Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias



Quarta-feira, 08.04.15

O meu amor não cabe num poema - Maria do Rosário Pedreira

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Maria do Rosário Pedreira  O meu amor não cabe num poema

 

 

67.png

 

(Adão Cruz) 

 

 

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,

que não se rendem à geometria deste mundo;

são como corpos desencontrados da sua arquitectura

ou quartos que os gestos não preenchem.

 

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil

a agitação dos dedos na intimidade do texto -

a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías

nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 

O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro

que acode aos lábios como a urgência de um beijo

ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão

laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios

de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,

ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

 

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras

com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha

no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa

como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema

podia ser o chão da sua casa.

 

(in O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:00




Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos