinos. Têm-se sonhos de assassinos. Eu sonho com uma cidade ideal, em cinzas, entre as ruínas da qual correria o sangue alemão. Jul­go sentir o odor desse sangue, é mais vermelho do que o sangue de boi, seria semelhante ao sangue de porco, não se coagularia, escorreria para longe, e, nas margens dos rios, mulheres em lágrimas nas quais eu daria pontapés no cu, e meteria o nariz no sangue dos seus homens. As pes­soas que neste momento, neste dia, sentem piedade pela Alemanha, ou antes não sentem ódio por ela, metem-me também elas dó. Muito es­pecialmente a espécie dos padres.

Um deles, nestes últimos dias, levou uma criança alemã órfã para o centro, com um sorriso nos lábios, explicando: «É um pequeno órfão.» Todo orgulhoso. Levando-o pela mão. Evidentemente, não está errado (ignomínia das pessoas que nunca erram), evidentemente que se devia ficar com ele, esse pobre rapazinho irresponsável. A espécie dos padres arranja sempre uma oportunidade para fazer caridade, a sua pequena Boa Acção alemã. E provável que, se eu tivesse esse miúdo, não o matasse, trataria dele. Mas porquê lembrar-nos que restam criancinhas na Ale­manha? Porquê lembrar-nos isso neste momento? Eu quero o meu ódio pleno e inteiro. O meu pão negro. Uma rapariga dizia-me há pouco tem­po: «Os alemães? Eles são oitenta milhões. Pois bem, oitenta milhões de balas arranjam-se, não?» Aquele que não sonhou este sonho sangrento a respeito da Alemanha pelo menos durante uma noite da sua vida, neste mês de Abril de 1945 (era cristã), está doente. Entre as voluntárias engra­vidadas pelos nazis e o padreco que traz o pequeno alemão, eu sou pelas voluntárias. Primeiro que tudo, o padreco nunca será voluntário, era pri­sioneiro de guerra, e depois, não há problema, a função clerical paga bas­tante bem ao seu homem para que ele não tenha de escolher - e pode bem perdoar todos os pecados, nunca cometeu pecados, tem muito cui­dado com isso. Que ele possa julgar-se no direito de absolver - não.

 

(in Cadernos da Guerra, Oceanos)

 

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por Augusta Clara às 17:00


3 comentários

De Beatriz Santos a 07.04.2014 às 17:07

Gosto bastante mais de Marguerite Yourcenar. Mas Duras também se leva bem. Mas não concordo com ela em tudo. O ódio em bloco - ou qualquer sentimento - é perigoso. Mesmo quando tem razão de ser atropela inocentes e é má resposta.

Além disso não vejo mal em se tomar conta de um órfão alemão - como ela alíás admite até que faria. Parece-me que tem um ódio encarniçado ao clero. E é como disse atrás, o ódio não é remédio. Corrói mais quem o sente do que o alvo. E impede o raciocínio. Mas pronto. Tá bem. Tem vezes em que a barbárie quase não nos deixa outra saída. No entanto, daquilo que li e ouvi de quem conseguiu salvar-se de campos de concentração...eles não eram pessoas amargas. Não sei mesmo se sentiriam igual a Marguerite Duras. Quem muito sofre não odeia. Pode desprezar. Mas desprezo não é ódio.

De Augusta Clara a 07.04.2014 às 19:44

Desculpe, Beatriz, mas isso é teoria. Ela, quando escreveu aquele texto, tinha o marido num campo de concentração e não sabia se ele estava morto ou vivo. Noutro texto dela que já aqui publiquei vê-se como é que ele de lá veio. É só reler.
Como nos comportaríamos nós em tal situação? Eu percebo muito bem o comportamento daquelas pessoas. É tão normal como ela ter dito que protegeria a criança.
Quanto à Igreja, toda a gente sabe como Pio XII apoiou o nazismo.
Eu gosto muito das duas Marguerite , cada uma no seu género.

De Augusta Clara a 07.04.2014 às 23:16

E também houve quem, vindo dos campos, tenha acabado por se suicidar com o peso de ter sobrevivido a tantos companheiros.
Não me parece que se possa pedir perdão para a monstruosidade que foram os actos praticados nos campos de concentração nazis,

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