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Jardim das Delícias



Terça-feira, 28.01.14

O MINITITANIC - Adão Cruz

 

Adão Cruz  O MINITITANIC

 

 

(fotografia de Adão Cruz)

 

   Quem por ali passe nem repara no MINITITANIC, nem se apercebe da vida que ele foi. Um pequeno barco de quatro ou cinco metros, já gasto, assente na margem lodosa do rio, a um canto de um apodrecido cais, preso não se sabe aonde nem a quê, por uma longa corda cheia de nós e de tempo. Um barco sem fé nem esperança, isolado do mundo, afastado de todos os seus irmãos, ancorado na memória, agarrado ao lado esquecido da vida. Há muito parado e imóvel, apenas baloiça levemente à flor da água quando a maré lhe entra sorrateiramente por baixo, afagando o casco de cores já mortas, num beijo de saudade como que a dizer, anda, desprende-te, vem comigo até ao infinito. Um barco muito triste, quando a maré se vai e o deixa de novo pousado na areia negra e suja.

Para quem passa e nele encontra os olhos, O MINITITANIC parece não ser de ninguém, mas tem por dono um velhote de oitenta anos que por ali anda sonhando, desde que se levanta até que se deita, no fim de uma vida passada no mar. Há muito que o vejo por ali, sempre enredado naquele barco. Perdidas as forças, há anos que não vai à pesca, mas todos os dias ali vem, olhando enternecido e cheio de amor para o seu barquinho, companheiro de tantos desafios e angústias, afagando-o, limpando-o das cagadelas das gaivotas, retirando com um balde a água empoçada da chuva, fazendo aqui e ali pequenos arranjos e reparações, e nele dormindo até ao pôr-do-sol, ou mesmo durante a noite, em tempo de verão, embalado certamente pelo longo sonho de que um dia, em maré bem cheia, ele o levará, uma vez mais, bem longe, para onde sempre viveu, e onde vive, no misterioso silêncio do fundo do mar, o seu pai, o GRANDE TITANIC.

 

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por Augusta Clara às 15:00


2 comentários

De Anónimo a 21.11.2017 às 11:02

Neste momento, o barquito, todo cheio de buracos e meio podre, já sem nome, lá continua de barriga para o ar, na margem do rio, com o pobre do velho, bastante mais velho, ainda de martelo na mão, a pregar tábua aqui tábua ali, quando as poucas forças lho permitem e a maré desce, amiga e compreensiva. Se eu mandasse, fazia do barquito o seu caixão e empurrava-o para o meio do rio na maré cheia, com a bússula apontada à eternidade.

De Anónimo a 21.11.2017 às 11:03

O anónimo sou eu, adão cruz

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