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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Yanis Varoufakis Não é altura para jogos na Europa
Diário de Notícias, 17 de Fevereiro de 2015
Estou a escrever este artigo à margem de uma negociação crucial com os credores do meu país - uma negociação cujo resultado pode marcar uma geração e, até, tornar-se um ponto de viragem para a atual experiência europeia com a união monetária.
Os teóricos dos jogos analisam as negociações como se estas fossem jogos em que se divide um queijo, envolvendo jogadores egoístas. Porque passei muitos anos, durante a minha vida anterior como académico, a investigar a teoria dos jogos, alguns comentadores apressaram-se a assumir que como novo ministro das Finanças da Grécia eu estava apressadamente a conceber bluffs, estratagemas e opções externas na tentativa de melhorar uma mão fraca.
Nada pode estar mais longe da verdade.
Quando muito, os meus antecedentes de teoria dos jogos convenceram-me de que seria uma rematada loucura pensar nas atuais conversações entre a Grécia e os nossos parceiros como um jogo de negociações que se pode ganhar ou perder através de bluffs e subterfúgios táticos.
O problema com a teoria dos jogos, como costumava dizer aos meus alunos, é que toma como garantidos os motivos dos jogadores. No póquer ou no vinte-e-um esta suposição não é problemática. Mas nas atuais conversações entre os nossos parceiros europeus e o novo governo da Grécia, o objetivo é criar novos motivos. Formar uma nova mentalidade que transcenda as clivagens nacionais, dissolva a distinção credor-devedor a favor de uma perspetiva paneuropeia e coloque o bem comum europeu acima das politiquices, dogma que prova ser tóxico se universalizado e uma mentalidade de nós contra eles.
Como ministro das Finanças de um país pequeno e financeiramente pressionado, que não tem o seu próprio banco central e é visto por muitos dos nossos parceiros como um devedor problemático, estou convencido de que temos apenas uma opção: evitar qualquer tentação de tratar este momento decisivo como uma experiência na elaboração de estratégias e, em vez disso, apresentar honestamente os factos respeitantes à economia social da Grécia, apresentar as nossas propostas para pôr a Grécia de novo a crescer, explicar porque são estas do interesse da Europa e revelar as linhas vermelhas além das quais a lógica e o dever nos impedem de ir.
A grande diferença entre este governo e os anteriores governos gregos é dupla: estamos decididos a chocar com interesses poderosos para renovar a Grécia e ganhar a confiança dos nossos parceiros. Estamos também determinados a não ser tratados como uma colónia devedora que deve sofrer o que for preciso. O princípio da austeridade maior para a economia mais deprimida seria curioso se não causasse tanto sofrimento desnecessário.
Perguntam-me muitas vezes: e se a única maneira que tiver de garantir o financiamento for ultrapassando as suas linhas vermelhas e aceitando medidas que considera serem parte do problema, em vez da sua solução? Fiel ao princípio de que não tenho o direito de fazer bluff, a minha resposta é: as linhas que apresentámos como vermelhas não serão ultrapassadas. Caso contrário, não seriam verdadeiramente vermelhas, mas apenas um bluff.
Mas e se isso trouxer demasiado sofrimento ao seu povo?, perguntam-me. Deve estar a fazer bluff, certamente.
O problema com esta linha de argumentação é que presume, juntamente com a teoria dos jogos, que vivemos numa tirania das consequências. Que não há nenhuma circunstância em que devamos fazer o que está certo, não como uma estratégia, mas simplesmente porque está... certo.
Contra tal cinismo o novo governo grego vai inovar. Nós desistiremos, independentemente das consequências, de acordos que sejam errados para a Grécia e errados para a Europa. O jogo do "adiar e fingir", que começou depois de a dívida pública da Grécia se tornar impraticável em 2010, vai acabar. Não há mais empréstimos - não até que tenhamos um plano credível para o crescimento da economia a fim de reembolsar esses empréstimos, para ajudar a classe média a voltar a pôr-se de pé e para abordar a terrível crise humanitária. Não há mais programas de "reformas" cujo alvo sejam pensionistas pobres e farmácias familiares e que deixam intocada a corrupção em grande escala.
O nosso governo não está a pedir aos nossos parceiros uma saída para não pagarmos as nossas dívidas. Estamos a pedir por alguns meses de estabilidade financeira que nos irá permitir levar a cabo a empreitada de reformas que a maioria da população grega possa reconhecer e apoiar, para que possamos trazer crescimento e acabar com a incapacidade de pagar as nossas dívidas.
Poder-se-á pensar que esta retirada da teoria dos jogos é motivada por uma agenda de esquerda radical. Não é assim. A grande influência aqui é Immanuel Kant, o filósofo alemão que nos ensinou que o racional e o livre escapam ao império da conveniência, fazendo o que é correto.
Como sabemos que a nossa modesta agenda política, que constitui a nossa linha vermelha, é correta nos termos de Kant? Sabemo-lo ao olhar nos olhos dos esfomeados nas ruas das nossas cidades ou ao contemplar a nossa pressionada classe média ou tendo em conta os interesses do povo trabalhador em cada aldeia e cidade europeia dentro da nossa união monetária. Afinal, a Europa só reencontrará a sua alma quando recuperar a confiança do povo, colocando os seus interesses em primeiro plano.
* Ministro das Finanças da Grécia
(artigo originalmente publicado no The New York Times)
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