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Jardim das Delícias



Domingo, 15.11.15

O frio que todos sentimos - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  O frio que todos sentimos

 

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Chegada à Paz (Visão), 14 de Novembro de 2015

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia em filas para ouvirem dizer que se tinha acabado a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência

   Este homem acabou de chegar. Chama-se Ahmed. Conseguiu acolhimento na Cruz Vermelha, mas está muito nervoso porque ficou num quarto sozinho com desconhecidos e a sua mãe e irmãs foram colocadas noutro, onde também dormem homens. Ele tem medo, mas peço-lhe que seja compreensivo. O caos está à vista de todos, os dias estão cada vez mais frios e difíceis de passar. Caiu a noite e o importante, agora, é que todos tenhamos um teto e um cobertor. Ao amanhecer as prioridades serão outras, logo se vê.

Ahmed tem 31 anos e era soldado no exército iraquiano, quando o tentaram assassinar e acabou ferido numa perna. Passado pouco tempo, partiu para a Turquia com a mãe e duas irmãs mais novas. Trabalhou, durante seis meses, para ganhar dinheiro e pagar o resto da viagem. Foram de barco até à Grécia e de autocarro para a Macedónia, tendo parado ali uma semana, porque ele não conseguia caminhar.

Mais à frente, no meio da multidão que percorria a estrada entre a Sérvia e a Hungria, perdeu a irmã, de 23 anos. A rapariga apareceu, três dias depois, no hospital, vítima de um acidente de que não se recorda. Esperaram que ela recuperasse e apanharam um táxi até à Áustria. Ali, estiveram presos durante sete dias. Foram então encaminhados para um centro, em que seriam registados os seus dados e impressões digitais, mas conseguiram aproveitar uma distração do funcionário para escapar e correr até à estação mais próxima, onde apanharam um comboio para o Luxemburgo. Se se tivessem registado teriam que ficar na Áustria. Aquele não era o seu destino: para além dos entraves legais que são colocados ao pedido de asilo, a estada na prisão mostrou-lhes que não queriam lá ficar.

Gastaram nos bilhetes o último dinheiro que tinham. Em desespero, Ahmed pediu ajuda num grupo do Facebook, em que os refugiados vão trocando informações e pedidos: precisava de um transporte para a Bélgica. A resposta não tardou, um homem contactou-o, oferecendo-se para os levar de carro, mas, à hora combinada, exigiu ter sexo com uma das irmãs. Envolveram-se numa briga e Ahmed levou uma facada.

Encaminharam-se para o hospital e, há males que vêm por bem, o seu principal problema foi resolvido: preferiram "livrar-se" de Ahmed, não o atender e levá-los a todos de ambulância para a Bélgica. Chegando a Bruxelas, deixou a mãe e irmãs na fila e foi tratado pelos Médecins du Monde. Está incomodado com a questão dos quartos, mas aliviado por aqui estar. A viagem chegou ao fim e a sua família está a salvo. Amanhã vou tentar ajudá-lo, prometo, e desejo-lhe uma noite descansada.

São nove da noite e estou sentada em frente à Cruz Vermelha. Tenho frio, mas quero desenhar um retrato à vista, longe do conforto do sofá de minha casa, onde posso descalçar as botas, respirar fundo e deixar de ser forte, estar triste à vontade, detestar o mundo. Aqui, posso limitar-me a descrever a dura realidade que observo, sem interrupções, do passeio em que me sento, do outro lado da estrada.

À entrada do grande edifício da Cruz Vermelha, há uma fila de refugiados que esperam ainda por um local para dormir. Quando aqui passei, ao fim da manhã, contavam-se mais de quatrocentas pessoas, numa serpente sem fim. Sacos de plástico e malas cheias de recordações, homens, mulheres e crianças, expressões de desespero e cansaço, olhos tristes, algumas carinhas alegres, principalmente entre rapazes da minha idade, sempre numa espera mais leve, com mais energia e poder de encaixe. Agora vejo uma fila com menos de cem homens. Melhorou, é positivo, mas não chega.

Embrulhados em cobertores cinzentos, mais de uma dezena de refugiados já desistiu e veio dormir na relva atrás de mim. Há um casal deitado em cima de uma mesa de piquenique, como se fosse um beliche, com as crianças por baixo. Outras pessoas dormem encostadas à parede do edifício, à procura de calor.

Nos últimos três dias, chegaram cerca de mil novos refugiados a Bruxelas. A situação está cada vez mais grave, o governo não intervém e os meios de que dispúnhamos no Hall Maximillian tornaram-se insuficientes, os espaços, os serviços, a comida e as roupas escasseiam e é possível observar que até os voluntários estão a ficar cada vez mais ansiosos, menos serenos. Esta realidade era já esperada, sabíamos que a situação só estava "controlada" por pouco tempo.

Desde que escrevi aqui pela última vez, recebemos uma avalanche de pessoas que exigiu de todos nós o triplo da organização e das horas de trabalho, na procura de espaços para as alojar, na distribuição de comida, esperança e cobertores.

Inicialmente, os refugiados foram divididos por três espaços públicos, onde dormiriam no chão, mas protegidos do frio. Separámo-nos em equipas e eu fiquei numa estação de comboios, a famosa Gare du Nord. Depois de fechar o Hall Maximilian, encaminhámo-nos para lá com um grande grupo de afegãos e sírios, distribuímos sopa, sanduíches e mantas. Passado pouco tempo veio a polícia, pediram-nos para retirar toda a gente, porque a estação tinha de fechar durante a noite. Dormiram ao ar livre e isso tirou-me o sono.

Nos dias seguintes, foram enviadas mensagens a todas as famílias belgas que antes receberam refugiados, a pedir uma ajuda de emergência. Neste momento, o meu amigo Mohamed acaba de chegar de uma igreja aqui perto. Foi lá deixar cinco famílias. Outras foram levadas para a universidade e as pessoas que restam ainda estão aqui à porta. Talvez a Cruz Vermelha arranje camas para mais umas dezenas.

Entre uma solução e outra, só hoje consegui ter tempo para escrever. Espero na próxima semana poder organizar-me melhor, mas os últimos dias e noites foram difíceis de viver. Desejo ansiosamente que os Estados europeus se mobilizem para tomar decisões sérias, o inverno é rigoroso e os nossos esforços serão insuficientes. A esperança que tenho é alimentada por todos aqueles que encontro com vontade de ajudar. Somos muitos e temos energia e ideias, mas pouco mais.

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia inteiro em filas, para que finalmente chegasse a sua vez e lhes dissessem que tinham acabado os atendimentos no centro de imigração, a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência.

A pequenina Tere aperta a minha mão com força. Está divertida a mergulhar as galochas nas folhas secas caídas das árvores, não percebeu bem o que se está a passar. Ainda bem. Já não escrevo mais porque a tenho ao colo, não me posso envolver demasiado, tenho de manter a distância, não posso perder a serenidade, mas não consigo conceber a hipótese de ela dormir na rua. Voltei para casa quando os pais a chamaram e me deu um beijinho à pressa. Conseguiram um lugar na Cruz Vermelha.

O cansaço cresce entre todos os que trabalham comigo. As emoções são fortes, o trabalho é duro, se não fosse a esperança e a solidariedade que vivemos, não sei como faríamos, refugiados também nesta realidade paralela, de mãos atadas numa Europa de olhos fechados.

 

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por Augusta Clara às 08:00


1 comentário

De Augusta Clara a 15.11.2015 às 15:04

É um privilégio ter acesso a estas preciosas crónicas da Adriana Costa Santos que relatam a verdadeira situação em que vivem os refugiados que vão chegando à Europa a fugir das guerras que o mundo ocidental provocou nos seus países.

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