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Jardim das Delícias



Segunda-feira, 30.12.19

O gato e o presépio - Eva Cruz

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Eva Cruz  O gato e o presépio

 

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   Sempre, desde criança, eu via no presépio, para além da Sagrada Família, os três Reis Magos, alguns pastores, a vaca e o burro aquecendo a manjedoura com o seu bafo, e cá fora duas ou três ovelhinhas, pastando na erva húmida salpicada de neve, à beira de um pequeno regato.

Cada presépio foi-se adaptando aos tempos modernos, e agora há-os em vidro, em porcelana, em madeira, em tecido e até em prata ou ouro. Porém, para mim, não há presépio mais lindo do que o de terracota da minha infância. Todos os anos lá está ele, já meio gasto e desbotado, a alimentar a fantasia dos mais novos e a aquecer a saudade da canção verde e vermelha do pinheirinho de Natal.

Este ano, uma vizinha da aldeia, fez um presépio a rigor, com musgo arrancado ao muro da fonte, um regato a serpentear por entre pedras roladas trazidas do rio, bem como luzinhas e pequenos enfeites, frutos da modernidade. Claro que não faltaram a vaquinha, o burrinho e as ovelhas, nos mesmos lugares que a tradição, desde há séculos, se encarregou de lhes destinar.

Mas um gato?!

Sim, um gato amarelo e branco dos muitos que andam à solta pelo quintal decidiu alapar-se todas as noites no presépio, mesmo ao lado do burro, bem em frente ao Menino Jesus. E o mais curioso é que não muda de lugar, e ao acenar da noite, lá está ele todo enroladinho sempre na mesma posição.

Não faço a mínima ideia do que vai na cabeça do gato. Não sei se foi atraído pelas luzinhas, pelo aconchego, pela beleza do presépio, pela companhia, por achar que dele se esqueceram na tradição, ou se até cumpre alguma intuição religiosa.

Fiquei a pensar.

Nos tempos que correm, há pessoas que têm tanto apego aos animais que os tratam como gente. Há quem lhes dê beijinhos na boca, quem durma com eles, quem os vista com roupa de marca, quem lhes pinte as unhas e lhes faça madeixas no pêlo… eu sei lá!

Não admira, pois, que os gatos comecem a entender e a reivindicar alguma coisa sobre direitos dos animais, nomeadamente comer à mesa do dono, dormir na cama do dono ou mesmo fazer parte integrante de um presépio.

Gosto de animais, trato-os bem, mas animais são animais, não são seres humanos. No entanto, confesso que me encanta ver aquele gato a dormitar e a ronronar todas as noites ali ao lado do Deus Menino.

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por Augusta Clara às 22:17




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