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Jardim das Delícias



Sábado, 06.09.14

Nordeste – os meus 500 anos - João de Melo

 

João de Melo  Nordeste – os meus 500 anos

 

 

 

   Não de trata de um mero ou simples exercício de imaginação. Nem de retórica literária. Mas o caso é que eu vivi os 500 anos do Nordeste. Vivi-os nos seus hábitos e costumes herdados dos antepassados, na língua portuguesa do século XVI que se falava na minha infância, trazida do mar pelos povoadores; na etnografia dos instrumentos de trabalho, vinda sabe-se lá de onde: o sacho, a enxó, o arado árabe, a grade, o rodado, a sapata, a ferragem, a sebe e os fueiros do carro de bois; vivi entre uma pobre gente implantada ao cimo das falésias nordestinas, tendo ali erguido casas, ruas e igrejas como fortalezas contra corsários, piratas e outros bichos da terra que porventura aportassem à foz das ribeiras para procederem à aguada de naus e navios que iam e vinham do Oriente.
  Conheci as últimas casas de palha da Achadinha. E muitas outras com chão de terra batida, a pedra das paredes à mostra, as arribanas com as suas reses, os sótãos escuros e as tulhas de milho e feijão. Andei com os pés descalços, como andavam os homens e as outras crianças, e sofri as minhas topadas nas pedras soltas e nos caminhos de cascalho: as unhas dos pés sangravam, destroçadas, mas logo se curavam com paranhos, teias de aranha (nunca soube como nem porquê). Subi vezes sem conta aos baldios do Mato do Povo, bem no alto da ilha, que o Salazar mandou depois esmoitar e pôr de renda a quem até então ali largava, no início do Verão, as suas vacas, cabras e ovelhas, sobre bardos e outeiros. Regressavam de lá (no fim do Outono) gordas, descabeladas e sobretudo prenhas. Conheci os trens de cozinha, as trempes e peneiras, os talhões de barro e os alguidares de Santa Maria, a engorda e a matança do porco, a venda do peixe ao cento para a salgadeira, tal como os torresmos e a carne de caçoila. Muita sopa de fervedouro comi, e muita fatia de pão de milho barrada com banha de porco, e outro tanto de feijão preto assado em forno de lenha. E caldos de toucinho de porco mal chamuscado, cujos pêlos se viam à transparência do couro e da gordura. Meu Deus, como éramos pobres, famintos, esquecidos e solitários; e como nos acusava o padre, na missa dos domingos, de termos pecado tanto; e como, por vezes, parecíamos mesquinhos para com os nossos vizinhos, maus nas contas e nas heranças e obscuros no quotidiano.
  Houve sempre, ao longo destes históricos anos, dois movimentos opostos nos Açores: uns vinham de fora e ficavam; outros, que tinham filhos, sonhos e outras paisagens no olhar, iam-se para sempre e nem olhavam para trás. Emigravam dia após dia, saindo de manhã muito cedo, em demanda de países com nomes tão estranhos que até pareciam inexistentes: Brasil, Venezuela, Argentina, Canadá, Estados Unidos - num movimento de partida que ameaçava despovoar os Açores. Depois chegavam cartas que falavam do “sinó”, dos carros de fogo chamados “comboios”, de uma língua estrangeira que só se falava lá longe, nessas terras planas do fim do mundo. As cartas cheiravam à América, traziam dentro notas de uma “dola”, muita dor de alma, saudade de tudo e todos, alguns erros de ortografia. Eram, pois, o tempo e a história a passar por nós. Sentia-os em fuga dos meus sentidos. Um dia, também eu me enamorei do destino e da viagem. No espaço de cinco dias e quatro noites, levaram-me da mais rural freguesia do Nordeste para a maior cidade portuguesa – Lisboa, aquela a que chamei a “cidade dos domingos”. Onde a minha memória açoriana é talvez mais nítida do que um girassol.
  Confesso o meu orgulho em ter escrito livros com verdades que mentem e mentiras que dizem a verdade acerca destes 500 anos do Nordeste. Sou um homem de esquerda (fui-o desde menino, na Achadinha e no continente, sei muito bem do que falo) e um escritor que pretendeu olhar a sua “décima ilha” à luz da solidão universal, da condição humana, da existência única do homem em toda a parte. Com essa escrita de protesto, sonhei outra realidade, uma utopia cultural e democrática para a terra que amei e amo como ninguém. Porque aconteceu o milagre da justiça e do progresso em volta das palavras que escrevi sobre a gente e a paisagem. O Nordeste deixou de ser um icebergue verdejante e florido,  creio que excessivamente rural, postado no limite extremo da ilha, para se tornar num lugar igual a qualquer outro em todo o mundo. A pobreza de hoje já não é uma ferida no olhar, como outrora aconteceu. Rasgaram-se caminhos por cima das antigas veredas onde passavam, de manhã e à vez da tarde, duas camionetas azuis entre Ponta Delgada e o Nordeste, nos dois sentidos. Volto à minha terra sempre que posso: as cidades deixaram de ser os sítios longínquos e impossíveis do meu tempo de criança. A liberdade de agora chama-se palavra, progresso, democracia, respeito pela diferença e pela opinião. Falta apenas dar voz aos que nunca a tiveram sobre a ordem do mundo. Mais do que nunca, as paisagens e as pessoas são livres e ainda mais belas do que antes, e limpas e desanuviadas sobre o horizonte que está para além do mar branco, mar eterno dos Açores e do meu coração. 

 

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por Augusta Clara às 15:00


1 comentário

De Beatriz Santos a 07.09.2014 às 01:23

Gosto muito deste escritor, não sei como comentá-lo. Mas receio bem que o que falta

"Falta apenas dar voz aos que nunca a tiveram sobre a ordem do mundo."


vá faltar sempre. E para sempre.

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